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sexta-feira, 20 de maio de 2016

DESCONSTRUINDO O ADEUS

Joseph Haydn (1732-1809) compôs sua ‘Sinfonia do Adeus’ (Também conhecida como Farewell Symphony), de nº 45, em Fá sustenido menor, no ano de 1772, conforme consta no manuscrito do autor (das raras obras escritas nessa tonalidade incomum, no século 18). O próprio Haydn contou a história (que adiante passo a narrar) com ricos detalhes, aos seus biógrafos Georg August e Albert Dies, sobre como a peça foi concebida e executada, e a deliciosa esperteza escondida por trás dela.
Príncipe Esterházy
O benfeitor de Haydn, príncipe Esterházy, contratara o compositor como residente, às suas ordens, preço de seu generoso mecenato. Sabe-se que Haydn era franzino, mal vestido, simplório, e quando o príncipe o chamou para “fechar o acordo” de trabalho, exigiu que ele arrumasse uma peruca, usasse salto alto, pó de arroz, e deu-lhe anéis e roupas ricas, para ficar à altura do cargo (os músicos chamavam-no “velha peruca” aos sussurros nos bastidores e corredores).
Sala de concertos do palácio Eszterháza (hoje Sala Haydn)
Como residente, Haydn foi “convidado” com seus músicos a ir alegrar os dias do príncipe com sua orquestra no castelo nobre de verão, uma espécie de residência de campo em Eszterháza, na Hungria. Só que a estadia já se prolongava por demais, e os músicos estavam irritados por terem deixado suas famílias sozinhas, incomunicáveis, e cada rara breve visita lhes custava três dias, um esforço enorme.
Manuscrito de Haydn de trecho da Sinfonia
Decidiram, tomando coragem, chamar Haydn para ajuda-los. O Kappelmeister (mestre de capela, maestro), para não bater de frente com o príncipe, temendo por seu emprego mas bom líder, decidiu fazer uma brincadeira musical para mandar um recado, o que fez a popular obra mais conhecida pelo truque engenhoso para dobrar Esterházy do que por sua beleza: compôs a inusitada ‘Sinfonia do Adeus’, e inovou. Alterou instrumentos, a exemplo das trompas, que receberam uma espécie de extensor no tubo, para alcançarem as notas mais graves.
Adagio final: saída dos músicos
Com a orquestra à luz de velas sobre os suportes das partituras, no adagio final – outra inovação -, os músicos se retiram apagando cada um a sua, um por vez, conforme a exige a partitura. Saem na ordem o primeiro oboé e a segunda trompa, depois o segundo oboé e a primeira trompa, contrabaixo, violoncelo, seção inteira de violinos, viola. Restaram apenas o Kappelmeister Haydn e Tomasini, seu spalla, tocando suavemente seus violinos com surdinas (abafadores), o som esmaecendo, até se retirarem. O Príncipe, culto e inteligente, docilmente entendeu a mensagem: sem dizer nada, no dia seguinte voltava com todos para Eisenstadt, na Áustria.
Edu Lobo
O nosso brilhante Edu Lobo compôs uma preciosidade melódica e harmônica sobre poesia de Torquato Neto, letra de riqueza e simplicidade ímpares: “Pra dizer adeus”, gravada por um sem-número de artistas. O desenho harmônico, a linha de baixo descendente em progressão de acordes dissonantes, uma das melhores canções de fossa do nosso repertório popular: “Adeus / vou pra não voltar / e onde quer que eu vá / sei que vou sozinho /(...) nem é bom pensar / que eu não volto mais / desse meu caminho”. É de fazer chorar qualquer amada – ou amado, já que diversas mulheres também a tenham gravado, a exemplo de Elis, Zizi Possi, Nana Caymmi e Betânia, tornando mais suave o canto de dor ao abandonar o parceiro.
O aceno de adeus, dizem alguns antropólogos, surgiu de saudação militar, como hoje a continência. Outros, mais específicos e remontando a tempos mais longínquos, citam o emprego da mão espalmada do sentinela do vilarejo a alguém que se aproximasse, sinalizando que era para o visitante parar. Este deveria dizer seu nome, de onde veio e o que queria ali. Uma vez consentido, o vigia mandava-o entrar - ou acenava para o estranho, sinal de que podia ir embora dali. Alguns creditam a origem do gesto aos alemães. Polivalente, o aceno também se tornou uma maneira universal de ser visto ao longe, de chamar a atenção.
Claro, há diversos estilos. O aceno político, como os famosos de Kennedy, JK, Obama, Churchill e outros (não confundir com as rígidas saudações nazistas, fascistas ou o anauê integralista). Às vezes é o charme, mostrando um belo braço feminino, como o aceno de uma Gisele Bündchen ou uma Sharon Stone.
Há os acenos dos nobres, como os dos reis da Suécia e o da Rainha da Inglaterra, sem levantar muito a mão, um mínimo gesto cordial para seus súditos, gentil reverência, bastando para isso dedicar ao ato um discreto movimento a pouca altura, como fosse uma bênção generosamente concedida. Acenos também servem para mostrar-se na multidão, uma espécie de “olha, eu estou aqui”.
Mas o gesto simboliza principalmente, no mundo inteiro, a despedida, e me vem à memória a linda Teletema, de Antonio Adolfo e Tibério Gaspar, perfilando com a imortal música do Edu Lobo: “Rumo / estrada turva / sou despedida / por entre lenços brancos de partida / em cada curva / sem ter você / vou mais só”.

O adeus de Milton (por Fabrício) 
Como palavra, o adeus é universal: goodbye, au revoir, see you, adiós, tchau, adieu, so long, addio, privyet, auf Wiedersehen, com suas variáveis em todas as línguas. Mas não podemos nos esquecer do aceno irônico, do gênero “já vai tarde”. Mas esse “já vai tarde” é do adeus de uma despedida que é reverso da saudade, é o adeus de quem não sentirá a falta de quem vai, um discreto “seja feliz e me esqueça” como cantou decidido Milton Nascimento: “Se você não me queria / não devia me procurar / não devia me iludir / (...) você arruinou a minha vida / me deixa em paz”. 

sexta-feira, 13 de maio de 2016

ESTRANGULADOR, ESTRIPADOR E CORRUPTO SERIAL


9h de hoje, 18 de abril: 100.000 visualizações
MESTRES DOS REQUINTES

Gainsborough St. 
[Conheço bem o caso do estrangulador de Boston, e foi por pura coincidência. Um dia me disseram que ele havia quase sido vizinho meu, perto de duas décadas antes, e se chamava Albert DeSalvo.]

Só acreditei nessa história quando ganhei o livro The Boston Strangler, de Gerold Frank. Eu morava na Gainsborough St, que fazia esquina com a Huntington Ave, do afamado Boston Symphony Hall. O pequeno apartamento ficava no nº 79, geminado ao 77, onde DeSalvo residiu e começou seu périplo de estrangulamentos de senhoras idosas.
Cronologia e mapa dos assassinatos

Ali mesmo, em junho de 1962, a polícia descobriu, em um apartamento do primeiro andar, o corpo de Anna Slesers, 55, enforcada com o cinto de seu roupão de banho. Duas semanas depois, na vizinha Commonwealth Ave, foi a vez Nina Nichols, 68, e a sequência continuou no mesmo dia com Hellen Blake, 65, só terminando com Mary Brown, 68, oito meses depois. De Salvo acabou preso por seu 13º crime.


Os psiquiatras forenses costumam achar elos recorrentes em assassinatos seriais - como fetiches, manias ou o absurdo prazer de deixar pistas, tal qual autógrafos nos crimes. A psicopatia dos serial killers é cruel. DeSalvo rejeitou a internação no hospital psiquiátrico de Bridgewater, preferindo encarar o júri. Foi, e negou todos os crimes, para ao final confessa-los com riqueza de detalhes.

Mary Sullivan, 11ª vítima
Terminou assassinado no presídio de segurança máxima de Walpole, em 1971. Em 2001, já com as técnicas de identificação por DNA, o corpo de Mary Sullivan foi exumado, mas os exames não remetiam a DeSalvo, e sim a outros dois homens. O especialista Casey Shermann disse que se De Salvo confessou que matou Mrs. Sullivan sem tê-lo feito, pode não ter assassinado algumas ou mesmo qualquer das outras. Queria o “criminoso confesso” ter o prazer de se ver na pele do verdadeiro assassino, hipótese não descartada?

Londres: todos são suspeitos. Ilustração da época
Distrito de Whitechapel, Londres, 1888. “Jack, o estripador (the ripper)”, nunca identificado, confessou ser o assassino serial por carta enviada à imprensa, mas, assim como sua identidade, a mensagem pode ter sido apenas um jogo para disseminar o pânico na cidade. Ou um trote. “Jack” também era chamado “avental de couro”, uma alusão aos açougueiros, tamanha a crueldade empregada com as mulheres. Seus ataques visavam geralmente às prostitutas do bairro pobre do East End londrino, e o “estilo”, garganta cortada e abdômen retalhado.

A carta de "Jack" ao oficial George Lusk
Há centenas de teorias sobre a identidade do estripador, todas elas inconclusivas, o que certamente afagou e elevou o ego do misterioso assassino às alturas, um intenso prazer. Em 15 de outubro de 1888, “Jack” envia uma carta - cujo texto dá náuseas -a George Lusk, oficial de polícia de Whitechapel, escrita com um inglês paupérrimo (traduzo ao meu jeito): “Do inferno. Mr. Lusk., Sinho eu lhe mando metade do rin priservado eu tirei de uma mulher a outra parte fritei e comi. Estava muito bon. Posso mandar a fac ensanguentada que tirei se o Sr. eperar um pouco. Assinado: pegue-me quando puder, Mishter Lusk”. (Por esse "Mishter", mesmo partindo a carta de um semi-analfabeto, sinto-me ouvindo um escocês). 

High Street, em Whitechapel
Em função dessa loucura surreal que foi Jack, the ripper, foi criado até um neologismo, a “ripperologia”, o estudo dos casos dessa série de assassinatos. Entre as vítimas, há as chamadas “cinco canônicas”, que tinham elos mais próximos à forma de agir de “Jack”, embora buscas nunca chegassem a lugar algum. Foram onze vítimas em Whitechapel, mas fora dali houve algumas outras, de cuja autoria não se tem segurança: a fama oculta e o desejo de matar podem ter sido despertados em outros psicopatas pela ousadia impune de “Jack”.

O rio Tâmisa
O “mistério Whitehall” foi um dos mais bizarros desses casos: um braço encontrado boiando no rio Tâmisa, a que se seguiu um torso na construção da chefatura de polícia de Whitehall, mostram a perversidade do criminoso. Pouco depois, foi descoberta uma das pernas nas proximidades. A cabeça da vítima e outros órgãos ou vísceras nunca foram localizados, tornando impossível sua identificação. Em virtude das distintas características macabras, o chamado “assassino de torsos” nunca foi identificado com segurança como “Jack”, uma vez que os “serials” geralmente deixam sua espécie de marca registrada nos crimes, uma assinatura tão repetitiva quanto sinistra.

O assassinato do garoto John Gill (ilustração da época)
Quando John Gill, um garoto de apenas sete anos de idade, foi encontrado morto em Bradford, estava com as pernas mutiladas e sem uma orelha, suas vísceras e seu coração haviam sido arrancados. Semelhanças com a violência brutal de Jack há, mas a idade, o fato de ser um menino e não uma prostituta não faziam o elo lógico com “o conjunto da obra” do estripador. O patrão do menino, William Barret, foi preso por duas vezes, e, por insuficiência de provas, terminou solto, deixando o caso sem suspeitos.


O perfil psicopata do assassino serial tem algo a ver com a patologia de outros crimes. O roubo, por exemplo. Atraído pela ocasião, como se diz, o sujeito começa com muito pouco, talvez, mas o sucesso da impunidade e ambição crescem em sua mente, tornando-o obcecado e cada vez mais ambicioso. O velho provérbio lusitano “quem rouba tostão, rouba milhão”, vem da sábia visão popular dessa volúpia crescente de ficar rico, daí mais rico e até infinitamente rico, sem poder parar, vítima da mesma patologia dos homicidas seriais. Porém, com a tecnologia de hoje, dificilmente o criminoso consegue prosseguir na trajetória sem ser descoberto, como logrou o mito “Jack”. Talvez até, em seu subconsciente, o bandido queira prosseguir até ser flagrado, mas não o percebe de forma consciente. Talvez os crimes em série, de assassinatos a corrupção, sejam gêmeos com liames comuns em suas patologias. Os últimos, quando pegos, deixam seus autores na clausura das celas e, pior ainda, de suas consciências, por terem assassinado indiretamente crianças, adultos e idosos em filas de hospitais, fora aqueles deixados sem escola, vacinas e tudo o que o Tesouro, violentado e estripado, deveria oferecer ao povo por obrigação de Estado.


sexta-feira, 6 de maio de 2016

MOZART: UMA PAIXÃO E UM AMOR DESMESURADO


UMA PAIXÃO
“Estou feliz porque tenho o que compor, que é realmente minha única alegria e paixão” (carta ao papai Leopold, em 11 de outubro de 1777, uma declaração de vocação e destino). Que o jovem Wolfgang Amadeus Mozart, nascido em 1756, sempre tomou a música como sua mais elevada paixão, não há dúvida. Seu talento exuberante seduziu-o ainda bem pequeno, conseguia reproduzir de memória músicas ao cravo, ainda aos 4 anos de idade. Ainda criança ouviu um certo Miserere na Capela Sistina e, de memória, repetiu-o depois ao cravo com perfeição. Virtude preciosa que carregou até sua morte em 1791, precoce aos 35 anos.

Introdução da abertura de A Flauta Mágica
Quando partiu, havia entregue ao mundo 41 belas sinfonias (mais 17 de origem duvidosa ou em trechos ou anotações), 22 óperas de variados gêneros, incluindo a “imoral” (para a época) Don Giovanni e A Flauta Mágica, ambientada nos rituais maçônicos e crítica satírica à nobreza; 25 sonatas para piano (cravo), incluindo as 6 para dois executantes e uma para dois teclados, 36 para violino e piano e um enorme mosaico de obras, incluindo concertos, oratórios e um réquiem, entre outros. Compôs como quem rabisca, brinca (em alemão, spiel significa tanto tocar um instrumento quanto brincar) quase 800 obras, durante sua curta vida.
Don Giovanni e seus amores

Tom Hulce, no papel de Amadeus, de Milos Forman
Quem assistiu ao filme “Amadeus” do Milos Forman (1984) viu uma história romantizada e não muito interessada no chamado “rigor científico”, como aliás toda biografia no cinema. A fita arrebatou o Oscar e o BAFTA de melhor filme, 4 Globos de Ouro, o BGA e muito, mas muito dinheiro. O texto de Schaffer não foi lá muito fiel ao apresentar fatos e pessoas. O mito do compositor Salieri como o homem que teria envenenado Mozart trouxe aquela pitada de mistério e traição tão ao gosto dos americanos.

Não foi diferente com “Amada Imortal” (Immortal Beloved), filme de 1994 sobre a vida de Beethoven, embora este siga a primeira biografia do compositor, por Anton Schindler. Nem seria um outro sobre Schumann, Sonata de Amor (Love Song) ou talvez qualquer um sobre a vida de outros compositores.

Mozart, com papai Leopold e irmã
No caso de Amadeus, salta aos olhos a figura brincalhona e zombeteira de Mozart, perfil que muitos escritos parecem dividir. É verdade que aqui e ali a personalidade tanto quanto exibicionista de   Mozart não ficava longe disso. Surgira desde os tempos em que papai Leopold o levava, ainda bem criança, a exibir-se no cravo ou no violino nos belos palcos da mais alta nobreza. O prodígio aglomerava pessoas e arrecadava dinheiro com facilidade, com o apelo da mística de seus apelidos “pequeno mágico” e “o predileto dos deuses”.

Mozart criancinha
Aos seis anos apenas, escreveu pequenos minuetos e um alegro, aos sete teve publicadas algumas peças, e aos treze já se iniciava na composição de óperas, que viria a fazer dele o maior do gênero de todo o período clássico.

A Linz da época de Mozart
Ao retornar à Áustria, na cidade de Linz, após uma viagem, escreveu ao pai, em 1783, dizendo que não levava consigo nenhuma obra, mas teria que apresentar alguma coisa do dia 4 de novembro. O compositor havia chegado no dia 30 de outubro, e embora tendo laborado pouquíssimos dias, obteve grande sucesso com sua sinfonia nº 36, Linz. E apenas na véspera da estreia da ópera Don Giovanni, Mozart escreveu a abertura! As sinfonias 39 a 41 foram compostas em apenas sete semanas e dez dias. Uma fúria composicional ensandecida, desafiadora e até humilhante, para os mortais.

Conta-se que Haydn, fazendo troça, propusera-lhe um desafio: escrevera uma obra e, apostando uma garrafa de champanhe, duvidou que Mozart a tocasse. Este sentou-se ao teclado e, ao chegar ao final da leitura, deparou-se com as duas mãos nas extremidades graves e agudas, e uma nota solitária no meio do teclado. Não teve dúvidas: completou o acorde com o nariz, pegou a garrafa e saiu, entre as escandalosas gargalhadas de sempre.

A jovem Constanze Weber
O AMOR DESMESURADO começou aos 22 anos de idade, quando Mozart conheceu a ainda adolescente Constanze. Aturou-lhe as meninices, como aquela de uma festa em que ela deixou um rapazola brincar de medir-lhe as panturrilhas. Repreendeu-a por carta, comparando aquilo a uma brincadeira que fizera, ele mesmo, com uma certa baronesa, mas já bem entrada nos anos, que não lhe despertava nenhum desejo (apesar da receptividade assanhada da nobre idosa).

Papageno, em figurino de época:
A Flauta Mágica
Fazia palhaçadas até mesmo durante apresentações de obras suas, como brincar com carrilhões nos bastidores de sua ópera A Flauta Mágica. Com a morte de seu mecenas, Joseph II, a vida de Mozart começou a perder a graça e o gênio começou a entrar em parafuso. Falava palavrões aos montes e escrevia besteiras nas cartas à sua amada Constanze, como “beijo-te 1.095.473.082 vezes”, ou “do teu Stu! Knaller paller. Schnip-schnap-schnur. Schnepepperl-Snai!”, coisas totalmente desprovidas de sentido.


O corpo de Mozart chegando ao cemitério (com o cãozinho)
Conta-se que Mozart, depois de toda a glória, terminou enterrado em vala comum com a presença de apenas duas pessoas e seu fiel cão – o que lembra a expressão popular “morreu com a boca cheia de formiga e um cachorro velho lambendo-lhe a cara”. Constanze sequer foi ao enterro, pois se encontrava muito doente, e apenas dezessete anos depois foi procurar o jazigo, saindo desolada pois não se sabia onde estava o túmulo de seu amado ou se seus restos mortais haviam desaparecido. O gênio escapara até da separação de Constanze pela morte. Mas seu crânio, creem alguns, foi surrupiado – talvez por alguém que quisesse tentar descobrir o que fizera daquele ser humano alguém a quem Deus permitiu transcender os limites possíveis da inteligência e criatividade. 

sexta-feira, 29 de abril de 2016

O RATO DE BOSTON

A autodestruição pelo desespero

The New England Conservatory of Music
Sempre recorro a um curioso fato real do passado para compreender certas situações na vida. Aconteceu assim: ao chegar em Boston, para estudar, morei primeiramente em uma das cidadezinhas do entorno, chamado Nova Inglaterra, todas com nome de pequenos burgos ingleses. O local, aprazível, jeito de cidadezinha inglesa, chama-se Brighton. Porém, como o inquilino que me cedera temporariamente o espaço retornaria de uma viagem, aproveitei mudar-me para o Centro, mais precisamente para a rua do New England Conservatory, onde passei a estudar. Longe da tranquilidade de Brighton, o nada bucólico Centro.

A bela Gainsborough St. 
Como tinha que viver com ralos dólares por mês e o dinheiro me obrigava a uma vida franciscana até que pudesse me colocar no mercado de trabalho, aluguei um apartamento em um prédio central bem antigo, coisa de uns 30 m2. Típica construção inglesa, bem antiga, tijolos aparentes, janelas protundidas (bay windows), prédio de 4 andares como todos os demais ao longo dos dois lados da rua Gainsborough, atrás do Symphony Hall, casa da Sinfônica de Boston.

Graffiti em prédio de NY
Ratos e camundongos infestam as grandes cidades americanas, chegam a somar o equivalente a 25% das pessoas em NY (em Boston a cifra é parecida). Ratos, os temíveis rats, chegam a ser enormes e asquerosos. Já os segundos, os camundongos, são muito bem tolerados, há que se conviver com eles: os “mice” (plural de “mouse”), não tão simpáticos quanto o Mickey e a Minnie, são nojentinhos e ariscos.

Os muitos meses de frio, as paredes ocas com lã de vidro ou outro material “aconchegante” e ideal para armar ninhos e colônias, tudo convida os pequenos roedores a se instalarem em todos os lugares dos prédios e casas, em uma quantidade que desafiaria qualquer censo do mundo.

Eugene O' Neal
O episódio que vou narrar aconteceu logo na primeira noite no apartamento em que, mal acomodado entre um colchonete sobre caixas de leite, meu instrumento, “meus discos e livros e nada mais”, como diria o saudoso Zé Rodrix, bom de música e de papo, vi-me às voltas com um acontecimento realmente inusitado: não conseguia dormir, por conta de uma interminável sequência de ruídos estranhos, um allegro ma non troppo percussivo e cadenciado, um flip-flop-pof, flip-flop-pof, em “longa jornada noite adentro”, parafraseando o título da peça do dramaturgo O’ Neal (morto na mesma Boston no ano em que nasci!).

Lá pelas tantas, o barulho ainda me perseguia, e necas de dormir: flip-flop-pof, flip-flop-pof, flip-flop-pof, só que agora com um gradual ritardando, mais e mais lento, o movimento cadenciado havia perdido a dinâmica, o volume e o ritmo. Assim que começou a clarear, já desistido do sono, levantei-me para fazer café, e aquele flip-flop-pof havia se transformado em um “largo” musical, andamento ainda bem mais lento: flip...plof...pof, repetido agora com muito pouco vigor, até esmaecer, smorzando, diria um compositor, para, enfim, cessar.

De manhã, após fazer o café, ao jogar o filtro de papel no latão de lixo da cozinha vi que lá dentro estava um pequeno rato, que havia caído e tentara escapar da arapuca das paredes altas da lata a noite inteira. Estirado e mortinho da silva (daí o irritante flip-flop-pof: foram incontáveis saltos no desespero!). A luta para tentar sair, debater-se em esforço desesperado, saltar insanamente para, em esforço inútil, galgar a imensa muralha do latão de lixo.

Fiquei um pouco chocado, e a cena me levou a algumas reflexões: o que realmente se passara? Não matei o rato, não o envenenei, não tinha ratoeira, sequer sabia que havia um rato preso na lata de lixo. De fome também não foi, pois havia alguns restos na lata e ele sobreviveria com facilidade até ser encontrado – ou, tarefa impossível, fugir. Mas como morreu? Foi mal súbito? Em um jovem roedor? (Com o bichinho já defunto, referia-me a ele quase como velho amigo da casa) Pois se não foi de morte matada ou morrida, como disse o poeta João Cabral, o que foi?

Platão e sua Alegoria da Caverna
Demorou muito para elaborar essa “teoria”, ou essa “alegoria” à avessas. (A alegoria é uma narrativa imaginária para lançar a ideia de outro fato, mas a história do rato era real como nunca, daí esse “às avessas”, do real ao imaginário. Já a teoria é um princípio básico artístico ou científico já posto à prova). Como autor sem pretensões literárias, filosóficas e muito menos psicanalíticas, tomo a palavra teoria emprestada e guardo o acontecimento misterioso como uma pequena e recorrente reflexão que ressurge, em certas situações. Atualmente, creio que presenciamos uma delas.


O rato morreu de desespero, desgosto, o brutal insucesso nas suas tentativas de escapar de um final longo, mas iminente. A cada salto, o cansaço lhe diminuía chances. Hoje, diante de situações que evocam certa similaridade com a breve história bostoniana – desta vez, sim, fazendo dela uma alegoria (“a história se repete, da segunda vez como farsa”, disse o velho pensador alemão) -, lembro-me do “rato de Boston”, sem querer que ninguém morra de verdade, claro! Serve para observar meu autocontrole, fazer correções de rumo e para analisar atitudes desesperadas e nem sempre explicáveis de pessoas que já encontramos ou haveremos de encontrar ao longo da vida, na história universal e nas crises de nosso país, tropeçando e caindo nas pedras que elas próprias jogaram em seu caminho. 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O IMPOSTO DE RENDA E MARK TWAIN

Mark Twain 
 “Quando pequeno, lembrava-me de tudo: do que realmente aconteceu e do que nunca acontecera. Porém, minha capacidade está decaindo, e logo vou lembrar-me apenas do que nunca acontecera”. Meu pai disse essa frase algumas vezes, algo a ver com a realidade interior e o passado que ele levava para seus livros. 

A curiosidade dessa menção de meu pai à frase de Mark Twain (de quem falaremos adiante), que construiu suas aventuras na fictícia cidade de Saint Petersburg, tudo a ver com a Hannibal (Missouri) de infância de Twain. A inegável influência em William Faulkner (que nutria por Twain grande admiração) sobre a obra de meu pai, veio da "corrente de consciência" que este último tomara de Proust. Como Twain, Faulkner também teve seu condado imaginário, Yoknapatawpha. No caso de meu pai, quase todos os romances se passam em uma também imaginária cidade mineira, Duas Pontes. Com Twain, Faulkner e Joyce. Claro, nenhuma dessas ligações foi por acaso)


A frase está em “A autobiografia”, do norte-americano Mark Twain (1835-1910), um dos escritores mais reverenciados da história. Seu “As aventuras de Tom Sawyer” (1876), é um apanhado da infância, ao sabor da frase com que iniciei este artigo. Ele mesmo, personagem de sua imaginação que iria pontuar seus personagens, nas “Aventuras”, apresenta Hucleberry Finn, seu amigo de traquinagens, que era uma espécie de nome de fantasia literária para seu amigo vagabundo, pilantra e maltrapilho, o garoto Tom Blankenship, na vida real. 

"Huck" Finn
“As aventuras de Huckleberry Finn” (1885) se tornaria, depois, um de seus livros mais importantes. Envolto nesse misto de “fantasia real” e realidade, Mark Twain – na verdade, pseudônimo de Samuel Langhorne Clemens – é recomendado para todas as idades, boa leitura para os jovens de ontem e de hoje. Por tão cativante, envolveu-me entre as leituras de criança, refletindo-se em minhas próprias imersões nos fatos que, em minha meninice, realmente existiram, quer tenham ou não acontecido.
Casa de Tom ("Huck" Finn)

Lembrei-me disso tudo porque recentemente, em uma noite de pouco sono, busquei distrair-me retirando da estante ao acaso, para folhear, “Estórias curtas britânicas e americanas” (British and American Short Stories). Story significa “estória”, conto, ao passo que history se refere à história, como ciência, disciplina. Guimarães Rosa (1908-1967) escreveu “Primeiras estórias” (1962) e “Estas estórias” (1969). Eu, sem pretensão de chegar à sombra de ambos, publiquei “Pequena estória da música” (1992), brincadeira com o título “Pequena história da música”, do Mário de Andrade. Bons dicionários, como o Houaiss, ainda conservam a palavra, enquanto outros pretendem condená-la à extinção, péssimo costume brasileiro de empobrecer nossa língua, enquanto acrescentam neologismos bobos como “deletar”.

"A única diferença entre o cobrador de imposto e 
o embalsamador é que o segundo deixa a pele"
Meia volta e ao tema, o conto “O homem do Imposto de Renda” (The Income Tax Man), de Mark Twain. Narrado na primeira pessoa, traz elementos que sugerem ao autor papel de personagem, mas não deixa clara a identidade no narrador, apesar de falar na primeira pessoa. Portanto, ao descrever, em breves linhas, a narrativa do conto sem unir autor e personagem, mas deixando entrever um elo de ligação, usarei simplesmente a inicial M., tanto faz se o próprio Mark ou uma sua criação.

O fiscal do Imposto de Renda (por Leonard Rosoman)
Certo dia, M. recebeu a visita um homem que se identificou como assessor – palavra que em inglês também quer dizer cobrador de impostos -, a quem, ora em diante, chamarei apenas “C”. Sem saber o que o C. exatamente fazia, e pensando que fosse uma espécie de negociante, M. perguntou se ele estava abrindo algum negócio na vizinhança. O diálogo desenvolveu-se com palavras curtas. C.: Ahã. M.: Como vai o comércio? C.: Bem. Hábil e ardiloso, o visitante ensaiava uma aproximação, um jogo como em “crescendo” musical nas palavras e frases da narrativa interior envolvente de Twain (que lembra Faulkner, que o considerava “o pai da literatura americana”).

Não tardou, e C. logo foi abrindo as cartas: você imagina quanto eu ganhei em conversas com pessoas neste inverno e primavera? M.: dois mil dólares, talvez? (16 mil dólares, atualizados, ou R$ 56 mil, ao câmbio de hoje. A partir daqui, todas as cifras serão atualizadas pela inflação americana do período e convertidas em reais). M. logo se corrigiu: não, isso seria muito, talvez uns R$ 42 mil. C. deu boas risadas. Pois foram quase R$ 120 mil! M.: estou impressionado, você ainda diz que não é tudo?

Continuando a exibir seus rendimentos, C. disse que vendeu 95 mil cópias de seu livro “Os inocentes no estrangeiro”. (Agora, pausa. Este é o enigma e sua chave que não o abre nunca: trata-se do livro mais vendido do próprio Mark Twain! Seria aquele um diálogo do autor consigo mesmo?). C.: rendeu R$ 11.270.000, e a mim cabe a metade! E levantou-se, como fosse embora, entregando a M. um envelope, dizendo que ficaria feliz em poder ajuda-lo. Abrindo-o, M. viu que se tratava de sua própria declaração de renda, e C. disse que ele deveria declarar R$ 6 milhões. Pelo índice de taxação do governo (5%, na época), ele teria R$ 300 mil de imposto a pagar. Mas haveria ainda o desconto-padrão.

C. colocou seus óculos, pegou uma caneta e começou a calcular as deduções para M.: perdas com acidente, fogo em sua propriedade e outros. Prejuízos imobiliários, animais perdidos no incêndio, aluguel do imóvel, reparos e melhoramentos. Ao final dessa mágica contábil, C. mostrou-lhe que seu imposto devido seria de apenas R$ 35 mil.

E não é só, continuou. Seu desconto-padrão é de R$ 30 mil, portanto o imposto a pagar, depois de todas aquelas contas, seria de apenas R$ 5 mil! (Enquanto ouvia, M., perplexo, vira o filho de C. sacar uma nota de R$ 50 do bolso, e logo guardá-la. Teve certeza de que o menino, se perguntado, saberia mentir sobre o quanto ganhou). Você trabalha com essas tantas “deduções” todos os anos, senhor? Claro, caso contrário eu seria “um pobre mendigo sustentando este governo perverso, cruel e pavoroso”, respondeu-lhe C., que M. já achava ser o homem mais rico da cidade.

Resolvido, M. foi à agência da Receita e atestou a veracidade de “mentira após mentira, truque após truque, maldade após maldade”, até sua alma ficar "encoberta por polegadas e polegadas de falsas declarações, e seu respeito próprio desaparecer para todo o sempre”.



Mark Twain