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| Simone |
Uma polêmica além
do surreal. Mesmo que ninguém soubesse quem foi Simone de Beauvoir, a questão teria
sido simplíssima. Porém, os “diplomados” pelas redes sociais que tiram
conclusões apressadas já pelos meios-títulos cunhados com má intenção, sempre caem
na esparrela. Houve uma mocinha que escamoteou levianamente com o dedo a
segunda parte da questão nº 5, deixando entrever na postagem apenas o início:
“ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Jogou na rede e escreveu no caderno
da prova este descalabro: “nasci mulher, tenho vagina”. Simone pensava que
tornar-se mulher era quando ela se assumia como tal em uma sociedade em que “o
segundo sexo” (título do livro de onde saiu a frase) é subserviente. Ora,
talvez navegando em pensamentos da moda como “o sexo ou opção de gênero acontece
depois”, a garota desferiu um golpe mortal na lógica. A segunda parte da introdução,
que ela encobriu, explica que tornar-se mulher significa encontrar seu lugar na
sociedade machista. Nada a ver com sexualidade, ponto.
Usar jargão moderno
para se referir a uma frase de 65 anos atrás foi para lá de cabotino. As
respostas em múltipla escolha tiveram antes uma curta explicação, e essa quase que trazia embutida a resposta: “na década de 1960, a proposição de Simone de Beauvoir serviu
para estruturar um movimento social”. Ponto. Mostro minha discordância
quanto à clareza da pergunta, pois esta segunda parte, “na década de 1960”, é
uma redação dos que elaboraram a prova, nunca afirmação de Beauvoir. O livro de
Simone é de 1949, e a segunda frase do texto, que não é de autoria dela, refere-se a quase 18 anos depois. Para confundir mais ainda, em letras miúdas, a bibliografia do texto da questão: "BEAUVOIR, S. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980". Para atrapalhar ainda mais, a edição citada na bibliografia é de 1980. A tradução para o português foi no mesmo ano de lançamento, 1949, assim como naquele ano e mais de 30 idiomas, em 1950. Samba do candidato doido.
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| Movimento feminista: protesto no Brasil, anos 1960 |
Se
fossem respostas dissertativas, e não por múltipla escolha, dá para imaginar o
nível das explicações. Pois vamos a elas. (A) “Ação do poder judiciário para
criminalizar a violência sexual". Absurdo, não seria da alçada do
judiciário inventar algo que a lei não define. (B) “Proposição ao Poder
Legislativo para impedir a dupla jornada de trabalho”. Impedir? A “segunda
jornada” se refere ao lar, depois do trabalho, e é uma questão de divisão de
trabalhos domésticos, a mulher dando duro e o maridão descansando da lida. Não há como legislar sobre a intimidade do lar, indevassável pela Constituição. (C)
“Organização de protestos públicos para garantir a igualdade de gênero”. Seria
a resposta correta, fora a minha restrição aos citados anos 60, muito depois do
livro Simone. Meu filho cravou por lógica. E ainda me falou nas questões
femininas do pós-guerra. (D) “Oposição de grupos religiosos para impedir os
casamentos homoafetivos”. Naquela época? É coisa de dos dias hoje, o assunto nem sonhava
em ser cogitado. Tabu 100% (E) "Estabelecimento de políticas governamentais para
promover ações afirmativas”. Soa como coisa oficial, da Secretaria da Política
para as Mulheres ou discurso político.
A discussão, eivada
de maldades e distorções, foi além do ridículo. A literatura brasileira não foi
solapada pela francesa, pois a questiúncula (no diminutivo mesmo) era tão
curta, entre 45, que mais lembrava as “leituras silenciosas” do colégio.
Ninguém precisaria conhecer o pensamento da filósofa, sequer saber quem ela
foi. A simples lógica induz à opção correta. Simone propunha ideias feministas,
sim, e nunca pelas mãos do estado, haja vista que à mulher francesa foi
“concedida” a bênção do direito de votar apenas quatro anos antes de seu livro.
Não interessava - nem interessa ainda - ao estado machista abrir espaço às
mulheres. Ademais, o jargão empregado nas respostas erradas, (D) e (E), é
típico vocabulário recente brasileiro, sendo a (D) coisa da “bancada da
Inquisição” do Legislativo e (E) vindo de instâncias do governo, de cima para
baixo, e não de um movimento de conscientização popular, de baixo para cima. Conseguiram
radicalizar uma coisa simples, e pilantras dos mais reacionários e ignorantes
subiram ao palco armados. Segue-se um cenário de terror onde quem apavora são os
atores principais, autoridades da justiça e do Legislativo, dois poderes constituídos.
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| Gloria Steinem: a ativista sedutora |
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Normal
o fato de a quase totalidade das pessoas não conhecer o trabalho de Beauvoir: estamos no século da escuridão, e não no século das luzes (18, pré-revolução
francesa), ou no 20 das proposições de Beauvoir, Marcuse e outros. Responder à questão implica apenas em
um mínimo de bom-senso, mesmo com todas as falhas do texto da prova. Agora, “ideologizar o ENEM”, como querem os radicais
das bancadas "da bala” e "da Inquisição”, Bolsonaro e Feliciano, como
sendo uma interferência ideológica do governo, é uma demonstração de que o
radicalismo e a ignorância imperam e correm sem freios.
Se a questão fez a
menina, por má-fé ou sendo usada, tampar o restante do preâmbulo e fotografar o caderno de
provas para fazer sobressair sua infeliz anotação “nasci mulher, tenho vagina”, só cabe lamentar. Também não descarto que ela possa ter sido usada. Talvez seja a busca pelos “15 minutos de fama” como
preconizou Andy Warhol – e essa fama hoje via redes sociais pode ser até curtida
anonimamente, mero prazer. Porém, uniu-se a outros ignorantes e oportunistas na
leitura maliciosa do texto. Para apimentar o festival de besteira - saudades
do FEBEAPÁ! -, vereadores de Campinas aprovaram, em 28/09, moção de repúdio
contra Simone de Beauvoir na prova do ENEM! (Será que conseguiram oficiá-la no
cemitério de Montparnasse?).
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| Revista Forum, 31 de outubro de 2015 |
Campos Filho (DEM)
bradou: “a questão é demoníaca (...) como alguém pode ser homem de dia e mulher
à noite?” Colégio e zero nele! Jaírson Canário (SD) saiu-se com essa pérola:
“se Deus quisesse que não tivesse diferença entre homem e mulher, teria feito
Adão com dois órgãos genitais” (sic). O analfabetismo e a cegueira grassam.
Erros de português, de pronúncia, de vocabulário legal (exarar é emitir
sentença ou decisão por escrito, e não opinar) macularam o alto status cultural
campineiro pela patuscada de seus legisladores. Sem falar no promotor de
justiça sorocabano Jorge Marum: “uma baranga francesa que não toma banho, não
usa sutiã e não raspa as axilas”. Um promotor de justiça! Onde andam a PGE (Procuradoria Geral do Estado) e a
Embaixada da França? Um representante do MP saiu de sua função para atingir uma
estrangeira e seu país, onde é um ícone histórico!
Já a redação
proposta no exame, “violência contra a mulher”, ou, em geral, "violência doméstica", não tem ideologia nem partido –
é sobre crime e ponto. Ter tido o privilégio de ter e poder ler Sartre e Simone
em casa e um pai que conheceu o casal em 1960 não me habilitariam melhor para
responder à questão do que qualquer leigo preparado para ingressar em uma
universidade. É puro conhecimento de história universal e um mínimo de inteligência.
Lembro-me de ter ouvido
tantas vezes, em tantos anos de universidade, que, desde a fundação, a USP não se
propõe a criar mão de obra para o “mercado de trabalho!”. Se isso acontece, é
por decisão do aluno, conquistada por opção e mérito. As públicas devem focar
nos formadores de opinião e futuros docentes, que, esses sim, deverão trabalhar
com a “mão de obra” nos mais diversos segmentos. Aí entra o ENEM. Com o nível a que estamos
chegando, será difícil levar o debate e a discussão de ideias, os questionamentos
– daí o sentido mais amplo de uma universidade – em todas as áreas do conhecimento, isoladas ou entre elas: a criação do saber! Apenas lamento que a ignorância
tenha atingido profundidade abissal e mostrado que o país está ferido de morte,
e, cada vez pior, sem perspectivas de sobrevida inteligente.










