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quinta-feira, 9 de junho de 2016

CADEIRANTE POR UM DIA

(Iacessu)
Todos deveriam ser cadeirantes por um dia! “Pra mim, basta um dia, não mais que um dia, um meio dia” (Chico). Segundo o IBGE, 6,2% da população brasileira apresenta algum tipo de deficiência, seja visual, de locomoção ou outra. Em 2010, incluindo subtipos de deficiências visual, auditiva ou mental, 24% mostraram-se portadores de algum tipo de perda, o equivalente a 45,6 milhões de brasileiros. Muitos usam muletas, bengalas, andadores e cadeiras de rodas, fora os desvalidos que não têm condição de comprar uma. A idade é agravante entre os vários tipos de deficiência, quando não é o bilhete para ingresso definitivo de um a mais nas estatísticas.

Alguns dizem “não vejo tantos cadeirantes nas ruas”. Ora, os de maior poder aquisitivo passam despercebidos dirigindo seus carros adaptados, ou são levados para lá e para cá por seus motoristas, amigos ou parentes. Estacionam nos bancos nas vagas reservadas e são identificados pelo adesivo de cadeirante no para-brisa. Alguns usam boas cadeiras, e os mais bem aquinhoados aquelas motorizadas, que chegam a custar mais de 13 mil dólares (R$ 45 mil). Já artefatos robóticos são para muito, muito poucos.

Sonhar é preciso: ônibus em Londres
Nossos ônibus, calçadas e prédios não estão preparados para receber deficientes físicos, e muitos nem saem de casa porque ficam confinados como se estivessem presos. São párias da sociedade, alijados de estudo, trabalho e lazer, e geralmente ignorados pelos que tiveram a bênção de poderem desfrutar de todos os movimentos do corpo. 

Fíbula
Minha preocupação com o assunto veio à tona quando vi-me cadeirante e portador de muletas por três meses, após uma ridícula fratura na fíbula (altura do tornozelo). Digo ridícula porque nem fui ao chão, torci o pé em um degrau de escada, caindo de pé sobre o de baixo, com o tornozelo virado. Raios-x feitos em um hospital de São Paulo, o remédio de sempre: gesso. Durou um dia. Comprei uma daquelas botas e voltei ao hospital para arrancar aquele chumbo da perna. Começara ali minha vivência de uma realidade que até então apenas supunha existir. 

Para tirar licença de trabalho da Prefeitura, fui ao prédio da Perícia Médica, no centro. Levou-me um vizinho, senhor de idade, motorista aposentado e ‘faz-tudo’, de pintura a pequenos reparos (retorno a ele adiante). Para entrar no prédio, uma escada sem corrimão e, claro, fora dos padrões da ABNT. Era colocar as duas muletas sob uma axila e a outra mão na parede para ajudar. Ao entrar - local de pessoas acidentadas e doentes! -, não havia mais cadeiras na sala de espera. Para ir ao banheiro, tive de passar por um corredor com as muletas, só que de lado: uma “reforma” do espaço havia espremido a passagem com uma divisória. 

Escola Municipal de Música: rampa dos fundos
(prédio antigo)
Nem cheguei ao terceiro dia de licença: enlouquecido, desci sentado a escada do quarto, peguei as muletas, coloquei a cadeira de rodas que alugara dentro do porta-malas do carro e fui para o trabalho. Chegando, entrei pela rampa dos fundos e comecei a tocar o serviço da cadeira de rodas.

Teatro Municipal: escada favorita dos skatistas
Após o susto do prédio da perícia, sucederam-se vários outros. Haveria um belíssimo concerto no Teatro Municipal, e eu não queria perder. Fui, estacionei e arrastei o corpo com as muletas até a escadaria da frente, subindo aqueles degraus enormes, um grande risco (o prédio é de 1911, tombado, impossível alterar) – coisa para esportes radicais. Lá dentro, encontrei o Lauro Machado Coelho, cadeirante, o crítico de conhecimento musical mais vasto que conheci. E ele me contou seu truque: sempre telefonava antes, entrava com a cadeira pela passagem de serviço lateral, subia pelo elevador de palco e descia à plateia.

Campinas: Centro de Convivência
Episódios de frustração no acesso aos bens culturais repetiram-se algumas vezes, como no Centro de Convivência de Campinas, onde fui ver um recital. Descer até a plateia foi uma aventura cheia de sustos. Apesar de muito mais recente do que o Municipal de SP, o Centro não tinha as mínimas condições para portadores de necessidades especiais.

Flagrante em vaga especial para cadeirantes
Confesso que houve momentos de ódio como quando uma lépida senhora saiu de seu carro na vaga da rampinha para deficientes, e entrou no banco. Veio o instinto da raiva, certo vandalismo oculto, em solidariedade para com os que sofrem o infortúnio de terem de passar suas vidas assim. Bloqueei a vaga e somente saí depois de servir à madame um “chá” de 15 minutos de espera. Que chamasse a polícia, pois! Daria um belo flagrante.

O grande e saudoso professor emérito Ruy Laurenti,
ouvidor da USP
A quase totalidade dos municípios ignora as leis 11.263/02, de SP, a 13.146/15, federal, e as que as antecederam. Pior, desrespeitam quem tem dificuldades de locomoção e acesso. As minhas duraram apenas três meses, mas trouxeram uma luz positiva: ajudaram-me na conscientização sobre o problema. Conheci Renato Laurenti, filho do professor emérito da USP Ruy Laurenti – que, coincidência absurda, foi para quem meu motorista bissexto havia dirigido! Conhecido como “repórter saci”, tornado tetraplégico após um acidente, Renato tinha uma ONG para auxílio a deficientes. Conversamos algumas vezes, falamos sobre acessibilidade na Prefeitura, missão impossível. Propus-me a ajuda-lo e colaborei em outros projetos como pude.

Teatro Procópio Ferreira Tatuí
O Conservatório de Tatuí ampliou a acessibilidade no Teatro, em todas as unidades onde possível e permitido por lei, e estimulou o curso de musicografia Braile. Em 2010, recebeu o Prêmio Estadual de Ações Inclusivas, entre 300 projetos avaliados. Neste mês de junho de 2016, por iniciativa de Rogério Vianna, a Cia. de Teatro do Conservatório inovou com a leitura de uma peça com tradução em libras. Basta cada um fazer a sua parte, pouco que seja, nada mais. É dever cívico! Pegue uma emprestada, alugue, seja cadeirante por um dia. Basta um dia, um meio dia!

Alunos, o gerente de Secretaria Cristiano Guimarães, prof. Moacir e as profªs Karla, Sueli e  Darli na premiação

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

SALVO POR UMA ASPIRINA

O ácido acetilsalicílico, conhecido popularmente por marcas como aspirina, AAS, bayaspirina, bufferin (aspirina buferada) e outros, também está presente em inúmeras fórmulas vendidas como ‘antigripais’ e é, talvez, uma das mais antigas entre as maiores descobertas da medicina.


Papiro de Ebers
Tudo começou com o uso da casca do salgueiro usada contra diversas doenças no Egito antigo, de que há registros no chamado ‘Papiro de Ebers’ (de 1.534 a.C.) No papiro, havia referências a substâncias medicinais extraídas da casca do salgueiro que eram usadas contra dores e anti-inflamatório na antiguidade.

Friedrich Bayer (1863)
No princípio do século 19, cientistas iniciaram estudos para a criação de uma medicação sintética baseada nos mesmos princípios do salgueiro (ácido salicílico), o que veio a acontecer em 1850. Os cientistas Friederich Bayer e Johann Wescott modificaram a descoberta, sintetizando o ácido acetilsalicílico e batizando-o ‘aspirina’, em 1889, minorando alguns efeitos colaterais da medicação original.

Infográfico (Site oficial Dr. Dáuzio Varella)
Em matéria publicada na Folha há algum tempo, o conhecido infectologista Dráuzio Varella discorre sobre a descoberta da aspirina, com informações baseadas em seus sempre muito bem embasados estudos. Segundo ele, o mundo hoje produz 40 mil toneladas por ano do produto, que já foi objeto de nada menos do que 26 mil ensaios e teses científicas. Usada como antitérmico, analgésico e anti-inflamatório, a aspirina só teve o maior de seus segredos revelados em 1970, quando descobriram que sua maior propriedade seria impedir a agregação de plaquetas. Por conseguinte, a medicação passou a ser vista como recurso contra a formação de coágulos, assim evitando acidentes vasculares cerebrais (o AVC, ou ‘derrame’) e cardiovasculares (infarto). (Site oficial Dráuzio Varella: http://drauziovarella.com.br/) 

Ácido acetil-salicílico: fórmula estrutural
Ainda segundo Varella, uma quantidade de aspirina de até 325 mg (pouco mais de 3 comprimidos) antes de 24 horas após um infarto reduz em 50% o risco de morte ou de um segundo ataque! Quem está com sintomas sugestivos de infarto, ele sugere, deve tomar 2 a 3 comprimidos, enquanto aguarda o auxílio médico - ‘mal não fará’, disse.

Anderson Lima atingido:(UOL esporte)
Há coisa de 8 anos, fraturei a fíbula (quando estudei, chamava-se perônio), perto do pé - um ossinho poderoso, do qual depende a articulação do tornozelo, e até o equilíbrio do corpo. Essa ‘fraturazinha’ jogou ao chão o lutador Anderson Silva em uma luta, após um golpe do adversário, e mesmo podendo pagar os melhores médicos, hospitais e cirurgiões dos EUA, ainda está inseguro para lutar.

Pois eu fui pessimamente atendido em um hospital particular paulistano, cujos médicos não apenas exageraram no tempo de imobilização. Segundo um ótimo e conhecido ortopedista de Tatuí, não seria caso de cirurgia, como os colegas de São Paulo insinuaram (a clínica cirúrgica particular deles ficava a uma quadra do hospital onde atendem: uma ‘linha de montagem’ de fazer dinheiro. Fui imobilizado por tempo demais).

Consolidação da fíbula direita 
O ortopedista de Tatuí também me informou que, sem querer saber por quem ou onde fui tratado, nesse tipo de fratura, assim que começa a surgir no raios-x a consolidação, deve-se deixar a imobilização para que os movimentos sejam retomados, juntamente com acompanhamento fisioterapêutico. Nada disso foi feito, por falta de orientação, e fiquei com sequelas, sendo a pior, agora sob controle, um edema linfático e venoso, de que só passei a me cuidar depois de consultar outro ótimo especialista da cidade, que sugeriu um exame mais complexo.

Doppler venoso colorido: abril de 2014
Em abril de 2014 fiz um ultrassom com doppler colorido da parte afetada (ver ao lado). “Só para vermos se algum ‘vasinho’ foi afetado”, disse-me ele, sem querer antecipar nada. Foi aí então que descobri que eu tivera um trombo na veia femoral, e ele havia ficado retido em uma válvula do vaso até... dissolver-se!!!

Muito antes disso, meu antigo cardiologista de São Paulo, prof. titular da Unifesp, após exames de rotina, sugeriu-me uma aspirina infantil (100 mg) todas as manhãs. Isso foi há mais de 15 anos, e mantenho o costume até hoje, tomando o cuidado de suspender a aspirina alguns dias antes de uma cirurgia ou mesmo tratamento dentário – qualquer sangramento sob o uso da medicação dificulta a coagulação.

Embolia femoral e suas consequências possíveis
Pois no meu caso o trombo poderia ter seguido o caminho da veia femoral e subir, causando uma embolia (de ‘êmbolo’) pulmonar (ver ilustração ao lado), infarto ou outras complicações. O trombo ‘preso’ fora dissolvido graças à aspirina! Passei a interessar-me pelo assunto, li muitas matérias e artigos, textos científicos como o ‘Patient’ (UK), ‘Publimed’, ‘WebMd’ e o ‘Journal of Thrombosis’ (todos dos EUA), entre outros.

O famoso 'durão' Dr. House, ele próprio na cena um paciente , com seu mascote
Agora, ninguém deve se medicar continuadamente com aspirina – fora ocasionais simples dores de cabeça e febre baixa – sem orientação médica. Deve haver cuidado especial em pessoas portadoras de diabetes, insuficiência renal e hemofilia, entre outros, fora alguns efeitos e doenças colaterais, como irritações estomacais, a ‘síndrome de Reye’, reações alérgicas e outros.


Não vá cego pela minha opinião, de simples paciente salvo por aspirina, sem uma consulta ao seu médico especialista. Em tratamento prolongado por 5 anos ou mais, a aspirina pode salvar e prolongar vidas. Porém, apesar de simples e popular, ela não deixa de ser uma droga, e portanto somente deve ser usada preventivamente com a devida recomendação de médico especialista. E continuo com minha rotina diária de aspirina, minha fisioterapia por drenagem para reduzir o edema linfático e venoso, meias de compressão e controle médico. Mas o ponto final disso tudo é que fui salvo pelo uso diário do pequeno e em princípio inofensivo eventual comprimido infantil.