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sexta-feira, 4 de novembro de 2022

FOI BONITA A FESTA, HORA DE TECER A MANHÃ

 


P
assada a ressaca da eleição, valem algumas considerações. Em primeiro lugar, venceu a Nação, pela tranquilidade com que o pleito se realizou, levando em conta as nossas dimensões continentais, polarizadas entre dois blocos, cindindo a população. O lado negativo fica por conta da ocupação de estradas não por motivos salariais e afins - que poderiam justificar uma greve dentro do que a lei permite, liberando parte da rodovia para não prejudicar os que precisam passar, como famílias e cargas especiais. Outro dado negativo foi a atuação ostensiva da PRF em estradas nacionais, principalmente do Nordeste, segundo se informou uma ‘operação padrão’ para o controle das rodovias. Felizmente, nada mais aconteceu, e, segundo do presidente do TSE, Alexandre de Moraes, no cômputo geral os passageiros continuaram as viagens após as operações, podendo exercer o seu direito de votar.


S
obrepujando esses inconvenientes, a caminho das urnas com o objetivo de escolher os governantes dos estados ainda não eleitos e, principalmente, o dirigente máximo da Nação, aflorava o orgulho de sermos brasileiros. Com apenas uma ou duas escolhas no teclado eletrônico, sem os atrasos creditados à estreia do registro biométrico, a votação transcorreu sem maiores problemas. A população compareceu e saiu com a altivez cívica do dever cumprido, escolhendo um futuro com mudanças – afinal, não é este um dos pilares da democracia, a alternância? E quem sabe não será essa a ocasião para que, já no início da próxima gestão, possamos retornar via PEC ao mandato único de cinco anos, conforme fixado anteriormente pela CF de 1988? A Emenda Constitucional 16/97 transformou o segundo mandato, ou ao menos seu ano final, em campanha para reeleição: prejuízos ao Tesouro e à normalidade do país. A reeleição, suas virtudes, vícios e vicissitudes devem ser reavaliados, e isso já se evidencia de há muito. Trata-se de assunto para o nosso Legislativo - para isso elegemos nossos representantes -, cabendo à sociedade civil exercer o legítimo direito de pressão e cobrança.

Av. Paulista

S
im, “foi bonita a festa, pá”, lembrando o Chico, a Paulista com 700 mil pessoas (segundo o The Guardian), a Cinelândia outro tanto, mais capitais e muitas cidades pelo país. O presidente eleito, aos 77, com problemas de impostação vocal, terminou seu discurso após longas, e por várias vezes dispensáveis pela longueur, apresentações de apoiadores. (Lembrou o cantor Jorge Ben, em apresentação de Charles, Anjo 45, no IV FIC: “tô rouco, Charles, tô rouco!”). Surpreendente, também, a estamina popular, gente de todas as idades, para resistir horas de pé. Sim, “foi bonita a festa, pá”, mas desde agora há de se encarar o batente: É de bom-tom o presidente eleito visitar alguns dos principais líderes mundiais – e foram 88, até 1/11! - que lhe mandaram cumprimentos, como Joe Biden (EUA), Emmanuel Macron (França), Rishi Sunak (Reino Unido), Joseph Borrel (União Europeia), Pedro Sánchez (Espanha), Antônio Costa (Portugal), XI Jinping (China), países do Mercosul, América Latina e outros.


N
esse curto espaço de tempo, até a posse de fato do eleito, no primeiro dia do ano de 2023, há que se formar talvez não um consenso da base, mas ao menos uma direção na escolha de ministérios, constituição das pastas, organogramas, indicação dos chamados cargos de livre nomeação e exoneração, que esperamos de competência técnica antes de política. E saber preservar os melhores profissionais que porventura tenham ingressado na gestão anterior. Apaziguar, mais do que nunca, pois não faltam lutas insanas: há um conflito real na Ucrânia que mata inocentes e esfacela a economia mundial, criando uma inflação no Brasil temporariamente estancada a bíceps em alguns produtos, como a gasolina, e que acomete a maioria dos países, não raro como um turbilhão. É difícil o momento, sim, mas a festa acabou, pá, e é hora de começar a arrumar a casa com disposição e vigor.


H
á que se dialogar, para que os que divergem possam ter espaço para exprimir democraticamente suas opiniões e posições; há que se contemporizar, remover barreiras e juntar os cacos que porventura possam ter resultado de embates necessários, quando civilizados, ou excedentes, se à margem dos contornos delimitados pelo Estado de Direito. Há que se pensar urgente nos que mal têm um prato de comida por dia, nos que “têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”; nos que não têm onde se abrigar, nos que estendem a mão ‘pelo amor de Deus’ para dar de comer aos seus filhos (o pelo amor de Deus da fé de cada um e mesmo dos incrédulos – voltando ao Chico, “e eu que não creio peço a Deus por minha gente, e é gente humilde, que vontade de chorar”).

Paz para o novo ano que se aproxima! Que os desejos mais profundos, libertos ou ainda represados nos corações e mentes sejam contemplados; que os homens caminhem para o destino que lhes foi traçado nas origens, que é o da fraternidade e do amor; que a vitória seja não mais do que o momento de uma disputa, e que junto a ela derrota perca o sentido de conflito - palavras cujos significados existirão de fato em nossa história. Que a paz e o direito à opinião sejam a imensa bandeira de todos, preservadas as divergências de onde emergem as soluções. Pensando agora em João Cabral, que seja uma imensa flâmula branca imaginária “se encorpando em tela, entre todos, se erguendo tenda, onde entrem todos, se entretendendo para todos, no toldo (a manhã) que plana livre de armação”.





 

sábado, 7 de janeiro de 2017

2017: ESPERANDO GODOT?

Esperando Godot é uma peça teatral da autoria de um irlandês que viveu na França, Samuel Beckett (1906-1989). Escrita entre o final de 1948 e o início de 1949, originalmente em francês (En attendent Godot) e traduzida para o inglês por ele mesmo (Waiting for Godot), pode ser encenada em um palco quase vazio, despojado, o que colabora para compor o clima da situação de angústia em que vivem os personagens principais, Vladimir e Estragon. A obra já foi estudada sob os mais diversos ângulos e disciplinas; Beckett adentrava firme no chamado Teatro do Absurdo, envolvido nas ideias do francês Albert Camus. Em pesquisa realizada pelo Teatro Nacional Real Britânico em 1990, Esperando Godot foi considerada a peça mais importante do século 20 escrita em língua inglesa. Para o mundo todo, Godot deixou uma grande interrogação, um misto de apatia, desesperança e desejo de que alguém surja do nada para resolver todos os problemas. Mas seria realmente esse o desejo?

Samuel Beckett
Sobre a peça, há analises existencialistas, freudianas, junguianas, sociopolíticas e religiosas dos mais variados matizes e origens. Mas à trama: os personagens Vladimir e Estragon ficam esperando por Godot, que simplesmente nunca aparece, e fica óbvia a associação do nome com God, Deus, em inglês, ou Gott, em alemão. E essa espera por alguém que nunca chega nem chegará torna bastante visível a perturbação e o conflito do autor sobre Deus, sua existência ou não e a apatia de Becket em relação a crer na existência do Pai. Certa vez, perguntado sobre se seria cristão, judeu ou ateu, Beckett simplesmente respondeu que nenhum dos três. Transparece então a dúvida de uma luta intelectual-espiritual do autor consigo mesmo, em sintonia com o grande autor e pensador francês Albert Camus (1913-1960), da filosofia chamada absurdismo.

Do Teatro do Absurdo também surgiram nomes que fizeram uma época, como Arrabal, Genet, Albee e Ionesco, autores de um rol de peças que contaminou intelectuais e a juventude de várias gerações, que pararam naquela ‘pergunta sem resposta’, para tomar emprestado o título de uma música de Charles Ives, “Unanswered question”.

Esperando Godot é quase um subtítulo para este artigo que escrevo, mas vestiu como uma luva para o principal: o novo ano, 2017. E onde os dois – Godot e 2017 - se encontram, perguntaria o leitor? Entre as quase duas partes da enorme fenda que hoje divide o país – “eu e minha turma, meu partido, somos contra tudo da outra parte, só nós estamos certos”, e vice-versa, criando um vácuo onde residem os sem-ideologia, os sem-esperança.

Esses são os que não se encaixaram nos estereótipos que moldaram a fogo as opiniões de um número grande de pessoas, hoje em uma espécie de estado melancólico e maníaco-depressivo coletivo, vencidos pela apatia e falta de horizontes. Porque simplesmente não querem enxergar e trabalhar por mudanças. São os que esperam um Godot, mas, como na peça, acham que ele nunca virá. São milhões encarnados em Vladimires e Estragons, esmagados entre as duas correntes majoritárias, “a nossa” e “a deles”, com conceitos pré-moldados principalmente nas redes sociais da Internet.

Deus (detalhe). Michellangelo
Se Godot é inalcançável, porque não palpável, não é visível, como esperavam Vladimir e Estragon, assim é Deus, que é Quem está em toda parte, e sempre esteve, porquanto não precisa “vir”, pois já está. Talvez aí se encaixe essa grande parte da população que, observada sob a ótica da fé, seria formada por agnósticos, ateus, ou mesmo os que não querem nem saber de nada, os conformistas.

Bertold Brecht
Pois 2017 se descortina como um grande desafio, e isso vale para todas as esferas, seja no Governo Federal, Estadual ou Municipal e na vida de todos os cidadãos brasileiros. Se você não espera nada, então se recolha, volte-se para dentro de seu casulo e não contamine os demais. E tenha cuidado para não se tornar mais um “analfabeto político” texto atribuído ao alemão Bertold Brecht, também teatrólogo: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais” (© 1950, mas parece escrito sob medida para os nossos tempos).

E para os que estão cegos de espírito, em dúvida ou conflito de fé ou esperança, para os pessimistas por natureza (mesmo sem nunca terem lido sobre a filosofia do pessimismo de Schopenhauer, um dos homens mais influentes dos séculos 19 e 20), lembro os singelos versos do Chico, em Gente Humilde, que contém uma simples mas bela pérola de confissão de apelo de fé quando as saídas parecem difíceis: “e eu que não creio / peço a Deus por minha gente / a gente humilde / que vontade de chorar”. “Eu que não creio peço a Deus” é uma descrição perfeita àquelas situações em que todos têm de se apegar em algo, algum tipo de esperança. Para esses da “fenda do meio”, é o momento exato. Apeguem-se, pois, e rumem para ajudar, e não destruir o que eventualmente for bom.

Paz e trabalho para um 2017 bem melhor. Só há saídas, houve apenas uma entrada.