HIV em agulhas infectadas nas poltronas dos cinemas?
Circula na Internet mais um ‘hoax’ maldoso, que na verdade teve início em 1999 nos EUA. Uma agulha de seringa estrategicamente colocada em uma poltrona de cinema estaria infectada com o vírus HIV. Quando o cidadão se senta, é ‘espetado’ e... vê um bilhetinho dizendo “você está contaminado com HIV”. (Lembrando: ‘hoax’ viria de ‘hocus pocus’, expressão supostamente extraída de rituais de bruxaria da Idade Média. A tradução literal é ‘enganação’, ‘embuste’. E geralmente vem com ‘trojans’, ‘worms’, essa ‘fauna’ cibernética – essa sim, praga virótica incontrolável).
Já naquela época (1999) se sabia há algum tempo que o vírus HIV, se não injetado, claro, e se estiver apenas na agulha, morre em poucos segundos ou minutos. (Mas todo cuidado é sempre pouco: há outras doenças). As agulhas que foram supostamente encontradas em cinemas da Virginia, no Texas e em Colorado, em sua maioria simplesmente nunca existiram. Quando encontradas, não possuíam o vírus. Há muitos sites comentando esses ‘atentados’, que nada mais são do que terrorismo cruel de desocupados. Dê uma busca, e vai encontrar em sites de Universidades como a da Califórnia coisas assim:
“A more recent story in the Washington Times stated that none of the needles found in Virginia were contaminated with HIV or any other disease. Pulaski police Sgt. David Moye called the copycat pranks "a ploy to make people afraid to live every day" (trad. livre: “uma manobra para criar em pessoas medo de viver o dia a dia”).
Por fim, o site “Hoaxslayer” (“Matador de ‘hoaxes’), cita emails com aparência oficial e falsas informações policiais com nomes de autoridades ‘omitidos’, e recomenda não repassá-los, e sim apagá-los (no caso ao lado, a do HIV nos cinemas: http://www.hoax-slayer.com/hiv-cinema-hoax.html
Não repasse o e-mail. Se tem alguma dúvida, pergunte a um infectologista ou vá a um centro de controle endêmico, eles são os profissionais gabaritados aptos a lhe dizerem se existe a hipótese e quais as chances. Já temos razões demais para viver com medo de violência e outras coisas, agora só falta acabarem com os cinemas. Diante de ‘hoaxes’ como esse, sempre me pergunto: quem lucra com isso? Porque só pode haver interesse por trás do boato. Mas qual? Guarde o endereço do “matador de hoaxes”: http://www.hoax-slayer.com/. Mostra como confirmar os últimos ataques.
Anúncio gera polêmica com Machado de Assis “branco”
Depois de repercussões negativas e pressões, a “Caixa” retira anúncio em que o maior escritor brasileiro aparece caracterizado como branco. Ora, já vi – literalmente - esse filme antes. Lembra-se da polêmica sobre o Mário de Andrade ‘branquelo’? Coisa de mau gosto, que despertou a ira do Emanuel Araújo, Diretor do Museu Afro-brasileiroe gerou polêmicas na imprensa. Mas não é preciso TV ou ‘photoshop’ para ‘embranquecer’ grandes nomes que deveriam ser honrados nas suas origens. Padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), filho de escrava - na ilustração com uma medalha no peito - foi devidamente ‘maquiado’ pelos pintores oficiais do Império.
O pior, no caso do ‘falso branco’ Machado, é que não apenas tentaram mostrar que ser branco é ser ‘bonito’, honesto e bom cliente; junto, veio um desastrado golpe na possibilidade de um ator negro ou mestiço ocupar espaço e obter trabalho na TV, dominada pelos brancos robustos e branquelas lindas.
O chamado ‘politicamente correto’ (que muitas vezes é muito mais reacionário do que o ‘normal’ do dia a dia) viola às vezes alguns direitos. Ser afro-descendente não evita que o sujeito seja catalogado como ‘pardo’, o que é muito pior. “Black is beautiful”foi um movimento negro surgido nos EUA, na esteira do “Black Power”, e que, no Brasil, teve inúmeras repercussões, como a música de Marcos Valle eternizada por Elis Regina, que leva o mesmo título (“Black is beautiful”). Wilson Simonal, apesar de combatido pela ‘esquerda’ da época, cantava “Tributo a Luther King”, homenagem ao líder norte-americano brutalmente assassinado em um comício: “Sim sou um negro de cor / meu irmão da minha cor / o que te peço é luta sim / luta mais! / que a luta está no fim”. E Caetano Veloso faz o elogio do sangue que batizou sua própria mistura racial: “É negra, negra, negra, a tua presença”.
Agora, uma pergunta: custava, além de respeito aos nossos irmãos brasileiros, ter sido fiel à história? O anúncio foi de péssimo gosto,
Apenas um cuidado: enquanto aqui os chamados afro-descendentes defendem, em sua maior parte, o termo ‘negro’, nos EUA chamar alguém de ‘nigger’ é encrenca certa. Nem ouse. É ‘black’ mesmo, e eles o dizem com muito orgulho.
Considerando que não é exatamente um trabalho popular, as leituras superam as expectativas. Leio uns 2 ou 3 blogs semanalmente e, pela diversidade, todos me acrescem e me trazem boas informações. Fora isso, é uma terapia à parte, feita aos pedaços quando dá. Obrigado aos que têm lido!
Não é só música sertaneja (dessas novas, jeito de Jovem Guarda e com roupa de caubói americano) que canta dor de cotovelo, solidão, traição. O tema vem de longe, e não fica só na MPB, está em toda parte. Passando pela campeã Maysa, por Dolores Duran e outros, chegamos a uma pérola, na minha opinião, com Edu Lobo, em “Pra dizer adeus”: “Adeus, vou pra não voltar / e onde quer que eu vá / sei que vou sozinho / (...) ah, pena eu não saber / como te contar / que o amor foi tanto / e no entanto eu queria dizer: vem / eu só sei dizer vem / nem que seja só / pra dizer adeus” (pra fazer chorar qualquer mocinha). Há muito anos, havia um programa na televisão, dirigido por Walter Lacet, em que ele treinava as mocinhas da plateia (lembro-me bem do Ivan Lins, na época do GUM, Grupo Universitário de Música) para encostarem seus rostinhos apoiados no queixo, bem perto do piano, se possível chorando. (O virtuose húngaro Franz Liszt, uns 100 anos antes, já havia inventado o truque, e chegava a pagar alguns trocados para moçoilas chorarem copiosamente ao vê-lo tocar).
“A gente briga / diz tanta coisa que não quer dizer / briga pensando que não vai sofrer / que não faz mal se tudo terminar”... Cantava versos assim a Adiléia da Rocha, aliás, Dolores Duran, que, quando criança, teve febre reumática e sopro cardíaco, ainda moça um infarto e, depois, gravidez tubária com risco de vida; a seguir, veio a depressão, até morrer de ataque cardíaco aos 29 anos, após overdose de barbitúricos e álcool. Ela teve o nome artístico tirado do espanhol ‘dolores’ (‘dores’), que tão bem vestiu sua vida. Maysa, a musa das boates, mulher de muitos causos e casos, também fez sucesso nos anos 1960/70, com peças lindas como “Felicidade infeliz”: “Felicidade, deves ser bem infeliz / andas sempre tão sozinha / nunca perto de ninguém”. A diva da ‘fossa’ foi vítima de um acidente fatal na ponte Rio-Niterói.
Mick Jagger, dos Stones, em uma declaração de amor a Angela (mulher de seu amigo e ex-caso David Bowie), canta: “Angie, Angie / quando essas nuvens vão desaparecer? / Angie, Angie / para onde vão nos levar daqui? / sem amor em nossas almas / sem dinheiro em nossos bolsos / não diga que estamos satisfeitos”. Aliás, a insatisfação é mote de Jagger: “Não posso me satisfazer / porque eu tento / e eu tento / e eu tento...”. Simon e Garfunkel, como dupla é imbatível, haja vista a obra-prima “The boxer”: “pedindo apenas salário de trabalhador / eu buscava um emprego, mas não tive oportunidade / apenas um mero “vem cá” das prostitutas da Sétima Avenida / Eu confesso que estava tão sozinho / que tive ali algum conforto”.
Chico Buarque é um expoente do gênero: “Quando você me deixou, meu bem / me disse pra ser feliz e passar bem / quis morrer de ciúme / quase enlouqueci / mas depois, como era de costume / obedeci” – claro, para ser cantada por voz de mulher, ou por homem, como se fosse uma. Também dessa dor de cotovelo compartilhou Janis Joplin, dama do ‘blues’ morta por overdose aos 27 anos, idade com que também faleceu a ‘blueseira’ Amy Winehouse: “Amor, bem-vindo de volta / eu sei que ela disse / amor, eu sei que ela disse que te amava / muito mais do que eu te amei / (...) venha e chore, chore, amor...”.
O som de lamento, de melancolia, é o da voz cantada, tendo a música letra ou não. Repare no choro das crianças, das mulheres – e dos homens, quando têm coragem de mostrar seus sentimentos. É assim que, metrificada e flutuando sobre uma melodia, a voz adquire maior expressão. Ouça as “Paixões” (segundo João ou Mateus) de Bach, inspiradas na agonia de Cristo. Alban Berg compôs seu magistral “Concerto para violino – à memória de um anjo” -, dedicado a Manon Gropius, filha de Alma Mahler e Walter Gropius, belíssima jovem falecida aos dezoito anos. O concerto de Berg é uma peça envolvente e triste, mas talvez não tanto quanto a “Pavana para uma princesa defunta” (1889), de Ravel, o mesmo do famoso “Bolero”; densa e plangente é a “Marcha Fúnebre” da 3ª Sinfonia de Beethoven (“Eroica”). E há as peças especiais, como os ‘requiems’ de Mozart, Fauré, Berlioz, Brahms e Britten.
Ironicamente, Beethoven compôs o coral “Ode à alegria”, musicado sobre poema de Schiller, que eterniza sua obra-prima, a “Nona Sinfonia”, no quarto movimento. Um homem conhecido pelo sofrimento e pela autodestruição, portador de diversas doenças, exalta a grandeza do ser humano, construindo para ele o mais sublime elogio à felicidade, que traz um famoso solo de barítono conclamando: “O Freunde, nicht diese Töne!” – “Oh, amigos, não nesses tons! / Ao contrário, vamos levantar nossas vozes / com tons mais agradáveis / e sons mais alegres / alegria! Alegria! / (...) Alegria, a linda centelha do Divino” (trad. livre). Beethoven, então, já estava totalmente surdo e doente, vindo a sobreviver mais três anos. Antevendo a agonia, no final restou-lhe exaltar a felicidade. Amen.
(Publicado em ‘O Progresso’ de 1 de outubro de 2011).
Crônicas como a reproduzida acima deverão sair em livro
Até o final deste ano, as crônicas publicadas no jornal ‘O Progresso’ ao longo de 86 semanas alternadas – sobre diversos assuntos, quase todos ligados à música – serão republicadas em forma de livro. Como é intenção lançar algo mais barato, deverão sair 3 volumes - um de cada vez, claro.
Os textos serão revisados e, sempre que possível, ilustrados a cada capítulo. É uma forma de deixar registrado o pouco que foi possível aprender nos caminhos da música e da vida.
Concurso Spartaco Rossi tem número recorde de inscritos
A 7ª edição do concurso organizado pelo Conservatório de Tatuí bateu todos os recordes de inscrições. Em 2010 foram 31, média dos anos anteriores. Mesmo com a greve dos Correios, já chegaram documentos de 140 candidatos de 55 cidades de 8 estados: São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Paraíba, Paraná e Bahia. Ainda devem chegar mais inscrições, desde que postadas na data limite. As semifinais acontecerão nos dias 16 e 17 de outubro e a final dia 18, no Teatro Procópio Ferreira. Os números são indicadores de que a qualidade da final será bastante alta. Parabéns a esses obstinados professores, em especial à Cris Blóes, organizadora.
No vídeo abaixo, o público italiano se levanta e canta o famoso coro “Va pensiero”, de Verdi. (Toscanini regeu esse coro de mais de 800 pessoas no funeral do compositor). O vídeo abaixo é emocionante: após discurso de protesto do grande maestro Riccardo Muti contra Berlusconi, o público canta em coro – e, no final, parece não restar um que não esteja chorando. Ouça e veja você também.
“Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si próprio; cada um é parte do continente, parte do todo (...) nunca procure saber por quem os sinos dobram, pois eles dobram por ti” (trad. livre).
Em “Por quem os sinos dobram”, o escritor norte-americano Ernst Hemingway (1899/1961), que viveu em Cuba após o final da primeira grande guerra, cita o poeta inglês John Dohne (1572/1631), do século 18 (retrato em óleo), referindo-se ao isolamento do homem.
Isso tudo para dizer que Dilma, finalmente, descobriu – ou melhor, revelou o que sabia, e que estava sendo politicamente adocicado por seus financistas – que o Brasil está, sim, enfrentando uma crise. A ‘Folha’ de 23 de setembro traz matéria com chamada de capa em que a Presidente afirma que o Brasil está, sim, preparado para a crise. Mesmo com a desvalorização do real frente ao dólar – moeda, por si, já fraca -, a escalada dos juros (a ‘baixa’ de 0,5% na taxa Selic serve para algumas coisas, entre elas o fator psicológico), a fraquíssima exportação, a queda das bolsas, a sobretaxa do IPI para carros importados, a perspectiva de queda no PIB e alta da inflação... e por aí vai. Já os EUA são escancarados quando advertem para uma crise antes mesmo dela tomar corpo: talvez escaldados pelas inúmeras por que passou, especialmente a de 1929, que quase quebrou o país.
A melhor forma de combater uma doença é conhecê-la. O homem tem medo daquilo que ele não conhece. Dilma mostra agora o que sempre se soube: que nenhum país é uma ilha.
A cantora número 1 e o compositor número 1 cantam o belíssimo poema do grande poeta, letrista, diplomata, músico, escritor e ‘bon-vivant’ Vinicius de Morais (cujo nome meu pai fazia seguir por “professor de ciências naturais”, brincando).
Poucos no Brasil foram poetas como Vinicius; poucos foram letristas como ele. A profundidade aliada à simplicidade é a marca do gênio, e Vinicius respirava poesia cantando o mundo, as praias, o amor, a angústia, e, claro, as mulheres. Os sonetos de Vinicius são obras-primas: como fazer poesia contemporânea sobre uma forma antiga (o soneto). Acho que seguia seu colega, chamado ‘poeta maior’, Carlos Drummond de Andrade: “Cansei de ser moderno. Agora quero ser eterno”. Disse um mundo em uma linha. Serve para todos nós, que lidamos com arte e, volta e meia somos tentados pelas experiências vãs de descobrir algo novo. Deleite-se:
Marque na agenda: dia 20 de outubro, às 20h30, o lendário Frank Battisti, mestre dos mestres, vem reger a Banda Sinfônica do Conservatório de Tatuí, uma data para não ser esquecida. Técnica, bom gosto, musicalidade, carisma, conhecimento, experiência, tudo o que é preciso e mais um pouco. Serve para regentes e músicos de todas as modalidades (coro, sinfônica, banda, etc.). E um concerto para ser visto por todos.
Para completar, será a ‘Semana Battisti’: masterclasses, oficinas, palestras, ensaios abertos...