Canção do Cisne é expressão que se
relaciona a uma despedida, no sentido mais amplo. Diz a lenda que esses
pássaros aquáticos entoam uma lindíssima canção ao se verem perto do fim. Finca
origens no século 3 a.C., apesar de já haver referências em 6 a.C. Na mitologia
grega, o cisne era um pássaro consagrado ao deus Apolo, e, como ele, um
paradigma de beleza. Na fábula de Esopo (6 a.C) O Cisne e o Ganso , o belo pássaro escapou
cantando, após ser capturado por engano como ganso. Grego também é Agamemnon , de Ésquilo (458 a.C.), em
que Cassandra, que anteviu a guerra de Tróia, canta como um cisne em seu final.
Gravura de Reinier Van Persijn (1615-1668)
Michelangelo: Leda e o Cisne
Michelangelo (1475-1564), em seu belíssimo óleo Leda e o Cisne, descreve Zeus, transubstanciado no pássaro, possuindo Leda, rainha de Esparta. E Leonardo da Vinci (1425- 1519) já havia feito sua versão. Isso, embora logo no início a lenda do cisne já tenha sido desvendada
pura invencionice - a História Natural do romano Plínio, o Velho (77 d.C.), deu fim a ela. Olorum morte narratur flebilis cantus, falso, ut arbitror, aliquot
experimentis (resumindo: a lenda do
cisne é falsa!), decretou.
Uma obra-prima: O Cisne de Kew Gardens, Londres.
Foto de Beto Binder, com os agradecimentos
Ainda assim, continuou inspirando: o escritor
medieval Geoffrey Chaucer e depois seus conterrâneos ingleses William Shakespeare
(1564-1616), em O Mercador de Veneza e Samuel
Coleridge (1772-1834). Não é de se estranhar esse apego dos britânicos ao majestoso
pássaro aquático: para eles, o cisne é animal sob proteção da Coroa, e desde o
século 12 é crime, passível de prisão, apossar-se ou maltratar um deles, verdadeiro
símbolo real! O pássaro é também símbolo constante em brasões reais, como os de
Jonava, na Lituânia, Horgen, na Suíça, Unterschwaningen, na Alemanha,
Buckinghamshire, condado inglês, e, como cisne negro, na Austrália Ocidental.
Montagem de Danse des Petites Cygnes, de Tchaikovsky
Na música, cito o Schwanengesang , um concerto para oboé de 1773 do alemão Telemann, tributo póstumo a Garlieb Sillem, prefeito de
Hamburgo. Já Le Cygne, do romântico francês Saint-Saëns
(1835-1921), era o único movimento que o autor achava ‘sério’ em seu Carnaval dos Animais (os demais eram troça com personagens e
compositores de sua época). O cisne-violoncelo canta com o acompanhamento de um
piano, até se esvair no nada. A obra fora encomendada para um solo da prima donna do balé clássico Anna
Pavlova, estreada em 1905 em São Petersburgo, Rússia, e por ela repetida mais
de 4.000 vezes. Fora seu Cygne, o compositor achava seu Carnaval “uma nobilíssima
bobagem”, que me parece uma blague como a “reverendíssima besta”, de Mário de Andrade.
(Abaixo, um vídeo raro de Anna Pavlova dançando Le Cygne, em 1910, com acompanhamento de harpa).
Conheci Martha Herr no Encontro de Orquestas Jovens de Tatuí, em 1984,
em que fui um dos professores e Martha abordava técnicas de respiração. Em
alguns de meus intervalos ia assisti-la, pois respiração é para todos - o
grande violoncelista Janos Starker (1924-2013) foi autor de estudos sobre a
coordenação entre os movimentos do arco e o diafragma.
Seguiram-se 31 anos de
admiração e amizade absolutamente imaculada. Martha tinha uma erudição incomum
em nosso idioma, foi uma brasileira nascida nos EUA. Em comum, também, o signo
do Touro no zodíaco. Todo mês de maio, fazia reuniões com seus amigos taurinos,
usando o signo como desculpa – curioso: signe, em francês, soa como cygne , cisne. Desculpa talvez não foi,
vai saber se algo em comum estava escrito nas estrelas. Pura diversão: nós, o
finado violinista Bruce Mack, a violoncelista Gretchen Miller e outros.
A diva
Na penúltima vez em que Martha esteve em Tatuí, para provoca-la lembrei a divíssima Bidu Sayão, que havia
reclamado a Villa-Lobos que na Dança (Martelo), segundo movimento das Bachianas
nº 5, aquele “cariri” agudíssimo era muito ruim de ser cantado por
causa da vogal “i”. Bidú era da tradição
do belcanto, à maneira de seu tempo.
Isabela Autran, Wladimir, Martha Herr e eu. Teatro Procópio Ferreira
Conservatório de Tatuí. Foto: Kazuo Watanabe
Há uma brincadeira que faço com as sopranos, já que Villa-Lobos queria
que suas músicas fossem cantadas em claro português brasileiro. Perguntei a
Martha se ela tinha problemas com o “cariri”, e então, com a boca bem aberta,
aqueles dentes de criança, lascou “o caririiiiiiii” com tamanho volume em minha
orelha que parece zunir até hoje.
Martha e as Bachianas Brasileiras nº 5, no Conservatório
Foto: Xpress
Há poucos meses, pedi ao amigo Roberto Tibiriçá, que guarda tudo
organizado como colecionador obcecadíssimo que é, que encontrasse uma gravação
que fizemos com a Nova Sinfonietta, com ele próprio regendo, no Teatro Cultura
Artística (12/06/1988), em que Martha Herr cantava o 2º mvt. do lindo Exultate Jubilate, de Mozart. Pois
Roberto, é claro, tinha a gravação! Por ser uma das minhas favoritas interpretações
de Martha, e a que mais me tocou nas vezes em que ouvi este moteto, que soa
como um verdadeiro canto de alegria (Exultai, Jubilai-vos!), a peça (1777) de
Mozart surgiu como gema preciosa para um presente a uma amizade de 31 anos:
gravada em fita K7, foi masterizada digitalmente pela nossa Deise Juliana, e
então feita uma edição exclusivista, coisa de 3 exemplares.
Para completar o presente, achei por bem uma boa leitura para uma exemplar lutadora como Martha: comprei via Londres um exemplar de The Cloud of Unknowing (em português, A Nuvem do Não Saber, tradução não muito feliz já no título), uma espécie de guia à iniciação à meditação e contemplação de um monge beneditino anônimo do século 13, sequência de exercícios espirituais que levariam, tal qual monges do Tibet (não havia lá muita diferença, no passado, entre práticas meditativas tibetanas e monásticas beneditinas), a um estado contemplativo, de pura abstração: o nada pensar, nada saber, estágio em que se pode observar a perfeição a sentir a proximidade do Superior. Sei que Martha, naquela altura compreendendo mais sua língua nativa – apesar de ter falado português como qualquer um de nós, para dizer o mínimo -, haveria de enfrentar seus momentos de introspecção. Os presentes chegaram a tempo, apesar de as expectativas daqueles dias conspirarem contra nós. Torci pelos Correios e os intermediários que entregaram a Martha minhas lembranças, em mãos. Leu trechos algumas vezes, e pediu que lhe lessem outros tantos, na sequência que o livro propunha. O alívio para o espírito é o bálsamo para a mente angustiada e o corpo –mens sana in corpore sano, diziam os latinos.
Dr. David Chew, OBE
Em comum também é o grande e admirado amigo, brasileiro nascido na
Inglaterra, David Chew, OBE, Order of the
British Empire – a mesma láurea recebida pelos Beatles -, concessão da Rainha
Elizabeth. Chew é um violoncelista e vulcão empreendedor na música brasileira. Com
passagem agendada anteriormente, não deve ter sido por coincidência que David pousou
em São Paulo, bem pouco antes de ela se despedir. No RICE, Rio International Cello Encounter, que já teve sua extensão em
Tatuí, Martha cantou, nesses 25 anos de festival, talvez igual número de vezes
a Bachianas Brasileiras nº 5, para soprano e orquestra de violoncelos, de Villa-Lobos,
neste evento centrado no instrumento que lhe dá nome, mas aberto a outros,
assim como a outras áreas das manifestações artísticas, como a dança. Chew chegou de avião no dia 2 de novembro, indo direto para o hospital. Teve pouco tempo para se despedir da amiga de longos anos.
Martha foi especialista em música contemporânea e brasileira, dedicando-se, em
seus estudos e trabalhos acadêmicos, à pronúncia clara em sua língua adotiva:
enorme contribuição, seus alunos e colegas que o digam! (Ver texto acima, na imagem. Crédito: Fundunesp). Com tudo isso,
tornou-se cobiçada por nossos compositores, fazendo várias primeiras audições. Participou da estreia brasileira do ciclo completo do Anel dos Nibelungos, de Wagner, no IX Festival Amazonas de Ópera, mas
sempre reclamou que era raro ser chamada para grandes títulos de ópera, razão
pela qual firmou sua reputação como camerista ou solista de textos de câmara,
missas e motetos, além da música do séc 20, uma dedicada especialidade. A
última aparição como diva em um palco brasileiro foi na ópera Olga (2006), do
nosso ilustre amigo comum Jorge Antunes com libreto de Gerson Valle. Dos
bastidores, conheço a cena.
Prof. Dr. Jorge Antunes (Unb), compositor da ópera Olga. Divulgação
Em 2003, provavelmente, recebi Jorge Antunes, de Brasília, e o levei à
então sede Orquestra Experimental de Repertório, da Prefeitura de São Paulo.
Antunes veio puxando um carrinho de viagem com as três enormes partituras de
seu extenso trabalho de dez anos. Contemporâneo de invejável formação europeia,
uniu um tema histórico e o repente nordestino ao pai da grande ópera, Richard
Wagner, que o inspirou em um lindo intermezzo eletroacústico que cita o
prelúdio de Tristão e Isolda, do mestre
alemão. Outra citação é o canto do cisne do Liebestod (amor e morte), uma ária de quinze minutos
para o ocaso de Olga, tal qual a Isolda de Wagner.
Martha: Olga Benário presa, na ópera de Antunes
Dedicatória
Malsucedida a primeira tentativa, fui ao então Secretário de Cultura,
Calil, falar sobre a importância de estrear a ópera. Havia o livro do Fernando
Morais e o filme, e raras são as óperas brasileiras. Calil concordou, mas o
Teatro Municipal ofereceu um cachê para Martha e Fernando Portari simplesmente
inaceitável. Com presteza, Calil logrou quase triplicar os cachês, para um
valor digno. Em 14 de outubro de 2006 Olga finalmente estreou no olimpo, o
Municipal de SP, sob a batuta de José Maria Florêncio, um especialista em
óperas residente na Polônia. No camarim, após abraçar autor e soprano, recebi
uma dedicatória, o afago “ao querido amigo e grande músico”, do compositor, e
um agradecimento especial da cantora: “Obrigada por ajudar. Beijos, Martha”.
Com tudo o que nos
legou como artista, pesquisadora, professora, amiga de caráter exemplar,
escreveu uma página da nossa música, dedicando-a sem precisar de autógrafo ao país que
adotou. Martha nunca morreu, nem foi o falso cisne da lenda, pois cantou a vida
inteira! Apenas não se pode mais assisti-la ao vivo. Mas viva a Martha, que ainda vive
cantando dentro de nós.
Olga, ária final, com Martha - Liebestod, segundo Antunes
Uma polêmica além
do surreal. Mesmo que ninguém soubesse quem foi Simone de Beauvoir, a questão teria
sido simplíssima. Porém, os “diplomados” pelas redes sociais que tiram
conclusões apressadas já pelos meios-títulos cunhados com má intenção, sempre caem
na esparrela. Houve uma mocinha que escamoteou levianamente com o dedo a
segunda parte da questão nº 5, deixando entrever na postagem apenas o início:
“ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Jogou na rede e escreveu no caderno
da prova este descalabro: “nasci mulher, tenho vagina”. Simone pensava que
tornar-se mulher era quando ela se assumia como tal em uma sociedade em que “o
segundo sexo” (título do livro de onde saiu a frase) é subserviente. Ora,
talvez navegando em pensamentos da moda como “o sexo ou opção de gênero acontece
depois”, a garota desferiu um golpe mortal na lógica. A segunda parte da introdução,
que ela encobriu, explica que tornar-se mulher significa encontrar seu lugar na
sociedade machista. Nada a ver com sexualidade, ponto.
Usar jargão moderno
para se referir a uma frase de 65 anos atrás foi para lá de cabotino. As
respostas em múltipla escolha tiveram antes uma curta explicação, e essa quase que trazia embutida a resposta: “na década de 1960, a proposição de Simone de Beauvoir serviu
para estruturar um movimento social”. Ponto. Mostro minha discordância
quanto à clareza da pergunta, pois esta segunda parte, “na década de 1960”, é
uma redação dos que elaboraram a prova, nunca afirmação de Beauvoir. O livro de
Simone é de 1949, e a segunda frase do texto, que não é de autoria dela, refere-se a quase 18 anos depois. Para confundir mais ainda, em letras miúdas, a bibliografia do texto da questão: "BEAUVOIR, S. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980". Para atrapalhar ainda mais, a edição citada na bibliografia é de 1980. A tradução para o português foi no mesmo ano de lançamento, 1949, assim como naquele ano e mais de 30 idiomas, em 1950. Samba do candidato doido.
Movimento feminista: protesto no Brasil, anos 1960
Se
fossem respostas dissertativas, e não por múltipla escolha, dá para imaginar o
nível das explicações. Pois vamos a elas. (A) “Ação do poder judiciário para
criminalizar a violência sexual". Absurdo, não seria da alçada do
judiciário inventar algo que a lei não define. (B) “Proposição ao Poder
Legislativo para impedir a dupla jornada de trabalho”. Impedir? A “segunda
jornada” se refere ao lar, depois do trabalho, e é uma questão de divisão de
trabalhos domésticos, a mulher dando duro e o maridão descansando da lida. Não há como legislar sobre a intimidade do lar, indevassável pela Constituição. (C)
“Organização de protestos públicos para garantir a igualdade de gênero”. Seria
a resposta correta, fora a minha restrição aos citados anos 60, muito depois do
livro Simone. Meu filho cravou por lógica. E ainda me falou nas questões
femininas do pós-guerra. (D) “Oposição de grupos religiosos para impedir os
casamentos homoafetivos”. Naquela época? É coisa de dos dias hoje, o assunto nem sonhava
em ser cogitado. Tabu 100% (E) "Estabelecimento de políticas governamentais para
promover ações afirmativas”. Soa como coisa oficial, da Secretaria da Política
para as Mulheres ou discurso político.
A discussão, eivada
de maldades e distorções, foi além do ridículo. A literatura brasileira não foi
solapada pela francesa, pois a questiúncula (no diminutivo mesmo) era tão
curta, entre 45, que mais lembrava as “leituras silenciosas” do colégio.
Ninguém precisaria conhecer o pensamento da filósofa, sequer saber quem ela
foi. A simples lógica induz à opção correta. Simone propunha ideias feministas,
sim, e nunca pelas mãos do estado, haja vista que à mulher francesa foi
“concedida” a bênção do direito de votar apenas quatro anos antes de seu livro.
Não interessava - nem interessa ainda - ao estado machista abrir espaço às
mulheres. Ademais, o jargão empregado nas respostas erradas, (D) e (E), é
típico vocabulário recente brasileiro, sendo a (D) coisa da “bancada da
Inquisição” do Legislativo e (E) vindo de instâncias do governo, de cima para
baixo, e não de um movimento de conscientização popular, de baixo para cima. Conseguiram
radicalizar uma coisa simples, e pilantras dos mais reacionários e ignorantes
subiram ao palco armados. Segue-se um cenário de terror onde quem apavora são os
atores principais, autoridades da justiça e do Legislativo, dois poderes constituídos.
Gloria Steinem: a ativista sedutora
Nos anos 1960, a
que se refere a parte que não saiu do livro da Simone, e não ficou claro, mais precisamente nos
tempos de ouro 1968 a meados dos anos 1970, grandes líderes feministas
surgiram, em especial nos EUA, onde a mulher passou a ter o direito a voto já
em 1920, seguindo a Inglaterra (1918), e entre elas dois nomes se sobressaem:
Betty Friedan (1921-2006) e Gloria Steinem (1934). Essas sim, não pensadoras e
intelectuais como Simone de Beauvoir, mas ativistas provocadoras de atitudes em
favor da emancipação e dos direitos femininos. Steinem teve aliadas de peso,
como a atriz Jane Fonda, e um aspecto sedutor para mulheres e homens: era linda
na época. Usando essa condição, conseguiu disfarçada um contrato em bares da
revista Playboy, em que viveu e relatou as condições humilhantes e ridículas, e
o constante assédio a que as mulheres ali eram submetidas. Seguindo o modelo
das americanas, a brasileira Rose Marie Muraro (1930-2014) despontou como
líder, e militou nos anos 1970. A partir de 1980, passou a ser perseguida. Mas
voltemos ao início, o Enem e Beauvoir, lembrando que o dia 3 de novembro, terça, é comemorado internacionalmente, como o "Dia da Instituição do Direito de Voto da Mulher"!
Normal
o fato de a quase totalidade das pessoas não conhecer o trabalho de Beauvoir: estamos no século da escuridão, e não no século das luzes (18, pré-revolução
francesa), ou no 20 das proposições de Beauvoir, Marcuse e outros. Responder à questão implica apenas em
um mínimo de bom-senso, mesmo com todas as falhas do texto da prova. Agora, “ideologizar o ENEM”, como querem os radicais
das bancadas "da bala” e "da Inquisição”, Bolsonaro e Feliciano, como
sendo uma interferência ideológica do governo, é uma demonstração de que o
radicalismo e a ignorância imperam e correm sem freios.
Se a questão fez a
menina, por má-fé ou sendo usada, tampar o restante do preâmbulo e fotografar o caderno de
provas para fazer sobressair sua infeliz anotação “nasci mulher, tenho vagina”, só cabe lamentar. Também não descarto que ela possa ter sido usada. Talvez seja a busca pelos “15 minutos de fama” como
preconizou Andy Warhol – e essa fama hoje via redes sociais pode ser até curtida
anonimamente, mero prazer. Porém, uniu-se a outros ignorantes e oportunistas na
leitura maliciosa do texto. Para apimentar o festival de besteira - saudades
do FEBEAPÁ! -, vereadores de Campinas aprovaram, em 28/09, moção de repúdio
contra Simone de Beauvoir na prova do ENEM! (Será que conseguiram oficiá-la no
cemitério de Montparnasse?).
Revista Forum, 31 de outubro de 2015
Campos Filho (DEM)
bradou: “a questão é demoníaca (...) como alguém pode ser homem de dia e mulher
à noite?” Colégio e zero nele! Jaírson Canário (SD) saiu-se com essa pérola:
“se Deus quisesse que não tivesse diferença entre homem e mulher, teria feito
Adão com dois órgãos genitais” (sic). O analfabetismo e a cegueira grassam.
Erros de português, de pronúncia, de vocabulário legal (exarar é emitir
sentença ou decisão por escrito, e não opinar) macularam o alto status cultural
campineiro pela patuscada de seus legisladores. Sem falar no promotor de
justiça sorocabano Jorge Marum: “uma baranga francesa que não toma banho, não
usa sutiã e não raspa as axilas”. Um promotor de justiça! Onde andam a PGE (Procuradoria Geral do Estado) e a
Embaixada da França? Um representante do MP saiu de sua função para atingir uma
estrangeira e seu país, onde é um ícone histórico!
Já a redação
proposta no exame, “violência contra a mulher”, ou, em geral, "violência doméstica", não tem ideologia nem partido –
é sobre crime e ponto. Ter tido o privilégio de ter e poder ler Sartre e Simone
em casa e um pai que conheceu o casal em 1960 não me habilitariam melhor para
responder à questão do que qualquer leigo preparado para ingressar em uma
universidade. É puro conhecimento de história universal e um mínimo de inteligência.
Lembro-me de ter ouvido
tantas vezes, em tantos anos de universidade, que, desde a fundação, a USP não se
propõe a criar mão de obra para o “mercado de trabalho!”. Se isso acontece, é
por decisão do aluno, conquistada por opção e mérito. As públicas devem focar
nos formadores de opinião e futuros docentes, que, esses sim, deverão trabalhar
com a “mão de obra” nos mais diversos segmentos. Aí entra o ENEM. Com o nível a que estamos
chegando, será difícil levar o debate e a discussão de ideias, os questionamentos
– daí o sentido mais amplo de uma universidade – em todas as áreas do conhecimento, isoladas ou entre elas: a criação do saber! Apenas lamento que a ignorância
tenha atingido profundidade abissal e mostrado que o país está ferido de morte,
e, cada vez pior, sem perspectivas de sobrevida inteligente.
Das fábulas de que
mais gosto lembro-me de uma que ouvi há muitos anos, e que eu não conhecia até
então. Não lhe sei a origem, o que vale é a lição final, por isso merece ser aqui
narrada, especialmente por ser, digamos, uma fábula educadora. Mesmo não lhe
sabendo o autor, a quem reverencio, passo a descrevê-la, convidando o leitor à
reflexão, uma vez que serve como luva para ilustrar a vida do artista ou mesmo
a de qualquer pessoa que se destaca por sua capacidade, razão pela qual lhe
rogo especial atenção.
Certo dia um
vagalume, cintilante e serelepe, estava a revoar ziguezagueando pelos campos,
pisca-piscando aquela luzinha mágica que leva em sua cauda. Voava, perambulava
no ar como um colibri luminescente, até que se deparou com uma cobra, uma
perigosa cobra! Voou para mais longe, porém mais adiante deu de cara outra vez
com a malvada, que tentou abocanhá-lo cruelmente. O vagalume esquivou-se, foi
para mais longe, porém a cobra, matuta velha conhecedora daquelas pradarias,
embrenhou-se no mato e, rastejando, ressurgiu irada para devorar sua almejada
presa. Nosso herói luminescente, vivo que só, pairou no ar em distância segura
e resolveu interpelar quem o perseguia: não fiz nada para você, não lhe devo
nada, não sei se veio a mando de alguém, nem o que você apita. Além disso, não
faço parte de sua cadeia alimentar, esses matagais estão cheios de preás,
sapos, ratos e outros animais que lhe serviriam de repasto, como é do paladar
de qualquer serpente. Por que, então, me persegue? A cobra baixou a guarda, sem
argumentos, e sussurrou com ódio: é que eu detesto este seu brilho!
Fábula vem do latim
fabulae, estória, narrativa
alegórica, e tem ainda outros sentidos, pois além de criação para o público
infantil (e adulto!), pode referir-se também a mentira, golpe, e até mesmo a
algum valor incalculável, como quando alguém diz aquela casa custou uma fábula.
Como adjetivo, certa derivação se refere a algo muito além do esperado, assim posso
dizer que o show foi fabuloso, surpreendente, uma maravilha. No sentido
literário, pode-se usa-la como alegoria, ou seja, “(...) representar
pensamentos, ideias, qualidades de maneira figurada, em que cada elemento
funciona como disfarce da ideia apresentada” (Houaiss).
Ao pé da letra, uma
fábula usa estórias imaginárias entre bichos, como é o caso dessa do vagalume e
da serpente, ou as populares do leão e do rato e a da cigarra e da formiga.
Contam sobre animais falantes com comportamento humano em seus habitats
naturais para ilustrar uma ideia que, de alguma forma, faça as pessoas
refletirem sobre sua conclusão, uma lição de moral.
Outra fábula
inteligente conta de um escorpião e uma rã, que, ilhados em uma grande pedra no
meio do rio, veem as águas subindo por causa das chuvas, e assim seu espaço e a
esperança de permanecer na morada ficam cada vez mais reduzidos. Para a rã seria
apenas uma breve travessia, mas o pânico apossou-se do escorpião, que não nada.
Humilhou-se e, em uma última súplica, aos prantos, prometeu-lhe que não a
picaria, implorando-lhe uma carona. De princípio, ela negou categoricamente,
escorpiões são perigosos e traiçoeiros, mas, em ato de compaixão, impôs a
condição de o pretendente à carona jurar que não a picaria, com o que o
peçonhento animal, de pronto, concordou.
Subiu nas costas da
rã e lá foram, atravessando o rio. Do outro lado, mal chegando na margem, o
escorpião lhe pica mortalmente a nuca. A rã, agonizando, diz, entre gemidos lancinantes
de dor, você me prometeu, jurou, por que fez isso? Ao que o escorpião respondeu
desculpe, mas é da minha natureza, não posso fugir dela. Essa fábula questiona
até que ponto se pode confiar na aparente mudança na natureza de uma pessoa,
dada sua índole natural, sob uma face aparentemente diversa do seu caráter e
atitudes de tempos idos.
Esopo
Do Oriente milenar à
Grécia, com Esopo (6 a.C.), a fábula e suas variações chegam à França de La
Fontaine no século 17, à Dinamarca no séc. 18, e aos contos de Hans Christian
Andersen e os irmãos Grimm, alemães autores de O Patinho Feio e João e Maria. É
do século 19, do já citado Andersen, a estória conhecida no Brasil como A Roupa
Nova do Imperador, que hoje se faz bastante oportuna. Mesmo para quem já conhece,
vale revisita-la, para uma reflexão sobre os dias atuais.
Um rei extremamente
vaidoso contratou um costureiro recém-chegado, certamente de nome francês, comme il faut, para lhe fazer uma bela
veste para um desfile. Sem saber que o novo mestre da haute couture do reino era um vigarista da pior laia, pagou-lhe
muito ouro e joias para que confeccionasse para a ocasião as roupas mais lindas
e imponentes de todos os tempos. Ao apresentar sua criação, o costureiro, já
guardada a fortuna que recebera, estendeu sobre a enorme mesa do palácio, com
perfeição mímica, mantos e vestes feitos de... absolutamente nada. Mas
esclareceu que apenas os inteligentes e cultos poderiam ver aquelas roupas, e essas
palavras correram o reino inteiro.
Para não parecer ignorante,
o rei mostrou-se deslumbrado ante tanto luxo, emoção que contagiou seus nobres
que, cupinchas e servis que eram, no início entreolharam-se, mas logo
derramavam elogios à confecção e riqueza do novo vestuário. Chegado o dia do
desfile, o rei à frente de sua corte, inteiramente nu, de início foi aplaudido
pela multidão incrédula diante do que via, porém, contagiada pela magia do
poder e glamour do desfile, cedeu à ilusão daquela cena embusteira. De súbito,
um moleque desavisado, sem mais nem menos, gritou o que ninguém via, inebriados
que estavam pela sedução do desfile: “o rei está nu, o rei está nu!”. Não
demorou muito para que a multidão saísse do transe real e começasse a repetir
em coro o bordão “o rei está nu, o rei está nu”. O reino estava nu.
Em 1792, um ano
após a Morte de Mozart, Ludwig Van Beethoven muda-se para Viena. A cidade, após
a partida do gênio de Salzburg, acolheu o mestre de Bonn com a mesma
cordialidade, apesar de ele ser apenas um jovem talento, mas promissor aos 21
anos. Foi aceito como aluno de Joseph Haydn, entre outros, que lhe proporcionou
amplas perspectivas de crescimento musical. Cinco anos mais tarde, foi
constatada uma doença que lhe causou uma surdez degenerativa, e com a qual
deveria conviver e sofrer até o fim da vida. Dez anos depois de sua chegada à
capital da música europeia e duas sinfonias após, começa a escrever a sua
Sinfonia nº 3, ‘Eroica’, monumento musical que foi o grande marco do novo
caminho que haveria de trilhar.
Goethe e Beethoven (Adolf Karpellus)
O
problema maior de Beethoven era o gênio, a personalidade impossível de se
lidar. Seu grande amigo Wolfgang von Goethe achava-o um sujeito absolutamente
intratável, e o perfil mal visto dava a Beethoven a fama de pessoa conturbada e
geradora de problemas. Suas várias mudanças deveram-se quase sempre a crises
com vizinhos e senhorios, seu comportamento indomável era o mote das frequentes
trocas de residência.
Fortepiano (1817) de Beethoven
Seu fortepiano, então
um novo instrumento de maior volume do que o cravo, era mais um problema a
acrescentar – som, aliás, é motivo que ainda suscita discussões e crises para
músicos em todos os lugares do mundo: a perturbação do silêncio (já eu pagaria
para ter um vizinho como ele). As casas,
com seus pisos de madeira, tinham frestas entre as tábuas por onde escapava o
som que iria incomodar o vizinho de cima, de baixo ou de parede, que deixavam
também vazar algumas sobras da água que Beethoven usava, em jarras, para
refrescar sua cabeça e mãos sempre fervilhantes.
Quarto de Beethoven em Heilingenstadt
Heiligenstadt, subdistrito
de Viena com vestígios da ocupação romana, foi o destino escolhido para o
compositor tratar-se dos males trazidos pela depressão, a tortura da surdez
crescente, além dos óbvios sinais de algum tipo precoce de demência. Em 1802
Beethoven para lá se mudou, seguindo orientação médica. No final daquele mesmo
ano, redige um dos documentos mais famosos da história, depois conhecido como
"O Testamento de Heilingenstadt”, escrito aos seus irmãos Carl e Johann,
embora o nome do segundo tenha sumido do papel (ver o título do documento, abaixo) – com certeza, por conta de
algum desentendimento familiar, como de costume.
O Testamento de Heilingenstadt
Na verdade, esse
testamento ia muito além, era um desabafo insano sobre sua doença, a falta de
compreensão dos médicos e um depoimento sobre suas intenções de suicidar-se –
tragédia que nunca acontecera, fruto que era de seus delírios em espiral, sua
tempestade interior. Apesar de ter sido escrita em 1802, a carta revela que as
ameaças de terminar com a própria vida eram na verdade um desabafo para si
mesmo, apesar de que, na época, o documento também pudesse produzir efeitos
legais com relação aos bens que descrevera. O testamento foi descoberto somente
25 anos depois, após a morte de Beethoven, e permanece como um depoimento de
inestimável valor histórico.
Mesmo após o
isolamento em Heilingenstadt, Viena era um local onde a fama abria ao
compositor todas as portas, apesar de seus problemas de convívio e
intolerância. Seu pessimismo era outra marca, e bem o mostra o dia em que, ao
lado de seu grande amigo Goethe, passeando entre os belos e muito bem cuidados
arbustos e sebes da capital austríaca, resmungou que aquilo tudo lhe parecia um
bando de carneiros mortos. Um dia, em um sarau na casa do Conde Browne,
Beethoven apresentava seu aluno Ries ao pianoforte quando, diante do falatório
do Conde e convivas, que se refestelavam fartamente, foi-se embora, diz-se que aos resmungos.
Certa
vez, de braços com seu amigo de sempre, Goethe, viu a multidão e seu
companheiro curvarem-se em honra à imperatriz da Áustria, Maria Ludovica, cuja
carruagem se aproximava. Mas Beethoven não deu trela e continuou seu passo,
repreendendo Goethe pela subserviência. Conforme teria contado Beethoven
depois, em sua própria versão, a carruagem parou para que ele pudesse receber a
atenção da soberana e suas mais entusiasmadas deferências. O compositor já se
confundia com tudo e a todos, mas a cidade o tinha como grande trunfo.
Pois Beethoven continuou
com suas mudanças, sempre complicadas, uma espécie de sina interminável. Não
lhe importavam muito as coisas materiais, além do fortepiano, que era uma das
razões maiores de sua vida, instrumento no qual tocava e improvisava como
ninguém, e sobre ele esboçava suas obras cada vez mais complexas e grandiosas,
culminando na Sinfonia nº 9 -
ironicamente, para um deprimido, a “Ode à alegria”, cujo último
movimento traz um coral que entoa o lindo poema homônimo de Schiller. Apego a
lugares e coisas não eram afeitos ao seu estilo, mas todos sabiam que ali,
naquela cidade, estava um dos maiores gênios que o mundo já conhecera, e isso
lhes era motivo de júbilo. De mudança em mudança, era um misto de lenda e
malvisto cidadão, embora a certa altura já mais bem tolerado em função de sua
glória e seu nome, que ajudaram a guindar Viena ao patamar de centro da música
clássica e pré-romântica.
Um dia, um velho amigo por
acaso o encontrou, e disse que andava procurando-o desesperadamente, queria corresponder-se
com ele, mas não lhe sabia o endereço e ninguém conseguia informa-lo ao certo.
Perguntou-lhe para onde deveria endereçar suas cartas, para ter certeza. Disse-lhe
o compositor: “escreva apenas: Beethoven, Viena”.
Richard Wagner (1813-1883) andava, apesar da glória, endividado
até o pescoço. Tal qual nosso Carlos Gomes (1836-1896) nos seus últimos tempos no
Pará, que chegou a pular o muro para fugir de cobradores, apesar do prestígio.
Por essas e outras, além da paixão desmedida e impossível que sentia por
Mathilde, poeta e esposa de Wesendonk, seu protetor, Wagner viu-se obrigado a
uma escapada para a Suíça – não para um paraíso fiscal, onde hoje viveria na
fartura se tivesse alguma fortuna obscura, pois os então recém-fundados Crédit
Lyonnais e Crédit Suisse ainda não operavam como refúgio.
A Tetralogia de Wagner
Em meio a turbulências e paixões, interrompeu o volumoso
trabalho do “Anel do Nibelungo”, uma tetralogia monumental com as óperas “O
Ouro do Reino”, “A Valquíria”, “Siegfried” e “O Crepúsculo dos Deuses” - para compor esta obra que marcou o começo de
uma nova era na música universal. Wagner partiu de uma lenda celta (celtic, pronuncia-se keltik) do séc. 13,
etnia poderosa na Europa durante muito
tempo, e sobre a mitologia desses povos arquitetou “Tristan und Isolde”, um
drama musical sem precedentes. Foi o turning
point, o rompimento com a tradição de seu século.
Hans von Büllow
Na
obra, o compositor se liberta das amarras tradicionais, navegando em constantes
mudanças de tonalidade, melodias a vagar como espíritos. Introduz o cromatismo
(do grego khrôma, cores),
distanciando-se do chamado sistema tonal, e com isso traçou a linha divisória
entre este último (de quase três séculos), e os rumos futuros. Em 1868, a
ópera em três atos estreou enfim em Munique, sob a regência do poderoso Hans
Von Büllow.
O castelo de Cornwall
1º
ato: Tristão (Lula, tenor) e seu assistente Kurwenal (Rui Falcão, barítono) levam a
princesa Isolda (Dilma, soprano) ao palácio de Cornwall, para casar-se com o rei
Marcos (Temer, baixo) conforme o prometido. Em português, Cornwall é Cornuália –
palavra que, convenhamos, não soa lá muito bem. Coincidências à parte, é também
a terra para a qual foi agraciada duquesa a Srª Camilla Parker-Bowles, que com o príncipe Charles traiu a
belíssima Lady Di, um tema para uma bela ópera wagneriana!
Tristão e Isolda bebendo a poção mágica
(John Waterhouse, 1916)
Retomando, Brangäine (Marina,
mezzo-soprano), antiga apoiadora, odeia Tristão-Lula, por suspeitar dos maus-olhados
que teriam resultado na terrível morte acidental de seu noivo Morod (Campos), o
que levou à ruína o plano do casal. Isolda-Dilma pede a Brangäine-Marina que
prepare uma solução de um veneno infalível para matá-la juntamente com Tristão-Lula,
no que seria o rito da celebração do pacto de amor e morte. Porém, ao invés de
veneno, Brangäine-Marina, estrategicamente, despeja na taça um misterioso
filtro de amor, pois manter a união dos dois seria mais interessante para suas
ambições. Sentindo a proximidade da morte após beberem a poção, Tristão-Lula e
Isolda-Dilma olham-se fixa e desesperadamente, temendo o pior que ainda estaria
por vir.
O rei Marcos vai à caça
2º
ato: Isolda-Dilma se casa com o rei Marcos-Temer, em Cornwall. Certo dia, o rei
vai caçar (e como lembra “O Marido vai à Caça”, comédia de Feydeau!). No palácio,
Isolda-Dilma e Tristão-Lula se encontram, e em êxtase amam-se
enlouquecidamente. “Eu sei que vou te amar / desesperadamente eu vou te amar /
por toda minha vida / eu vou te amar / até a despedida...” (Como música de
fundo, Wagner teria feito uma citação a essa desvairada declaração de amor de
Vinicius e Tom Jobim, caso ela já existisse).
[A vida imita a arte: já com este blog pronto, Tristão volta ao castelo, onde, na ausência do rei Marcos-Temer, que havia ido à caça, entrega-se desesperadamente à amada Isolda (jornais de 14/10), selando o pacto de morte. Por fim, ontem (15/10) Kurwenal-Janot preparou o golpe de misericórdia em Melot-Cunha. Ópera da vida]
Melot (por Henry Kavill)
O
rei Marcos-Temer ouvira de Melot (Cunha, tenor/barítono) sobre o terrível affair, e decidiu retornar, flagrando-os
em tórrido romance, sem entender o porquê de Tristão-Lula trair-lhe os sonhos de
rei. Melot-Cunha, antes aliado de Marcos-Temer, golpeia o traidor, mas o rei
não o deixa mata-lo. Precisa dele vivo. Distante do poder, mas vivo.
O Castelo (Instituto) de Tristão
3º
ato: Em seu castelo (Instituto), Tristão, ferido, vai perdendo forças,
esvaindo-se, desesperado diante da proximidade de seu trágico e previsível fim.
Mas eis que aporta então um navio, e dele desembarca sua protegida Isolda.
Tristão, severamente machucado, arranca as ataduras que cobrem seus ferimentos
e corre, cambaleante, para os braços da amada, mas logo sucumbe à morte que o
aguardava. O rei Marcos-Temer, ao saber que a troca do veneno pelo “filtro de
amor” fora um engodo, resolve perdoar Isolda. Kurwewall (que ressurge como Janot) dá
fim a Melot-Cunha, outrora colaborador de Tristão e Marcos-Temer.
Waltraud Meier, ensaiando Isolda, no La Scala de Milão
Isolda,
desesperada, clama por um outro mundo, onde poderá se unir a Tristão no
mistério da eternidade. Canta, então, com enorme sofrimento, a fulgurante ária
“Liebestod” (amor e morte): “na resplandecência de uma luz imortal eu me
entrego e me regozijo”. “Suave e gentilmente / como ele sorri, com seus olhos /
profundamente abertos”... Ante todos, crédula,
ainda canta: “vocês podem ver, amigos? Vocês não veem? Como ele brilha ainda
mais ofuscante / como auréola de uma estrela?” (Trad. livre do A.) Nessa
entrega sublime, Isolda entra em profundo êxtase, uma espécie de nirvana,
transcendendo seu corpo e o de seu par, esvaindo-se em plena comunhão, fundindo
as duas almas no além.
Waltraud Meier, como Isolda, regência de Barenboim
Jornada ao desconhecido (foto de Kartik Bhat)
Wagner sequer chegou a pensar
em um 4º ato, porque sem os heróis da ópera, Tristão e Isolda, o desfecho tornara-se
absolutamente imprevisível. Preferiu encerrar a cena com a comunhão espiritual
de seus protagonistas. O “Liebestod”, canto de morte-amor, consagra-se talvez
como a mais longa e bela ária de paixão e sofrimento da história da ópera, o
final transcendente de um sonho que leva a heroína à fusão espiritual com seu
amado, rumo ao desconhecido.