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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

WALTER SMETAK, SUÍÇO BAIANO - O bruxo musical que sacudiu o Brasil

Walter Smetak (bateia.com.br)
Nascido em 1913, em Zurich, Suíça, filho de pais imigrantes da Checoslováquia, teve formação no afamado Mozarteum de Salzburg, com ênfase especial no violoncelo. Tinha tudo para ser um bom músico. Aos 24 anos, veio para o Brasil e tentou emprego em uma das poucas orquestras existentes, em Porto Alegre, mas o grupo encerrou suas atividades. Passou a tocar em dancings, casamentos, rádios e até no Cassino da Urca, no Rio.


Dulcimer
Essa experiência foi marcante em seu ecletismo musical, temperado ainda pelos sons que seu pai, músico amador, tocava no dulcimer do folclore checo. Descobriu que o universo dos sons ia muito além daquele que havia conhecido em Salzburg e Viena, a música chamada universal do ocidente.   

Instrumentos de Smetak (Sec. Cult. Bahia)
Em 1957, foi lecionar na Universidade Federal da Bahia, onde fervilhavam novas ideias. Lá, dividiu seus conhecimentos e investiu na música que gostava de fazer, mistura geral de culturas, melting pot que haveria de deixar profundas marcas no Brasil. Criou diversos instrumentos, entre os feitos de PVC e outros com cocos e cabaças (grandes frutos que, secos, ficam rijos como madeira) que serviam de caixa de ressonância, tocados à maneira do Ravanastron indiano, com o arco empunhado por trás (underhand).

Ravanastron
Envolveu-se com o universo dos microtons, intervalos menores do que meios-tons (as doze teclas brancas e pretas da escala do piano), coisa comum entre povos asiáticos. Já o movimento microtonal acadêmico do mexicano Julián Carrillo chegou a influenciar Bloch e Ives.

Joe Maneri: outra lenda
Em Boston, eu tive a oportunidade de ter aulas com Joe Maneri, que havia sido aluno de Alban Berg, expoente da segunda escola de Viena de Schönberg. Não apenas conheci o universo que este último desenvolvera, o dodecafonismo (construção quase matemática de séries de doze sons e suas variações programadas), mas também o microtonalismo. Nada a ver com o indiano ou as inflexões naturais do blues: era um sistema rígido para se lidar com partículas menores do que meios tons, ou seja, um quarto, um oitavo, um doze avos (ou ainda menos) de tom.

Monocórdio
Nesses experimentos, para se trabalhar uma curta obra era necessário o tempo de uma aula inteira, utilizando como guia um monocórdio, artefato empregado por Pitágoras (c. 570-495 a.C.) em seus estudos acústicos. Como o nome diz, o monocórdio tinha apenas uma corda, e em seu corpo era colada uma espécie de fita métrica com as distâncias exatas onde deveria se colocar um anteparo que tocava a corda e produzia diferentes microtons.

Uákti (Foto Jefferson Oliveira)
Smetak não empregava essas partículas sonoras como os teóricos, ele as usava livremente, à maneira asiática. Criou um time de fiéis seguidores, como Tuzé de Abreu, Tom Zé e Marco Antonio Guimarães, responsável pela criação do grupo mineiro Uakti (1978), descendente direto das criações do mestre, além de influenciar Gil e Caetano.

Este último assumiu de vez o experimentalismo no LP Araçá Azul, incursão que veio não para fazer sucesso, claro, era biscoito fino, mas foi marco do limite a que havia chegado aquilo que Augusto de Campos, em seu livro “Balanço da Bossa” (SP: Ed. Perspectiva, 1968), chamou “linha evolutiva da MPB”.

No Rio, seduziu e foi seduzido pela bela cantora Diana Strella, filha de um dos integrantes do Bando da Lua de Carmen Miranda nos EUA, que despontara em um dos Festivais da Canção no Maracanãzinho, com “Campos de Arroz” (“My name is Mary K., noiva da América / ruiva de Robin-Holywood / a ruiva noitenoiva de Mary Pickford / a pic-nic noiva de Mary Pickford”)

MAM: Miguel Oniga, e eu, violões. Ao centro, Regina Casé
 (foto Jornal do Brasil)
Em 1975, no Rio, fui convidado para participar de uma série de apresentações da peça “A Caverna”, de Smetak, no MAM (Museu de Arte Moderna), local em cujo entorno acontecia de tudo nos fins de semana: Hélio Oiticica, Capinam e Naná Vasconcelos - uma feira livre de arte gratuita, onde também me apresentei com amigos. Tendo adotado o Brasil definitivamente, Smetak apaixonou-se por uma mulata baiana e rodava para lá e para cá sua velha moto Harley Davidson, que apelidara “Prostituta da Babilônia”.

Musicalmente, ele “organizava o caos” segundo sua ótica particular. Na peça, havia cinco bailarinas seminuas e cinco músicos: além de mim, lembro-me do violonista ítalo-argentino Gaetano Galifi e do percussionista Joca Moraes. O diretor Jesus Chediak, paralelamente aos ensaios musicais, fazia diariamente preleções sobre ocultismo, cabala, orixás, óvnis e tudo o mais que pudesse sincretizar em nossas cabeças – naqueles tempos já bem feitas, aliás. A direção do MAM não permitiu uma das ideias mirabolantes do Smetak, potes com maconha ardendo em cada canto do teatro, por mais que o gênio tentasse explicar com aquele seu sotaque inconfundível que “ninguém iria fumar”.

Terminou aceitando incenso no lugar da erva. Depois, quis que os músicos raspassem a cabeça, mas eram tempos de longas melenas, o símbolo da força contestatória dos nossos tempos, que estavam para nossa filosofia como os cachos que davam força para Sansão. Já com a estreia próxima, acabou aceitando toucas cor da pele, como os collants com que nos vestimos.

Caverna em São Tomé das Letras (MG)
Entre artefatos acústicos (como um kinder-ovo gigante aberto ao meio), recitativos de “O Mito da Caverna”, de Platão, relatos de Óvnis e ETs na mítica São Tomé das Letras (MG), usávamos aqueles instrumentos maravilhosos que pacientemente aprendemos a tocar – e “não afinar, por favor”, tendo o misterioso órgão de Smetak ao fundo. Havia ainda um sujeito que descia a rampa da plateia em uma possante moto e fazia discursos em francês.

Era um misto de liberdade cênico-musical e uma saudável transcendência sobre o real e os cânones tradicionais, aventura que ultrapassou o limiar do rompimento com o conhecimento adquirido, celebração de um rito mágico. Aos 71, em 1984, o mago nos deixou. 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

GILBERT KAPLAN, O MAESTRO

...que só regia uma peça e não lia partitura

Nascido Gilbert Edmund Kaplan em 1941, em NY, era um poderoso empresário, jornalista (um “tycoon”, à maneira do Cidadão Kane, do Welles), e tinha uma paixão: reger. Conto logo a seguir, meio a algumas explicações, a história é muito saborosa. Ainda bem jovem, aos 26, Kaplan fundou a revista “Institutional Investor”. Vendeu-a 17 anos depois por 75 milhões de dólares – US$ 171 milhões, em dinheiro de hoje, ou R$ 684 milhões.

Como hobby e paixão obcecada longe dos negócios, passou a ouvir incessantemente a 2ª Sinfonia ("Ressurreição") de Gustav Mahler (1860-1911), uma das maiores obras de todos os tempos, e começou a fazê-lo vinte anos antes de regê-la! Como adorava desafios, pagava aulas particulares a um professor da afamada Juilliard School de NY, mas não queria estudar teoria, solfejo, contraponto, harmonia, essas coisas chatas de escola: só queria aprender a reger a 2ª de Mahler!

Avery Fisher Hall
Alugava o afamado Avery Fisher Hall, casa da Filarmônica de NY, e pagava músicos para que pudesse treinar a batuta no comando de sua peça, a única, a “sua” sinfonia. Com muito dinheiro, criou a Fundação Kaplan, que dava bolsas de estudos e promovia a música de Mahler. Estreou em público em 1982, regendo a obra, e apenas cinco anos depois a gravava, sob sua direção, com a Sinfônica de Londres. Três anos após, a afamada Filarmônica de Viena.

Publicação de Kaplan
Adquiriu partituras e manuscritos de Mahler, que estão sob a custódia da Morgan Library & Museum de NY. Deu aulas na Juilliard School em curso noturno para aficionados – por Mahler. E girou o mundo, regendo a sinfonia mais de 100 vezes, incluindo orquestras estelares como as filarmônicas de Nova Iorque, São Petersburgo e Los Angeles, a Royal Philarmonic de Londres e o La Scala. Após sua performance à frente da orquestra de Melbourne, foi saudado em jantar por um discurso de ninguém menos do que o primeiro-ministro da Austrália, Paul Keating, também mahleriano.

Crítica e músicos se dividiam. Membros da Filarmônica de Nova Iorque faziam coro contra Kaplan (coisa nada incomum, tratando-se de orquestra refinada), enquanto o rigoroso The New York Times publicou uma avaliação espetacular, comentando sobre a precisão, os detalhes, a clareza do regente. Por essas e outras, ele foi convidado a reger a Philarmonia Orchestra de Londres com o coro da Ópera Estatal de Viena na abertura do festival de Salzburg, um Panteão da música. Ao final, dez minutos de aplausos de pé, já era uma grande atração musical.

Joseph Brooks (nascido Kaplan) e seu Oscar
A paixão de Kaplan pela música veio de seu irmão mais velho, Joseph Brooks, compositor que levou o primeiro prêmio da Academy Award de 1977, com a canção You light up my life, e suicidou-se antes de julgamento por 11 estupros de jovens atrizes e 82 denúncias de abuso sexual. Antes da perda, mesmo atormentado pelos problemas que demonizavam o irmão, Kaplan levou adiante sua obsessão, publicando livros sobre a própria interpretação de Gustav Mahler para a segunda sinfonia, entre vários outros. Bancou a edição do manuscrito original da “Ressurreição” e gravou a obra mais de cinco vezes com grandes orquestras do mundo.

Mahler compôs o primeiro movimento desta sinfonia em 1888, como poema sinfônico à parte, chamado Totenfeier, celebração funeral. Em 1897, a obra completa teve sua primeira edição impressa pela Hoffmeister. A orquestração é tão monumental quanto a obra: 4 flautas, 4 oboés, 4 clarinetas, 4 fagotes, 1 contrafagote, 10 trompas, 10 trompetes, 4 trombones, sete percussionistas, sendo dois deles timpanistas, com um enorme arsenal de teclados e instrumental miscelâneo, mais tuba, conjunto offstage (atrás do palco), órgão, vozes soprano, contralto e enorme coro misto, 2 harpas, cordas em grande número, com primeiros e segundos violinos, violas, violoncelos e contrabaixos, alguns com uma 5ª corda grave. Ou seja, um palco cravejado de músicos.

Em 1986, com tudo isso na cabeça, Gilbert Kaplan veio ao Brasil, onde regeria nossa orquestra, a Osesp, à época comandada pelo grande Eleazar de Carvalho, em concerto do Teatro Sérgio Cardoso, sede temporária do conjunto. Trouxe consigo uma equipe enorme, e para tanto reservou um andar inteiro de um hotel de luxo em São Paulo para acomodá-la, sem falar em restaurantes finíssimos e aluguel de vans de primeira. Veio também com sua equipe de filmagens e equipamentos, coisa para ninguém botar defeito.

A apresentação foi um sucesso, embora Kaplan não pudesse responder a perguntas básicas dos músicos. No intervalo do primeiro ensaio, alguns de nós, eu entre eles, subimos ao pódio para ver, na partitura, que diabos Kaplan lia. Surpresa: vários stick-ons, aqueles papeizinhos autocolantes, na partitura dele, diziam: “entrada à direita, violoncelos”, em azul; “entrada à esquerda, violinos”, em verde, e por aí vai. Ninguém do meu tempo de Osesp se esquece desse concerto, especialmente os colegas com quem ainda mantenho contato, como o Edmilson Nery, clarinetista, e Ozéas Arantes, trompista, Jed Barahal, violoncelista, Beth Del Grande, percussionista, Joel Gisiger, oboé, José Ananias e Rogério Wolf, flautas, entre tantos outros.

Foi uma bela experiência, a despeito de Kaplan não ser, exatamente, um maestro, mas provou que para se tornar um regente é preciso antes de tudo conhecer profundamente a música que se deve reger, entender sua história, ter o controle da batuta, mais do que se aprofundar em erudições acadêmicas. Estudo, claro, é indispensável, mas sem música antes, nada feito. Dedico este texto a essa figura, que faleceu há pouco mais de um mês, dia primeiro passado, pouco antes de completar 75 anos. Deixa um exemplo de obsessão e paixão musical que pode mover montanhas.

(Ouça, abaixo, o 5º movimento - "Reerga-se" - da 2ª de Mahler, com Gilbert Kaplan à frente da Filarmônica de Viena, gravado para a Deutsche Grammophon)



sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

A SANGRIA DOS IMPOSTOS EM DUAS CRISES BRASILEIRAS


Marquês de Pombal (Jean-Michel van Loo e Claude Vernet - 1766)
A Capitação (de capita, cabeça) foi um tributo instituído pela Coroa Portuguesa em 1734, para acabar com a “ociosidade dos negros e vadios em geral” (sic). Recaía sobre cada cabeça de escravo de qualquer raça, e mesmo homens “pobres ou vadios”. Porém, a Coroa achava pouco, e, conforme o Marquês de Pombal (1699-1782), “ou se extinguia a Capitação ou Portugal perderia não só Minas, mas a própria Colônia”. 
Degredados
No final do século XVIII, o Brasil sofria com os abusos das autoridades e a cobrança de impostos, como a taxação do quinto (1/5) do ouro extraído, que já vinha desde 1534. Passaram a cobrar 100 arrobas, algo como 1.500 quilos anuais sobre o ouro obtido. As tentativas de burla à cobrança eram severamente punidas e chegavam ao degredo, ou seja, uma espécie de deportação violenta para algum território português na África. Claro que, a uma certa altura do Ciclo do Ouro, a diminuição da quantidade do metal extraído e a consequente perda na arrecadação já despertavam a ira de Portugal. 
Tapeçaria de tecelagem portuguesa
Como o ouro passou a escassear e a cobrança não atingia mais tal enorme volume, soldados foram autorizados a invadir as casas do povo de uma região e retirar tudo o que fosse de algum valor. A Inconfidência Mineira de 1789 foi uma rebelião contra a Coroa Portuguesa e a cobrança de impostos e confiscos. Mas a extorsão oficial já vinha de antes, 1785, quando a fabricação de tecidos em todo o território da Colônia fora proibida, de forma a coibir a competição com as indústrias portuguesas. 
Grupo Globo
Criar impostos, taxas e tributos sempre foi uma maneira de cobrir os monumentais gastos da máquina pública, e mesmo com as gritas contra supostas eventuais bitributações (cobranças em dobro) aqui e ali, eles persistem. O fantasma da CPMF, guardado insepulto no armário e vivo como nunca, surge no afã de arrecadar um volume enorme de recursos, 32 bilhões, pouco mais de 1% do orçamento anual do país para 2016, de 3,05 trilhões.  
Pezão, governador do Rio
Houve até dança de tributos e números às vésperas do badalado réveillon carioca, dia 29 de dezembro passado: o governo do estado do Rio de Janeiro sancionou a lei 7.174/15, que aumenta a alíquota do Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD) que é cobrado sobre o bem herdado ou recebido em doação. Antes, eram 2,5%, depois, avançaram para 4%, e agora saltam para 4,5%, ou 5%, conforme o caso. Os preços dos imóveis no mercado do Rio são altíssimos, e até os de outras grandes cidades, como Niterói, Campos de Goytacazes, São Gonçalo e Duque de Caxias, além de estâncias como Petrópolis e Teresópolis. A sangria da Colônia se repete, e como disse um economista e pensador do passado, desta vez como farsa.  
Evolução do ITCMD
Tomemos um exemplo prático, o do herdeiro de um imóvel no valor de R$ 1,3 mi: ele teria de desembolsar R$ 91.000,00 de ITCMD, já somados os 2% de Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI), da esfera municipal, para ter direito ao bem recebido por direito. Pior ainda, o imposto devido pelo usufrutuário – que não é proprietário, mas tem ‘usos e frutos’ de um imóvel por ele doado passou a 100% do valor, contra os 50% anteriores. Isso quer dizer também que, no caso de falecimento do doador que tem o usufruto do imóvel, o ônus recairá integralmente sobre os herdeiros, se o ITCMD já não tiver sido pago no ato da transmissão por doação em cartório. Recebe-se um imóvel, mas para tê-lo pagam-se impostos enormes. 
(marioquintanaresidencial.com)
Considerando a média do preço do metro quadrado na cidade do Rio, R$ 8.514,00, conforme pesquisa com quase 69 mil unidades feita pela Agente Imóvel, um apartamento básico de 100 m² valeria R$ 851 mil. E isso é a média. Já na região de Ipanema, onde o preço às vezes supera em muito os 20 mil/metro, um apartamento de 150 m², metragem nada exuberante para a área, vai custar mais de 3 milhões, e os impostos (ITCMD e ITBI) chegarão a 210 mil. 
Um apartamento antigo em Ipanema, daquele sobre pilotis, com 107m², a cinco quadras da praia, mais perto da Lagoa Rodrigo de Freitas, chega a custar 1.850 mil (R$ 129.500 de imposto), enquanto um na aprazível Vieira Souto, na orla da praia, coisa de 25 milhões (1,75 milhões para os mesmos tributos).
Prédios de apartamentos na Av. Vieira Souto


Nessa profusão de siglas e percentuais crescentes, temos a tributação “causa mortis” no Rio recaindo também sobre direitos relativos a planos de previdência (PGBL) ou ainda o Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL). A criação de novos impostos, tributos e taxas é uma bola de neve, já que, uma vez bem sucedida, todos tendem a copiar, na frente o governo federal, campeão na prática da taxação. 
STF no julgamento da ADI 1923 (OS): 17 anos
Uma vez aprovados por lei, a tentativa de contestação dos impostos poderá ser feita por meio de Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) no STF, um processo excessivamente moroso e complicado, dado o imenso acúmulo de ações no Supremo – coisa de uns bons anos. Sei que é cansativo, sim, ouvir falar de cifras, mas minha consciência de cidadão deve estar acima de minhas preferências pessoais. 

Afastado o risco da violência física ao estilo da derrama colonial e suas invasões, o que vemos hoje é um enorme achatamento de todas as classes e reflexos no já alto custo de vida dos mais pobres, a reboque do aumento das alíquotas e mesmo criação de mais e mais impostos. Nossas casas são invadidas não pela derrubada de portas e intrusões como na época da Colônia, mas sim pela nossa entrada principal e sem boas-vindas ou pedir licença, contas da novena nossa de cada dia, esse rosário sem fim.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

"SEU JUCA", UM SÉCULO DE TALENTO MUSICAL

Capa da Ensaio, com matéria de Deise Juliana
José Teixeira Barbosa nasceu em novembro de 1915, em plena 1ª Guerra, foi contemporâneo da revolução bolchevique, da depressão de 1919, do stalinismo, da 2ª Guerra, de Mussolini e Hitler, nove papas e 27 presidentes da república, entre tantos fatos. Autodidata na clarineta, completa 75 anos de música. Em São Paulo, foi desde professor e diretor da Escola Roosevelt até músico de dancings, clubes onde homens com ternos aprumados se exibiam como dançarinos. As moças usavam os tíquetes dos rapazes para cálculo do valor a ser pago.  


Teatro Procópio Ferreira: Conservatório de Tatuí
Com a regularização profissional no Conservatório de Tatuí, Juca, mesmo recém-operado do coração, reconfirmou-se na posição que já exercia há décadas, a de professor de instrumento. Como os demais interessados, prestou processo seletivo, chamando atenção por sua musicalidade e experiência. Seu registro do emprego em carteira (CTPS) aos 93 mereceu destaque na imprensa regional e no Estadão: segundo o Ministério do Trabalho da 15ª Região, não havia ali caso semelhante, quem sabe seria o único no país. Preocupava-me vê-lo atravessar a rua com seus óculos de lentes grossas, e, claro, muito mais sua família, quando pegava o carro e ia dar suas “bandas”, como diz a rapaziada.

As aulas do “Seu Juca” não se resumiam à técnica, ele falava do funcionamento das chaves, ajustes na boquilha, escolha da palheta, controle do diafragma e postura ao tocar - ou seja, além de dar aulas era um verdadeiro mestre, dono da calma e da sabedoria que apenas esses têm. E era rigoroso, diziam os alunos. Belo dia, resolveu se aposentar, dar lugar a alguém mais jovem.

Mr. David Walter, Juilliard School
Em 2006, em um congresso em Richmond (EUA), David Walter, ex-professor da Juilliard de mais de 90 anos, ouviu um jovem tocar, ao contrabaixo, o prelúdio da Suíte 3 de Bach para violoncelo. Ao terminar, houve longa pausa, e Walter abriu os olhos. Contou o que um grande músico havia lhe dito sobre aquele prelúdio: “pense nas ondas do mar, umas mais cheias, outras mais suaves, tudo fluindo no vaivém harmonioso da natureza".


Pau Casals, o grande mestre do violoncelo
"Quem me disse isso foi Pau (Pablo) Casals” - o maior nome do violoncelo, modelar na interpretação das suítes. Pediu então que o jovem repetisse a peça, e, pasme, tudo mudara da água para o vinho. Fortes aplausos, emoção geral. Não basta aprender a mexer nas teclas, chaves ou cordas, há que se respirar o mesmo ar do mestre, tentar sentir o que ele sente! Às vezes, poucas palavras bastam. Ou o silêncio e um olhar. Bravo, “Seu Juca”. Salve!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O MINISTÉRIO PÚBLICO ADVERTE: A corrupção pode matar o país

Uso um alerta do Ministério da Saúde, órgão do governo, contra um vilão responsável pela morte de milhões de pessoas todos os anos no mundo inteiro: o cigarro. Faço aqui um paralelo com a prática da corrupção, palavra tão enraizada no Brasil que já carrega consigo um adjetivo de que nunca mais se libertará, pois além de cacoete repetido ad nauseaum (trad. liv.: até enjoar), tornou-se dela um amante inseparável: a corrupção é endêmica (ameaça contínua a uma população), uma moléstia infectocontagiosa.

Vítimas da Gripe Espanhola (1918-1919) 
Artigos memoráveis, como “A taxonomia dos ratos”, do João Sayad (Folha de SP), livros, jornais,  revistas, TV, tudo mostra que o país está contaminado como fosse por nova a gripe espanhola, que matou 40 milhões de pessoas, ou por peste negra, que riscou do mapa 75 milhões. Mas toda endemia, alguma hora, perde para seu controle, como o sucesso na quase eliminação da poliomielite, que deixou incontáveis atrofiados e paralíticos. Há remédio para a corrupção? Sim. Toda endemia tem controle. Pode demorar um tempo, mas a doença pode ser reduzida com novas descobertas, como nos casos da Aids e da Zika, até conseguirmos sua redução a taxas insignificantes.

A Constituição de 1988, no inciso III de seu artigo 14, tem uma ferramenta já utilizada recentemente pela chamada Lei da Ficha Limpa, que foi um grande passo, talvez o começo de tudo, e por iniciativa popular (usada apenas quatro vezes!). O parágrafo 2º do artigo 61 estabelece que é necessária a subscrição de um por cento do eleitorado nacional, ou seja, hoje, perto de 1,5 milhão de assinaturas comprovadas. A PGR (Procuradoria Geral da República) é órgão competente para, à frente do Ministério Público Federal, levantar essas adesões certificadas em forma de Projeto de Lei. De nada servem os abaixo-assinados que pululam nas redes sociais sobre coisas que só conseguem tumultuar e confundir, como as “emendas constitucionais de iniciativa popular”, ficção não contemplada pelo art. 60 da Carta Magna.

Prédio da PGR
O MPF, para mais fácil compreensão, subintitulou este projeto “Dez medidas contra a corrupção”. A claríssima e muito bem estudada redação, feita pela mais alta “intelligentsia” jurídica, é cortante como o kataná, espada dos milenares xoguns orientais. Entre os alvos do projeto estão (1) o “enriquecimento ilícito de agentes públicos”, o acréscimo patrimonial injustificado de qualquer valor”, (2) “prevenção à corrupção, transparência e proteção à fonte de informação”, (3) “aumento de penas e crime hediondo para corrupção de altos valores” (4) “responsabilização dos partidos políticos e criminalização do popular caixa dois”, (5) “reforma do sistema de prescrição penal”, porta de saída para os poderosos, bem assistidos por seus famosos advogados, (6) “celeridade nas ações de improbidade administrativa”, (7) “eficiência dos recursos no processo penal”, (8) “ajustes nas nulidades penais”, (9) “prisão preventiva para assegurar a devolução do dinheiro desviado”, e (10) “recuperação do lucro derivado de crime”.

No site http://www.dezmedidas.mpf.mp.br/ há depoimentos em vídeo de Jorge Hage, Nicolau Dino, Márlon Reis e membros da sociedade civil, como Maria Teresa Sadek, professora da USP, além do Procurador Geral, Rodrigo Janot. Claro, há também o costumeiro apoio de intelectuais e artistas, comme il faut (“como não poderia deixar de ser”), no Brasil. (Veja, abaixo, um vídeo sobre o "Dez Medidas")




É óbvio que, diploma legal a ser aprovado pelo Congresso Nacional, o sucesso da empreitada vai depender da quantidade final de assinaturas, caso do “Ficha Limpa”, com 1,6 milhões, à época (2010), idealizado por Márlon Reis, que também participa da elaboração do atual projeto.  Ajudam as subscrições desde setores militares em defesa da legalidade, comunidades, clubes, escolas, e, importantíssimo, as redes sociais como veículo para informação e retirada dos documentos. Pode-se encontrar, no site, todas as informações, depoimentos, explicações, gráficos, estatísticas e até um “assinômetro”, onde consta o número de subscrições confirmadas, que devem conter dados pessoais, nome completo e da mãe (para evitar homônimos) por extenso. Como não é uma corrente e menos ainda uma moção da Internet com pouco conteúdo e nenhum alcance, há um modelo de ficha com campos que podem ser preenchidos por até oito signatários, folhas que podem ser impressas em qualquer quantidade, e devem ser enviadas pelo correio no endereço do MPF disponível no site.

Almirante Barroso
Não basta reclamar, espernear, esperar que pelas mãos de pessoas destemidas como o juiz Sergio Moro e o hoje desembargador Fausto de Sanctis, o MPF, sem nunca esquecer atuantes ministros do STF, façam tudo por nós nessa guerra. O presidente John Kennedy, figura emblemática da história norte-americana, cunhou uma frase célebre: "Não pergunte o que seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país". Bem antes dele, nosso Almirante Barroso, um dos próceres da Guerra do Paraguai, resumiu: "O Brasil espera que cada um cumpra com o seu dever". 

Tento fazer meu pequeníssimo grão de areia contribuir para erguer essa obra, divulgando e coletando adesões. Se você se interessa, quer se assumir cidadão brasileiro em sua plenitude, visite www.dezmedidas.mpf.mp.br e conheça a propositura. Concordando, assine, convide outros interessados e tenha orgulho de ter participado. Custa apenas um selo dos Correios. Colabore para vermos um país mais digno para todos e aos que nos sucederem. 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

HÉLDER CÂMARA: VERMELHO, NOBEL OU SANTO?

Seminário da Prainha, Fortaleza
No dia 7 de fevereiro de 1909 nascia, em Fortaleza, um menino mirrado, como tantos de sua gente. Um entre apenas oito sobreviventes de treze irmãos, via em seu pai, João Eduardo, dramaturgo amador e jornalista, a paixão pelas letras, compartilhada por sua mãe, a professora Adelaide Câmara. Ela percebeu, logo cedo, que o menino Hélder tinha algo especial, que o diferenciava de seus amiguinhos. Talvez pensasse como na linda Gesú bambino, de Lucio Dalla (versão brasileira pelo Chico)­­: “minha mãe não tardou a alertar toda a vizinhança / ao notar que eu estava bem mais que uma simples criança”.

Aos quatro anos, revelou sua devoção a Deus e aos catorze sua vocação inequívoca para o sacerdócio, ingressando no Seminário da Prainha, de Fortaleza, onde além das matérias regulares dedicou-se à teologia e obras dos grandes pensadores. Passou a ajudar causas de mulheres e homens pobres e trabalhadores, assumindo seu papel de missionário, e tornou-se um batalhador da educação, causa pela qual lutou com especial afinco (tinha na memória sua mãe, sempre dividida entre a prole, os deveres domésticos e o magistério).

"Anauê", saudação da AIB
Depois de mudar-se para o Rio de Janeiro, foi seduzido pela Ação Integralista Brasileira, de Plínio Salgado, com seu falso bordão “Deus, Pátria e Liberdade”. Afastou-se quando viu o movimento assumir contornos político-partidários inspirados em Mussolini até na saudação, o Anauê, braço levantado como os soldados das milícias fascistas. Foi ordenado Bispo Auxiliar do Rio com apenas 43 anos de idade.

Helder e Monsenhor Montini no Brasil
Com o apoio do Monsenhor Montini, depois venerável papa Paulo VI, obteve a aprovação para a criação da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), organização que esteve presente em todos os grandes momentos da Igreja Católica e da história contemporânea de nosso país. A duas semanas do golpe de 1964, que marcaria sua vida, foi indicado arcebispo de Olinda e Recife, e teve atuação proeminente em toda a sociedade brasileira.

Hélder revelava-se cada vez mais um soldado em luta pelos mais pobres, que entendia como sua missão. Agregado à OFS (Ordem Franciscana Secular), foi simples como o Francisco dos pássaros, no despojamento e no real voto de pobreza pela fé. No peito, batiam forte seus profundos ideais.

"Quando dou de comer aos pobres, me chamam de santo.
Quando pergunto o porquê de os pobres não terem comida,
eles me chamam de comunista"
Por causa de suas missões junto aos pobres, a perseguição política tornou-se implacável. Hélder foi censurado, proibido de dar entrevistas e sequer mandar mensagens. Como que um carimbo na testa, recebeu a “pecha infamante de comunista” (ironicamente, expressão cunhada por Marx e Engels, em O Manifesto, usada ao avesso). Uma vez “carimbado” o cidadão ficava marcado como fosse o número tatuado no braço dos judeus presos nos campos de concentração. (Lembro-me de que, depois de libertados da prisão, os humoristas de O Pasquim escreviam, bem ao seu estilo gozador, coisas como “fulano, comunista igual a nós”, começando a fazer a pecha cair no ridículo, pois comunistas eram todos os que se opunham ao regime. E ponto).

Nelson Rogrigues (baconfrito.com)
Contra Hélder, atacou-o doentiamente o dramaturgo Nelson Rodrigues, homem ligado à ditadura (mesmo tendo o filho, também Nelson, sido preso e torturado). É da lavra dele a maldosa alcunha “O Bispo Vermelho”, mais um estigma criado para denegrir a imagem do religioso, então já maldita pelo regime, no afã de isolá-lo completamente. Mas não. Em 1968, auge da repressão, publicou “Revolução dentro da Paz” (Rio de Janeiro: Ed. Sabiá), traduzido em diversos idiomas, talvez seu maior libelo em prol da pacificação pela justiça, direitos para todos e contra a miséria aguda do povo.

General Médici e a Taça Jules Rimet (1970)
Entre as dezenas de prêmios, títulos de cidadão honorário, doutor honoris causa e homenagens que ganhou durante a vida em diversas partes do mundo, um lhe escapou quatro vezes, por obra dos próceres da ditadura: indicado para o Prêmio Nobel da Paz por sua luta pacífica, comparado a Ghandi, foi em 1970, por instrução do G.al Garrastazu Médici, que o embaixador brasileiro na Noruega travou campanha no Parlamento de Oslo e países escandinavos contra a concessão da láurea, pois aquele Nobel poderia servir de “estímulo ao avanço comunista” (sic) na América Latina. 
Médici queria a glória para si, para o “ame-o ou deixe-o”, a taça da copa de 1970, que, esta sim, ergueu com orgulho de técnico palpiteiro e herói, capitalizando-a. Além de seu espírito censor e obcecado, talvez não lhe fosse do agrado, afinal, um prêmio Nobel da Paz.

Com o papa João Paulo II
Mais recentemente, uma comissão criada pelo então governador de Pernambuco, o recentemente falecido Eduardo Campos, logrou obter farta documentação sobre a interferência do regime de força contra a concessão do Nobel – de que o arcebispo seria o único brasileiro laureado até hoje. Anos depois, Hélder recebeu um beijo na testa do papa João Paulo II, que o saudou em público: “você é pelos pobres, então você é dos meus”.

O enterro do Pe. Henrique, auxiliar de dom Hélder
O nome do religioso era proibido na imprensa, uma simples menção provocava urticária nos arautos do regime. Antônio Henrique, o padre auxiliar de Hélder, foi encontrado morto, logo após o famigerado AI-5, com sinais de tortura e sevícias, tiros e enforcamento, assassinato covarde e bárbaro ao estilo das vendettas das máfias da Córsega – a repressão chamava isso de um sutil “exemplar os cidadãos” (leia-se: apavorá-los). O caso foi abafado com mordaça e pá de cal, à maneira do Stalin soviético, e severamente censurado em todos os órgãos de imprensa, coisa de todos os tipos de ditadura. E assim como o estudante Edson Luís, morto no Rio na mesma época, no Restaurante Calabouço, Pe. Henrique foi alçado à condição de mártir da ditadura. Mas o recado ao bispo havia sido dado: cala-te, Hélder!

Dom Hélder e Madre Maria de Calcutá
Perdeu o Nobel, láurea que pessoalmente não afagaria seu diminuto ego, não conhecia a soberba da fama. Contudo, a visibilidade poderia ajudar no fortalecimento de sua missão pelos que tinham fome e os perseguidos. Ironia da vida, em 2014 o Vaticano acolheu o pedido de beatificação e santificação de Hélder Câmara, apondo seu nihil obstat (nada a obstar) ao seguimento do processo. A burocracia da Santa Sé tem seus dogmas, é demorada, as exigências muitas, mas a anuência já concedida à análise do pedido abriu-lhe a porta, que aliada ao anseio do papa Francisco em unir todo o seu rebanho, já aponta ao menino prodígio e visionário de Fortaleza seu derradeiro destino.