A reviravolta no referendo do dia 23 de junho
no Reino Unido, que decidiu pela saída (Brexit)
da União Europeia, foi um incidente que surpreendeu. O premiê David Cameron,
durante a campanha, havia prometido realizar a consulta popular, a fim de agregar
votos ultraconservadores ao seu eleitorado. Cumpriu a promessa, e amargou a
derrota. Fez o que prometeu, ao contrário de políticos de países em que
promessas são comumente abortadas após a posse. Honrou sua palavra, que é sagrada
entre os anglo-saxônicos, e anunciou a renúncia. Perdeu o Reino: em 2012, a União
Europeia recebeu o Prêmio Nobel por mais de sessenta anos em defesa da paz, da
democracia e dos direitos humanos.
A iniciativa ultraconservadora pode conduzir
à dissolução da UE, e já cria sérios problemas políticos e econômicos para o
Reino, e por tabela para o mundo. Como reflexo desse tombo, em países como a
Itália já se ensaiam passos para a retirada. Em paralelo, um visível retrocesso
ultraconservador nos EUA, país de ligações filiais com o Reino Unido. O
fenômeno catalisador da ultradireita atende pelo nome de Donald Trump (foto acima), “capo” de
um conglomerado de empresas que lhe dá um rendimento (declarado) de 250 milhões
de dólares anuais. O pré-candidato republicano parece ter uma gana incontrolável
pelo poder, levantando bandeiras xenofóbicas e ultranacionalistas não muito
diferentes das que moveram o Brexit. Tanto na Grã-Bretanha quanto nos EUA já está
semeado o medo, a discórdia que alimenta os instintos mais preconceituosos e
que abre uma ferida vulnerável à contaminação em ampla escala.
"Fascios"
É possível detectar os mesmos sentimentos
surgidos na Itália após a 1ª Guerra, uma ideologia que foi buscar suas origens
bem lá atrás, entre os espartanos, remontando à pureza racial e defesa
intransigente de seus ideais pela força. Depois surgiu sem nome, sem lenço nem
documento, durante o Império Romano. No século 20, reaviva-se o fascios, símbolo da autoridade penal na
Roma antiga, adotado pelo fascismo. Mussolini seduziu o responsável por milhões
de mortes, a bordo de um antissemitismo cruel e a ideia de imperar sobre toda a
Europa: Adolf Hitler, que louvava a cultura helênica, em especial a de Esparta,
e criou seu nacional-socialismo. Já o fascismo de Mussolini tinha laços com
pensamentos de Platão e, claro, Augusto e Júlio César, do Império Romano.
No Brasil, ressurgem os ventos fascistas,
tanto faz se entre os que se dizem “de direita” ou “de esquerda”, salvo raras exceções
de autenticidade. Seja com os deputados da chamada “bancada da bala”, incensada
por alguns, apesar do passado e da conduta reprovável, seja com a “da bíblia”,
representada por uma ala radical de algumas “igrejas evangélicas”, que levam para
a vala comum as correntes dos que seguem verdadeiramente a palavra de Cristo.
Mas não é só nesses agrupamentos que aparece o que já é claramente um retrato do
neofascismo.
Stalin: "Guia Genial dos Povos"
Há os radicais que, ligados a agremiações que
carregam nomes socialistas, comunistas, ou adotam a bandiera rossa, parece se envaidecerem ao serem chamados de stalinistas,
referência ao “Guia Genial dos Povos”, o soviético Joseph Stalin. No fundo, se fascistas
e stalinistas não são dois lados da mesma moeda, como gêmeos univitelinos, ao
menos com certeza compartilham alguns genes comuns de seus DNAs.
"Black blocs"
Se, no Reino Unido, o Brexit foi definido pelos
votos dos mais velhos e conservadores, assim como a ascensão da candidatura
Trump, no Brasil o retrocesso se dá em ordem inversa, e tem arrebatado jovens
de diversas classes. Há o discurso niilista (de negação geral) do funk, os “black
blocs”, pseudo-anarquistas, e parte do Congresso ou personalidades do poder,
travestida de uma autodeclarada esquerda que vem se revelando no dia a dia no
mais das vezes de mãos dadas com os grandes capitalistas. Por fim, o cheiro do radicalismo
fascista chega às nossas universidades. Ao contrário dos idosos conservadores,
com Brexit e Trump, ele vem nas atitudes dos mais jovens.
Barricada de alunos em salas de aulas
Uma reportagem na TV mostrou um professor da
Unicamp dando uma aula “clandestina”, porque a minoria radical lhe tirou e de seus
alunos o direito de realiza-la como sempre. Após escrever uma longa e complexa
fórmula na lousa, o professor viu, lado a lado, um aluno apagar tudo, como quem brada “não vai ter aula!” Na Usp, professores do Instituto de Física divulgaram
uma carta aberta com referências ao “autoritarismo fascista do movimento
estudantil controlado pela esquerda” – obs.: seja lá o que isso for! – e
mencionam “a
forma truculenta e autoritária” como os “estudantes grevistas” têm atuado dentro
da universidade, incluindo “assembleias minoritárias de estudantes” para
decidir em nome de todos pelas greves e piquetes. (Eu acrescentaria ao texto
dos colegas: protofascistas, algo como “arremedos de fascistas”).
“Temos consciência da
enorme responsabilidade de fazer parte do corpo docente de uma das melhores universidades
da América Latina, que custa aos pagadores de impostos cerca de 15 milhões de
reais por dia”. E um recado: para aulas dadas
serão consideradas presenças por comparecimento, e para os ausentes, faltas –
evitando as surradas e absurdas reposiçõesfake.
Aulas “clandestinas” aconteceram na Ufscar e na Usp São Carlos, fora as
regulares de institutos do Butantã que resistem ao uso da força pela minoria e
separam o joio do trigo. Há quem queira rasgar a Constituição sem sequer tê-la
lido. Podem ser novos os tempos, mas as ideias muito velhas.
Meu pai volta e meia repetia os versos do Lundu
do Escritor Difícil, do Mário de Andrade: “...não carece vestir tanga / pra
penetrar meu caçanje (obs.: mau português) / Você sabe o francês singe / mas não sabe o que é guariba? /
pois é macaco, seu mano, que só sabe o que é da estranja”.
A enfiteuse (do latim emphyteusis) é uma espécie de arrendamento que vem do direito
romano. No Brasil, refere-se a terras da União, cedidas permanentemente a
particulares. O enfiteuta (cessionário) tem o dever de bem cuidar das terras adquiridas.
No passado, o enfiteuta pagava à União o vectigal,
espécie de taxa anual, como contrapartida pela cessão do imóvel em caráter
permanente por instrumento jurídico (isso, até 1916). O instituto da enfiteuse estava
no Código Civil de 1916, mas em nosso novo Código, de 2003, deixou de ser
considerado um direito real, embora tenha permanecido em plena vigência.
A "Faixa do Laudêmio"
O curioso é que o novo Código também preservou
o laudêmio (do lat. laudemium), que
não é imposto, não é taxa, não é tributo, não é nada. Querem que pareça a
história do “tem focinho de porco, pé de porco, orelha de porco, mas não é
porco, é feijoada”. O laudêmio de 2,5% deve ser pago pelo vendedor à Marinha, portanto,
à União, pela proximidade do terreno com o mar (rendendo coisa de R$ 153
milhões ao ano). Em 1821, todo aforamento - obrigação de ceder suas terras para
plantio de outrem - das chamadas sesmarias passaram a ser enfiteuses, conforme
determinou o Império de Portugal. O ilustre jurista Pontes de Miranda
(1892-1979) afirmou que a enfiteuse, instituída inicialmente para as terras
próximas ao mar, “para prevenir invasões” (sic), “é um dos cânceres da economia
nacional”.
Pior: a depender do caso, em cidades como
Petrópolis, antiga Residência Imperial de Verão, paga-se 2,5% não à Marinha,
mas aos herdeiros da Família Imperial. Sim, isso mesmo, família que, como se
sabe, caiu do trono há 129 anos, quando Deodoro desferiu-lhe o golpe mortal da
República.
Árvore genealógica da Família Imperial
A família Orleans e Bragança recebe 2,5% de
cada transação imobiliária em Petrópolis, o que soma – segundo a contabilidade da
própria Família Real – R$ 4,7 milhões no ano, ou seja, R$ 470 mil (atuais) para
cada um de seus dez membros vivos. Para fazer absolutamente nada. O porquê de a
República manter a benesse para a família real 129 anos depois do fim do
Império, não descobri. Há um Projeto de Lei protocolizado em 2014 para
extingui-la, na Câmara dos Deputados, mas que sequer chegou à CCJ, primeira
comissão. Algo me diz que ficará onde está.
Assustou-se? Calma, tem mais, seu mano (como
diria Mário): o laudêmio também pode ser devido, em lugares como a Bahia e pelo
menos parte da cidade do Rio de Janeiro, à Igreja Católica – isso mesmo, à
Igreja! Caymmi cantava “365 igrejas, a Bahia tem”, mas ficam de fora os orixás,
os cultos afro-brasileiros e demais religiões? Que dizer dos ateus e
agnósticos? Simplesmente porque a lei “pegou”, e continua vigente mesmo em um
país dito laico, cuja Constituição determina expressamente que não há distinção
de raça, credo, etc.?
O cidadão que receber por herança ou por doação
um imóvel vai pagar também o ITCMD (Imposto sobre a Transmissão Causa Mortis e Doações)
ao cartório de imóveis, em taxas que variam conforme o estado: em São Paulo, cobra-se
4%, e no Rio de 4,5% a 5% na avaliação estabelecida por uma tabela especial, e
não o mais modesto valor venal, claro. Isso significa que, só de ITCMD, o
herdeiro de um imóvel de 1 milhão (os preços no Rio estão na estratosfera) tem
de pagar R$ 50 mil para registrá-lo em seu nome. E não é só. Some 2% do ITBI (Imposto
sobre Transmissão de Bens Imóveis) municipal, que acompanha o valor da tabela do
ITCMD, e o total já salta para R$ 70 mil. No Rio, onde há ainda o laudêmio e
outros tantos impostos, o achaque é tão absurdo que o número de imóveis em
situação irregular é alarmante. Herdeiros ficam na posse precária do imóvel, alugam
ou passam adiante assim mesmo. Mas não para aí.
Ao registrar um imóvel, o cidadão fluminense
paga também o PMCMV, que nada mais vem a ser que uma contribuição para o Minha
Casa, Minha Vida, a cerejinha do governo federal, bonita para os ilustres
governadores e presidente de plantão inaugurarem, com direito a casquinha dos
prefeitos. Mas espere, como a molecada hoje diz, você ainda “não sabe de nada,
coitado!”
Paga-se 20% para o FETJ (Fundo
Especial do Tribunal de Justiça), assim distribuídos: 5% para o FUNPERJ (Fundo Especial da Procuradoria
Geral), mais 5% do FUNDPERJ (Fundo
Especial da Defensoria Pública Geral), 4% do FUNARPEN/RJ (Fundo de Apoio aos Registradores Civis das Pessoas Naturais),
e uma caixinha de R$10,86, por cada ato praticado, sejam quantos forem, divididos
igualmente para a Mútua dos Magistrados
do Estado, a Caixa de Assistência do Ministério Público, a Caixa de Assistência
dos Procuradores do Estado, a Caixa de Assistência
aos Membros da Assistência Judiciária, a ANOREG/RJ (Associação dos Notários e
Registradores), ACOTERJ (Associação dos Conselheiros dos
Tribunais de Contas do Estado e dos Munícipios). Paga-se ainda R$15,63
para cada consulta ao BIB (Banco de Indisponibilidades de Bens). Ficam assim
todas as entidades fornidas e satisfeitas!
Meu pai dizia - sabia do que falava, pois trabalhou
muitos anos no Palácio da Justiça do Rio e conhecia bem o assunto - que o
Brasil não tem governo, tem tributo. Uma de suas “sacações” geniais, seu jeito de trançar os sentidos com um humor muito pessoal. Sábias
palavras!!!
Grève, em francês, palavra de origem gaulesa (grava), na antiguidade significava ‘procurar emprego’, mas no séc.
19 passou a designar paralisação coletiva do trabalho. Com a Revolução
Industrial (entre 1760 e 1840), o trabalho coletivo era o motor das indústrias e
tudo o que se produzia no mundo. Sob pressão da classe operária, na virada dos
séculos 19/20 muitos países passaram a reconhecer o direito de greve.
'The Strike'
Talvez o registro mais
antigo de paralisação seja o de 1152 a.C., com Ramsés III, quando artesãos
interromperam o trabalho por falta de pagamento. Não só recuperaram os salários
atrasados como também receberam como ‘agrado’ um aumento salarial. Há registros
pictóricos, mas um dos mais conhecidos é o mais recente The
Strike (A Greve), óleo de Robert Koehler (1886).
Lech Walesa, 1981
Uma das mais amplas
greves gerais aconteceu na Polônia de 1981, liderada por Lech Walesa, operário
depois eleito presidente da república (1990-1995), e foi um dos símbolos do fim
do domínio comunista na Europa Oriental. No Brasil, o direito de greve foi na
maior parte do tempo suprimido, e apenas tolerado nos poucos governos mais
condescendentes.
Marx e Engels
A força das greves
seduziu as massas de trabalhadores e tornou-se um forte meio de ação, como bem
descreve Friedrich Engels - que com Marx, em 1848, redigiria o “Manifesto do
Partido Comunista”. Engels, sobre o movimento londrino, escreveu: “pelo seu
número, a classe trabalhadora tornou-se a mais poderosa da Inglaterra,
ameaçando os mais ricos. O proletário inglês tomou consciência de sua força...”
Marx publicou “A
Pobreza da Filosofia” - título que ridicularizava o “A Filosofia da Pobreza”,
do anarquista Proudhon, que via o exercício da greve como crime. Com as greves,
surgiram os neologismos: os strikebreakers,
ou fura-greves, que se recusam a aderir, sendo às vezes violentamente impedidos
de trabalhar e até agredidos por seus companheiros. Surgiram ainda piquete (de picket line, ‘fila de estacas’), barreira,
e os piqueteiros, que impedem pela força a opção contrária, impondo a vontade e
interesses políticos de seu grupo a todos os demais.
Greve geral no Brasil: 1917
No Brasil, a primeira
grande greve, em 1917, eclodiu no eco da Revolução Russa. Em 1988, a
Constituição Federal, em seu artigo 9º, conjugado com a lei nº 7.783, do ano
seguinte, assegurou o direito de greve a todos os trabalhadores. A greve é
considerada legítima desde que tenha caráter temporário e pacífico, e que o
empregador e entidade patronal sejam avisados 48 horas antes, ou 72, no caso de
serviços essenciais.
O instituto da greve não
contempla os piquetes, apenas o direito de os grevistas tentarem persuadir os
colegas de trabalho a aderirem ao movimento. Grevistas podem arrecadar fundos e
exercer a livre divulgação, mas são proibidos de violar direitos e garantias.
Não podem impedir o livre acesso dos que querem trabalhar nem causar danos a propriedades ou
pessoas, ao passo que os empregadores não podem frustrar a realização ou a livre
divulgação do movimento paredista.
Na atual crise econômica,
a mais severa por que o Brasil já atravessou, são constantes as violações dos
direitos, piquetes e depredações em manifestações.
A reboque dos operários,
a massa estudantil – falo quase que exclusivamente dos que frequentam
universidades públicas e gratuitas, claro – passou a fazer uso de paralisações,
usando das mesmas garantias legais. Mais ainda, a greve estudantil, apesar de
intramuros, de anos para cá passou a servir mais como um instrumento
político-partidário do que à causa dos estudantes, passando ao largo dos interesses
universitários.
Vivi meu tempo escolar
sob uma ditadura até sair do Brasil, em 1977, com a repressão e a censura ainda
imperando. Greve? Tínhamos medo de morrer, de pau de arara e masmorra. Foi
somente como professor da USP, em 1988, que vim a participar da minha primeira
greve. Grevistas chegaram das 3 universidades públicas do estado em muitos
ônibus ao Palácio Bandeirantes, blindado por PMs com seus lindos cavalos e
aqueles longos cassetetes de madeira (chamados “MEC-Usaid e abuseid”, nos
tempos da ditadura).
O reitor José Goldenberg
conversava no gabinete com o então governador Quércia, e conseguiu um acordo
para incluir na lei do orçamento anual (LOA) um percentual fixo da arrecadação
do ICMS para as três universidades. Para 1989, a LOA estabeleceu a fatia de
8,4%; em 1993, chegou a 9%, e alcançou os atuais 9,57% em 1995.
Hoje, com a
inflação em alta e a arrecadação do estado em queda livre (o rombo é de 3,3
bilhões), fora os orçamentos comprometidos em mais de 100% com a folha de
pagamento, a crise na academia parece insolúvel. Apesar do sucesso de campanhas
salariais de anos passados, a atual parece fadada ao fracasso. Para piorar, não
tem foco: a pauta universitária se confunde com a política estadual e mesmo
nacional, o que serve para pulverizar objetivos e enfraquecer o principal.
Pior ainda, os maiores
interessados na greve são os estudantes – curiosamente, os principais
prejudicados -, afrontando todas as garantias legais e impedindo o acesso de
todos às aulas, rezando uma ladainha confusa, transmitida ano a ano como uma unção
batismal a cada ingresso de calouros. Está faltando estudo no país, e isso se
estende à questão política: fazem de palavras de ordem genéricasdas centrais sindicais suas
bandeiras, sem compromisso realista com a luta por conquistas possíveis.
Estudantes são embalados pelo vento e se sentem revolucionários, mas quando
muito são pequeninos Quixotes delirantes que não chegam às botas dos pesados
moinhos.
Todos deveriam ser cadeirantes por um dia! “Pra mim, basta um dia, não
mais que um dia, um meio dia” (Chico). Segundo o IBGE, 6,2% da população
brasileira apresenta algum tipo de deficiência, seja visual, de locomoção ou
outra. Em 2010, incluindo subtipos de deficiências visual, auditiva ou mental, 24%
mostraram-se portadores de algum tipo de perda, o equivalente a 45,6 milhões de
brasileiros. Muitos usam muletas, bengalas, andadores e cadeiras de rodas, fora
os desvalidos que não têm condição de comprar uma. A idade é agravante entre os
vários tipos de deficiência, quando não é o bilhete para ingresso definitivo de
um a mais nas estatísticas.
Alguns dizem “não
vejo tantos cadeirantes nas ruas”. Ora, os de maior poder aquisitivo passam despercebidos dirigindo
seus carros adaptados, ou são levados para lá e para cá por seus motoristas, amigos
ou parentes. Estacionam nos bancos nas vagas reservadas e são identificados pelo
adesivo de cadeirante no para-brisa. Alguns usam boas cadeiras, e os mais bem aquinhoados aquelas
motorizadas, que chegam a custar mais de 13 mil dólares (R$ 45 mil). Já artefatos
robóticos são para muito, muito poucos.
Sonhar é preciso: ônibus em Londres
Nossos ônibus, calçadas e prédios não estão preparados para receber
deficientes físicos, e muitos nem saem de casa porque ficam confinados como se
estivessem presos. São párias da sociedade, alijados de estudo, trabalho e
lazer, e geralmente ignorados pelos que tiveram a bênção de poderem desfrutar de
todos os movimentos do corpo.
Fíbula
Minha preocupação
com o assunto veio à tona quando vi-me cadeirante e portador de muletas por
três meses, após uma ridícula fratura na fíbula (altura do tornozelo). Digo ridícula
porque nem fui ao chão, torci o pé em um degrau de escada, caindo de pé sobre o
de baixo, com o tornozelo virado. Raios-x feitos em um hospital de São Paulo, o
remédio de sempre: gesso. Durou um dia. Comprei uma daquelas botas e voltei ao
hospital para arrancar aquele chumbo da perna. Começara ali minha vivência de
uma realidade que até então apenas supunha existir.
Para tirar licença de trabalho da Prefeitura, fui ao prédio da Perícia
Médica, no centro. Levou-me um vizinho, senhor de idade, motorista aposentado e
‘faz-tudo’, de pintura a pequenos reparos (retorno a ele adiante). Para entrar
no prédio, uma escada sem corrimão e, claro, fora dos padrões da ABNT. Era colocar as duas muletas sob uma
axila e a outra mão na parede para ajudar. Ao entrar - local de pessoas
acidentadas e doentes! -, não havia mais cadeiras na sala de espera. Para ir ao
banheiro, tive de passar por um corredor com as muletas, só que de lado: uma
“reforma” do espaço havia espremido a passagem com uma divisória.
Escola Municipal de Música: rampa dos fundos
(prédio antigo)
Nem cheguei ao terceiro dia de licença: enlouquecido, desci sentado a
escada do quarto, peguei as muletas, coloquei a cadeira de rodas que alugara
dentro do porta-malas do carro e fui para o trabalho. Chegando, entrei pela rampa
dos fundos e comecei a tocar o serviço da cadeira de rodas.
Teatro Municipal: escada favorita dos skatistas
Após o susto do
prédio da perícia, sucederam-se vários outros. Haveria um belíssimo concerto no
Teatro Municipal, e eu não queria perder. Fui, estacionei e arrastei o corpo
com as muletas até a escadaria da frente, subindo aqueles degraus enormes, um
grande risco (o prédio é de 1911, tombado, impossível alterar) – coisa para esportes
radicais. Lá dentro, encontrei o Lauro Machado Coelho, cadeirante, o crítico de
conhecimento musical mais vasto que conheci. E ele me contou seu truque: sempre
telefonava antes, entrava com a cadeira pela passagem de serviço lateral, subia pelo
elevador de palco e descia à plateia.
Campinas: Centro de Convivência
Episódios de frustração no acesso aos bens culturais repetiram-se algumas
vezes, como no Centro de Convivência de Campinas, onde fui ver um recital.
Descer até a plateia foi uma aventura cheia de sustos. Apesar de muito mais
recente do que o Municipal de SP, o Centro não tinha as mínimas condições para portadores
de necessidades especiais.
Flagrante em vaga especial para cadeirantes
Confesso que houve momentos de ódio como quando uma lépida senhora saiu
de seu carro na vaga da rampinha para deficientes, e entrou no banco. Veio o instinto
da raiva, certo vandalismo oculto, em solidariedade para com os que sofrem o infortúnio de terem de passar
suas vidas assim. Bloqueei a vaga e somente saí depois de servir à madame um
“chá” de 15 minutos de espera. Que chamasse a polícia, pois! Daria um belo
flagrante.
O grande e saudoso professor emérito Ruy Laurenti,
ouvidor da USP
A quase totalidade dos municípios ignora as leis 11.263/02, de SP, a 13.146/15,
federal, e as que as antecederam. Pior, desrespeitam quem tem dificuldades de
locomoção e acesso. As minhas duraram apenas três meses, mas trouxeram uma luz
positiva: ajudaram-me na conscientização sobre o problema. Conheci Renato
Laurenti, filho do professor emérito da USP Ruy Laurenti – que, coincidência
absurda, foi para quem meu motorista bissexto havia dirigido! Conhecido como
“repórter saci”, tornado tetraplégico após um acidente, Renato tinha uma ONG para
auxílio a deficientes. Conversamos algumas vezes, falamos sobre acessibilidade
na Prefeitura, missão impossível. Propus-me a ajuda-lo e colaborei em outros projetos
como pude.
Teatro Procópio Ferreira Tatuí
O Conservatório de
Tatuí ampliou a acessibilidade no Teatro, em todas as unidades onde possível e
permitido por lei, e estimulou o curso de musicografia Braile. Em 2010, recebeu
o Prêmio Estadual de Ações Inclusivas, entre 300 projetos avaliados. Neste mês
de junho de 2016, por iniciativa de Rogério Vianna, a Cia. de Teatro do Conservatório inovou com a leitura de uma peça com
tradução em libras. Basta cada um fazer a sua parte, pouco que seja, nada mais.
É dever cívico! Pegue uma emprestada, alugue, seja cadeirante por um dia. Basta
um dia, um meio dia!
Alunos, o gerente de Secretaria Cristiano Guimarães, prof. Moacir e as profªs Karla, Sueli e Darli na premiação
Cauby
Peixoto nasceu em Niterói, em 1931. No colégio Salesiano, católico, teve os
primeiros contatos com a música, cantando hinos sacros no coro. Passou a pegar
a Cantareira, barca que faz dezenas de travessias diárias para o Rio de
Janeiro, do outro lado da oleosa e poluída Baía de Guanabara. Ainda muito novo, conseguiu um emprego no comércio, mas desde logo decidiu ser cantor, levando na
bagagem a tradição musical da família inteira.
Desde
cedo mostrava saber o valor da imagem do artista, e abusava de topetes,
penteados e roupas exóticas, sabia como chamar a atenção. Um empresário passou
a exigir-lhe roupas elegantes, moldando-lhe a imagem de futuro ídolo. Cauby arrumou
um “bico” na Rádio Tupi, aproximando-se de artistas. À noite, nas folgas da sapataria, e quando possível,
dava uma palinha em boates, com seu vozeirão grave que seduzia as mulheres. Apresentava-se
também no velho Teatro Rival, marco da noite e da boemia carioca, o coração da Cinelândia.
Dois
dos seus irmãos foram morar em São Paulo, que na época era o paradigma da metrópole
na escada rumo ao sucesso. E Cauby logo foi convidado, aos 20 anos, a gravar
seu primeiro 78 rpm, Saia Branca, um “bolachão” - disco feito de ebonite ou
material semelhante. Amante da música internacional, gravou uma versão de Blue Gardenia, sucesso de Nat King Cole,
e logo passou a atuar também nos EUA, com o nome artístico de Don Coby.
Chegou
a alcançar o 5º lugar em vendas pela Billboard e foi capa de revistas
estrangeiras. Ia aos EUA, e a cada retorno maior era o seu sucesso. Foi assunto
na imprensa americana, que o pintava como um Sinatra ou Elvis Presley
tupiniquim: Life, Time, NY Times.
Apaixonado
pelo mundo, sedutor, chegou a assumir sua bissexualidade. Não pareciam
suficientes as paixões e romances tórridos com as mulheres. Por isso não se
incomodava em pinçar as sobrancelhas e carregar na maquiagem, exibindo seu coté feminino. Gravou quase cento e cinquenta
discos, alguns com sucesso estrondoso.
Eu
estava no Rio, no início dos anos 1970, quando, além de estudar teoria e
contrabaixo clássico, já era versado na conhecida “noite”, o roteiro de
boates, além de tocar em shows aqui e ali. Raramente havia ensaios, não havia
partituras – mesmo porque naquela época quase nenhum daqueles músicos saberia
lê-las -, era chegar e tocar. A regra para os baixistas era: um ouvido no
acompanhamento, outro na melodia, e os olhos na mão esquerda do pianista, que conduzia
os acordes. Essa experiência forjava a habilidade de seguir a música, qualquer
que fosse ela.
Tijuca Tênis Clube
Um
dia alguém me telefonou, perguntando se eu queria tocar em um show no Tijuca Tênis
Clube, um belo espaço na Zona Norte carioca dotado de um grande auditório, e que a apresentação seria com um conhecido artista. Viola no saco (ou melhor, baixo no ‘case’), fui
no horário combinado, e apenas ao chegar fiquei sabendo que o cantor era
ninguém menos do que Cauby Peixoto.
Moacyr Peixoro
Cumprimentei
e conversei com o pianista, e só depois fiquei sabendo que o nome dele era
Moacyr, irmão do ídolo. Preparado pela “escola do olho e ouvido” no
acompanhamento, sentado à esquerda do pianista, não sabia o que viria pela
frente, mas tinha cancha suficiente para tocar o serviço.
Com certo esperado atraso, a plateia,
repleta, quase toda formada por mulheres, maior parte delas idosas, fazia um
semicírculo aguardando o cantor. No escuro, apenas uma esfera de espelhos
girava no teto, refletindo aqui e ali luzes e cores difusas em movimento meio
delirante. Uma voz em off em um
microfone anuncia: “senhoras e senhores, Cauby Peixoto!”
Todos
em pé aplaudindo e procurando o artista, e um canhão de luz – espécie de
holofote que foca um local por vez, à medida que se movimenta – fazia que procurava o
cantor, mas nada de ele aparecer. Eu olhava para os bastidores, de onde se esperava
que ele sairia. Nada. Depois de muito suspense, surgiu o astro, mas pela
entrada do salão, do outro lado. E distribuía gentilezas com seu longo
beija-mão, principalmente entre as senhoras das primeiras filas, uma por vez, cena
de uns 15 minutos.
Enfim,
subiu ao palco, cumprimentou-nos e pudemos ver aquele rosto bem maquiado, uma
espécie de terno bordado em cores e pleno de brocados, tudo meio florido. Ao
microfone, Cauby agradeceu a presença do público, assoprou beijos ao ar e disse:
“quero apresentar a vocês o meu conjunto; acabamos de retornar de uma turnê ao
México...” Tratava-se, com certeza, da primeira (e seria a única) vez que o via de perto
na vida. Falou que gostaria de abrir o show com pedidos dos presentes, e dois funcionários
passaram espécies de cumbucas de vidro, onde nos versos de seus tíquetes os fãs
poderiam escrever o que desejavam ouvir.
Cauby abriu
o primeiro, disse o nome da pessoa sorteada e começou: Feelings, nothing more than feelings...” (do brasileiro Morris
Albert, depois condenado por ser essa música plágio rasgado de Pour Toi, de 1956, do francês Loulou
Gasté – que regravou a canção original , ironizando o plagiário: Feelings, “diz ele”, Pour Toi, no novo título). Ouvido absoluto perfeito, Cauby
começara a cantar antes do acompanhamento, sem receber sequer uma “nota guia”.
Lá
pelas tantas, arpejou o acorde para o pianista, e o fez emendando na música, no ápice: Free again, “dó-lá-fá”. E vieram pedidos
de Beatles, como Yesterday, Sinatra, My Way, franceses, como Gilbert Bécaud, Au Revoir, e italianos, como Pepino di
Capri, Nico Fidenco, Sergio Endrigo. Claro, muita música brasileira e seu carro-chefe,
o sucesso Conceição. Sabia todas de cor, no tom perfeito (absoluto), um
repertório imenso. Que grande e inesquecível lição de música e talento!