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sexta-feira, 11 de novembro de 2022

EUA, RU, BR: SOPA DE LETRAS E NÚMEROS

 


Há dois anos, em 5 de novembro de 2020, Joe Biden ultrapassava Donald Trump na corrida presidencial americana por 2,4% dos votos dos colégios eleitorais, sendo 50,5% para o democrata e 48,1% para o rival, aos 86% dos votos totais apurados. Boa parte dos estados do centro-norte, centro e sul, de Montana ao Texas e Florida, registravam sua preferência por Trump, enquanto as costas leste (do Maine a Virginia) e oeste (Washington a New Mexico) formavam posição a favor de Biden. Claro, há motivos históricos e tradições a ligarem certas regiões primordialmente aos republicanos ou aos democratas. Porém, ainda havia dúvidas quanto aos estados de Nevada (89% dos votos apurados), a esperançosa Arizona (86%), Philadelphia (96%), Carolina do Norte (95%), e a controversa Georgia (98%).


Biden recebeu mais de 81 milhões de votos, ultrapassando o recordista Barak Obama (2008), com 69,5 mi, que por sua vez havia superado Richard Nixon (1968), com 31,7 mi. Por fim, terminado o pleito sob protestos inconformados de Trump, Biden acumulou 51,3% contra 46,8%, número razoavelmente compatível com o de votos diretos dos eleitores: mais de 81 milhões de votos para Biden, e pouco além de 74 mi para Trump. Uma diferença de 7.059.526 votos, cifra numericamente um pouco negligenciável frente ao total de eleitores, mas obviamente pequena em uma população de 332.403.650 habitantes – entre os que votaram ou não, pessoas de todas as idades. A diferença total de votos entre Biden e Trump, de mais de 7 milhões, corresponde à população (eleitores ou não) do estado de Arizona, ou ainda à soma do Alaska, D. C., Delaware, North Dakota, South Dakota, Vermont e Wyoming – os sete juntos!


Voltando à eleição que levou Biden ao poder, em 2020, Trump forçou uma contestação sem limites ao resultado das urnas. Foi cruel e vilipendioso, acusou, disparou aleatoriamente sua metralhadora giratória, ameaçou e agitou a nova extrema-direita supremacista norte-americana, cujas origens remontam à terrível Ku Klux Klan, organização semiclandestina tolerada especialmente nos estados do sul, além dos mais recentes Proud Boys. A direita, e especialmente a extrema-direita, estavam inconformadas, seus militantes transbordando em ódio. No dia 6 de janeiro de 2021, duas semanas antes da posse, uma horda de alucinados invadiu o Capitólio, quebrou portas e janelas e só foi retirada do prédio após vários conflitos com as forças de segurança e a polícia. Sabiam que não tinham chance alguma - aliás, nem sabiam o que queriam, além de uma baderna sem controle que chegou a balançar a inquebrantável democracia americana.


Esgotadas as ações ilegais, dispersado o movimento, Biden tomou posse no dia 20 com uma pompa digna dos maiores festejos cívicos americanos, brindada com uma interpretação de The Star Spangled Banner (“A Bandeira Constelada de Estrelas”), o hino pátrio, por Lady Gaga. Trump se recolheu, mas coleciona processos que incluem acusações de ter liderado de fora a farra extremista pró-golpe do dia 6. Agora, no dia 8/11, com as eleições legislativas reativamente favoráveis aos republicanos, ele deverá assumir sua pré-candidatura com vistas ao pleito de 2024. Bilionário e grande líder, o republicano tem cacife para voltar à Presidência, com o rancor, ódio e revanchismo que lhe são característicos.

Rishi Sunak

No Reino Unido, em 25 de outubro, o Partido Conservador escolheu o jovem primeiro-ministro que responde pelo nome de Rishi Sunak, aos 42 anos.  Filho de indianos que, como tantos, imigraram para a Grã-Bretanha em 1960, Rishi tomou posse após 45 dias de uma gestão tensa e desastrosa de Liz Truss, que sucedeu Boris Johnson, um premiê mais confuso ainda, derrubado pelo partygate – uma festinha na residência oficial da Downing Street com danças, excessos e muita bebida. Nada de tão bombástico se não estivesse em pleno lockdown decretado por ele próprio durante a pandemia! Para os britânicos, um deslize imperdoável. Em consequência de sua ampla votação como parlamentar, Sunak conseguiu chegar à liderança do partido Conservador no poder, e consequentemente por estreita margem à posição de primeiro-ministro, com a desistência de rivais internos. Entre os Conservadores, que haviam se tornado os titulares do governo, foi ele quem mais se destacou – e levou.


30 de outubro de 2022. O Brasil elegeu Luiz Inácio Lula da Silva, vencendo o oponente Jair Messias Bolsonaro por uma margem - tal qual Biden nos EUA - tida como estreita de votos. No Brasil, a eleição para presidente é direta desde a CF de 1988, valendo pela primeira vez em 1989, 24 anos após o golpe de 64, eleito Fernando Collor de Mello. No recente dia 30/10, foram 118.552.353 votos válidos, dos quais 50,9% (60.345.999 votos) ficaram com Lula e 49,1% (58.206.354) com Bolsonaro. Uma diferença de 1,8%, ou 2.139.645 votos, próximo ao número total de eleitores aptos do Distrito Federal e quase a soma dos estados do Acre, Amapá, Roraima e Tocantins.

Rodésia, 1977

EUA, Brasil e Reino Unido elegeram seus mandatários por margem estreita de votos. São três democracias, mas as diferenças entre os dois primeiros já não são tão grandes; os EUA escolhem via colégios eleitorais, no Brasil o sistema é o chamado one man, one vote (um homem, um voto). A eleição se dá por maioria simples, ou seja, número de votos maior do que a metade.

A vitória que mais importa é da democracia. Poder que, de uma forma ou de outra, emana do povo, e é exercido pelo povo e para o povo. Assim foi, assim será.



 

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

DEBATE: DISCUSSÃO OU POEMA

em tom satírico e alegórico?


Para discorrer sobre o debate, busquei o étimo de palavras e expressões. Além dos equívocos de que poderia ser vítima, aumenta a compreensão da matéria. Recorri ao basilar, com o etimologista Deonísio da Silva (De Onde Vêm as Palavras, ed. Lexicon). Diz ele que ‘debate’, com o sentido que tem em uma disputa eleitoral, vem do inglês to debate. Para o Oxford Dictionary, “uma discussão formal sobre um tema em um encontro público ou Parlamento”. “No debate são alegadas razões a favor e contra determinado tema”, completa Deonísio. E há outra acepção, que pode ser novidade para o leitor como foi para mim: “...poema dialogado, de tom satírico e alegórico, muito em voga na Idade Média”.


O Houaiss cita débat, do francês do século 13: “controvérsia, querela”, e entre seis acepções para a palavra destaco uma que serve de forma especial a este caso: “agitar veementemente o corpo e/ou membros (ou qualquer espécie de apêndice locomotor), na tentativa de livrar-se de sujeição física <a mosca debatia-se na teia da aranha>”. Sobre esses dois sentidos nos debruçaremos.


O debate de 29/09 teve de tudo, um pouco do sentido emprestado dos americanos e da alegoria da mosca na teia de aranha – ou, quem sabe, “eu sou a mosca que pousou na sua sopa”, do Raul Seixas. Entretanto, pouco debate se viu, e se alguém tentou, o fez para si, sem interessar a resposta – arte em que é mestre Ciro Gomes. A ironia de Bolsonaro a Lula, chamando-o de ex-presidiário – “indivíduo que cumpre pena em presídio”, segundo o Houaiss –, além de equivocada foi inoportuna. Sem entrar no mérito, Lula não passou 580 dias em um presídio, mas numa sala da Superintendência da P. F. em Curitiba, condenado em segunda instância no TRF-4 e liberado pelo STF (proibição de prisão imediata após condenação em segunda instância). Inciso LVII do Art. 5º da Carta de 1988: “Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Não houve trânsito em julgado da condenação em sede de última instância recursal. Poderia ser chamado de “ex-preso”, mas ainda assim ironicamente, em um debate que deveria pretender-se uma disputa cordial entre senhoras e cavalheiros.

ofuxico.com

Fora intermitentes reprimendas do mediador William Bonner, houve desatinos e bravatas, com Simone Tebet chamando Soraya Thronicke de “Bolsonara”, pedindo logo depois perdão pelo ‘lapso’ – ora, ambas são colegas de anos de Senado e a segunda foi aluna da primeira... Soraya perguntou ao Padre Kelmon: “o senhor não tem medo de ir para o Inferno?” E eis uma dele: “Pessoas sem roupa, uma atrás da outra, com o dedo, né, você sabe aonde...” Soraya criou o mote para os memes mais populares: “porque o senhor é um padre de festa junina”.


Simone prometeu que os jovens que terminassem o ensino médio receberiam um prêmio de cinco mil reais, como se estudar fosse uma gincana premiada. Por sua vez, Lula, atabalhoado, deixou Kelmon invadir-lhe o tempo, e ainda o estimulou indiretamente, atiçando a discussão no seu turno. (Deveria ter deixado o púlpito, o Padre falando sozinho para microfones que seriam desligados).


Enfim, qual o papel que ‘Padre’ Kelmon estaria desempenhando no jogo (a serviço de quem?). Repetiu-se o questionamento sobre seu status clerical (negado em ofício público de 14/09 por Dom Tito Paulo George Hanna, arcebispo da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia no Brasil). Bonner foi didático: “o senhor sabe que o debate tem regras e que o senhor concordou com elas?” Memes de todos os tipos e espécies tomaram as redes sociais por conta do ‘padre’. Desde vestimentas de festa junina, passando por montagens de Soraya ao lado de Kelmon junto a uma fogueira tendo como legenda a pergunta sobre o Inferno, um surto de criatividade. Se o debate perdeu em seriedade, a Internet ganhou em deboche e escárnio.

Sátira romana

Fico com a segunda definição do Deonísio da Silva: “tom satírico e alegórico, muito em voga na Idade Média”. A sátira seria, na literatura latina, uma espécie de poesia burlesca, cômica, contra instituições e costumes, um gênero que faz alusão à zombaria do coro satírico grego. A alegoria traduz ideias de maneira figurada, cada elemento disfarçando a realidade, mas representando-a. Quesito nos desfiles das escolas de samba, nas fantasias e carros alegóricos, também completa a ideia do termo.

Juan Muñoz: Conversation Piece

Kelmon foi a estrela da noite. Preparado nos bastidores pelo “filho 02”, tornou-se conversation piece: aquele objeto decorativo, geralmente um kitsch, que, colocado no centro da mesa, serve para puxar assunto quando chegam visitas do nada. Lula foi presidente duas vezes e era líder em todas as pesquisas (fora duas delas, fake, que invertiam os nomes na “pole”). Bolsonaro é o runner-up da corrida, Simone e Soraya são novamente senadoras e Ciro um experiente e eterno postulante que joga sozinho. Kelmon foi um outsider, e uma sátira de si mesmo. Presente o excesso de regras e candidatos, ausente a disciplina. Que tenha sido uma lição.


Terminado o 1º turno com grande abstenção (32 mi), Lula superou Bolsonaro em menos do que as pesquisas mostravam. Há um novo quadro, com expectativa de debates “olhos nos olhos” entre ambos: Ciro e Tebet tiveram juntos 8,5 mi votos (3,6 e 4,9 mi, respectivamente). Bolsonaro ficou em segundo, abaixo 6,18 mi votos de Lula, e precisa do equivalente a 72,6% dos 8,5 mi de Ciro e Simone (e ambos já declararam apoio a Lula!). Um novo debate promete ser acirrado, porém que seja mais sóbrio, como o momento exige.