Nascido em 1913, em Zurich, Suíça, filho de pais imigrantes da
Checoslováquia, teve formação no afamado Mozarteum de Salzburg, com ênfase especial
no violoncelo. Tinha tudo para ser um bom músico. Aos 24 anos, veio para o Brasil e tentou
emprego em uma das poucas orquestras existentes, em Porto Alegre, mas o grupo encerrou
suas atividades. Passou a tocar em dancings, casamentos, rádios e até no
Cassino da Urca, no Rio.
Dulcimer
Essa experiência foi marcante em seu ecletismo musical, temperado
ainda pelos sons que seu pai, músico amador, tocava no dulcimer do folclore checo.
Descobriu que o universo dos sons ia muito além daquele que havia conhecido em
Salzburg e Viena, a música chamada universal do ocidente.
Instrumentos de Smetak (Sec. Cult. Bahia)
Em 1957, foi lecionar na Universidade Federal da
Bahia, onde fervilhavam novas ideias. Lá, dividiu seus conhecimentos e investiu
na música que gostava de fazer, mistura geral de culturas, melting pot que haveria de deixar profundas marcas no Brasil. Criou
diversos instrumentos, entre os feitos de PVC e outros com cocos e cabaças (grandes
frutos que, secos, ficam rijos como madeira) que serviam de caixa de
ressonância, tocados à maneira do Ravanastron indiano, com o arco empunhado por
trás (underhand).
Ravanastron
Envolveu-se com o universo dos microtons, intervalos menores
do que meios-tons (as doze teclas brancas e pretas da escala do piano), coisa comum
entre povos asiáticos. Já o movimento microtonal acadêmico do mexicano Julián
Carrillo chegou a influenciar Bloch e Ives.
Joe Maneri: outra lenda
Em Boston, eu tive a oportunidade de ter aulas com Joe
Maneri, que havia sido aluno de Alban Berg, expoente da segunda escola de Viena
de Schönberg. Não apenas conheci o universo que este último desenvolvera, o
dodecafonismo (construção quase matemática de séries de doze sons e suas variações
programadas), mas também o microtonalismo. Nada a ver com o indiano ou as
inflexões naturais do blues: era um sistema rígido para se lidar com partículas
menores do que meios tons, ou seja, um quarto, um oitavo, um doze avos (ou
ainda menos) de tom.
Monocórdio
Nesses experimentos, para se trabalhar uma curta obra era
necessário o tempo de uma aula inteira, utilizando como guia um monocórdio, artefato
empregado por Pitágoras (c. 570-495 a.C.) em seus estudos acústicos. Como o
nome diz, o monocórdio tinha apenas uma corda, e em seu corpo era colada uma
espécie de fita métrica com as distâncias exatas onde deveria se colocar um
anteparo que tocava a corda e produzia diferentes microtons.
Uákti (Foto Jefferson Oliveira)
Smetak não empregava essas partículas sonoras como os teóricos,
ele as usava livremente, à maneira asiática. Criou um time de fiéis seguidores,
como Tuzé de Abreu, Tom Zé e Marco Antonio Guimarães, responsável pela criação
do grupo mineiro Uakti (1978), descendente direto das criações do mestre, além
de influenciar Gil e Caetano.
Este último assumiu de vez o experimentalismo no LP Araçá
Azul, incursão que veio não para fazer sucesso, claro, era biscoito fino, mas foi
marco do limite a que havia chegado aquilo que Augusto de Campos, em seu livro
“Balanço da Bossa” (SP: Ed. Perspectiva, 1968), chamou “linha evolutiva da MPB”.
No Rio, seduziu e foi seduzido pela bela cantora Diana
Strella, filha de um dos integrantes do Bando da Lua de Carmen Miranda nos EUA,
que despontara em um dos Festivais da Canção no Maracanãzinho, com “Campos de
Arroz” (“My name is Mary K., noiva da América / ruiva de Robin-Holywood / a
ruiva noitenoiva de Mary Pickford / a pic-nic noiva de Mary Pickford”)
MAM: Miguel Oniga, e eu, violões. Ao centro, Regina Casé
(foto Jornal do Brasil)
Em 1975, no Rio, fui convidado para participar de uma série
de apresentações da peça “A Caverna”, de Smetak, no MAM (Museu de Arte
Moderna), local em cujo entorno acontecia de tudo nos fins de semana: Hélio
Oiticica, Capinam e Naná Vasconcelos - uma feira livre de arte gratuita, onde também
me apresentei com amigos. Tendo adotado o Brasil definitivamente, Smetak apaixonou-se
por uma mulata baiana e rodava para lá e para cá sua velha moto Harley Davidson,
que apelidara “Prostituta da Babilônia”.
Musicalmente, ele “organizava o caos” segundo sua ótica
particular. Na peça, havia cinco bailarinas seminuas e cinco músicos: além de
mim, lembro-me do violonista ítalo-argentino Gaetano Galifi e do percussionista
Joca Moraes. O diretor Jesus Chediak, paralelamente aos ensaios musicais, fazia
diariamente preleções sobre ocultismo, cabala, orixás, óvnis e tudo o mais que
pudesse sincretizar em nossas cabeças – naqueles tempos já bem feitas, aliás. A
direção do MAM não permitiu uma das ideias mirabolantes do Smetak, potes com
maconha ardendo em cada canto do teatro, por mais que o gênio tentasse explicar
com aquele seu sotaque inconfundível que “ninguém iria fumar”.
Terminou aceitando incenso no lugar da erva. Depois, quis que
os músicos raspassem a cabeça, mas eram tempos de longas melenas, o símbolo da
força contestatória dos nossos tempos, que estavam para nossa filosofia como os
cachos que davam força para Sansão. Já com a estreia próxima, acabou aceitando toucas
cor da pele, como os collants com que nos vestimos.
Caverna em São Tomé das Letras (MG)
Entre artefatos acústicos (como um kinder-ovo gigante aberto
ao meio), recitativos de “O Mito da Caverna”, de Platão, relatos de Óvnis e ETs
na mítica São Tomé das Letras (MG), usávamos aqueles instrumentos maravilhosos
que pacientemente aprendemos a tocar – e “não afinar, por favor”, tendo o
misterioso órgão de Smetak ao fundo. Havia ainda um sujeito que descia a rampa
da plateia em uma possante moto e fazia discursos em francês.
Era um misto de liberdade cênico-musical e uma saudável transcendência
sobre o real e os cânones tradicionais, aventura que ultrapassou o limiar do
rompimento com o conhecimento adquirido, celebração de um rito mágico. Aos 71,
em 1984, o mago nos deixou.
Nascido Gilbert Edmund Kaplan em
1941, em NY, era um poderoso empresário, jornalista (um “tycoon”, à maneira do
Cidadão Kane, do Welles), e tinha uma paixão: reger. Conto logo a seguir, meio
a algumas explicações, a história é muito saborosa. Ainda bem jovem, aos
26, Kaplan fundou a revista “Institutional Investor”. Vendeu-a 17 anos depois
por 75 milhões de dólares – US$ 171 milhões, em dinheiro de hoje, ou R$ 684
milhões.
Como hobby e paixão obcecada longe
dos negócios, passou a ouvir incessantemente a 2ª Sinfonia
("Ressurreição") de Gustav Mahler (1860-1911), uma das maiores obras
de todos os tempos, e começou a fazê-lo vinte anos antes de regê-la! Como adorava desafios, pagava aulas particulares a um professor da afamada Juilliard School de NY, mas não queria estudar teoria,
solfejo, contraponto, harmonia, essas coisas chatas de escola: só queria aprender a
reger a 2ª de Mahler!
Avery Fisher Hall
Alugava o afamado Avery Fisher
Hall, casa da Filarmônica de NY, e pagava músicos para que pudesse treinar a batuta
no comando de sua peça, a única, a “sua” sinfonia. Com muito dinheiro, criou a
Fundação Kaplan, que dava bolsas de estudos e promovia a música de Mahler.
Estreou em público em 1982, regendo a obra, e apenas cinco anos depois a
gravava, sob sua direção, com a Sinfônica de Londres. Três anos após, a afamada
Filarmônica de Viena.
Publicação de Kaplan
Adquiriu partituras e
manuscritos de Mahler, que estão sob a custódia da Morgan Library & Museum
de NY. Deu aulas na Juilliard School em curso noturno para aficionados – por
Mahler. E girou o mundo, regendo a sinfonia mais de 100 vezes, incluindo
orquestras estelares como as filarmônicas de Nova Iorque, São Petersburgo e Los
Angeles, a Royal Philarmonic de Londres e o La Scala. Após sua performance à
frente da orquestra de Melbourne, foi saudado em jantar por um discurso de
ninguém menos do que o primeiro-ministro da Austrália, Paul Keating, também
mahleriano.
Crítica e músicos se dividiam.
Membros da Filarmônica de Nova Iorque faziam coro contra Kaplan (coisa nada
incomum, tratando-se de orquestra refinada), enquanto o rigoroso The New York Times
publicou uma avaliação espetacular, comentando sobre a precisão, os detalhes, a
clareza do regente. Por essas e outras, ele foi convidado a reger a Philarmonia
Orchestra de Londres com o coro da Ópera Estatal de Viena na abertura do
festival de Salzburg, um Panteão da música. Ao final, dez minutos de aplausos
de pé, já era uma grande atração musical.
Joseph Brooks (nascido Kaplan) e seu Oscar
A paixão de Kaplan pela música veio
de seu irmão mais velho, Joseph Brooks, compositor que levou o primeiro prêmio
da Academy Award de 1977, com a canção You
light up my life, e suicidou-se antes de julgamento por 11 estupros de
jovens atrizes e 82 denúncias de abuso sexual. Antes da perda, mesmo atormentado pelos
problemas que demonizavam o irmão, Kaplan levou adiante sua obsessão, publicando
livros sobre a própria interpretação de Gustav Mahler para a segunda sinfonia,
entre vários outros. Bancou a edição do manuscrito original da “Ressurreição” e
gravou a obra mais de cinco vezes com grandes orquestras do mundo.
Mahler compôs o primeiro movimento
desta sinfonia em 1888, como poema sinfônico à parte, chamado Totenfeier, celebração funeral. Em 1897, a
obra completa teve sua primeira edição impressa pela Hoffmeister. A
orquestração é tão monumental quanto a obra: 4 flautas, 4 oboés, 4 clarinetas,
4 fagotes, 1 contrafagote, 10 trompas, 10 trompetes, 4 trombones, sete
percussionistas, sendo dois deles timpanistas, com um enorme arsenal de
teclados e instrumental miscelâneo, mais tuba, conjunto offstage (atrás do palco), órgão, vozes soprano, contralto e enorme
coro misto, 2 harpas, cordas em grande número, com primeiros e segundos
violinos, violas, violoncelos e contrabaixos, alguns com uma 5ª corda grave. Ou
seja, um palco cravejado de músicos.
Em 1986, com tudo isso na
cabeça, Gilbert Kaplan veio ao Brasil, onde regeria nossa orquestra, a Osesp, à
época comandada pelo grande Eleazar de Carvalho, em concerto do Teatro Sérgio
Cardoso, sede temporária do conjunto. Trouxe consigo uma equipe enorme, e para
tanto reservou um andar inteiro de um hotel de luxo em São Paulo para
acomodá-la, sem falar em restaurantes finíssimos e aluguel de vans de primeira.
Veio também com sua equipe de filmagens e equipamentos, coisa para ninguém
botar defeito.
A apresentação foi um sucesso,
embora Kaplan não pudesse responder a perguntas básicas dos músicos. No
intervalo do primeiro ensaio, alguns de nós, eu entre eles, subimos ao pódio para ver, na
partitura, que diabos Kaplan lia. Surpresa: vários stick-ons, aqueles papeizinhos autocolantes, na partitura dele, diziam:
“entrada à direita, violoncelos”, em azul; “entrada à esquerda, violinos”, em
verde, e por aí vai. Ninguém do meu tempo de Osesp se esquece desse concerto,
especialmente os colegas com quem ainda mantenho contato, como o Edmilson Nery,
clarinetista, e Ozéas Arantes, trompista, Jed Barahal, violoncelista, Beth Del Grande, percussionista, Joel Gisiger, oboé, José Ananias e Rogério Wolf, flautas, entre tantos outros.
Foi uma bela experiência, a despeito de Kaplan não ser, exatamente, um maestro, mas provou que para se tornar um regente é preciso antes de tudo conhecer profundamente
a música que se deve reger, entender sua história, ter o controle da batuta,
mais do que se aprofundar em erudições acadêmicas. Estudo, claro, é indispensável,
mas sem música antes, nada feito. Dedico este texto a essa figura, que faleceu há
pouco mais de um mês, dia primeiro passado, pouco antes de completar 75 anos. Deixa
um exemplo de obsessão e paixão musical que pode mover montanhas.
(Ouça, abaixo, o 5º movimento - "Reerga-se" - da 2ª de Mahler,
com Gilbert Kaplan à frente da Filarmônica de Viena, gravado para a Deutsche
Grammophon)
Marquês de Pombal (Jean-Michel van Loo e Claude Vernet - 1766)
A Capitação (de capita, cabeça) foi um tributo
instituído pela Coroa Portuguesa em 1734, para acabar com a “ociosidade dos
negros e vadios em geral” (sic). Recaía sobre cada cabeça de escravo de
qualquer raça, e mesmo homens “pobres ou vadios”. Porém, a Coroa achava pouco,
e, conforme o Marquês de Pombal (1699-1782), “ou se extinguia a Capitação ou
Portugal perderia não só Minas, mas a própria Colônia”.
Degredados
No final do século XVIII, o
Brasil sofria com os abusos das autoridades e a cobrança de impostos, como a
taxação do quinto (1/5) do ouro extraído, que já vinha desde 1534. Passaram a
cobrar 100 arrobas, algo como 1.500 quilos anuais sobre o ouro obtido. As
tentativas de burla à cobrança eram severamente punidas e chegavam ao degredo,
ou seja, uma espécie de deportação violenta para algum território português na
África. Claro que, a uma certa altura do Ciclo do Ouro, a diminuição da
quantidade do metal extraído e a consequente perda na arrecadação já despertavam
a ira de Portugal.
Tapeçaria de tecelagem portuguesa
Como o ouro passou
a escassear e a cobrança não atingia mais tal enorme volume, soldados foram
autorizados a invadir as casas do povo de uma região e retirar tudo o que fosse
de algum valor. A Inconfidência Mineira de 1789
foi uma rebelião contra a Coroa Portuguesa e a cobrança de impostos e
confiscos. Mas a extorsão oficial já vinha de antes, 1785, quando a fabricação
de tecidos em todo o território da Colônia fora proibida, de forma a coibir a
competição com as indústrias portuguesas.
Grupo Globo
Criar
impostos, taxas e tributos sempre foi uma maneira de cobrir os monumentais
gastos da máquina pública, e mesmo com as gritas contra supostas eventuais
bitributações (cobranças em dobro) aqui e ali, eles persistem. O fantasma da
CPMF, guardado insepulto no armário e vivo como nunca, surge no afã de
arrecadar um volume enorme de recursos, 32 bilhões, pouco mais de 1% do
orçamento anual do país para 2016, de 3,05 trilhões.
Pezão, governador do Rio
Houve
até dança de tributos e números às vésperas do badalado réveillon carioca, dia
29 de dezembro passado: o governo do estado do Rio de Janeiro sancionou a lei
7.174/15, que aumenta a alíquota do Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e
Doação (ITCMD) que é cobrado sobre o bem herdado ou recebido em doação. Antes,
eram 2,5%, depois, avançaram para 4%, e agora saltam para 4,5%, ou 5%, conforme
o caso. Os preços dos imóveis no mercado do Rio são altíssimos, e até os de
outras grandes cidades, como Niterói, Campos de Goytacazes, São Gonçalo e Duque
de Caxias, além de estâncias como Petrópolis e Teresópolis. A sangria da
Colônia se repete, e como disse um economista e pensador do passado, desta vez
como farsa.
Evolução do ITCMD
Tomemos
um exemplo prático, o do herdeiro de um imóvel no valor de R$ 1,3 mi: ele teria
de desembolsar R$ 91.000,00 de ITCMD, já somados os 2% de Imposto sobre
Transmissão de Bens Imóveis (ITBI), da esfera municipal, para ter direito ao
bem recebido por direito. Pior ainda, o imposto devido pelo usufrutuário – que
não é proprietário, mas tem ‘usos e frutos’ de um imóvel por ele doado passou a
100% do valor, contra os 50% anteriores. Isso quer dizer também que, no caso de
falecimento do doador que tem o usufruto do imóvel, o ônus recairá
integralmente sobre os herdeiros, se o ITCMD já não tiver sido pago no ato da
transmissão por doação em cartório. Recebe-se um imóvel, mas para tê-lo
pagam-se impostos enormes.
(marioquintanaresidencial.com)
Considerando
a média do preço do metro quadrado na cidade do Rio, R$ 8.514,00, conforme
pesquisa com quase 69 mil unidades feita pela Agente Imóvel, um apartamento
básico de 100 m² valeria R$ 851 mil. E isso é a média. Já na região de Ipanema,
onde o preço às vezes supera em muito os 20 mil/metro, um apartamento de 150
m², metragem nada exuberante para a área, vai custar mais de 3 milhões, e os
impostos (ITCMD e ITBI) chegarão a 210 mil.
Um
apartamento antigo em Ipanema, daquele sobre pilotis, com 107m², a cinco
quadras da praia, mais perto da Lagoa Rodrigo de Freitas, chega a custar 1.850
mil (R$ 129.500 de imposto), enquanto um na aprazível Vieira Souto, na orla da
praia, coisa de 25 milhões (1,75 milhões para os mesmos tributos).
Prédios de apartamentos na Av. Vieira Souto
Nessa
profusão de siglas e percentuais crescentes, temos a tributação “causa mortis”
no Rio recaindo também sobre direitos relativos a planos de previdência (PGBL)
ou ainda o Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL). A criação de novos
impostos, tributos e taxas é uma bola de neve, já que, uma vez bem sucedida,
todos tendem a copiar, na frente o governo federal, campeão na prática da
taxação.
STF no julgamento da ADI 1923 (OS): 17 anos
Uma vez aprovados por lei, a tentativa de
contestação dos impostos poderá ser feita por meio de Ação Direta de Inconstitucionalidade
(ADI) no STF, um processo excessivamente moroso e complicado, dado o imenso
acúmulo de ações no Supremo – coisa de uns bons anos. Sei que é cansativo, sim,
ouvir falar de cifras, mas minha consciência de cidadão deve estar acima de minhas
preferências pessoais.
Afastado o risco da violência física ao
estilo da derrama colonial e suas invasões, o que vemos hoje é um enorme
achatamento de todas as classes e reflexos no já alto custo de vida dos mais
pobres, a reboque do aumento das alíquotas e mesmo criação de mais e mais
impostos. Nossas casas são invadidas não pela derrubada de portas e intrusões
como na época da Colônia, mas sim pela nossa entrada principal e sem
boas-vindas ou pedir licença, contas da novena nossa de cada dia, esse rosário
sem fim.
José Teixeira Barbosa nasceu em novembro de 1915, em plena 1ª Guerra, foi contemporâneo da revolução
bolchevique, da depressão de 1919, do stalinismo, da 2ª Guerra, de Mussolini e
Hitler, nove papas e 27 presidentes da república, entre tantos fatos. Autodidata
na clarineta, completa 75 anos de música. Em São Paulo, foi desde professor e diretor
da Escola Roosevelt até músico de dancings, clubes onde homens com ternos
aprumados se exibiam como dançarinos. As moças usavam os tíquetes dos rapazes para
cálculo do valor a ser pago.
Teatro Procópio Ferreira: Conservatório de Tatuí
Com a
regularização profissional no Conservatório de Tatuí, Juca, mesmo recém-operado
do coração, reconfirmou-se na posição que já exercia há décadas, a de professor
de instrumento. Como os demais interessados, prestou processo seletivo, chamando
atenção por sua musicalidade e experiência. Seu registro do emprego em carteira
(CTPS) aos 93 mereceu destaque na imprensa regional e no Estadão: segundo o
Ministério do Trabalho da 15ª Região, não havia ali caso semelhante, quem sabe seria
o único no país. Preocupava-me vê-lo atravessar a rua com seus óculos de lentes
grossas, e, claro, muito mais sua família, quando pegava o carro e ia dar suas
“bandas”, como diz a rapaziada.
As
aulas do “Seu Juca” não se resumiam à técnica, ele falava do funcionamento das
chaves, ajustes na boquilha, escolha da palheta, controle do diafragma e postura
ao tocar - ou seja, além de dar aulas era um verdadeiro mestre, dono da calma e
da sabedoria que apenas esses têm. E era rigoroso, diziam os alunos. Belo dia,
resolveu se aposentar, dar lugar a alguém mais jovem.
Mr. David Walter, Juilliard School
Em
2006, em um congresso em Richmond (EUA), David Walter, ex-professor da
Juilliard de mais de 90 anos, ouviu um jovem tocar, ao contrabaixo, o prelúdio da
Suíte 3 de Bach para violoncelo. Ao terminar, houve longa pausa, e Walter abriu
os olhos. Contou o que um grande músico havia lhe dito sobre aquele prelúdio: “pense
nas ondas do mar, umas mais cheias, outras mais suaves, tudo fluindo no vaivém
harmonioso da natureza".
Pau Casals, o grande mestre do violoncelo
"Quem
me disse isso foi Pau (Pablo) Casals” - o maior nome do violoncelo, modelar na
interpretação das suítes. Pediu então que o jovem repetisse a peça, e, pasme, tudo
mudara da água para o vinho. Fortes aplausos, emoção geral. Não basta aprender
a mexer nas teclas, chaves ou cordas, há que se respirar o mesmo ar do mestre, tentar
sentir o que ele sente! Às vezes, poucas palavras bastam. Ou o silêncio e um
olhar. Bravo, “Seu Juca”. Salve!
Uso
um alerta do Ministério da Saúde, órgão do governo, contra um vilão responsável
pela morte de milhões de pessoas todos os anos no mundo inteiro: o cigarro. Faço
aqui um paralelo com a prática da corrupção, palavra tão enraizada no Brasil que
já carrega consigo um adjetivo de que nunca mais se libertará, pois além de
cacoete repetido ad nauseaum (trad.
liv.: até enjoar), tornou-se dela um amante inseparável: a corrupção é endêmica
(ameaça contínua a uma população), uma moléstia infectocontagiosa.
Vítimas da Gripe Espanhola (1918-1919)
Artigos
memoráveis, como “A taxonomia dos ratos”, do João Sayad (Folha de SP), livros, jornais, revistas, TV, tudo mostra que o país está
contaminado como fosse por nova a gripe espanhola, que matou 40 milhões de
pessoas, ou por peste negra, que riscou do mapa 75 milhões. Mas toda endemia,
alguma hora, perde para seu controle, como o sucesso na quase eliminação da
poliomielite, que deixou incontáveis atrofiados e paralíticos. Há remédio para
a corrupção? Sim. Toda endemia tem controle. Pode demorar um tempo, mas a
doença pode ser reduzida com novas descobertas, como nos casos da Aids e da
Zika, até conseguirmos sua redução a taxas insignificantes.
A Constituição de 1988, no inciso III de seu artigo
14, tem uma ferramenta já utilizada recentemente pela chamada Lei da Ficha Limpa,
que foi um grande passo, talvez o começo de tudo, e por iniciativa popular
(usada apenas quatro vezes!). O parágrafo 2º do artigo 61 estabelece que é
necessária a subscrição de um por cento do eleitorado nacional, ou seja, hoje, perto
de 1,5 milhão de assinaturas comprovadas. A PGR (Procuradoria Geral da
República) é órgão competente para, à frente do Ministério Público Federal,
levantar essas adesões certificadas em forma de Projeto de Lei. De nada servem
os abaixo-assinados que pululam nas redes sociais sobre coisas que só conseguem
tumultuar e confundir, como as “emendas constitucionais de iniciativa popular”,
ficção não contemplada pelo art. 60 da Carta Magna.
Prédio da PGR
O
MPF, para mais fácil compreensão, subintitulou este projeto “Dez medidas contra
a corrupção”. A claríssima e muito bem estudada redação, feita pela mais alta
“intelligentsia” jurídica, é cortante como o kataná, espada dos milenares xoguns
orientais. Entre os alvos do projeto estão (1) o “enriquecimento ilícito de
agentes públicos”, o acréscimo patrimonial injustificado de qualquer valor”,
(2) “prevenção à corrupção, transparência e proteção à fonte de informação”,
(3) “aumento de penas e crime hediondo para corrupção de altos valores” (4) “responsabilização
dos partidos políticos e criminalização do popular caixa dois”, (5) “reforma do
sistema de prescrição penal”, porta de saída para os poderosos, bem assistidos
por seus famosos advogados, (6) “celeridade nas ações de improbidade
administrativa”, (7) “eficiência dos recursos no processo penal”, (8) “ajustes
nas nulidades penais”, (9) “prisão preventiva para assegurar a devolução do
dinheiro desviado”, e (10) “recuperação do lucro derivado de crime”.
No site http://www.dezmedidas.mpf.mp.br/
há depoimentos em vídeo de Jorge Hage, Nicolau Dino, Márlon Reis e membros da
sociedade civil, como Maria Teresa Sadek, professora da USP, além do Procurador
Geral, Rodrigo Janot. Claro, há também o costumeiro apoio de intelectuais e
artistas, comme il faut (“como não
poderia deixar de ser”), no Brasil. (Veja, abaixo, um vídeo sobre o "Dez Medidas")
É óbvio
que, diploma legal a ser aprovado pelo Congresso Nacional, o sucesso da
empreitada vai depender da quantidade final de assinaturas, caso do “Ficha
Limpa”, com 1,6 milhões, à época (2010), idealizado por Márlon Reis, que também
participa da elaboração do atual projeto.
Ajudam as subscrições desde setores militares em defesa da legalidade, comunidades,
clubes, escolas, e, importantíssimo, as redes sociais como veículo para informação
e retirada dos documentos. Pode-se encontrar, no site, todas as informações,
depoimentos, explicações, gráficos, estatísticas e até um “assinômetro”, onde consta
o número de subscrições confirmadas, que devem conter dados pessoais, nome
completo e da mãe (para evitar homônimos) por extenso. Como não é uma corrente
e menos ainda uma moção da Internet com pouco conteúdo e nenhum alcance, há um
modelo de ficha com campos que podem ser preenchidos por até oito signatários, folhas
que podem ser impressas em qualquer quantidade, e devem ser enviadas pelo
correio no endereço do MPF disponível no site.
Almirante Barroso
Não
basta reclamar, espernear, esperar que pelas mãos de pessoas destemidas como o
juiz Sergio Moro e o hoje desembargador Fausto de Sanctis, o MPF, sem nunca
esquecer atuantes ministros do STF, façam tudo por nós nessa guerra. O
presidente John Kennedy, figura emblemática da história norte-americana, cunhou
uma frase célebre: "Não pergunte o que seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país". Bem
antes dele, nosso Almirante Barroso, um dos próceres da Guerra do Paraguai,
resumiu: "O Brasil espera que cada um cumpra com o seu dever".
Tento
fazer meu pequeníssimo grão de areia contribuir para erguer essa obra, divulgando
e coletando adesões. Se você se interessa, quer se assumir cidadão brasileiro
em sua plenitude, visite www.dezmedidas.mpf.mp.br
e conheça a propositura. Concordando, assine, convide outros interessados e tenha
orgulho de ter participado. Custa apenas um selo dos Correios. Colabore para vermos
um país mais digno para todos e aos que nos sucederem.
No dia 7 de
fevereiro de 1909 nascia, em Fortaleza, um menino mirrado, como tantos de sua
gente. Um entre apenas oito sobreviventes de treze irmãos, via em seu pai, João
Eduardo, dramaturgo amador e jornalista, a paixão pelas letras, compartilhada
por sua mãe, a professora Adelaide Câmara. Ela percebeu, logo cedo, que o
menino Hélder tinha algo especial, que o diferenciava de seus amiguinhos.
Talvez pensasse como na linda Gesú
bambino, de Lucio Dalla (versão brasileira pelo Chico): “minha mãe não
tardou a alertar toda a vizinhança / ao notar que eu estava bem mais que uma
simples criança”.
Aos quatro anos,
revelou sua devoção a Deus e aos catorze sua vocação inequívoca para o
sacerdócio, ingressando no Seminário da Prainha, de Fortaleza, onde além das matérias
regulares dedicou-se à teologia e obras dos grandes pensadores. Passou a ajudar
causas de mulheres e homens pobres e trabalhadores, assumindo seu papel de
missionário, e tornou-se um batalhador da educação, causa pela qual lutou com
especial afinco (tinha na memória sua mãe, sempre dividida entre a prole, os
deveres domésticos e o magistério).
"Anauê", saudação da AIB
Depois de mudar-se para o
Rio de Janeiro, foi seduzido pela Ação Integralista Brasileira, de Plínio
Salgado, com seu falso bordão “Deus, Pátria e Liberdade”. Afastou-se quando viu
o movimento assumir contornos político-partidários inspirados em Mussolini até
na saudação, o Anauê, braço levantado
como os soldados das milícias fascistas. Foi ordenado Bispo Auxiliar do Rio com
apenas 43 anos de idade.
Helder e Monsenhor Montini no Brasil
Com
o apoio do Monsenhor Montini, depois venerável papa Paulo VI, obteve a
aprovação para a criação da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil),
organização que esteve presente em todos os grandes momentos da Igreja Católica
e da história contemporânea de nosso país. A duas semanas do golpe de 1964, que
marcaria sua vida, foi indicado arcebispo de Olinda e Recife, e teve atuação
proeminente em toda a sociedade brasileira.
Hélder revelava-se
cada vez mais um soldado em luta pelos mais pobres, que entendia como sua
missão. Agregado à OFS (Ordem Franciscana Secular), foi simples como o
Francisco dos pássaros, no despojamento e no real voto de pobreza pela fé.
No peito, batiam forte seus profundos ideais.
"Quando dou de comer aos pobres, me chamam de santo.
Quando pergunto o porquê de os pobres não terem comida,
eles me chamam de comunista"
Por causa de suas missões
junto aos pobres, a perseguição política tornou-se implacável. Hélder foi
censurado, proibido de dar entrevistas e sequer mandar mensagens. Como que um
carimbo na testa, recebeu a “pecha infamante de comunista” (ironicamente,
expressão cunhada por Marx e Engels, em O Manifesto, usada ao avesso). Uma vez
“carimbado” o cidadão ficava marcado como fosse o número tatuado no braço dos
judeus presos nos campos de concentração. (Lembro-me de que, depois de
libertados da prisão, os humoristas de O Pasquim escreviam, bem ao seu estilo
gozador, coisas como “fulano, comunista igual a nós”, começando a fazer a pecha
cair no ridículo, pois comunistas eram todos os que se opunham ao regime. E
ponto).
Nelson Rogrigues (baconfrito.com)
Contra
Hélder, atacou-o doentiamente o dramaturgo Nelson Rodrigues, homem ligado à
ditadura (mesmo tendo o filho, também Nelson, sido preso e torturado). É da
lavra dele a maldosa alcunha “O Bispo Vermelho”, mais um estigma criado para
denegrir a imagem do religioso, então já maldita pelo regime, no afã de
isolá-lo completamente. Mas não. Em 1968, auge da repressão, publicou
“Revolução dentro da Paz” (Rio de Janeiro: Ed. Sabiá), traduzido em diversos idiomas,
talvez seu maior libelo em prol da pacificação pela justiça, direitos para
todos e contra a miséria aguda do povo.
General Médici e a Taça Jules Rimet (1970)
Entre as dezenas de
prêmios, títulos de cidadão honorário, doutor honoris causa e homenagens que
ganhou durante a vida em diversas partes do mundo, um lhe escapou quatro vezes,
por obra dos próceres da ditadura: indicado para o Prêmio Nobel da Paz por sua
luta pacífica, comparado a Ghandi, foi em 1970, por instrução do G.al
Garrastazu Médici, que o embaixador brasileiro na Noruega travou campanha no
Parlamento de Oslo e países escandinavos contra a concessão da láurea, pois
aquele Nobel poderia servir de “estímulo ao avanço comunista” (sic) na América Latina. Médiciqueria a glória para si, para o “ame-o ou deixe-o”, a taça da
copa de 1970, que, esta sim, ergueu com orgulho de técnico palpiteiro e herói,
capitalizando-a. Além de seu espírito censor e obcecado, talvez não lhe
fosse do agrado, afinal, um prêmio Nobel da Paz.
Com o papa João Paulo II
Mais recentemente,
uma comissão criada pelo então governador de Pernambuco, o recentemente
falecido Eduardo Campos, logrou obter farta documentação sobre a interferência
do regime de força contra a concessão do Nobel – de que o arcebispo seria o
único brasileiro laureado até hoje. Anos depois, Hélder recebeu um beijo na
testa do papa João Paulo II, que o saudou em público: “você é pelos pobres,
então você é dos meus”.
O enterro do Pe. Henrique, auxiliar de dom Hélder
O nome do religioso
era proibido na imprensa, uma simples menção provocava urticária nos arautos do
regime. Antônio Henrique, o padre auxiliar de Hélder, foi encontrado morto,
logo após o famigerado AI-5, com sinais de tortura e sevícias, tiros e
enforcamento, assassinato covarde e bárbaro ao estilo das vendettas das
máfias da Córsega – a repressão chamava isso de um sutil “exemplar os cidadãos”
(leia-se: apavorá-los). O caso foi abafado com mordaça e pá de cal, à maneira
do Stalin soviético, e severamente censurado em todos os órgãos de imprensa,
coisa de todos os tipos de ditadura. E assim como o estudante Edson Luís, morto no Rio na mesma
época, no Restaurante Calabouço, Pe. Henrique foi alçado à condição de mártir
da ditadura. Mas o recado ao bispo havia sido dado: cala-te, Hélder!
Dom Hélder e Madre Maria de Calcutá
Perdeu
o Nobel, láurea que pessoalmente não afagaria seu diminuto ego, não conhecia a
soberba da fama. Contudo, a visibilidade poderia ajudar no fortalecimento de
sua missão pelos que tinham fome e os perseguidos. Ironia da vida, em 2014 o
Vaticano acolheu o pedido de beatificação e santificação de Hélder Câmara,
apondo seu nihil obstat (nada a
obstar) ao seguimento do processo. A burocracia da Santa Sé tem seus dogmas, é demorada,
as exigências muitas, mas a anuência já concedida à análise do pedido abriu-lhe
a porta, que aliada ao anseio do papa Francisco em unir todo o seu rebanho, já
aponta ao menino prodígio e visionário de Fortaleza seu derradeiro destino.