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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O REINO ESTÁ NU

Das fábulas de que mais gosto lembro-me de uma que ouvi há muitos anos, e que eu não conhecia até então. Não lhe sei a origem, o que vale é a lição final, por isso merece ser aqui narrada, especialmente por ser, digamos, uma fábula educadora. Mesmo não lhe sabendo o autor, a quem reverencio, passo a descrevê-la, convidando o leitor à reflexão, uma vez que serve como luva para ilustrar a vida do artista ou mesmo a de qualquer pessoa que se destaca por sua capacidade, razão pela qual lhe rogo especial atenção.

Certo dia um vagalume, cintilante e serelepe, estava a revoar ziguezagueando pelos campos, pisca-piscando aquela luzinha mágica que leva em sua cauda. Voava, perambulava no ar como um colibri luminescente, até que se deparou com uma cobra, uma perigosa cobra! Voou para mais longe, porém mais adiante deu de cara outra vez com a malvada, que tentou abocanhá-lo cruelmente. O vagalume esquivou-se, foi para mais longe, porém a cobra, matuta velha conhecedora daquelas pradarias, embrenhou-se no mato e, rastejando, ressurgiu irada para devorar sua almejada presa. Nosso herói luminescente, vivo que só, pairou no ar em distância segura e resolveu interpelar quem o perseguia: não fiz nada para você, não lhe devo nada, não sei se veio a mando de alguém, nem o que você apita. Além disso, não faço parte de sua cadeia alimentar, esses matagais estão cheios de preás, sapos, ratos e outros animais que lhe serviriam de repasto, como é do paladar de qualquer serpente. Por que, então, me persegue? A cobra baixou a guarda, sem argumentos, e sussurrou com ódio: é que eu detesto este seu brilho!

Fábula vem do latim fabulae, estória, narrativa alegórica, e tem ainda outros sentidos, pois além de criação para o público infantil (e adulto!), pode referir-se também a mentira, golpe, e até mesmo a algum valor incalculável, como quando alguém diz aquela casa custou uma fábula. Como adjetivo, certa derivação se refere a algo muito além do esperado, assim posso dizer que o show foi fabuloso, surpreendente, uma maravilha. No sentido literário, pode-se usa-la como alegoria, ou seja, “(...) representar pensamentos, ideias, qualidades de maneira figurada, em que cada elemento funciona como disfarce da ideia apresentada” (Houaiss).

Ao pé da letra, uma fábula usa estórias imaginárias entre bichos, como é o caso dessa do vagalume e da serpente, ou as populares do leão e do rato e a da cigarra e da formiga. Contam sobre animais falantes com comportamento humano em seus habitats naturais para ilustrar uma ideia que, de alguma forma, faça as pessoas refletirem sobre sua conclusão, uma lição de moral.

Outra fábula inteligente conta de um escorpião e uma rã, que, ilhados em uma grande pedra no meio do rio, veem as águas subindo por causa das chuvas, e assim seu espaço e a esperança de permanecer na morada ficam cada vez mais reduzidos. Para a rã seria apenas uma breve travessia, mas o pânico apossou-se do escorpião, que não nada. Humilhou-se e, em uma última súplica, aos prantos, prometeu-lhe que não a picaria, implorando-lhe uma carona. De princípio, ela negou categoricamente, escorpiões são perigosos e traiçoeiros, mas, em ato de compaixão, impôs a condição de o pretendente à carona jurar que não a picaria, com o que o peçonhento animal, de pronto, concordou.

Subiu nas costas da rã e lá foram, atravessando o rio. Do outro lado, mal chegando na margem, o escorpião lhe pica mortalmente a nuca. A rã, agonizando, diz, entre gemidos lancinantes de dor, você me prometeu, jurou, por que fez isso? Ao que o escorpião respondeu desculpe, mas é da minha natureza, não posso fugir dela. Essa fábula questiona até que ponto se pode confiar na aparente mudança na natureza de uma pessoa, dada sua índole natural, sob uma face aparentemente diversa do seu caráter e atitudes de tempos idos.

Esopo
Do Oriente milenar à Grécia, com Esopo (6 a.C.), a fábula e suas variações chegam à França de La Fontaine no século 17, à Dinamarca no séc. 18, e aos contos de Hans Christian Andersen e os irmãos Grimm, alemães autores de O Patinho Feio e João e Maria. É do século 19, do já citado Andersen, a estória conhecida no Brasil como A Roupa Nova do Imperador, que hoje se faz bastante oportuna. Mesmo para quem já conhece, vale revisita-la, para uma reflexão sobre os dias atuais.

Um rei extremamente vaidoso contratou um costureiro recém-chegado, certamente de nome francês, comme il faut, para lhe fazer uma bela veste para um desfile. Sem saber que o novo mestre da haute couture do reino era um vigarista da pior laia, pagou-lhe muito ouro e joias para que confeccionasse para a ocasião as roupas mais lindas e imponentes de todos os tempos. Ao apresentar sua criação, o costureiro, já guardada a fortuna que recebera, estendeu sobre a enorme mesa do palácio, com perfeição mímica, mantos e vestes feitos de... absolutamente nada. Mas esclareceu que apenas os inteligentes e cultos poderiam ver aquelas roupas, e essas palavras correram o reino inteiro.

Para não parecer ignorante, o rei mostrou-se deslumbrado ante tanto luxo, emoção que contagiou seus nobres que, cupinchas e servis que eram, no início entreolharam-se, mas logo derramavam elogios à confecção e riqueza do novo vestuário. Chegado o dia do desfile, o rei à frente de sua corte, inteiramente nu, de início foi aplaudido pela multidão incrédula diante do que via, porém, contagiada pela magia do poder e glamour do desfile, cedeu à ilusão daquela cena embusteira. De súbito, um moleque desavisado, sem mais nem menos, gritou o que ninguém via, inebriados que estavam pela sedução do desfile: “o rei está nu, o rei está nu!”. Não demorou muito para que a multidão saísse do transe real e começasse a repetir em coro o bordão “o rei está nu, o rei está nu”. O reino estava nu.



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