José Teixeira Barbosa nasceu em novembro de 1915, em plena 1ª Guerra, foi contemporâneo da revolução
bolchevique, da depressão de 1919, do stalinismo, da 2ª Guerra, de Mussolini e
Hitler, nove papas e 27 presidentes da república, entre tantos fatos. Autodidata
na clarineta, completa 75 anos de música. Em São Paulo, foi desde professor e diretor
da Escola Roosevelt até músico de dancings, clubes onde homens com ternos
aprumados se exibiam como dançarinos. As moças usavam os tíquetes dos rapazes para
cálculo do valor a ser pago.
Teatro Procópio Ferreira: Conservatório de Tatuí
Com a
regularização profissional no Conservatório de Tatuí, Juca, mesmo recém-operado
do coração, reconfirmou-se na posição que já exercia há décadas, a de professor
de instrumento. Como os demais interessados, prestou processo seletivo, chamando
atenção por sua musicalidade e experiência. Seu registro do emprego em carteira
(CTPS) aos 93 mereceu destaque na imprensa regional e no Estadão: segundo o
Ministério do Trabalho da 15ª Região, não havia ali caso semelhante, quem sabe seria
o único no país. Preocupava-me vê-lo atravessar a rua com seus óculos de lentes
grossas, e, claro, muito mais sua família, quando pegava o carro e ia dar suas
“bandas”, como diz a rapaziada.
As
aulas do “Seu Juca” não se resumiam à técnica, ele falava do funcionamento das
chaves, ajustes na boquilha, escolha da palheta, controle do diafragma e postura
ao tocar - ou seja, além de dar aulas era um verdadeiro mestre, dono da calma e
da sabedoria que apenas esses têm. E era rigoroso, diziam os alunos. Belo dia,
resolveu se aposentar, dar lugar a alguém mais jovem.
Mr. David Walter, Juilliard School
Em
2006, em um congresso em Richmond (EUA), David Walter, ex-professor da
Juilliard de mais de 90 anos, ouviu um jovem tocar, ao contrabaixo, o prelúdio da
Suíte 3 de Bach para violoncelo. Ao terminar, houve longa pausa, e Walter abriu
os olhos. Contou o que um grande músico havia lhe dito sobre aquele prelúdio: “pense
nas ondas do mar, umas mais cheias, outras mais suaves, tudo fluindo no vaivém
harmonioso da natureza".
Pau Casals, o grande mestre do violoncelo
"Quem
me disse isso foi Pau (Pablo) Casals” - o maior nome do violoncelo, modelar na
interpretação das suítes. Pediu então que o jovem repetisse a peça, e, pasme, tudo
mudara da água para o vinho. Fortes aplausos, emoção geral. Não basta aprender
a mexer nas teclas, chaves ou cordas, há que se respirar o mesmo ar do mestre, tentar
sentir o que ele sente! Às vezes, poucas palavras bastam. Ou o silêncio e um
olhar. Bravo, “Seu Juca”. Salve!
Uso
um alerta do Ministério da Saúde, órgão do governo, contra um vilão responsável
pela morte de milhões de pessoas todos os anos no mundo inteiro: o cigarro. Faço
aqui um paralelo com a prática da corrupção, palavra tão enraizada no Brasil que
já carrega consigo um adjetivo de que nunca mais se libertará, pois além de
cacoete repetido ad nauseaum (trad.
liv.: até enjoar), tornou-se dela um amante inseparável: a corrupção é endêmica
(ameaça contínua a uma população), uma moléstia infectocontagiosa.
Vítimas da Gripe Espanhola (1918-1919)
Artigos
memoráveis, como “A taxonomia dos ratos”, do João Sayad (Folha de SP), livros, jornais, revistas, TV, tudo mostra que o país está
contaminado como fosse por nova a gripe espanhola, que matou 40 milhões de
pessoas, ou por peste negra, que riscou do mapa 75 milhões. Mas toda endemia,
alguma hora, perde para seu controle, como o sucesso na quase eliminação da
poliomielite, que deixou incontáveis atrofiados e paralíticos. Há remédio para
a corrupção? Sim. Toda endemia tem controle. Pode demorar um tempo, mas a
doença pode ser reduzida com novas descobertas, como nos casos da Aids e da
Zika, até conseguirmos sua redução a taxas insignificantes.
A Constituição de 1988, no inciso III de seu artigo
14, tem uma ferramenta já utilizada recentemente pela chamada Lei da Ficha Limpa,
que foi um grande passo, talvez o começo de tudo, e por iniciativa popular
(usada apenas quatro vezes!). O parágrafo 2º do artigo 61 estabelece que é
necessária a subscrição de um por cento do eleitorado nacional, ou seja, hoje, perto
de 1,5 milhão de assinaturas comprovadas. A PGR (Procuradoria Geral da
República) é órgão competente para, à frente do Ministério Público Federal,
levantar essas adesões certificadas em forma de Projeto de Lei. De nada servem
os abaixo-assinados que pululam nas redes sociais sobre coisas que só conseguem
tumultuar e confundir, como as “emendas constitucionais de iniciativa popular”,
ficção não contemplada pelo art. 60 da Carta Magna.
Prédio da PGR
O
MPF, para mais fácil compreensão, subintitulou este projeto “Dez medidas contra
a corrupção”. A claríssima e muito bem estudada redação, feita pela mais alta
“intelligentsia” jurídica, é cortante como o kataná, espada dos milenares xoguns
orientais. Entre os alvos do projeto estão (1) o “enriquecimento ilícito de
agentes públicos”, o acréscimo patrimonial injustificado de qualquer valor”,
(2) “prevenção à corrupção, transparência e proteção à fonte de informação”,
(3) “aumento de penas e crime hediondo para corrupção de altos valores” (4) “responsabilização
dos partidos políticos e criminalização do popular caixa dois”, (5) “reforma do
sistema de prescrição penal”, porta de saída para os poderosos, bem assistidos
por seus famosos advogados, (6) “celeridade nas ações de improbidade
administrativa”, (7) “eficiência dos recursos no processo penal”, (8) “ajustes
nas nulidades penais”, (9) “prisão preventiva para assegurar a devolução do
dinheiro desviado”, e (10) “recuperação do lucro derivado de crime”.
No site http://www.dezmedidas.mpf.mp.br/
há depoimentos em vídeo de Jorge Hage, Nicolau Dino, Márlon Reis e membros da
sociedade civil, como Maria Teresa Sadek, professora da USP, além do Procurador
Geral, Rodrigo Janot. Claro, há também o costumeiro apoio de intelectuais e
artistas, comme il faut (“como não
poderia deixar de ser”), no Brasil. (Veja, abaixo, um vídeo sobre o "Dez Medidas")
É óbvio
que, diploma legal a ser aprovado pelo Congresso Nacional, o sucesso da
empreitada vai depender da quantidade final de assinaturas, caso do “Ficha
Limpa”, com 1,6 milhões, à época (2010), idealizado por Márlon Reis, que também
participa da elaboração do atual projeto.
Ajudam as subscrições desde setores militares em defesa da legalidade, comunidades,
clubes, escolas, e, importantíssimo, as redes sociais como veículo para informação
e retirada dos documentos. Pode-se encontrar, no site, todas as informações,
depoimentos, explicações, gráficos, estatísticas e até um “assinômetro”, onde consta
o número de subscrições confirmadas, que devem conter dados pessoais, nome
completo e da mãe (para evitar homônimos) por extenso. Como não é uma corrente
e menos ainda uma moção da Internet com pouco conteúdo e nenhum alcance, há um
modelo de ficha com campos que podem ser preenchidos por até oito signatários, folhas
que podem ser impressas em qualquer quantidade, e devem ser enviadas pelo
correio no endereço do MPF disponível no site.
Almirante Barroso
Não
basta reclamar, espernear, esperar que pelas mãos de pessoas destemidas como o
juiz Sergio Moro e o hoje desembargador Fausto de Sanctis, o MPF, sem nunca
esquecer atuantes ministros do STF, façam tudo por nós nessa guerra. O
presidente John Kennedy, figura emblemática da história norte-americana, cunhou
uma frase célebre: "Não pergunte o que seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país". Bem
antes dele, nosso Almirante Barroso, um dos próceres da Guerra do Paraguai,
resumiu: "O Brasil espera que cada um cumpra com o seu dever".
Tento
fazer meu pequeníssimo grão de areia contribuir para erguer essa obra, divulgando
e coletando adesões. Se você se interessa, quer se assumir cidadão brasileiro
em sua plenitude, visite www.dezmedidas.mpf.mp.br
e conheça a propositura. Concordando, assine, convide outros interessados e tenha
orgulho de ter participado. Custa apenas um selo dos Correios. Colabore para vermos
um país mais digno para todos e aos que nos sucederem.
No dia 7 de
fevereiro de 1909 nascia, em Fortaleza, um menino mirrado, como tantos de sua
gente. Um entre apenas oito sobreviventes de treze irmãos, via em seu pai, João
Eduardo, dramaturgo amador e jornalista, a paixão pelas letras, compartilhada
por sua mãe, a professora Adelaide Câmara. Ela percebeu, logo cedo, que o
menino Hélder tinha algo especial, que o diferenciava de seus amiguinhos.
Talvez pensasse como na linda Gesú
bambino, de Lucio Dalla (versão brasileira pelo Chico): “minha mãe não
tardou a alertar toda a vizinhança / ao notar que eu estava bem mais que uma
simples criança”.
Aos quatro anos,
revelou sua devoção a Deus e aos catorze sua vocação inequívoca para o
sacerdócio, ingressando no Seminário da Prainha, de Fortaleza, onde além das matérias
regulares dedicou-se à teologia e obras dos grandes pensadores. Passou a ajudar
causas de mulheres e homens pobres e trabalhadores, assumindo seu papel de
missionário, e tornou-se um batalhador da educação, causa pela qual lutou com
especial afinco (tinha na memória sua mãe, sempre dividida entre a prole, os
deveres domésticos e o magistério).
"Anauê", saudação da AIB
Depois de mudar-se para o
Rio de Janeiro, foi seduzido pela Ação Integralista Brasileira, de Plínio
Salgado, com seu falso bordão “Deus, Pátria e Liberdade”. Afastou-se quando viu
o movimento assumir contornos político-partidários inspirados em Mussolini até
na saudação, o Anauê, braço levantado
como os soldados das milícias fascistas. Foi ordenado Bispo Auxiliar do Rio com
apenas 43 anos de idade.
Helder e Monsenhor Montini no Brasil
Com
o apoio do Monsenhor Montini, depois venerável papa Paulo VI, obteve a
aprovação para a criação da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil),
organização que esteve presente em todos os grandes momentos da Igreja Católica
e da história contemporânea de nosso país. A duas semanas do golpe de 1964, que
marcaria sua vida, foi indicado arcebispo de Olinda e Recife, e teve atuação
proeminente em toda a sociedade brasileira.
Hélder revelava-se
cada vez mais um soldado em luta pelos mais pobres, que entendia como sua
missão. Agregado à OFS (Ordem Franciscana Secular), foi simples como o
Francisco dos pássaros, no despojamento e no real voto de pobreza pela fé.
No peito, batiam forte seus profundos ideais.
"Quando dou de comer aos pobres, me chamam de santo.
Quando pergunto o porquê de os pobres não terem comida,
eles me chamam de comunista"
Por causa de suas missões
junto aos pobres, a perseguição política tornou-se implacável. Hélder foi
censurado, proibido de dar entrevistas e sequer mandar mensagens. Como que um
carimbo na testa, recebeu a “pecha infamante de comunista” (ironicamente,
expressão cunhada por Marx e Engels, em O Manifesto, usada ao avesso). Uma vez
“carimbado” o cidadão ficava marcado como fosse o número tatuado no braço dos
judeus presos nos campos de concentração. (Lembro-me de que, depois de
libertados da prisão, os humoristas de O Pasquim escreviam, bem ao seu estilo
gozador, coisas como “fulano, comunista igual a nós”, começando a fazer a pecha
cair no ridículo, pois comunistas eram todos os que se opunham ao regime. E
ponto).
Nelson Rogrigues (baconfrito.com)
Contra
Hélder, atacou-o doentiamente o dramaturgo Nelson Rodrigues, homem ligado à
ditadura (mesmo tendo o filho, também Nelson, sido preso e torturado). É da
lavra dele a maldosa alcunha “O Bispo Vermelho”, mais um estigma criado para
denegrir a imagem do religioso, então já maldita pelo regime, no afã de
isolá-lo completamente. Mas não. Em 1968, auge da repressão, publicou
“Revolução dentro da Paz” (Rio de Janeiro: Ed. Sabiá), traduzido em diversos idiomas,
talvez seu maior libelo em prol da pacificação pela justiça, direitos para
todos e contra a miséria aguda do povo.
General Médici e a Taça Jules Rimet (1970)
Entre as dezenas de
prêmios, títulos de cidadão honorário, doutor honoris causa e homenagens que
ganhou durante a vida em diversas partes do mundo, um lhe escapou quatro vezes,
por obra dos próceres da ditadura: indicado para o Prêmio Nobel da Paz por sua
luta pacífica, comparado a Ghandi, foi em 1970, por instrução do G.al
Garrastazu Médici, que o embaixador brasileiro na Noruega travou campanha no
Parlamento de Oslo e países escandinavos contra a concessão da láurea, pois
aquele Nobel poderia servir de “estímulo ao avanço comunista” (sic) na América Latina. Médiciqueria a glória para si, para o “ame-o ou deixe-o”, a taça da
copa de 1970, que, esta sim, ergueu com orgulho de técnico palpiteiro e herói,
capitalizando-a. Além de seu espírito censor e obcecado, talvez não lhe
fosse do agrado, afinal, um prêmio Nobel da Paz.
Com o papa João Paulo II
Mais recentemente,
uma comissão criada pelo então governador de Pernambuco, o recentemente
falecido Eduardo Campos, logrou obter farta documentação sobre a interferência
do regime de força contra a concessão do Nobel – de que o arcebispo seria o
único brasileiro laureado até hoje. Anos depois, Hélder recebeu um beijo na
testa do papa João Paulo II, que o saudou em público: “você é pelos pobres,
então você é dos meus”.
O enterro do Pe. Henrique, auxiliar de dom Hélder
O nome do religioso
era proibido na imprensa, uma simples menção provocava urticária nos arautos do
regime. Antônio Henrique, o padre auxiliar de Hélder, foi encontrado morto,
logo após o famigerado AI-5, com sinais de tortura e sevícias, tiros e
enforcamento, assassinato covarde e bárbaro ao estilo das vendettas das
máfias da Córsega – a repressão chamava isso de um sutil “exemplar os cidadãos”
(leia-se: apavorá-los). O caso foi abafado com mordaça e pá de cal, à maneira
do Stalin soviético, e severamente censurado em todos os órgãos de imprensa,
coisa de todos os tipos de ditadura. E assim como o estudante Edson Luís, morto no Rio na mesma
época, no Restaurante Calabouço, Pe. Henrique foi alçado à condição de mártir
da ditadura. Mas o recado ao bispo havia sido dado: cala-te, Hélder!
Dom Hélder e Madre Maria de Calcutá
Perdeu
o Nobel, láurea que pessoalmente não afagaria seu diminuto ego, não conhecia a
soberba da fama. Contudo, a visibilidade poderia ajudar no fortalecimento de
sua missão pelos que tinham fome e os perseguidos. Ironia da vida, em 2014 o
Vaticano acolheu o pedido de beatificação e santificação de Hélder Câmara,
apondo seu nihil obstat (nada a
obstar) ao seguimento do processo. A burocracia da Santa Sé tem seus dogmas, é demorada,
as exigências muitas, mas a anuência já concedida à análise do pedido abriu-lhe
a porta, que aliada ao anseio do papa Francisco em unir todo o seu rebanho, já
aponta ao menino prodígio e visionário de Fortaleza seu derradeiro destino.
Satyagraha, Zelotes, Catilinárias, Alegoria da Caverna
Zulmar Pimentel (Isto é)
O delegado Zulmar Pimentel, ex-diretor executivo da Polícia Federal, é homem de
sólida formação, versado em história, filosofia e mitologia, assuntos a que se
dedica com erudição de estudioso. Daí terem surgido criativos títulos
codificados para investigações de crimes de colarinho branco, fraudes e desvios.
Por soarem “como grego”, serviam para ocultar o esquema das fraudes dos
“ladrões de casaca”, expressão que tomo emprestada de um filme de Hitchcock.
Juiz Fausto De Sanctis e alunos (foto: Kazuo Watanabe)
Em 2008, a 6ª Vara
Federal condenou e prendeu, via Operação Satyagraha, o banqueiro Daniel Dantas
e alguns dos principais nomes envolvidos em um forte esquema. O responsável
pelo desfecho, cumprido pela Polícia Federal, foi o então juiz Fausto de
Sanctis, que destinou a entidades filantrópicas, por sentença, parte do
dinheiro apreendido em outra apuração, além de financiar a aquisição de
instrumentos musicais de qualidade para uma dúzia dos melhores alunos carentes
do Conservatório de Tatuí. A ideia foi gestada durante uma conversa em festa
ocorrida em São Paulo – ele, um amante da música, e eu, admirador do serviço
que ele prestava à nação.
Ghandi: "Um olho por olho somente
termina fazendo o mundo inteiro cego"
Mahatma Gandhi, em sua
luta pela independência da Índia, usava o termo Satyagraha, que unia as
palavras ‘Satya’, verdade, e ‘Agraha’, dura, luta pacifista que me lembra a
“Revolução dentro da Paz”, do nosso Dom Helder Câmara. Enquanto na concepção do
líder indiano a palavra servia para mostrar o rumo a seguir, a “nossa”
Satyagraha foi à residência do banqueiro Dantas e lá a PF encontrou farto
material sobre o propinoduto que abastecia contas escusas de políticos e
autoridades. O codinome serviu para encobrir a ação, sob sigilo absoluto.
Sergio Moro (jornaldocentrodomundo.com.br)
Da
Lava Jato, que celebrizou o juiz Sergio Moro, outra mais recente, a Operação
Catilinárias. Dessa vez, o título remete ao Senado romano, palco do discurso do
ícone da filosofia republicana latina, Cícero (106-43 a.C.), embebido nos
pensamentos de Platão (429-347 a.C.) em sua Politeia – aliás, nome de outra ação
policial.
Cícero
No Senado, o cônsul Cícero
acusa o golpista Lucius Catilina, proferindo seu famoso discurso: “Até quando,
Catilina, vais abusar de nossa paciência? Por quanto tempo vais caçoar de todos
com os teus delírios? Até que extremo vais te jogar nessa audácia sem
limites?”. A série de falas de Cícero ficou conhecida como “Catilinárias”. O
traidor foi condenado à morte e terminou fugindo, mas tombou em combate um ano depois.
Operação Catilinárias (jornalrondoniavip.com.br)
No
dia 15 de dezembro passado, a Polícia Federal armou uma vasta operação contra
integrantes de um partido político, cumprindo 53 mandados de busca e apreensão
por ordem do STF, inclusive nas propriedades do presidente da Câmara dos Deputados
e escritórios do presidente do Senado, entre outros.
Claudio Damasceno (foto: Sindfisco)
Outra operação de
vulto é a “Zelotes”, que investiga supostos desvios e corrupção no Carf
(Conselho de Arrecadação de Recursos Fiscais), do Ministério da Fazenda, que autua
e executa por diversos tipos de sonegação. Como apenas metade dos conselheiros
é composta por auditores concursados e a outra parte é voluntária, ou seja,
trabalha ‘de graça’, o presidente do Sindfisco, Claudio Damasceno, diz que são
facilmente seduzidos por ‘agrados’ de empresas arroladas nos autos. No rastro da
Zelotes, o ex-presidente Lula foi intimado a depor, a fim de prestar
esclarecimentos acerca de supostas influências em medidas provisórias do
governo federal, além de explicar contratação de mais de 2,5 mi à empresa de
seu filho mais novo.
Zelotes em Jerusalem
Zelotes de
Tessalônica, em meados do século 14, foi um grupo travestido de luta por
conquistas sociais. No século 1, os zelotes insuflavam o povo judeu contra o
Império Romano, ameaçando-o com o uso da força. Em hebraico, traduzido como
zelotés, designa quem defende o nome de Deus, mas na verdade era uma espécie de
confraria do mal, e teria provocado a derrubada de Jerusalém e do Templo de Iaweh,
construído por Salomão, sagrados ao povo hebreu. Terminaram cometendo suicídio
coletivo.
A Caverna (ilustração)
Em Juazeiro do
Norte, no dia 10 de dezembro, a Polícia Federal deflagrou a Operação Alegoria
da Caverna contra um grupo que fazia uso de coletes oficiais, documentos
falsos, posse ilegal de armas e invasão de domicílios, acusados também de formação
de quadrilha. Seus membros identificavam-se como sendo da Polícia Ferroviária
Federal, que apesar de prevista na Constituição nunca foi instituída.
Os mandados foram
cumpridos por determinação da 16ª Vara Federal em operação que leva o nome do texto,
também conhecido como Mito da Caverna, do filósofo grego Platão. No livro 7 de
seu Politeia (A República), o filósofo ensina o caminho para nos libertarmos da
escuridão da qual somos reféns, em busca da luz da verdade - e o perigo de
voltarmos.
Operação Navalha
Uma das operações policiais
criadas pelo ex-delegado Zulmar Pimentel quase o fez morrer do próprio veneno: na
chamada “Navalha”, em 2007, a própria passou rente ao seu pescoço: tentaram incriminá-lo
pelo vazamento de informações do esquema, que investigava empresários e
funcionários do governo. Foi gerado um processo administrativo (PAD), depois
arquivado, e a ação no STJ foi travada por liminar.
Encenação de Navalha na Carne: Tônia Carrero,
Nelson Xavier e Emiliano Queiroz (foto: Carlos Moscovicks)
O autor teatral
Plínio Marcos, se vivo, provavelmente teria sugerido o título “Navalha na
Carne”, nome de uma de suas peças mais importantes, que tem como personagens um
gigolô, uma prostituta e um travesti, e como cenário o quarto de um prostíbulo.
Se é que não foi ela própria que serviu de inspiração ao então delegado.
Para a Câmara
Municipal do Recife, música é prioridade
Marlos Nobre (blog de Mirella Martins)
Marlos
Nobre é brasileiro, recifense e cidadão do mundo, um ícone da nossa música. Aos
76, tem a energia de um jovem que luta e obtém o que se propõe, como todo bom
vencedor. Pianista, compositor, regente, é considerado por vários críticos o maior compositor vivo da América Latina e mesmo do continente ibero-americano (MARCO, Tomás.
Cuadernos de Música. Madrid: Fundación Autor, 2006). Ao ouvir sua obra, é
difícil confundi-la com a de qualquer outro compositor brasileiro: tem a
digital marcada na identidade artística. É brasileiro de corpo e alma, e,
embora nunca tenha sido um nacionalista ferrenho, deixa sua veia regional regar
todas as melhores influências.
Comungo
da opinião de Tomás Marco, no livro “Marlos Nobre, el sonido del realismo
mágico”: “As obras de Nobre possuem um magnetismo e uma força que as fazem
irresistíveis”. É inevitável a remissão de uma expressão do título deste livro,
que fala em “realismo mágico”, a outro latino, o escritor colombiano Gabriel
García Márquez, especialmente com referência à sua mítica cidade Macondo, de
“Cem anos de solidão”.
Royal Philharmonic Orchestra
Títulos
e cargos, ele os tem de sobra. Foi Presidente da Funarte, do Conselho
Internacional de Música da Unesco, em Paris, e da Rádio MEC, entre inúmeros
outros. Primeiro brasileiro a reger a Royal Philarmonic Orchesta, também esteve
à frente da prestigiosa ORTF francesa, a do Teatro Colón e outras. Tem assento
na cadeira nº 1, de Villa-Lobos, na Academia Brasileira de Música. Porém, seus
títulos maiores não são cargos e láureas, eles têm nome: “Convergências e
Desafio VII para piano e orquestra”, “Rythmetron”, para 10 percussionistas,
todas de 1968, “Biosfera”, de 1970, “Mosaico” e “Passacaglia” para grande
orquestra, ambas de 1997, entre quase 250 outras. Sua origem brasileira
predomina sobre as influências de seus grandes mestres: Messiaen, Ginastera,
Copland, Dallapiccola, Gunther Schuller e Guarnieri, entre outros. Sua escrita
é obra de tapeçaria intricada, absolutamente pessoal e inconfundível.
Rádio MEC
Conheci
Marlos Nobre visitando meus pais no Brasil, por volta de 1980, no Rio. Ele
estava na Rádio MEC, à frente de um projeto de reestruturação para a Sinfônica
Nacional. Achou que eu poderia colaborar, e, logo que voltei definitivamente ao
país em 1982, fui ao seu apartamento e de sua esposa, Maria Luiza Colker Nobre,
excelente pianista. Marlos estava se retirando do projeto, atropelado pela
imensa burocracia brasileira. Porém, nossa amizade começara musicalmente, como
não poderia deixar de ser: colaborei para a edição e estreei em Boston, em
1981, seu “Desafio IV para contrabaixo e piano” (ouça o áudio abaixo). Obra bastante complexa,
demandou-me estudo dedicado. O saudoso Steven Brewster, então spalla (solista
de naipe) dos contrabaixos da Sinfônica Nacional de Washington de Rostropovich,
disse que foi uma das melhores peças para o instrumento que ouvira nos últimos vinte anos!
O saudoso Eugene Egan: regente, violinista e grande piadista
Nobre
é diretor artístico infatigável da Orquestra Sinfônica do Recife, talvez a mais
antiga do Brasil em trabalho contínuo, 82 anos de vida! O conjunto foi criado
com a participação de Ernani Braga (1888-1948) e o maestro Vicente Fittipaldi.
Teve entre seus regentes Eleazar de Carvalho, que ousou avançar no repertório,
seguido por seu assistente, o saudoso Eugene Egan, que o substituiu, maestro e
violinista, com quem tive o prazer de tocar em um grupo de câmara. O Nobre
regente de hoje retoma a linha de trabalho de crescimento da orquestra, e faz
um trabalho de formiga até no verão, mas com fôlego de gigante. Ergueu o grupo,
e graças ao seu carisma tem projetado a Sinfônica do Recife como um novo
paradigma de crescimento musical no país. Lembro-me de Eleazar de Carvalho
afirmando que uma orquestra não se faz em dez anos, mas em cem. Marcará época.
O deslumbrante Teatro Santa Isabel, sede da OSR
A
casa da orquestra é o famoso Teatro de Santa Isabel, projeto neoclássico de
grande beleza do francês Louis Léger Vauthier que completa este anos 165 de
existência, um dos mais belos e imponentes prédios do Império. Bem mais antigo
do que os grandes Colón de Buenos Aires (1908) e os municipais do Rio (1909) e
São Paulo (1911), além do famoso Palais Garnier (Opera de Paris), de 1875. Já
recebeu Carlos Gomes, a bailarina Anna Pavlova, Jasha Heifetz e muitos outros.
Ter uma casa como essas ajuda a Sinfônica do Recife a crescer em sonoridade,
com a acústica incomparável das grandes construções antigas.
Nobre, à direita, na Câmara de Vereadores do Recife
Marlos
Nobre tem lutado por seu grupo como bom quixote, obcecado em dedicar-lhe de
presente à terra que lhe foi mãe, e galgando todas as etapas para a melhor
profissionalização da Sinfônica. Do último dia 16 de novembro, encerrou a
temporada de 2016 com sua Passacaglia para grande orquestra e a imponente
Sétima Sinfonia de Beethoven. Antes disso, porém, foi em pessoa batalhar por
uma ajuda de custo que elevasse o salário dos músicos a um patamar mais digno,
o que neste momento de crise é tarefa para um mestre tanto no pódio quanto na
articulação dos bastidores e coxias. Porém, com o legado cultural da cidade,
toda a cultura herdada dos anos holandeses e sua vocação artística, ainda
conseguiu, no dia 9 de novembro, a aprovação pela Comissão de Legislação e
Justiça ao projeto de lei que beneficia seus músicos. O relator, Raul
Jungmann, afirmou que a orquestra exerce um papel fundamental na formação da
sociedade não só de Recife, mas de todo o Brasil. É preciso ser mais do que
um grande compositor, um mestre, há que se compartilhar a arte de lutar e tornar-se
exemplo para todo o país. Noblesse oblige.
Era costume
entre os luteranos dos tempos de Johann Sebastian Bach que os enfermos se
despedissem da família, amigos e vida terrena no recesso de suas próprias
casas. Não foi diferente com ele em 1750, no segundo andar da Thomasschule, em sua
cama. Suas condições físicas já estavam comprometidas pela apoplexia,
ele sequer enxergava, apenas imaginava a estrada terminando logo à sua frente.
Confortavam-no orações, pequenos corais, um cravo ou clavicórdio, instrumentos
de sons suaves e celestiais. Não se tem certeza sobre se a obra que citarei foi
apenas uma revisão ou uma composição ditada pelo mestre a um de seus filhos ou
genro, nota por nota, linha por linha, ritmo por ritmo.
A letra é de pura devoção ao Pai, e a autoria é de Lutero. Leva o título
de Vor deinem Thron tret ich hiermit. (Ouça
essa maravilha no clipe abaixo deste parágrafo, gravado na Capela de Leipzig, onde Bach foi diretor musical. Sugiro deixar a música como fundo durante esta leitura). O texto pode ser livremente
traduzido como “Diante de vosso trono eu agora me apresento, ó Deus, e
humildemente vos suplico que não afaste vosso generoso rosto de mim, pobre
pecador".
Katharien Fuge, soprano; Nathalie Stutzmann, contralto; Christoph Genz,
tenor; Gotthold Schwarz, baixo. Coral Monteverdi. Regência: John Eliot Gardner
[“Nasci com a minha
morte / dela não vou abrir mão / não quero o azar da sorte / nem da morte ser
irmão / da sombra eu tiro o meu sol / e do fio da canção / amarro essa certeza
/ de saber que cada passo / não é fuga nem defesa / não é ferrugem no aço". Letra de Ruy Guerra para a música Canto Latino, de Milton Nascimento]
Bem antes
disso, Bach havia composto outro coral, intitulado Alle Menschen müssen sterben, ou “Todos os homens deverão morrer”.
Aceitação do destino, do inexorável, da única certeza que temos quando vivos, que
é a pergunta maior do fundo da alma humana, vazio em que todas as filosofias
pecam por gerar mais dúvidas do que certezas: o que é a existência? Nascer é a
condição maior sem a qual nada existiria.
Nos corais de Bach, há o sentido de devoção e resignação, diante do
verdadeiro porquê da vida. O pessimismo de apenas se viver (Schopenhauer), o
ser para não deixar de existir (Sartre), a vida pelo prazer, o bem supremo (hedonismo),
ou a negação de tudo (niilismo). Mas ainda se pode servir a Deus, deixar uma
contribuição para o mundo, entre tantas outras razões de se viver.
Maria Lucia
Christo Autran Dourado nasceu em 1928, em Belo Horizonte. Filha de um militar
sistemático e ultracatólico, reformado como general, José Carlos Campos
Christo, revolucionário constitucionalista como seu pai, o Cel. Vieira Christo,
oficial auxiliar direto do ex-governador e ex-presidente Artur Bernardes, que com
ele foi exilado posteriormente. Minha mãe odiava Getúlio desde que, criança,
ficara um ano e meio longe de seu pai, deportado e depois exilado na Europa. Sua
irmã Lourdinha só viria a conhecer o pai aos dois anos de idade, pois nascera
após a prisão de meu avô, com minha avó grávida.
Preciosidade que enviei ao 12º BI, sediado em Minas Gerais, em 2003. "Alma amargurada", do soldado-músico Salustiel José do Carmo, ao meu avô, pai de minha mãe: "Palida homenagem (...) ao Exmº Sr. José Carlos de Campos Christo, 1º tenente do nosso glorioso exército e seu grande benfeitor. Belo Horizonte, 10-5-932. Detalhe: revolução constitucionalista já armada e deflagrada apenas dois meses após.
Meu bisavô e avô de minha mãe, Cel. Vieira Christo e oficial auxiliar do ex-governador e ex-presidente Artur Bernardes, ambos também exilados, teve igualmente uma peça dedicada: "Dobrado Vieira Christo".
À direita, o Coronel Christo
(vovô Juquinha)
Minha avó
Lilia era uma pessoa dócil mas igualmente rigorosa, talvez um pouco áspera
pelos anos durante os quais, sozinha, foi chefe de família com a prole de quatro
filhos: Lígia, minha mãe, Marcelo e Beatriz. E Lourdinha, nascida depois da partida de meu avô.
Seguiram-se José Carlos, Carminha e Ângela, nascidos após o retorno de meu avô,
fora duas meninas falecidas ainda pequenas. De meus bisavós maternos,
generosamente, minha mãe herdou os olhos azuis, traço da invasão neerlandesa ao
Brasil no século 17, tempos em que Nassau deixou um legado cultural,
arquitetônico e artístico sem precedentes no Recife. Pois diante daquele azul
fustigante dos olhos maternos não se conseguia mentir, nada escapava, eles tudo
viam! Dela, recebi os olhos mais claros, mas o meu netinho inglês, Tommy, tem o
mesmo azul celeste de minha mãe, joias que, quem sabe, passará a quem o
descender. Profundos como Those ole blue
eyes, “aqueles velhos olhos azuis”, quase-alcunha de Frank Sinatra.
Difícil
dizer o quanto nossa mãe sofreu durante a ditadura de Getúlio, obrigada aos
insuportáveis desfiles cívicos e até discurso de apelo fascista que era
obrigada a enfrentar e ouvir ainda pequena, a saudação forçada ao homem que
tanto fizera sofrer seu próprio pai. Difícil imaginar a labuta de educar seus
filhos com esmero, acompanhando seu marido, jovem e futuro grande escritor,
como as estrelas pareciam ter-lhe escrito desde cedo.
JK, meu pai e o poeta Schmidt
Logo, iriam
para o Rio de Janeiro, onde meu pai haveria de assumir aos vinte e tantos anos
de idade um alto cargo na República, sendo dele seu primeiro titular na
história. Trabalho estressante, o de Secretário de Imprensa (hoje Porta-Voz) de
JK, respondendo por um mineiro visionário, cercado por artistas, especialmente escritores,
e intelectuais.
Meus pais com o afilhado Roberto Christo
(www.robertochristo.com.br)
Dona de
casa guerreira e intelectualizada, leitora compulsiva quando havia tempo,
compartilhou da melhor intelectualidade do Rio de Janeiro, cidade onde ficou com
meu pai após a mudança da capital para Brasília, em 1960. Minha mãe dedicou-se
a educar os quatro filhos dando de si muito mais do que podia e do que o
salário de meu pai, serventuário da Justiça do estado do Rio, poderia dispor, mas
sabia fazê-lo suficiente para a família.
Não bastasse
a ditadura de Vargas, minha mãe haveria de sofrer de perto uma segunda: 1964.
Com o golpe, o medo. Especialmente após o endurecimento do AI-5, com amigos, parentes
e ex-colaboradores de governo presos - o
próprio JK perdera os direitos políticos e sofrera outras sanções, além de ser
perseguido por ter, supostamente, “sido apoiado por comunistas” (sic), absurdo
dos absurdos. Um dia, o terror bateu à porta de casa. O porteiro avisou que lá
embaixo estava um sujeito que se identificou como policial, e que era para ele
descer. Meu pai avisou minha mãe, imagine a angústia, de que poderia ter
chegado a hora dele – um recatado escritor “formiga” (lembrando a fábula da cigarra), de trabalho artesanal e de
ourivesaria, como bem escreveu o crítico Humberto Werneck, e amedrontado como
tantos brasileiros, apesar de nunca ter segurado uma metralhadora ou participado de grupos
guerrilheiros.
JK: discurso
Desceu à
portaria, e o policial (do SNI, acho) pediu-lhe que o acompanhasse para uma
volta. Meu pai deve ter se lembrado de uma frase de efeito de inspiração bíblica
que escrevera em um fiapo de papel e colocara no bolso de JK durante um comício
em que o povo estava pouco empolgado. O presidente o leu e bradou “Deus
poupou-me o sentimento do medo!” (Palmas). Voltando ao policial, na breve
caminhada, o sujeito lhe disse que vinha com a missão de prendê-lo, mas que na
verdade o agradecia muito por sua filha. Meu pai não entendeu nada.
Iapetec, no Rio
É que o
senhor, quando trabalhava no Palácio do Catete, me fez um grande favor, disse
ele. Minha filha estava desempregada, estive com o senhor e lhe pedi uma ajuda.
O senhor lhe conseguiu uma vaga no Iapetec (o antigo Instituto de Aposentadoria e Pensões dos
Empregados em Transportes e Cargas). Sou-lhe
eternamente grato, continuou, pois então volto e informo que o deixei sob
condições restritas e que o estarei observando. Muito obrigado e adeus,
despediu-se. Imagine agora o que sentia minha mãe, lá de cima. Que aflição! Outra
vez, Senhor, primeiro meu avô e meu pai, agora o pai de meus filhos? Eu mesmo só
vim a saber dessa história depois, em uma conversa com ele e lendo mais tarde sobre
o episódio em seu Gaiola Aberta (Ed. Rocco). O fantasma da ditadura trouxera a sombra
do prisioneiro para minha mãe mais uma vez, como descreve várias vezes Cecília
Meireles em seu Romanceiro da Inconfidência.
Carlos Lacerda, no meio, com seguidores
Voltando um pouco, a
tentativa de golpe antes da posse de JK, as ameaças traiçoeiras do Carlos
Lacerda, sua patrulha udenista e setores militares (“JK, se for candidato, não
será eleito; se eleito, não tomará posse. Se tomar posse, cairá”). Frase, aliás,
tomada emprestada de Artur Bernardes e distorcida conforme sua conveniência). Fora
a posse garantida pelo Marechal Lott, houve ainda duas revoltas da aeronáutica.
Mais tarde, nos chamados “anos de chumbo” Frei Betto, primo de minha mãe, preso,
assim como Hélio Pellegrino, amigo da família, os humoristas do Pasquim, Cony, o
editor Joel Silveira (preso cinco vezes!) para todos tudo era motivo para o medo,
dia e noite. Fora o que ela relatou sobre mim, ano passado, sobre o meu
trabalho em peças teatrais do Chico Buarque, shows do Grupo Universitário de
Música, festivais e outros possíveis desafios à “ordem vigente”. Mas “Dona
Lúcia”, “nossa mãe”, como meu pai a ela carinhosamente se referia, era uma
pessoa de nervos de aço. Mandona, sim, mas extremamente carinhosa.
No dia 23
de novembro passado, data do falecimento de sua mãe Lilia e, consta, no mesmo
horário e em condições absolutamente semelhantes, com o despojamento dos
luteranos de Bach diante do fado inegociável, o destino, terminou por
entregar-se. Aos filhos, sozinhos e novamente crianças, restou a serenidade
diante do que seria um desejo já manifesto, e àquela altura obviamente
irreversível e já maturado pelo tempo. Para quem lutou energicamente uma vida
inteira sem conhecer fraqueza ou vacilo, restou-lhe tão somente aceitar os
impenetráveis desígnios de Deus. E assim a respeitamos na hora da despedida da
sua presença física, e apenas esta, pois sua chama de vida restará acesa em
todos os que tiveram com ela a enorme bênção de conviver.
A partir da esquerda: Ofélia, filha; Zé Paulo, genro; João, neto; Lucas, neto,
com seus irmãos Isabela e Pedro no colo, e Marta, ao seu lado; acima, eu; Lucia
e Autran, nossos pais, em momento de lazer em Petrópolis
Gonzaguinha
Peço vênia
ao Gonzaguinha para citar uma de suas letras mais inteligentes, que
bem exemplifica o mundo que nossa mãe nos deixou, e no final evocar as palavras
do poeta carioca, uma reverência aos memoráveis anos de que todos com ela
desfrutamos: “Nas avenidas as buzinas gritam alto a nova explosão / numa
vitrine está à mostra seu novo tipo de coração / é o progresso em nossa mão,
viva a civilização! / Um abraço terno em você, viu, mãe?"
Raríssimo momento, no Rio: de pé, meu pai (esq.) e vô Juquinha. Embaixo,
Vô Dourado, pai de meu pai, com Inês, minha irmã, no colo. Minha avó materna
Lilia, comigo no colo. Minha mãe, com Lúcio, irmão, minha bisavó materna, Zina, e Ofélia, irmã, no colo.