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sexta-feira, 16 de setembro de 2022

A PÁTRIA, A RAINHA E A INDEPENDÊNCIA

 


Pátria
, substantivo singular feminino, é terra, porém bem mais do que o lugar onde se nasceu ou se adotou. Não há palavra que melhor contemple o que ela define: não é um objeto, nem o chão - é um conjunto abstrato de significados e sentidos, de enlevação pessoal junto à nação e, em conjunto, de um povo. Tal sentido também é plenamente claro em outras línguas latinas, como a nossa: patrie, em francês, e patria, em italiano assim como em espanhol. Em inglês, temos land e home, que podem se alternar, como acontece no próprio hino americano: The land of the free / and the home of the brave (A terra dos livres / e o lar dos bravos). Isso se reflete no Hino Nacional Brasileiro, que ganhou letra de Osório Duque Estrada em 1922, quase um século após Francisco Manuel da Silva tê-lo composto como Marcha Triunfal, para depois tornar-se Hino da Abdicação (1831). Recebeu a letra de Duque Estrada só em 1922, quando fervia Cultura na Semana de Arte Moderna: hoje, cem anos, duzentos da Independência. Ambos marcos em nossa história, como este 2022.


Cantar o Hino Nacional
deve ser um ato simples e puro, de profundo respeito. Sendo um Símbolo Nacional, está na lei 5.700, que os regulamenta: na versão instrumental, em Si bemol (Bb), sem a segunda parte (onde se cantaria “Deitado eternamente”, que, definitivamente, não se canta!) Se cantado, o Hino deve ser em Fá maior (F), e necessariamente apresentar as duas partes. O andamento, pulsação do ritmo, é fixado em 120 batidas por minuto. Há protocolos sobre dobra e hasteamento da bandeira, quem deve bater continência ou não, e até para onde se olhar durante a execução! (Militares devem voltar-se para de onde vem a música, a não ser que a cerimônia seja consagrada à bandeira ou ao presidente, devendo dirigir-se a uma ou outro). Os protocolos visam a manter o caráter cívico dos eventos, com o que se pode chamar de postura sóbria.

Fafá de Belém 1984

Liberalidades
são meras transgressões, como a versão de Jimi Hendrix na guitarra, no Festival de Woodstock, em 1969, ou por apelo popular em ocasião oficial, como a intepretação de Lady Gaga na posse de Joe Biden, nos EUA. No Brasil, a memorável chamada de Fafá de Belém, a capella (sem acompanhamento), no comício das Diretas Já, em 1984. Na música clássica, há a Grande Fantasia Triunfal de L. M. Gottschalk sobre o Hino Nacional Brasileiro e, com Tchaikovsky, citações da Marseillaise em sua Abertura 1812.

Dr. Huw Thomas e a rainha

Mudando
de rumo e prumo, não há como não falar sobre a quinta-feira, dia 8 de setembro. A Rainha Elizabeth II havia pedido que a levassem para sua propriedade em Balmoral. Lá, uma equipe chefiada pelo seu médico particular, Sir Huw Thomas, acompanhou o retiro, preparou o aparato médico e mandou chamar os familiares. Lembrava o ano de 1936, quando o Rei George VI, pai de Elizabeth, foi cuidado pelo então médico real, Lord Dawson of Penn, que seguiu a fórmula do Dr. F. G. Chandler publicada na prestigiosa revista científica Lancet doze anos antes: às 23h10 do dia 20 de janeiro daquele ano, Dawson aplicou 750 mg de morfina e 1 g de cocaína na jugular do rei George, o suficiente para matá-lo duas vezes (fonte: American Society of Anesthesiologists Library-Museum).

The London Bridge

Não há explicação
oficial até agora sobre a causa mortis e o momento da passagem da rainha; sabe-se apenas do retiro no Castelo de Balmoral e o acompanhamento médico. Sem dúvida, o sentimento patriótico da dinastia dos Windsor (críticas históricas e à monarquia à parte!) é incrivelmente robusto, desde os velhos tempos em que um trono vazio era objeto de cobiça por aventureiros. Mas tanto nos dias das mortes de George VI quanto Elizabeth II, o Reino Unido esteve protegido, mesmo que isso tivesse de lhes custar um final diferente. Assim a história diz, e assim foi cumprido: o Príncipe Charles de Edimburgo tornou-se rei logo a seguir ao último suspiro de sua mãe, Elizabeth II, passando a ser, aos 73 anos, monarca de uma nação poderosa, culta e organizada ao extremo, e de um passado conquistador – e dominador. Chegara o momento do sinal livre para a senha: The London Bridge is Down (A Ponte de Londres Ruiu). A Operação The Bridge is Down é um enorme complexo de medidas de segurança e informação que também sinaliza, codificada, a morte do soberano. Foi este o recado entregue à primeira-ministra Liz Truss e aos responsáveis pela segurança do Império. Até que ponto o Reino Unido resistirá com Charles III, da dinastia Windsor, diante dos focos de descontentamento reaquecidos a partir da Austrália, nações da África e outros países do Commonwealth, não se sabe. O reinado de Elizabeth foi um conto de fadas que perdurou muitas décadas com seu charme; agora, durante um bom tempo, com Charles e depois William e seu filho George, a coroa do Reino Unido restará sobre a cabeça de homens, salvo alguma improvável abdicação - ou morte.

Bicentenário: sessão solene no Congresso

Para registro
: no dia 8 de setembro, o Senado brasileiro reverenciou os 200 anos de Independência Nacional, com cerimônia aberta pelo presidente da casa e a presença do presidente de Portugal, do presidente da Câmara, representantes de 24 países, os presidentes do STF e TSE, ministros das cortes superiores. O Hino Nacional cantado por Fafá de Belém, 38 anos depois, coloriu um evento cívico pleno de sobriedade e espírito democrático. Há 200 anos, o Brasil se tornava uma nação independente, data que mereceu de todos efusiva celebração.

[O chefe da Nação brasileira esteve ausente para cuidar de assuntos particulares]

 

sábado, 23 de abril de 2022

O HOMEM E SEUS SIGNOS

 

Olavo Bilac

Símbolos Pátrios são a Bandeira Nacional, as Armas (ou Brasão), o Selo e o Hino Nacional - em cujo início, na segunda parte da letra, há uma menção literal à ideia: “Brasil, de amor eterno seja símbolo / o lábaro que ostentas estrelado” (música de Francisco Manuel da Silva, 1831, e letra de Osório Duque Estrada, oficializada há apenas 100 anos, em 1922). No Hino à Bandeira a palavra aparece cinco vezes, desde o princípio: “Salve lindo pendão da esperança / salve símbolo augusto da paz”. A letra é de Olavo Bilac e a música de Francisco Braga.


Existem os logotipos
, logomarcas ou simplesmente logos, que identificam uma marca, um produto, uma empresa. Servem à rápida comunicação visual e identificação do objeto ou coisa que simbolizam. Toda boa empresa tem o seu nos papeis, na fachada do prédio, nas propagandas. Criancinhas de colo reconhecem facilmente os logos das empresas que vendem seus lanches e refrigerantes favoritos, sem precisar ler o que está escrito.


Muitos anos atrás
, uma experiência nos EUA trocou em alguns trechos um dos 24 quadros pelo logo de conhecida marca de refrigerante. Sequência que compõe cada segundo de um filme, a 24 quadros por segundo não há uma percepção objetiva, apenas subliminar, ou seja, que não se chega ao limiar da consciência. Um perigo? pensaria o leitor. Sim, com certeza, haja vista que após aquela sessão de cinema houve uma corrida ao estande do refrigerante cujo logo passou na fita por uma fração de segundo algumas vezes, sem ser notado.


Logos políticos
são marcas dos poderosos. A Swaztika (suástica) nazista, inspirada em um símbolo religioso muito antigo da Eurásia, representava divindades. Trazia as pontas ‘girando’ para a esquerda, e até 1930 era chamada Sauaztika.  Com o nazi-fascismo, o ‘giro’ mudou para a direita, passando a chamar-se Swaztika. Um arremedo de suástica foi o emprego da letra grega sigma, uma espécie de “E” quebrado no meio, enquanto o líder do Integralismo brasileiro, Plínio Salgado (1895-1975), bradava “anauê”, saudação do grupo, mais alinhado com o fascismo italiano do que o nazismo alemão. Mas a foice e o martelo são um símbolo sem dubiedades: a primeira representava o campesinato e o segundo a classe operária urbana, supostamente os trabalhadores da construção de um socialismo utópico a ser conquistado pela força – ideia hoje bem descaracterizada.


Há signos corporais
, como esticar o braço direito levemente acima do ângulo reto, gesto-símbolo do nazismo; seu equivalente fascista era o braço direito erguido para o alto. Os brasileiros integralistas o faziam de maneira parecida, mas com o braço levemente dobrado. Aos dedos: a mão fechada com o mínimo e indicador erguidos é própria do heavy metal, mas na superstição é a “mão carnuda”, que traz coisas boas, facilita engravidar. Indicador e médio em “V” para cima simbolizam vitória; de lado, surgiu nos movimentos da contracultura dos anos 1960 como sinal de paz, mas nos dias de hoje é um singelo “joinha”. O punho cerrado com braço erguido significa luta e resistência, como entre os negros americanos; já um “o” feito com as pontas do indicador e do polegar, nos EUA é sinal de ‘OK’ – ou dos supremacistas brancos -, mas no Brasil não é nada bem-vindo. A mão fechada com o polegar entre indicador e médio é a figa, atrai boa sorte, já o dedo médio esticado é ofensa em qualquer lugar. (Mãos fechadas e em linha, esquerda à frente, com os indicadores retos e polegares erguidos, apontando para baixo, simulam a posição de uso de armas pesadas e de grosso calibre, gesto armamentista característico da nova extrema direita brasileira).

Jung e seus discípulos 

A ideia deste artigo
surgiu do livro do psicanalista Carl Jung publicado em 1964 com o título Man and His Symbols (O Homem e Seus Símbolos), escrito pouco antes de sua morte, em 1961. Jung escreveu a primeira parte e seus orientandos as quatro outras, após sua morte: Chegando ao Inconsciente (Jung), Os Mitos Antigos e o Homem Moderno (Henderson), O Processo de Individualização (Franz), O Simbolismo nas Artes Plásticas (Jaffé) e Simbolismo em Uma Análise Individual (Jacobi).


Há no livro pensamentos magníficos
, como “Apesar de reivindicarmos orgulhosamente termos dominado a natureza, ainda somos suas vítimas porque não aprendemos a dominar a nós mesmos”. São essenciais as imersões nas teorias junguianas sobre os sonhos, a psique (mente, espírito) e os arquétipos (modelos ou paradigmas).


O ser humano se comunica por símbolos
: a fala, idiomas, sons, sinais e gestos, como o leve erguer da mão direita da Rainha Elizabeth e a bênção do Papa. Há o aceno de adeus e o ‘vem cá’, flexionando os dedos para dentro. O polegar para cima diz ‘positivo’, e para baixo, como fazia César, seria indicativo de que na arena o cidadão deveria ser morto. O indicador faz o j’accuse (eu acuso), ou aponta ‘este aqui’, exibindo uma suposta certeza.


Símbolos, signos e sinais
dividem suas origens latinas e formas de comunicação humana, mas delas talvez a escrita seja a ferramenta mais significativa. Dos grandes mestres, aprende-se em silêncio, numa generosa proximidade com o exercício da sabedoria, em sua doce plenitude de imersão. A escrita persiste enquanto o material empregado resistir ao tempo, sejam hieróglifos, aramaico, árabe, cirílico, celta, hebraico e outros. É escrevendo que o ser humano se comunica com o futuro, e ao chegar à literatura transcende o agora. Diz o provérbio latino verba volant scripta manent: palavras voam, a escrita permanece.