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quinta-feira, 9 de junho de 2016

CADEIRANTE POR UM DIA

(Iacessu)
Todos deveriam ser cadeirantes por um dia! “Pra mim, basta um dia, não mais que um dia, um meio dia” (Chico). Segundo o IBGE, 6,2% da população brasileira apresenta algum tipo de deficiência, seja visual, de locomoção ou outra. Em 2010, incluindo subtipos de deficiências visual, auditiva ou mental, 24% mostraram-se portadores de algum tipo de perda, o equivalente a 45,6 milhões de brasileiros. Muitos usam muletas, bengalas, andadores e cadeiras de rodas, fora os desvalidos que não têm condição de comprar uma. A idade é agravante entre os vários tipos de deficiência, quando não é o bilhete para ingresso definitivo de um a mais nas estatísticas.

Alguns dizem “não vejo tantos cadeirantes nas ruas”. Ora, os de maior poder aquisitivo passam despercebidos dirigindo seus carros adaptados, ou são levados para lá e para cá por seus motoristas, amigos ou parentes. Estacionam nos bancos nas vagas reservadas e são identificados pelo adesivo de cadeirante no para-brisa. Alguns usam boas cadeiras, e os mais bem aquinhoados aquelas motorizadas, que chegam a custar mais de 13 mil dólares (R$ 45 mil). Já artefatos robóticos são para muito, muito poucos.

Sonhar é preciso: ônibus em Londres
Nossos ônibus, calçadas e prédios não estão preparados para receber deficientes físicos, e muitos nem saem de casa porque ficam confinados como se estivessem presos. São párias da sociedade, alijados de estudo, trabalho e lazer, e geralmente ignorados pelos que tiveram a bênção de poderem desfrutar de todos os movimentos do corpo. 

Fíbula
Minha preocupação com o assunto veio à tona quando vi-me cadeirante e portador de muletas por três meses, após uma ridícula fratura na fíbula (altura do tornozelo). Digo ridícula porque nem fui ao chão, torci o pé em um degrau de escada, caindo de pé sobre o de baixo, com o tornozelo virado. Raios-x feitos em um hospital de São Paulo, o remédio de sempre: gesso. Durou um dia. Comprei uma daquelas botas e voltei ao hospital para arrancar aquele chumbo da perna. Começara ali minha vivência de uma realidade que até então apenas supunha existir. 

Para tirar licença de trabalho da Prefeitura, fui ao prédio da Perícia Médica, no centro. Levou-me um vizinho, senhor de idade, motorista aposentado e ‘faz-tudo’, de pintura a pequenos reparos (retorno a ele adiante). Para entrar no prédio, uma escada sem corrimão e, claro, fora dos padrões da ABNT. Era colocar as duas muletas sob uma axila e a outra mão na parede para ajudar. Ao entrar - local de pessoas acidentadas e doentes! -, não havia mais cadeiras na sala de espera. Para ir ao banheiro, tive de passar por um corredor com as muletas, só que de lado: uma “reforma” do espaço havia espremido a passagem com uma divisória. 

Escola Municipal de Música: rampa dos fundos
(prédio antigo)
Nem cheguei ao terceiro dia de licença: enlouquecido, desci sentado a escada do quarto, peguei as muletas, coloquei a cadeira de rodas que alugara dentro do porta-malas do carro e fui para o trabalho. Chegando, entrei pela rampa dos fundos e comecei a tocar o serviço da cadeira de rodas.

Teatro Municipal: escada favorita dos skatistas
Após o susto do prédio da perícia, sucederam-se vários outros. Haveria um belíssimo concerto no Teatro Municipal, e eu não queria perder. Fui, estacionei e arrastei o corpo com as muletas até a escadaria da frente, subindo aqueles degraus enormes, um grande risco (o prédio é de 1911, tombado, impossível alterar) – coisa para esportes radicais. Lá dentro, encontrei o Lauro Machado Coelho, cadeirante, o crítico de conhecimento musical mais vasto que conheci. E ele me contou seu truque: sempre telefonava antes, entrava com a cadeira pela passagem de serviço lateral, subia pelo elevador de palco e descia à plateia.

Campinas: Centro de Convivência
Episódios de frustração no acesso aos bens culturais repetiram-se algumas vezes, como no Centro de Convivência de Campinas, onde fui ver um recital. Descer até a plateia foi uma aventura cheia de sustos. Apesar de muito mais recente do que o Municipal de SP, o Centro não tinha as mínimas condições para portadores de necessidades especiais.

Flagrante em vaga especial para cadeirantes
Confesso que houve momentos de ódio como quando uma lépida senhora saiu de seu carro na vaga da rampinha para deficientes, e entrou no banco. Veio o instinto da raiva, certo vandalismo oculto, em solidariedade para com os que sofrem o infortúnio de terem de passar suas vidas assim. Bloqueei a vaga e somente saí depois de servir à madame um “chá” de 15 minutos de espera. Que chamasse a polícia, pois! Daria um belo flagrante.

O grande e saudoso professor emérito Ruy Laurenti,
ouvidor da USP
A quase totalidade dos municípios ignora as leis 11.263/02, de SP, a 13.146/15, federal, e as que as antecederam. Pior, desrespeitam quem tem dificuldades de locomoção e acesso. As minhas duraram apenas três meses, mas trouxeram uma luz positiva: ajudaram-me na conscientização sobre o problema. Conheci Renato Laurenti, filho do professor emérito da USP Ruy Laurenti – que, coincidência absurda, foi para quem meu motorista bissexto havia dirigido! Conhecido como “repórter saci”, tornado tetraplégico após um acidente, Renato tinha uma ONG para auxílio a deficientes. Conversamos algumas vezes, falamos sobre acessibilidade na Prefeitura, missão impossível. Propus-me a ajuda-lo e colaborei em outros projetos como pude.

Teatro Procópio Ferreira Tatuí
O Conservatório de Tatuí ampliou a acessibilidade no Teatro, em todas as unidades onde possível e permitido por lei, e estimulou o curso de musicografia Braile. Em 2010, recebeu o Prêmio Estadual de Ações Inclusivas, entre 300 projetos avaliados. Neste mês de junho de 2016, por iniciativa de Rogério Vianna, a Cia. de Teatro do Conservatório inovou com a leitura de uma peça com tradução em libras. Basta cada um fazer a sua parte, pouco que seja, nada mais. É dever cívico! Pegue uma emprestada, alugue, seja cadeirante por um dia. Basta um dia, um meio dia!

Alunos, o gerente de Secretaria Cristiano Guimarães, prof. Moacir e as profªs Karla, Sueli e  Darli na premiação

quarta-feira, 1 de junho de 2016

CAUBY, “UM RIO QUE PASSOU EM MINHA VIDA”

A Niterói de Cauby
Cauby Peixoto nasceu em Niterói, em 1931. No colégio Salesiano, católico, teve os primeiros contatos com a música, cantando hinos sacros no coro. Passou a pegar a Cantareira, barca que faz dezenas de travessias diárias para o Rio de Janeiro, do outro lado da oleosa e poluída Baía de Guanabara. Ainda muito novo, conseguiu um emprego no comércio, mas desde logo decidiu ser cantor, levando na bagagem a tradição musical da família inteira.

Desde cedo mostrava saber o valor da imagem do artista, e abusava de topetes, penteados e roupas exóticas, sabia como chamar a atenção. Um empresário passou a exigir-lhe roupas elegantes, moldando-lhe a imagem de futuro ídolo. Cauby arrumou um “bico” na Rádio Tupi, aproximando-se de artistas. À noite, nas folgas da sapataria, e quando possível, dava uma palinha em boates, com seu vozeirão grave que seduzia as mulheres. Apresentava-se também no velho Teatro Rival, marco da noite e da boemia carioca, o coração da Cinelândia.

Dois dos seus irmãos foram morar em São Paulo, que na época era o paradigma da metrópole na escada rumo ao sucesso. E Cauby logo foi convidado, aos 20 anos, a gravar seu primeiro 78 rpm, Saia Branca, um “bolachão” - disco feito de ebonite ou material semelhante. Amante da música internacional, gravou uma versão de Blue Gardenia, sucesso de Nat King Cole, e logo passou a atuar também nos EUA, com o nome artístico de Don Coby.



Chegou a alcançar o 5º lugar em vendas pela Billboard e foi capa de revistas estrangeiras. Ia aos EUA, e a cada retorno maior era o seu sucesso. Foi assunto na imprensa americana, que o pintava como um Sinatra ou Elvis Presley tupiniquim: Life, Time, NY Times. 

Apaixonado pelo mundo, sedutor, chegou a assumir sua bissexualidade. Não pareciam suficientes as paixões e romances tórridos com as mulheres. Por isso não se incomodava em pinçar as sobrancelhas e carregar na maquiagem, exibindo seu coté feminino. Gravou quase cento e cinquenta discos, alguns com sucesso estrondoso.

Eu estava no Rio, no início dos anos 1970, quando, além de estudar teoria e contrabaixo clássico, já era versado na conhecida “noite”, o roteiro de boates, além de tocar em shows aqui e ali. Raramente havia ensaios, não havia partituras – mesmo porque naquela época quase nenhum daqueles músicos saberia lê-las -, era chegar e tocar. A regra para os baixistas era: um ouvido no acompanhamento, outro na melodia, e os olhos na mão esquerda do pianista, que conduzia os acordes. Essa experiência forjava a habilidade de seguir a música, qualquer que fosse ela.

Tijuca Tênis Clube
Um dia alguém me telefonou, perguntando se eu queria tocar em um show no Tijuca Tênis Clube, um belo espaço na Zona Norte carioca dotado de um grande auditório, e que a apresentação seria com um conhecido artista. Viola no saco (ou melhor, baixo no ‘case’), fui no horário combinado, e apenas ao chegar fiquei sabendo que o cantor era ninguém menos do que Cauby Peixoto.

Moacyr Peixoro
Cumprimentei e conversei com o pianista, e só depois fiquei sabendo que o nome dele era Moacyr, irmão do ídolo. Preparado pela “escola do olho e ouvido” no acompanhamento, sentado à esquerda do pianista, não sabia o que viria pela frente, mas tinha cancha suficiente para tocar o serviço.


Com certo esperado atraso, a plateia, repleta, quase toda formada por mulheres, maior parte delas idosas, fazia um semicírculo aguardando o cantor. No escuro, apenas uma esfera de espelhos girava no teto, refletindo aqui e ali luzes e cores difusas em movimento meio delirante. Uma voz em off em um microfone anuncia: “senhoras e senhores, Cauby Peixoto!”

Todos em pé aplaudindo e procurando o artista, e um canhão de luz – espécie de holofote que foca um local por vez, à medida que se movimenta – fazia que procurava o cantor, mas nada de ele aparecer. Eu olhava para os bastidores, de onde se esperava que ele sairia. Nada. Depois de muito suspense, surgiu o astro, mas pela entrada do salão, do outro lado. E distribuía gentilezas com seu longo beija-mão, principalmente entre as senhoras das primeiras filas, uma por vez, cena de uns 15 minutos.

Enfim, subiu ao palco, cumprimentou-nos e pudemos ver aquele rosto bem maquiado, uma espécie de terno bordado em cores e pleno de brocados, tudo meio florido. Ao microfone, Cauby agradeceu a presença do público, assoprou beijos ao ar e disse: “quero apresentar a vocês o meu conjunto; acabamos de retornar de uma turnê ao México...” Tratava-se, com certeza, da primeira (e seria a única) vez que o via de perto na vida. Falou que gostaria de abrir o show com pedidos dos presentes, e dois funcionários passaram espécies de cumbucas de vidro, onde nos versos de seus tíquetes os fãs poderiam escrever o que desejavam ouvir.

Cauby abriu o primeiro, disse o nome da pessoa sorteada e começou: Feelings, nothing more than feelings...” (do brasileiro Morris Albert, depois condenado por ser essa música plágio rasgado de Pour Toi, de 1956, do francês Loulou Gasté – que regravou a canção original , ironizando o plagiário: Feelings, “diz ele”, Pour Toi, no novo título). Ouvido absoluto perfeito, Cauby começara a cantar antes do acompanhamento, sem receber sequer uma “nota guia”.


Lá pelas tantas, arpejou o acorde para o pianista, e o fez emendando na música, no ápice: Free again, “dó-lá-fá”. E vieram pedidos de Beatles, como Yesterday, Sinatra, My Way, franceses, como Gilbert Bécaud, Au Revoir, e italianos, como Pepino di Capri, Nico Fidenco, Sergio Endrigo. Claro, muita música brasileira e seu carro-chefe, o sucesso Conceição. Sabia todas de cor, no tom perfeito (absoluto), um repertório imenso. Que grande e inesquecível lição de música e talento! 

sexta-feira, 20 de maio de 2016

DESCONSTRUINDO O ADEUS

Joseph Haydn (1732-1809) compôs sua ‘Sinfonia do Adeus’ (Também conhecida como Farewell Symphony), de nº 45, em Fá sustenido menor, no ano de 1772, conforme consta no manuscrito do autor (das raras obras escritas nessa tonalidade incomum, no século 18). O próprio Haydn contou a história (que adiante passo a narrar) com ricos detalhes, aos seus biógrafos Georg August e Albert Dies, sobre como a peça foi concebida e executada, e a deliciosa esperteza escondida por trás dela.
Príncipe Esterházy
O benfeitor de Haydn, príncipe Esterházy, contratara o compositor como residente, às suas ordens, preço de seu generoso mecenato. Sabe-se que Haydn era franzino, mal vestido, simplório, e quando o príncipe o chamou para “fechar o acordo” de trabalho, exigiu que ele arrumasse uma peruca, usasse salto alto, pó de arroz, e deu-lhe anéis e roupas ricas, para ficar à altura do cargo (os músicos chamavam-no “velha peruca” aos sussurros nos bastidores e corredores).
Sala de concertos do palácio Eszterháza (hoje Sala Haydn)
Como residente, Haydn foi “convidado” com seus músicos a ir alegrar os dias do príncipe com sua orquestra no castelo nobre de verão, uma espécie de residência de campo em Eszterháza, na Hungria. Só que a estadia já se prolongava por demais, e os músicos estavam irritados por terem deixado suas famílias sozinhas, incomunicáveis, e cada rara breve visita lhes custava três dias, um esforço enorme.
Manuscrito de Haydn de trecho da Sinfonia
Decidiram, tomando coragem, chamar Haydn para ajuda-los. O Kappelmeister (mestre de capela, maestro), para não bater de frente com o príncipe, temendo por seu emprego mas bom líder, decidiu fazer uma brincadeira musical para mandar um recado, o que fez a popular obra mais conhecida pelo truque engenhoso para dobrar Esterházy do que por sua beleza: compôs a inusitada ‘Sinfonia do Adeus’, e inovou. Alterou instrumentos, a exemplo das trompas, que receberam uma espécie de extensor no tubo, para alcançarem as notas mais graves.
Adagio final: saída dos músicos
Com a orquestra à luz de velas sobre os suportes das partituras, no adagio final – outra inovação -, os músicos se retiram apagando cada um a sua, um por vez, conforme a exige a partitura. Saem na ordem o primeiro oboé e a segunda trompa, depois o segundo oboé e a primeira trompa, contrabaixo, violoncelo, seção inteira de violinos, viola. Restaram apenas o Kappelmeister Haydn e Tomasini, seu spalla, tocando suavemente seus violinos com surdinas (abafadores), o som esmaecendo, até se retirarem. O Príncipe, culto e inteligente, docilmente entendeu a mensagem: sem dizer nada, no dia seguinte voltava com todos para Eisenstadt, na Áustria.
Edu Lobo
O nosso brilhante Edu Lobo compôs uma preciosidade melódica e harmônica sobre poesia de Torquato Neto, letra de riqueza e simplicidade ímpares: “Pra dizer adeus”, gravada por um sem-número de artistas. O desenho harmônico, a linha de baixo descendente em progressão de acordes dissonantes, uma das melhores canções de fossa do nosso repertório popular: “Adeus / vou pra não voltar / e onde quer que eu vá / sei que vou sozinho /(...) nem é bom pensar / que eu não volto mais / desse meu caminho”. É de fazer chorar qualquer amada – ou amado, já que diversas mulheres também a tenham gravado, a exemplo de Elis, Zizi Possi, Nana Caymmi e Betânia, tornando mais suave o canto de dor ao abandonar o parceiro.
O aceno de adeus, dizem alguns antropólogos, surgiu de saudação militar, como hoje a continência. Outros, mais específicos e remontando a tempos mais longínquos, citam o emprego da mão espalmada do sentinela do vilarejo a alguém que se aproximasse, sinalizando que era para o visitante parar. Este deveria dizer seu nome, de onde veio e o que queria ali. Uma vez consentido, o vigia mandava-o entrar - ou acenava para o estranho, sinal de que podia ir embora dali. Alguns creditam a origem do gesto aos alemães. Polivalente, o aceno também se tornou uma maneira universal de ser visto ao longe, de chamar a atenção.
Claro, há diversos estilos. O aceno político, como os famosos de Kennedy, JK, Obama, Churchill e outros (não confundir com as rígidas saudações nazistas, fascistas ou o anauê integralista). Às vezes é o charme, mostrando um belo braço feminino, como o aceno de uma Gisele Bündchen ou uma Sharon Stone.
Há os acenos dos nobres, como os dos reis da Suécia e o da Rainha da Inglaterra, sem levantar muito a mão, um mínimo gesto cordial para seus súditos, gentil reverência, bastando para isso dedicar ao ato um discreto movimento a pouca altura, como fosse uma bênção generosamente concedida. Acenos também servem para mostrar-se na multidão, uma espécie de “olha, eu estou aqui”.
Mas o gesto simboliza principalmente, no mundo inteiro, a despedida, e me vem à memória a linda Teletema, de Antonio Adolfo e Tibério Gaspar, perfilando com a imortal música do Edu Lobo: “Rumo / estrada turva / sou despedida / por entre lenços brancos de partida / em cada curva / sem ter você / vou mais só”.

O adeus de Milton (por Fabrício) 
Como palavra, o adeus é universal: goodbye, au revoir, see you, adiós, tchau, adieu, so long, addio, privyet, auf Wiedersehen, com suas variáveis em todas as línguas. Mas não podemos nos esquecer do aceno irônico, do gênero “já vai tarde”. Mas esse “já vai tarde” é do adeus de uma despedida que é reverso da saudade, é o adeus de quem não sentirá a falta de quem vai, um discreto “seja feliz e me esqueça” como cantou decidido Milton Nascimento: “Se você não me queria / não devia me procurar / não devia me iludir / (...) você arruinou a minha vida / me deixa em paz”. 

sexta-feira, 13 de maio de 2016

ESTRANGULADOR, ESTRIPADOR E CORRUPTO SERIAL


9h de hoje, 18 de abril: 100.000 visualizações
MESTRES DOS REQUINTES

Gainsborough St. 
[Conheço bem o caso do estrangulador de Boston, e foi por pura coincidência. Um dia me disseram que ele havia quase sido vizinho meu, perto de duas décadas antes, e se chamava Albert DeSalvo.]

Só acreditei nessa história quando ganhei o livro The Boston Strangler, de Gerold Frank. Eu morava na Gainsborough St, que fazia esquina com a Huntington Ave, do afamado Boston Symphony Hall. O pequeno apartamento ficava no nº 79, geminado ao 77, onde DeSalvo residiu e começou seu périplo de estrangulamentos de senhoras idosas.
Cronologia e mapa dos assassinatos

Ali mesmo, em junho de 1962, a polícia descobriu, em um apartamento do primeiro andar, o corpo de Anna Slesers, 55, enforcada com o cinto de seu roupão de banho. Duas semanas depois, na vizinha Commonwealth Ave, foi a vez Nina Nichols, 68, e a sequência continuou no mesmo dia com Hellen Blake, 65, só terminando com Mary Brown, 68, oito meses depois. De Salvo acabou preso por seu 13º crime.


Os psiquiatras forenses costumam achar elos recorrentes em assassinatos seriais - como fetiches, manias ou o absurdo prazer de deixar pistas, tal qual autógrafos nos crimes. A psicopatia dos serial killers é cruel. DeSalvo rejeitou a internação no hospital psiquiátrico de Bridgewater, preferindo encarar o júri. Foi, e negou todos os crimes, para ao final confessa-los com riqueza de detalhes.

Mary Sullivan, 11ª vítima
Terminou assassinado no presídio de segurança máxima de Walpole, em 1971. Em 2001, já com as técnicas de identificação por DNA, o corpo de Mary Sullivan foi exumado, mas os exames não remetiam a DeSalvo, e sim a outros dois homens. O especialista Casey Shermann disse que se De Salvo confessou que matou Mrs. Sullivan sem tê-lo feito, pode não ter assassinado algumas ou mesmo qualquer das outras. Queria o “criminoso confesso” ter o prazer de se ver na pele do verdadeiro assassino, hipótese não descartada?

Londres: todos são suspeitos. Ilustração da época
Distrito de Whitechapel, Londres, 1888. “Jack, o estripador (the ripper)”, nunca identificado, confessou ser o assassino serial por carta enviada à imprensa, mas, assim como sua identidade, a mensagem pode ter sido apenas um jogo para disseminar o pânico na cidade. Ou um trote. “Jack” também era chamado “avental de couro”, uma alusão aos açougueiros, tamanha a crueldade empregada com as mulheres. Seus ataques visavam geralmente às prostitutas do bairro pobre do East End londrino, e o “estilo”, garganta cortada e abdômen retalhado.

A carta de "Jack" ao oficial George Lusk
Há centenas de teorias sobre a identidade do estripador, todas elas inconclusivas, o que certamente afagou e elevou o ego do misterioso assassino às alturas, um intenso prazer. Em 15 de outubro de 1888, “Jack” envia uma carta - cujo texto dá náuseas -a George Lusk, oficial de polícia de Whitechapel, escrita com um inglês paupérrimo (traduzo ao meu jeito): “Do inferno. Mr. Lusk., Sinho eu lhe mando metade do rin priservado eu tirei de uma mulher a outra parte fritei e comi. Estava muito bon. Posso mandar a fac ensanguentada que tirei se o Sr. eperar um pouco. Assinado: pegue-me quando puder, Mishter Lusk”. (Por esse "Mishter", mesmo partindo a carta de um semi-analfabeto, sinto-me ouvindo um escocês). 

High Street, em Whitechapel
Em função dessa loucura surreal que foi Jack, the ripper, foi criado até um neologismo, a “ripperologia”, o estudo dos casos dessa série de assassinatos. Entre as vítimas, há as chamadas “cinco canônicas”, que tinham elos mais próximos à forma de agir de “Jack”, embora buscas nunca chegassem a lugar algum. Foram onze vítimas em Whitechapel, mas fora dali houve algumas outras, de cuja autoria não se tem segurança: a fama oculta e o desejo de matar podem ter sido despertados em outros psicopatas pela ousadia impune de “Jack”.

O rio Tâmisa
O “mistério Whitehall” foi um dos mais bizarros desses casos: um braço encontrado boiando no rio Tâmisa, a que se seguiu um torso na construção da chefatura de polícia de Whitehall, mostram a perversidade do criminoso. Pouco depois, foi descoberta uma das pernas nas proximidades. A cabeça da vítima e outros órgãos ou vísceras nunca foram localizados, tornando impossível sua identificação. Em virtude das distintas características macabras, o chamado “assassino de torsos” nunca foi identificado com segurança como “Jack”, uma vez que os “serials” geralmente deixam sua espécie de marca registrada nos crimes, uma assinatura tão repetitiva quanto sinistra.

O assassinato do garoto John Gill (ilustração da época)
Quando John Gill, um garoto de apenas sete anos de idade, foi encontrado morto em Bradford, estava com as pernas mutiladas e sem uma orelha, suas vísceras e seu coração haviam sido arrancados. Semelhanças com a violência brutal de Jack há, mas a idade, o fato de ser um menino e não uma prostituta não faziam o elo lógico com “o conjunto da obra” do estripador. O patrão do menino, William Barret, foi preso por duas vezes, e, por insuficiência de provas, terminou solto, deixando o caso sem suspeitos.


O perfil psicopata do assassino serial tem algo a ver com a patologia de outros crimes. O roubo, por exemplo. Atraído pela ocasião, como se diz, o sujeito começa com muito pouco, talvez, mas o sucesso da impunidade e ambição crescem em sua mente, tornando-o obcecado e cada vez mais ambicioso. O velho provérbio lusitano “quem rouba tostão, rouba milhão”, vem da sábia visão popular dessa volúpia crescente de ficar rico, daí mais rico e até infinitamente rico, sem poder parar, vítima da mesma patologia dos homicidas seriais. Porém, com a tecnologia de hoje, dificilmente o criminoso consegue prosseguir na trajetória sem ser descoberto, como logrou o mito “Jack”. Talvez até, em seu subconsciente, o bandido queira prosseguir até ser flagrado, mas não o percebe de forma consciente. Talvez os crimes em série, de assassinatos a corrupção, sejam gêmeos com liames comuns em suas patologias. Os últimos, quando pegos, deixam seus autores na clausura das celas e, pior ainda, de suas consciências, por terem assassinado indiretamente crianças, adultos e idosos em filas de hospitais, fora aqueles deixados sem escola, vacinas e tudo o que o Tesouro, violentado e estripado, deveria oferecer ao povo por obrigação de Estado.


sexta-feira, 6 de maio de 2016

MOZART: UMA PAIXÃO E UM AMOR DESMESURADO


UMA PAIXÃO
“Estou feliz porque tenho o que compor, que é realmente minha única alegria e paixão” (carta ao papai Leopold, em 11 de outubro de 1777, uma declaração de vocação e destino). Que o jovem Wolfgang Amadeus Mozart, nascido em 1756, sempre tomou a música como sua mais elevada paixão, não há dúvida. Seu talento exuberante seduziu-o ainda bem pequeno, conseguia reproduzir de memória músicas ao cravo, ainda aos 4 anos de idade. Ainda criança ouviu um certo Miserere na Capela Sistina e, de memória, repetiu-o depois ao cravo com perfeição. Virtude preciosa que carregou até sua morte em 1791, precoce aos 35 anos.

Introdução da abertura de A Flauta Mágica
Quando partiu, havia entregue ao mundo 41 belas sinfonias (mais 17 de origem duvidosa ou em trechos ou anotações), 22 óperas de variados gêneros, incluindo a “imoral” (para a época) Don Giovanni e A Flauta Mágica, ambientada nos rituais maçônicos e crítica satírica à nobreza; 25 sonatas para piano (cravo), incluindo as 6 para dois executantes e uma para dois teclados, 36 para violino e piano e um enorme mosaico de obras, incluindo concertos, oratórios e um réquiem, entre outros. Compôs como quem rabisca, brinca (em alemão, spiel significa tanto tocar um instrumento quanto brincar) quase 800 obras, durante sua curta vida.
Don Giovanni e seus amores

Tom Hulce, no papel de Amadeus, de Milos Forman
Quem assistiu ao filme “Amadeus” do Milos Forman (1984) viu uma história romantizada e não muito interessada no chamado “rigor científico”, como aliás toda biografia no cinema. A fita arrebatou o Oscar e o BAFTA de melhor filme, 4 Globos de Ouro, o BGA e muito, mas muito dinheiro. O texto de Schaffer não foi lá muito fiel ao apresentar fatos e pessoas. O mito do compositor Salieri como o homem que teria envenenado Mozart trouxe aquela pitada de mistério e traição tão ao gosto dos americanos.

Não foi diferente com “Amada Imortal” (Immortal Beloved), filme de 1994 sobre a vida de Beethoven, embora este siga a primeira biografia do compositor, por Anton Schindler. Nem seria um outro sobre Schumann, Sonata de Amor (Love Song) ou talvez qualquer um sobre a vida de outros compositores.

Mozart, com papai Leopold e irmã
No caso de Amadeus, salta aos olhos a figura brincalhona e zombeteira de Mozart, perfil que muitos escritos parecem dividir. É verdade que aqui e ali a personalidade tanto quanto exibicionista de   Mozart não ficava longe disso. Surgira desde os tempos em que papai Leopold o levava, ainda bem criança, a exibir-se no cravo ou no violino nos belos palcos da mais alta nobreza. O prodígio aglomerava pessoas e arrecadava dinheiro com facilidade, com o apelo da mística de seus apelidos “pequeno mágico” e “o predileto dos deuses”.

Mozart criancinha
Aos seis anos apenas, escreveu pequenos minuetos e um alegro, aos sete teve publicadas algumas peças, e aos treze já se iniciava na composição de óperas, que viria a fazer dele o maior do gênero de todo o período clássico.

A Linz da época de Mozart
Ao retornar à Áustria, na cidade de Linz, após uma viagem, escreveu ao pai, em 1783, dizendo que não levava consigo nenhuma obra, mas teria que apresentar alguma coisa do dia 4 de novembro. O compositor havia chegado no dia 30 de outubro, e embora tendo laborado pouquíssimos dias, obteve grande sucesso com sua sinfonia nº 36, Linz. E apenas na véspera da estreia da ópera Don Giovanni, Mozart escreveu a abertura! As sinfonias 39 a 41 foram compostas em apenas sete semanas e dez dias. Uma fúria composicional ensandecida, desafiadora e até humilhante, para os mortais.

Conta-se que Haydn, fazendo troça, propusera-lhe um desafio: escrevera uma obra e, apostando uma garrafa de champanhe, duvidou que Mozart a tocasse. Este sentou-se ao teclado e, ao chegar ao final da leitura, deparou-se com as duas mãos nas extremidades graves e agudas, e uma nota solitária no meio do teclado. Não teve dúvidas: completou o acorde com o nariz, pegou a garrafa e saiu, entre as escandalosas gargalhadas de sempre.

A jovem Constanze Weber
O AMOR DESMESURADO começou aos 22 anos de idade, quando Mozart conheceu a ainda adolescente Constanze. Aturou-lhe as meninices, como aquela de uma festa em que ela deixou um rapazola brincar de medir-lhe as panturrilhas. Repreendeu-a por carta, comparando aquilo a uma brincadeira que fizera, ele mesmo, com uma certa baronesa, mas já bem entrada nos anos, que não lhe despertava nenhum desejo (apesar da receptividade assanhada da nobre idosa).

Papageno, em figurino de época:
A Flauta Mágica
Fazia palhaçadas até mesmo durante apresentações de obras suas, como brincar com carrilhões nos bastidores de sua ópera A Flauta Mágica. Com a morte de seu mecenas, Joseph II, a vida de Mozart começou a perder a graça e o gênio começou a entrar em parafuso. Falava palavrões aos montes e escrevia besteiras nas cartas à sua amada Constanze, como “beijo-te 1.095.473.082 vezes”, ou “do teu Stu! Knaller paller. Schnip-schnap-schnur. Schnepepperl-Snai!”, coisas totalmente desprovidas de sentido.


O corpo de Mozart chegando ao cemitério (com o cãozinho)
Conta-se que Mozart, depois de toda a glória, terminou enterrado em vala comum com a presença de apenas duas pessoas e seu fiel cão – o que lembra a expressão popular “morreu com a boca cheia de formiga e um cachorro velho lambendo-lhe a cara”. Constanze sequer foi ao enterro, pois se encontrava muito doente, e apenas dezessete anos depois foi procurar o jazigo, saindo desolada pois não se sabia onde estava o túmulo de seu amado ou se seus restos mortais haviam desaparecido. O gênio escapara até da separação de Constanze pela morte. Mas seu crânio, creem alguns, foi surrupiado – talvez por alguém que quisesse tentar descobrir o que fizera daquele ser humano alguém a quem Deus permitiu transcender os limites possíveis da inteligência e criatividade.