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sexta-feira, 18 de março de 2016

MUDAR, MUTATIS MUTANDIS
A poesia que transforma

“O que não muda, não se move. E o que não se move está morto”. Foi assim, depois do silêncio da grande fermata, pausa que só os grandes dominam, que o histórico maestro Eleazar de Carvalho respondeu a uma pergunta de um músico que havia ingenuamente reclamado “mas o senhor não fazia assim”. Ora, se não fazia, agora o faz, pensei com os botões imaginários de minha camiseta. Ele via na sua transformação, na mudança de sua concepção um sinal de vida, de juventude, do pedestal alto de seus 75 anos, erguido com seu invejável currículo.
Machado de Assis
Transformação é evolução, sinal de vida, e não de morte matada ou morrida. Evoluem a lagarta para borboleta, o girino para sapo, todos os seres vivos transformam-se ou se transmutam, cada qual a seu ritmo, forma e tempo, obedecendo à batuta implacável da natureza, regente às ordens do compositor maior, o Criador (lembro aqui o capítulo “A ópera”, de “Dom Casmurro”, do Machado de Assis).
Criar uma nova casa, que seja outra, ou que seja ali mesmo, onde já se mora, colorir na mente com a aquarela dos olhos o projeto de redesenhar a decoração, trocar ou mudar de posição alguns móveis que seja, namorar o belo imaginário, tudo é sinal de vida acesa, chama da vela que baila sedutora, sinuosamente suave para ser vista, vivida, vida que pulsa em todos os momentos de sua existência: “É o projeto da casa, é o corpo na cama / é o carro enguiçado, é a lama, é a lama / (...) São as águas de março fechando o verão, é a promessa de vida no teu coração”
(oloboeocordeiro.blogspot.com)
Renascer é reviver o belo, é a redescoberta, o reabrir de janelas, mesmo sabendo dos riscos, sabendo arriscar e desfrutar de suas chances, quaisquer sejam elas: “até que plenitude e a morte coincidissem um dia / o que aconteceria de qualquer jeito / Mas eu prefiro abrir as janelas / pra que entrem todos os insetos” (2). Ou, em outros versos, “quero inventar o meu próprio pecado / quero morrer do meu próprio veneno / (...) quero cheirar fumaça de óleo diesel / me embriagar até que alguém me esqueça” (3).
João Cabral de Melo Neto
O novo espreita a esperança, que vem de esperar mas não é do verbo palavra: esperar é ficar parado, não se mover, mas “quem sabe faz a hora, não espera acontecer” (4). Sopra sobre os vivos o sopro novo no velho da vida, vislumbra a beleza onde já não se podia vê-la, pois que escondida: “belo porque tem do novo / a surpresa e a alegria / belo como a coisa nova na prateleira até então vazia / (...) e belo porque o novo todo o velho contagia / belo porque corrompe com sangue novo a anemia / infecciona a miséria com vida nova e sadia” (5).
Esperar que o casamento ou a sociedade comercial dure para sempre, quando de fato o que antes foi já era? Fica a convivência, mas onde a união, ungida até onde as partes se suportem? Ou a morte os aparte, diz sempre o celebrante. Seja qual tipo de união, ungida assim até onde se pensa, ela é ampla com seus perigos em forma de tragédia: “Ele fala em cianureto / e ela sonha com formicida / vão viver sob o mesmo teto / até que alguém decida”.
Descobrir o novo onde parece não mais existir, retocar o quadro esmaecido, que em branco e preto suado e desbotado já está, “deitar à sombra de uma palmeira / que já não há / colher a flor / que já não dá” (7), refazer o belo jardim que de tão abandonado ficou seco e, sem perceber, no dia a dia, “nos intervalos de pedra (se) plantava palha” (5).
Percy Shelley
“Ouça um bom conselho que eu lhe dou de graça / inútil dormir que a dor não passa / Espere sentado ou você se cansa / está provado, quem espera nunca alcança” (8). Não basta noite de sono, mesmo se dormir bem, eis que quando o dia nasce, renascem com ele a fé e angústia, siamesas e recidivas. Resta reviver a vida, mudando como uma nuvem: “Eu sou a filha da terra e da água, amamentando do céu / eu passo através dos poros do oceano e da praia / eu mudo, mas não posso morrer” (9).
Umberto Eco
Esta é uma breve reflexão sobre este momento brasileiro, em que esperança tem de prevalecer sobre desespero, falta de rumos e mesmo sobreviver ao pecado do conformismo, que é sinônimo de tudo aceitar e esperar, resignado, pelo pior. Ou que sobrevenha algum milagre dos peixes. Deixando esta brevíssima obra aberta em tributo ao recém-falecido Umberto Eco, lembro que mutatis mutandis é uma expressão latina surgida na Idade Média que significa “uma vez feitas as necessárias mudanças”, comumente usada em diversos idiomas e frequente no vocabulário da economia, do direito, da lógica e da filosofia, entre outras áreas do conhecimento.
Daí o título deste artigo. O Brasil não precisa de uma mudança, precisa mudar todo, a começar pela cultura do “cafezinho”, da “comissão”, do “por fora”, da “breja”, do “pixuleco”, do “acarajé” e todos os codinomes que a palavra mais utilizada nos dias de hoje, despudorada, rouba como gatuna oportunista, sem pedir licença: a corrupção. Muda, Brasil.
[1- Antonio Carlos Jobim, “Águas de março”. 2 - Caetano Veloso, “Janelas abertas”. 3 - Chico Buarque, “Cálice”. 4 - Geraldo Vandré, “Caminhando”. 5 - João Cabral de Melo Neto, “Morte e vida Severina”. 6 - Chico Buarque, “O casamento dos pequenos burgueses”. 7 - Vinicius de Morais, “Sabiá”. 8 - Chico Buarque, “Bom conselho”. 9 - Percy Shelley (1792-1822), “A nuvem”]

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

UMBERTO E O ECO DE SUA OBRA ABERTA

O pêndulo de Foulcault
O trabalho que marcou em minha vida o nome de Umberto Eco, nascido na Itália em 1932, não foram seus belos romances e escritos literários mais conhecidos, como o romance O Nome da Rosa e sua incursão no ocultismo, na cabala e nos templários, “O Pêndulo de Foulcault”. Foi, sim, sua “Obra Aberta” (1962), que me iniciou, ainda novo, na liberdade de interpretar minhas leituras, músicas e a arte em geral, longe das amarras impostas pelos (ou aos) artistas em formas conclusivas e “definitivas”.

O indeterminado, o imprevisível, o duplo ou múltiplo sentido passaram às vezes a ser a parte mais rica nas minhas observações sobre a arte. A ideia de que uma obra se abre a bem mais do que uma única interpretação me deu uma ferramenta importante até mesmo para a revisão de conceitos e conhecimentos já adquiridos.

(filmow.com)
Machado de Assis criou sua Capitu, do romance Dom Casmurro, de 1899, que conta dos olhos de cigana, “oblíquos e dissimulados” da meiga jovem. Ao correr da trama, Machado cuidou de semear aqui e ali coisas que, a partir de certo ponto da leitura, se unem não em uma conclusão – pelo contrário, abrem uma rica dúvida. Afinal, Capitu traíra ou não Bentinho? O mestre não quis fechar uma conclusão em nosso nome. Pelo contrário, deixou que os leitores concluíssem – ou não.

A riqueza machadiana é tão grande e importante em nossa literatura que a dúvida em Dom Casmurro serviu a um inteligente trabalho (2008), oportuníssimo nos cem anos de morte do autor, “Capitu mandou flores” organizado por Rinaldo de Fernandes. Nessa obra, diversos autores brasileiros consagrados dão sua versão, cada um em seu breve conto, ao chamado enigma de Capitu.  Meu pai, Autran Dourado, escreveu uma variação sobre o tema “Missa do Galo”, outro conto de Machado, pródigo em segredos, suspeitas e traições.

Os móbiles do norte-americano Alexander Calder (1898-1976), que se compõem e se transformam livremente ao sabor das correntes de ar, as séries musicais móveis e permutáveis do belga Henri Pousseur (1929-2009) e a música aleatória são momentos mais recentes dessa liberdade. Mas Haydn (1732-1809) já havia composto sua Sinfonia nº 45, “Sinfonia do Adeus”, uma obra cujo final apenas se dissolve, esmaece-se tal qual as velas que os músicos vão apagando antes de se retirarem gradativamente, uma tentativa de convencer seu mecenas, o príncipe Esterhàzy, a abandonar seu longo retiro de verão em que arrastava compositor e orquestra inteira, para que logo pudessem retornar aos seus lares. (Veja e ouça, abaixo, o “finale” da Sinfonia do Adeus, Farewell, regida por Igor Gruppman, com canoplas - spots - no lugar de velas)


Eleazar de Carvalho usou essa sinfonia quando foi convidado para ser professor na Universidade de Yale (EUA), em plena crise com a então secretária de cultura, deixando no ar a expectativa de volta ou não. Retirou-se no meio e a cena das chamas se repetiu, até que o saudoso Aírton Pinto, spalla da Osesp, extinguisse sozinho a última, encerrando no escuro o concerto. Uma forma sem a coda (final, conclusão) clássica, apenas uma lenta transmutação dos sons, cada vez mais suaves, em silêncio. E foi a obra aberta de Eleazar: despedida? (Talvez. Mas não foi embora, acabou com um pé aqui e outro lá).
O velho amigo e grande spalla Aírton Pinto

Assim é (se lhe parece). "Isto não é um cachimbo"
Franz Schubert (1797-1828) compôs sua 8ª Sinfonia, que ficou conhecida como “Inacabada” por ter apenas dois movimentos, fugindo à tradição romântica. Schubert simplesmente a deixou assim, e não há, além de meras suposições, razões para se crer que ela não teria sido concluída. O dramaturgo italiano Luigi Pirandello (1867-1936) escreveu “Assim é se lhe parece”, um exercício sobre a ambiguidade, realidade versus aparência, peça teatral em que exercita o paradoxo, as múltiplas visões, contraste com o rigor do chamado “realismo socialista”, que viria a ser gestado exatamente a partir daquele mesmo ano (1917) pela revolução russa; a “estética” comunista impunha à arte uma só visão, suposto retrato fiel da verdade única, a serviço da causa soviética. Ao avesso, em 1952, ocaso do stalinismo, John Cage apresentou sua obra 4’33”, na qual um ou mais instrumentistas sobem ao palco e não executam sequer uma nota durante quatro minutos e trinta e três segundos cravados. Propõe ao público não um silêncio, mas o refletir, a percepção dos ruídos, sejam eles da própria respiração ou movimentos da plateia, pensamentos, uma construção abstrata e ao acaso.

A “Obra aberta”, como disse, foi a luz para minha compreensão – ou seria “descompreensão”? - da arte através dos tempos. Um autor como ele, que desfrutou de influências díspares como James Joyce e Kant, lidava com a obra de arte de todas as formas e se sentia livre para descobrir significados múltiplos, aliando-se à teoria da arte de massas pensada por Marshall McLuhan (1911-1980) em The medium is the massage. (Título traduzido como “O meio é a mensagem”, que perde a riqueza de dois belos triquestroques – ou trocadilhos, no popular -, massage, massagem, no lugar de message, e mass-age, “era das massas”).



A versatilidade de Umberto Eco, seu trânsito com grande erudição por tantos caminhos, seu histórico de professor nas universidades de Bologna (It.), Columbia, Harvard e Yale (EUA), Toronto (Ca.) e no Collège de France fazem dele um baluarte da cultura dos séculos 20 e 21. Sua contribuição assume proporções únicas, especialmente pensando no amplo leque de áreas em que se aprofundou com grande sabedoria. Ainda é cedo para o mundo perceber que suas concepções prosseguirão muito além do que concluiu e encerrou no dia 19 de fevereiro deste ano, quando fechou seu ciclo de vida - mas deixou-nos sua fértil produção, verdadeira obra aberta.