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sábado, 16 de junho de 2012

VII - O MITO STRADIVARIUS E AS GUITARRAS ELÉTRICAS: O futuro das velhas guitarras.

George Harrison e sua guitarra Rickenbacker
Em pouco mais de 200 anos essas guitarras e baixos elétricos terão a idade dos Strads de hoje. Mesmo não tendo autor identificado, como os mestres lutiers italianos do passado, apenas pela raridade e excelência alcançarão preços absurdos - e até escandalosos se um dia pertenceram a grandes magos como Jimi Hendrix, George Harrison, Les Paul, Django Reinhardt, Eric Clapton... (Veja e ouça abaixo Eric Clapton, magistral e nada suave, em Groaning the Blues, já que falamos em guitarras e guitarras...)


sexta-feira, 8 de junho de 2012

I - SCHUMANN, CLARA WIECK E XUXA: Shakespeare, Byron, Schumann e suas maluquices.


O jovem Robert Schumann
Robert Schumann nasceu em Zwikau, Saxônia, em 1810. Filho de um livreiro, cedo entusiasmou-se pelos grandes nomes da literatura universal, como Shakespeare e Byron. Foi talvez o mais romântico dos compositores – na vida, no amor, na música e na morte. Já estudante de música, ouviu um famoso pianista da época, Moscheles, e dedicou-se desesperadamente à tentativa de um disputado lugar ao sol dos virtuoses do piano na Europa. Durante alguns anos, empregou argolas, cordões e peças metálicas, no afã de obter a independência integral dos dedos anelares das mãos, um problema que aflige de certa forma todos os musicistas. Mas essas invencionices terminaram em desastre: Schumann teve os movimentos de seus dedos prejudicados definitivamente. E passou, então, a compor de forma desesperada.

II - SCHUMANN, CLARA WIECK E XUXA: Da união de Schumann e Clara ao fim previsível do compositor.

Porém, passada a idade da tutela paterna, a união de Clara e Schumann aconteceu como em um conto de fadas, em 1840. Boa parte da obra de Schumann foi dedicada à sua amada, e em todos os “Lieder” – nada menos do que 250 canções -, entre peças para piano ou com outros instrumentos.  Veja e ouça esta versão apaixonadíssima do recente fenômeno do piano, Lang Lang, tocando o OP. 157 de Schumann, Traumerai (devaneios);

 

Vista do Rio Reno
A partir de 1833 Schumann passou a ter frequentes acessos nervosos, e alguns anos depois perambulava nas ruas dizendo que ouvia “recados musicais” de Schubert e Mendelssohn; os compositores, dizia, faziam sugestões musicais para suas obras. Desesperado, tentou o suicídio atirando-se no rio Reno (foto), mas foi salvo e internado em Edernich. Veio a morrer dois anos depois, aos 46 anos.
A essa altura você deve estar se perguntando o porquê de eu colocar Xuxa – a “Rainha dos baixinhos” – no título, ao lado de dois gigantes da música. Mas é isso mesmo, como diriam os franceses, “et pour cause” (mais ou menos ‘por causa disso mesmo’). 

III - SCHUMANN, CLARA WIECK E XUXA: As desventuras de Xuxa adolescente desvendadas.

O teatrólogo Nelson Rodrigues
Recentemente, em um programa dominical de TV que já é espalhafatoso a começar pelo nome, Xuxa fez algumas declarações sobre traumas de adolescência, que a TV usou fora de ocasião e sem qualquer objetivo que pudesse justificá-las – além do Ibope, claro. Xuxa agiu com a inocência de sempre, ‘naïve’. Diante do apetite da TV, a apresentadora, sob comoção, revelou para o Brasil que teria sido molestada desde cedo, pelo melhor amigo de seu pai, e depois pelo homem que seria o futuro marido de sua avó. Um belo enredo para uma peça do teatrólogo Nelson Rodrigues, cujo aniversário de cem anos celebramos este ano.

"Seis Personagens em Busca de um Autor" (Divulgação)
Mas não é. Parece mais outra peça, esta de Pirandello, chamada “Seis personagens em busca de um autor” – já que as pessoas dos relatos de Xuxa são personagens, não há autores. Depois disso, muita gente compartilhou nas redes sociais fotos recentes (sem retoques) da apresentadora, como se fossem o garoto do conto “A roupa nova do Rei”, de Andersen: “o Rei está nu, o Rei está nu”, gritou o menino, chamando a atenção para o que o povo fingia não ver. Essa ‘nudez’ da Xuxa, a idade, é uma queda real que as mulheres famosas (ou não) têm que enfrentar, pois são humanas. Quiseram mostrar que a nossa “Rainha”... está nua! Pois não é que estamos todos ficando?

IV - SCHUMANN, CLARA WIECK E XUXA: A escalada da fama e das vendas via sofrimento humano pela TV.

Hoje, chega-se a um momento em que para se colocar pela primeira vez na escada da fama – ou reerguer-se, após uma queda -, no ideário popular e entre os objetos de desejo, vale tudo: uma atriz fazer estardalhaço por causa de umas poucas fotos íntimas tiradas pelo celular e lançadas na Internet (quando todas as outras atrizes o fazem de forma explícita e com boa definição nas revistas masculinas). Foi promoção até não caber mais, a atriz chegou a ocupar 20 minutos em um único telejornal da TV aberta, em rede nacional. Vale também explorar a emoção popular quando um cantor projeta em telões de shows seu filho em situação trágica na UTI, inclusive despejando no auditório da TV e em sua casa, “ao vivo e em cores” a tragédia de um rapaz, em mais um programa dominical de gosto nada discutível: a exploração de uma tragédia para ser degustada pela sanha canibalesca do “Zé Povino”, inventada e alimentada pela TV. Sem falar em alguma eterna adolescente que expõe a público certas preferências.

Criam-se fantasias, fatos, factoides; mentiras, falsas (ou quase falsas) doenças, qualquer coisa serve para aumentar vendas, fazer explodir o ego ou reerguer-se moralmente pela maior exposição de um rosto naturalmente já desgastado pelo tempo. Não há saída: “do pó viemos, ao pó voltaremos”. As pessoas devem se aceitar como são, e nunca explorar a desgraça ou o infortúnio próprio, dos seus ou do alheio para produzir dinheiro. O poder da mídia também corrompe. É o  quarto poder.

Por fim, a “CPI da pedofilia”, que investiga crimes de molestamento de menores, quer mais holofotes: vai tentar convocar Xuxa para depor. Depor o quê? Sobre supostos crimes prescritos cujos supostos protagonistas ela não vai revelar? Ou seriam esses holofotes para ajudar a ofuscar as luzes ainda bem tênues que teimam em pairar sobre rios e cachoeiras? Xuxa não vai, aposto. Ganhou a TV, mas Xuxa não ganhou nada. Não há nada que ela possa explorar com isso. Mas veja o efeito colateral positivo: em uma semana após o programa, as denúncias de menores molestados aumentaram em 30%! Pois então ganhou o povo.

Robert Schumann e Clara Wieck
O que interessa é que seja abençoada a paixão e o sofrimento infinitos de Robert Schumann e a jovem Clara Wiek: sem holofotes, sem superexposição, sem lucro. Só amor. E por que não ouvi-lo? Então relaxe e ouça o Mestre dos mestres, o pianista Horowitz, tocando com enorme emoção a Fantasia em Dó maior de Schumann:



sábado, 2 de junho de 2012

I - VOU-ME EMBORA PARA PLÖN, LÁ VOU SER AMIGO DO REI

1.     ONDE FICA PLÖN?

Vista aérea dos lagos de Plön
Não, não é a Pasárgada do Manuel Bandeira, mas é quase. Plön fica ao norte da Alemanha, e é um distrito de Schleschwig-Holstein, uma cidadezinha de aproximadamente 13 mil habitantes. Bem ali, nas bancadas do Grande Lago Plön, além de 16 outros lagos que ornam a paisagem com lindos espelhos d’água. O vilarejo tem uma escola de gramática que existe há 300 anos, e, entre outros, é a sede do famoso Instituto Max Plank para a Evolução Biológica.

Tribo Eslava
Tribos eslavas ocuparam a cidadela no século 7, forçando a evasão dos povos germânicos. Lá ergueram uma grande fortificação, e a chamaram “Plune”, que quer dizer “água sem gelo”, moldando seu clima frio, porém menos agressivo. (Cabe agora explicar, para quem desconhece o alemão, que Plön deve ser pronunciada com “ö” entendido como contração de “o” e “e”, resultando em um som quase que entre as duas vogais. Tente!). 

II - VOU-ME EMBORA PARA PLÖN, LÁ VOU SER AMIGO DO REI

2.     A VIDA POLÍTICA E VIDA DO CIDADÃO DE PLÖN

Gravura da Fortificação
Plön - vista da torre
Entre 1633 e 1636 o Duque Joachim Ernst ergueu o Castelo da Princesa, e elevou Plön a capital do principado. Em 1761 a cidade caiu nas mãos dos dinamarqueses, e tinha então perto de 1.000 habitantes. Não demorou a voltar às mãos dos germânicos, e entre eles sobrevive – e bem – até hoje. 

O Conselho Municipal correspondente às nossas Câmaras de Vereadores, e conta hoje com 23 membros voluntários, ou seja, um representante não remunerado para cada 563 habitantes, o que faz com que todos os cidadãos conheçam e convivam com quem elegeram. A renda per capita na cidade é de R$ 68.400,00/ano, equivalente a R$ 5.700,00/mês. Conclusão: a renda média de uma família de quatro pessoas em Plön é de R$ 22.800,00 por mês. 

III - VOU-ME EMBORA PARA PLÖN, LÁ VOU SER AMIGO DO REI

3.   O TURISMO E A MÚSICA EM PLÖN

Castelo da Princesa
Os redutos turísticos são diversos: o Castelo de Plön, renascentista, a Torre de Parnass, a Torre de Água, de 1903, a “Caminhada do Planeta”, e museus como do de Plön District”, a Casa do Parque da Natureza, a Casa da Princesa e a Fundação Fritz-During. Plön é a sede do Teatro Kinglestein de Marionetes, que se apresenta por toda a Europa.

Paul Hindemith, compositor
Há um tradicional festival de jazz, e um de música clássica - “O dia da música em Plön” -, para o qual o grande compositor alemão Paul Hindemith (foto) escreveu obras como o “Plöner Musiktag”. Plön tem como um de seus mais nobres cidadãos do passado o escritor e musicólogo Liliecron, que em suas “Memórias de Infância” (1903) escreveu (trad. livre): “Quando, à noite de um belo dia de verão, a lua deixa escorrer seus reflexos sobre a sutis ondas das lâminas d’água, que belo ambiente para os românticos jogos de amor, corações sobre as varandas, sob as velhas árvores”.

Plön vista do outro lado do Grande Lago
Tudo isso comprova  que uma grande cidade não é medida por números astronômicos, como nas nossas grandes capitais, e sim pela qualidade de vida e cultura que pode proporcionar. Uma grande cidade não é feita de números absolutos, mas de conceitos relativos. 

IV - VOU-ME EMBORA PARA PLÖN, LÁ VOU SER AMIGO DO REI

4.     PLUNE, FREUD E PLÖN

Coro infantil masculino típico da região
Bom, o leitor deve ter se perguntado o porquê de eu falar de Plön, assim, sem mais. Vamos lá. Em uma madrugada recente, meu despertador tocou, enlouquecido como sempre, e eu saí (ou seria ‘caí’?) de um sonho, do qual a última coisa que me restou consciente foi uma palavra, em coro musical, quase um grito: “Plune!”.  Apreciador de “A interpretação dos sonhos”, de Freud, busquei no italiano, no inglês, no francês, no alemão... e nada. Onde teria eu visto ou ouvido algo sobre Plune? Algo que me ficasse armazenado em algum compartimento da memória sem que eu percebesse, e que viesse a aflorar em um sonho? Busquei uma boa enciclopédia inglesa, e descobri que Plön era chamada “Plune”, durante a ocupação eslava.

Freud: gravura/caricatura sobre o rosto de Freud
Daí veio o resto. Para Freud, muita coisa fica no subconsciente, e não aparece em nosso cotidiano racional, e às vezes nem mesmo em nossas fantasias. Mas pode ser liberada no sonho, de forma absolutamente espontânea. O que parece definitivo é que o cérebro não ‘inventa’ nada, ele guarda as informações em compartimentos razoavelmente isolados, cujas informações vêm a emergir apenas por meio de mecanismos autônomos apropriados, e nunca sob o comando de nossa vontade. 

V- VOU-ME EMBORA PARA PLÖN, LÁ VOU SER AMIGO DO REI

5.     COINCIDÊNCIA (OU NÃO?): MARTA E PLÖN

Torre da caixa d'água
Pois foi no dia seguinte ao episódio do sonho que  soube que minha filha Marta, que mora em Londres, estava em Hamburgo, norte da Alemanha, para o casamento de um primo dela. Ali, bem perto, a menos de 40 minutos, fica Plön. Coincidência? Freud diria que não. Teria sido um momento em que minha mente deixou escapar  alguma que ouvi, talvez recentemente (quem sabe algum um aviso dela de que viajaria de Londres para Hamburgo e ficou registrado - sem minha permissão consciente. Isso, associado ao fato de eu ter gravado, em algum momento dos últimos anos, alguma imagem de Plön em um mapa ou coisa afim. (Vale ler também os ensaios de Freud em “Psicopatologia da vida cotidiana”). Pois Marta foi a Plön, achou a coisa mais linda. Tirou fotos, comprou-me um livro... Conclusão? Sei lá, acho que nunca vou saber. Ficará tudo reduzido a um belo mistério, e assim deverá permanecer, bem como minha descoberta dessa cidadezinha alemã adorável. Que tudo isso me sirva para melhor valorizar minha vida em cidade do interior. (E que eu possa também entender tudo isso como um singelo e incomum convite para um roteiro de férias. Com direito a uma visita a Plön, é claro).