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sábado, 21 de setembro de 2019

GUARNIERI E VILLA-LOBOS: DOIS GÊNIOS, DUAS MEDIDAS

Camargo Guarneri, eterno gênio caipira
Há algo em comum entre os dois gênios, mas não a origem e a personalidade. Guarnieri passou 16 anos da vida em sua Tietê, São Paulo, largando o segundo ano do ‘grupo escolar’ para buscar na capital melhores chances para sua música. Villa-Lobos, carioca expansivo, gozador de rompantes histriônicos, compunha até deitado de bruços no chão, ouvindo novelas de rádio.
Villa: charuto, gravata e sinuca. 
Guarnieri e Villa, cada um a seu jeito, romperam as fronteiras do Brasil e se lançaram ao mundo. O Villa do choro e da boemia carioca alcançou reconhecimento mundial como globe-trotter. Já Guarnieri viajava, mas tinha o coração no interior, junto à invejável técnica que adquirira devido a uma facilidade extraordinária. Não se importava com marketing, era comedido e simpático como bom caipira.
Em um jantar na casa do maestro Eleazar de Carvalho, o assistente Diogo Pacheco contou-me um episódio. Rapazinho, cantor do Coral Paulistano do Theatro Municipal de SP, ele passeava pela Praia Vermelha, no Rio, e na direção contrária vinha caminhando Villa-Lobos. Abordou o maestro e puxou assunto, dizendo que o Coral havia cantado uma linda Ave-Maria dele. Villa: “mas qual? Já compus mais de mil!”
Vinte anos depois, quando do lançamento de sua biografia, Diogo respondia a indagações dos presentes. Eu fui o último: quantas Ave-Marias Villa-Lobos escreveu? Todos surpresos, Pacheco contou a história, e, curioso, perguntou-me como eu sabia daquilo. Lembrei-lhe do jantar, e ele iniciou o autógrafo: “Henrique, sabe que você também é muito divertido?” (Deu troco a uma brincadeira minha do passado).



Camargo Guarnieri, por Portinari
Conheci Guarnieri primeiro conversando no intervalo, quando ele ia reger a Osesp, depois no aniversário de seus 80 anos e no Clube Paulistano, onde umas duas vezes fui com meu filho, ‘Baby Lucas’, e o neto do compositor, ‘Baby Alexandre’ (hoje homens bem-sucedidos). Enquanto as crianças brincavam no parquinho, eu respirava palavras sábias, absorvendo o máximo, como um aprendiz de feiticeiro diante de um grande bruxo. Modesto, de tiradas geniais, ao compor era intricado como Brahms e dono de uma costura musical que tem algo a ver com o complexo bordado literário de meu pai.
Se Guarnieri foi o caipira que conquistou o mundo, Villa-Lobos foi o carioca que o fez a seu jeito, e para conhecer bem sua terra teve de explorá-la. Magnifico é o depoimento Excursão Artística Vila-Lobos, de Antonio Chechim Filho, publicação familiar de 1987, de cuja neta, Katia, ganhei um exemplar em 2008.  Chechim era funcionário da Fábrica de Pianos Brasil e, como técnico e afinador do grupo, participou da Excursão.
Villa-Lobos, Nair Duarte Nunes, Antonieta Rudge, Lucila Villa-Lobos
(Souza Lima ausente nesta foto) 

 O grupo contava com Villa, violoncelista e líder, os pianistas Souza Lima, Antonieta Rudge e Lucila Villa-Lobos; cantoras, Nair Duarte Nunes e Anita Gonçalves. A grandiosa viagem foi em 1931, o grupo sacudindo nas estradas de ferro, conhecendo e se apresentando em quase cem cidades de São Paulo (Tatuí foi a de nº 43!). No trajeto entre Bauru e Matão, apesar dos sacolejos e apitos do trem, Villa, absorto, escreveu O Trenzinho do Caipira, para violoncelo e piano, e antes mesmo da chegada havia terminado a obra. Em versão orquestral, O Trenzinho virou Tocata (4º Mvt.) de sua linda Bachianas Brasileiras nº 2.

Publicação nos EUA sobre o livro de Chechim
Link para o texto completo no final do blog
Segundo Chechim, foram 8 etapas: (1) Campinas-Barretos, 8 cidades; (2) Batatal-E. S. do Pinhal, 11; (3) Serra Negra-Mococa, 7; (4) Salto-Itararé, 13; (5) Avaré-Porto Epitácio, 17; (6) Itapira - S. J. do Rio Preto, 6; (7) Jacareí-Queluz, 13, e (8) Piraju-São Paulo, 13. Villa também conheceu o resto do Brasil inteiro.
Ponteado (Chico Mineiro)
Guarnieri era o mestre da ourivesaria, dos detalhes, e sua obra passou por todas as fases, do nacionalismo ao que hoje seria vanguarda. Minha filha Marta vai defender em Londres sua tese de PHD sobre as três sonatas para violoncelo do maestro. Trabalho cansativo, difícil pesquisa, pode-se sentir o sotaque interiorano com suas danças e ponteios – não o folguedo sulino de sapateado, mas o da viola caipira, ponteado pelos dedos polegar e indicador, principalmente.

Cornélio Pires e sua turma
Achei que encontraria um conhecimento muito provável do jovem Guarnieri com a turma do também tieteense Cornélio Pires, estudioso e líder de um grupo de violeiros de música de raiz. Só que Cornélio nasceu em 1884 e Guarnieri em 1907. Quando Cornélio foi para São Paulo, em 1914, Guarnieri tinha apenas 7 anos de idade. Mas a viola já era presente na vida tieteense desde bem antes, e continua até hoje. Foi dela que Guarnieri bebeu seus ponteios, os sons das serestas, as danças. Do Villa, também, guardo alguma história muito pitoresca contada por meu pai, que com ele esteve um par de vezes (uma delas, em um jantar, aconteceu um episódio impublicável). E a Da. Mindinha, segunda esposa, que conheci no Rio no início dos anos 1970. Nossos dois gênios, em duas medidas! 

                                                                   ***
Memória de um Técnico de Piano  Brasileiro, Antonio Chechim Filho, Acerca da Excursão Artística Villa-Lobos (1931-1932):

https://www.researchgate.net/publication/328492720_Memoir_of_a_Brazilian_Piano_Technician_Antonio_Chechim_Filho's_account_of_the_Villa-Lobos_Artistic_Excursion_1931-32

sábado, 20 de julho de 2019

THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO - II


Panorama de uma arquitetura musical e política

Não demorou muito para o Theatro Municipal de São Paulo encontrar o prumo de sua veia artística. Companhias de ópera e solistas passavam por seu palco, tradição consoante aos mais finos costumes europeus. A partir de 1930, época de golpe de Estado e revolução, o TM chega à maioridade em meio a turbulências e assume vocação própria, ainda que sujeita à volátil política brasileira.
Camargo Guarnieri
Há que se ressaltar que, àquela altura, o Municipal não servia apenas a apresentações musicais, mas à política em seu aspecto mais saudável, pano de fundo que é deste meu tríptico de artigos. Além de manifestações estéticas como a de 1950 contra o modismo dodecafônico introduzido no país por Koellreutter, tendo o nacionalista Camargo Guarnieri (1907-1993) como bandeira, lá se exibiram bailarinos como Isadora Duncan, o lendário Nijinsky e Margot Fontein, fora vultos do teatro como Jean-Louis Barrault, Vivian Leigh, Cacilda Becker e Marcel Marceau, entre tantos. (Quando perguntei ao próprio Guarnieri sobre o polêmico evento da Carta Aberta lida no Municipal em 1950 contra a invasão do serialismo, o maestro confessou-me, com sua voz característica: “Eu não era contra o dodecafonismo. Como é que eu poderia ser contra algo que eu nem sabia do que se tratava? Eu era contra o Koellreutter!”).
Modernistas reunidos: no alto, à esquerda,
Mário de Andrade
Outros acontecimentos da máxima importância foram a histórica Semana de Arte Moderna de 1922, que chacoalhou o mundo artístico brasileiro, o Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e o memorável 1º Congresso Brasileiro de Escritores, suspiro da classe intelectual contra o Estado Novo, além de inúmeros outros eventos. Foi também das escadarias do Theatro que o líder estudantil José Dirceu, em 1º de abril de 1968, à frente de uma aglomeração de manifestantes, conseguiu (a contragosto da cúpula da UNE) dispersar a concentração popular e contornar taticamente a palavra de ordem de outras lideranças, favoráveis a um confronto com a Polícia, um embate de resultados imprevisíveis (PONTES, J. Alfredo Vidigal. 1968, do Sonho ao Pesadelo. SP: OESP, 1998).
Jânio Quadros, prefeito (Estadão)
Incólume após várias administrações e durante quase nove décadas de mudanças políticas, o Theatro Municipal, orgulho paulistano de diversas gerações, passou por mais duas reformas físicas, preservando-lhe a aparência e funcionalidade. A primeira, em 1952, durou três anos, enquanto a segunda foi concluída em peno choque de gestões, iniciando-se com Jânio Quadros (PTB, 1985-1988) para finalmente ser entregue à cidade durante a transformadora administração de diretrizes ideológicas diametralmente opostas, a da prefeita Luíza Erundina (PT, 1989-1992).
Sociedade de Cultura Artística,com o belo afresco de Di Cavalcanti
Fundada em 1912, a Sociedade de Cultura Artística, entidade privada com 650 assinantes, apresentava solistas, orquestras e música de câmara. O Theatro Municipal passou a ampliar os horizontes artísticos da cidade, recebendo artistas nacionais e companhias líricas estrangeiras. O município passou, então, a fazer parte do roteiro das turnês como extensão natural do trajeto do Rio de Janeiro ao Teatro Colón, de Buenos Aires.
Mário de Andrade
Devido aos custos cada vez mais aviltantes de óperas estrangeiras completas, “prá economizar importação de gente”, como disse Mário de Andrade¹, e dada a necessidade de se ter um corpo estável próprio para a execução do amplo repertório operístico-sinfônico, criou-se um conjunto, mais adiante intitulado Orquestra da Cidade de São Paulo (¹DUARTE, Paulo. Mário de Andrade por Ele Mesmo. SP: Hucitec, 1985). Na verdade, tratava-se de um grupo bastante heterogêneo, já que repleto de músicos de formação popular basicamente pertencentes às orquestras das rádios Gazeta e Piratininga. O conjunto passou a ter papel da maior relevância nas temporadas líricas paulistanas, e o Municipal a abrigar seus instrumentistas, em grande maioria de origem italiana, assim como acolher os alunos que esses professores haveriam de formar para sucedê-los nas estantes, além de oferecer espaço para que esses jovens músicos completassem sua formação com a necessária experiência prática.
Maestro Souza Lima
A Orquestra Sinfônica Municipal foi criada oficialmente apenas em 1949, à frente os maestros Souza Lima (1908-1982) e Armando Belardi (1898-1989), e com sua consolidação logo assumiu papel de destaque em São Paulo e no país. Além de Lima e Belardi, teve como regentes Edoardo Guarnieri, Simon Blech, Roberto Schnorremberg, Tulio Colacioppo, Eleazar de Carvalho (em acúmulo com a OSESP), David Machado, Júlio Medaglia, John Neschling, Isaac Karabtchevsky, Jamil Maluf, J. M. Florêncio, Rodrigo de Carvalho e Roberto Minczuk.
Poucos músicos investidos dos cargos efetivos criados para provimento via concursos públicos restavam até 1988, quando foi promulgada a nova Constituição Federal. Os artistas vinham sendo contratados não para cargos, mas para funções criadas pelas leis 9160 e 9168/80, ‘admitidos em função pública’, um artifício para contratar servidores sem concursá-los, tornando o funcionalismo público vulnerável a apadrinhamentos e interesses políticos. Para a OSM, no entanto, logrou-se manter o instituto da seleção pública, que em tudo se assemelhava à parte prática de um concurso público. Em 1992, Erundina sancionou a lei 11.231, criando novos cargos efetivos para a OSM, Corais Lírico e Paulistano, Balé da Cidade e as escolas de Música e Bailado. Dada a resiliência do poder público contra cargos efetivos para artistas nas gestões seguintes, as vagas abertas por lei nunca foram objeto de concurso. (Continua)

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[Se você quiser ler a primeira parte, que antecede o presente artigo, o link é: http://blogdohenriqueautran.blogspot.com/2019/07/theatro-municipal-de-sao-paulo-i.html]