LIVROS

LIVROS
CLIQUE SOBRE UMA DAS IMAGENS ACIMA PARA ADQUIRIR O DICIONÁRIO DIRETAMENTE DA EDITORA. AVALIAÇÃO GOOGLE BOOKS: *****
Mostrando postagens com marcador frio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador frio. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 3 de junho de 2022

FRIO NO TEMPO DO FRIO

 


Das gravações de Baby, It’s Cold Outside
 ("Garota, Está Frio Lá Fora"), de Frank Loesser, prefiro a de Ray Charles e Betty Carter, diálogo entre uma voz possante e a suavidade juvenil e ingênua da cantora. Trata-se de uma conversa entre um homem e sua garota - ela, teimando para ir para casa, dizendo “eu realmente tenho de ir embora”, ele insistindo, “garota, está frio lá fora”, papo romântico e desencontrado: ele tenta forçá-la a ficar, ela retruca com argumentos, o pai deve estar andando de um lado para o outro, a mãe preocupada – já se iam as horas -, coisa que aconteceu na vida de tantas e tantos jovens (sim, rapazes também, como em Trem das Onze: “minha mãe não dorme enquanto eu não chegar”). Cegamente apaixonado, ele diz das mãos congeladas da garota, dos lábios deliciosos; ela expõe suas angústias, até que ele tenta induzi-la ao desespero, última cartada: “e se você pegar pneumonia e morrer?” Pela música, Loesser abocanhou o Oscar em 1950.


Quem conhece o frio rigoroso sabe do que ele é capaz
. Claro, há beleza na neve cobrindo ruas e calçadas, aquela brincadeira lá fora ou, para quem prefere, olhar através da janela os flocos planando. Mas calefação é fundamental, o frio chega a ser tão intenso que pode transformar a casa em sucursal da Antártida. Obedeça-se a legislação: em Massachusetts, onde vivi, há um mínimo obrigatório para o dia, 68 °F (20 °C), e outro para a noite, 64 °F (~18 °C.), a serem rigorosamente cumpridos pelo senhorio do imóvel - o desrespeito à lei pode levar a sanções e até ao cancelamento da licença de aluguel.


Passei por uma situação terrível
onde morava, e garanto que não foi nada fácil nem romântico, como na música. Certa noite, houve pane no motor do aquecimento, máquina que serve para levar água quente das tubulações do porão até o radiador de cada cômodo. Resultado: dentro de casa, mesmo com o isolamento das paredes qual um sanduíche de lã de vidro, o termômetro mostrava 5 graus, depois zero, logo um pouco abaixo. Tremendo, olhei-me em um espelho e vi minha boca arroxeada; enrolei-me em vários cobertores entremeados com jornais e espremi-me encolhido em um canto; antes, em desespero, acendi o forno da cozinha, contígua à sala - aos vinte e poucos anos não conhecemos o medo, somos todos imortais, não é? (Frase póstuma sob medida para tamanha loucura). O inferno gelado terminou pela manhã com a chegada dos bombeiros que um vizinho havia chamado, seguidos por uma equipe de manutenção.


Neve nas ruas seis meses por ano
, caminhão espalhando sal grosso para limpar a passagem. Porém, após derretida, se volta o frio intenso a água congela, formando um tapete invisível que está para os carros como uma pia molhada para um sabão (pé no freio nunca, mais risco de acidentes!). Nas grandes cidades, moradores de rua se aquecem nas saídas de ar da calefação dos metrôs, cobertores sobre o corpo e garrafa de liquor (qualquer destilado) na mão, desde que em um saco de papel, pois é ilegal expor bebida alcoólica em público. (Que contraste com os que podem dispor de um bom par de botas, calças forradas, casaco recheado de penas de ganso, bons gorros, cachecóis e mittens, aquelas luvas que têm o polegar separado e os demais dedos juntos, para mantê-los quentes!)

(Central das lareiras)

Em São Paulo não descemos a tais temperaturas
, mas esses dias de maio têm sido os tempos mais frios do ano. A diferença entre o nordeste americano e cá é a morte certa e o risco de morrer. Aqui, casas e apartamentos, sem terem preparação térmica e calefação, podem ser aquecidos com uma lareira, para os felizardos que têm como comprar, entre o degustar de um bom vinho e momentos de adoração ao fogo, como nos rituais dos tempos de nossos antepassados.

(GUJ)

Mas dê uma olhada no povo de rua
, que sofre nas calçadas e praças das grandes cidades. Com a vida cada vez mais difícil, enrolados em cobertores entre pedaços de papelão e aguardando em desespero as benditas doações de roupa, comida, seja o que for: são velhos, grávidas, crianças, enfermos, situação de miséria plena. São nossos deserdados, que não comparecem às eleições, e são contabilizados como números mas não têm “lenço nem documento”. A fome é maior do que a razão para tomar qualquer atitude que não aguardar um novo dia, depois mais outro, e mais um - se vier e se Deus quiser.


Segundo estudo do IPEA
(Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) de maio de 2020, a população de rua no Brasil era de quase 222 mil pessoas. Com o agravamento do desemprego, a crise econômica e social, seguramente após passados dois anos o número já é bem maior; as campanhas de arrecadação ajudam, mas são panaceia. Há também os que se abrigam em situação de extrema pobreza, moradias improvisadas, muitas vezes recolhendo gravetos, sarrafos e madeira de móveis velhos para acender seu “fogão” uma vez por dia, frente aos preços exorbitantes, a falta de um botijão de gás e até do que colocar na panela.


A saga de Elsa e Anna
, em Frozen (lit.: congelados) é uma produção de 2013 dos estúdios Disney, e serve mais à fantasia e à imaginação infantil. A nós resta acatar os desígnios da natureza, como o poeta lusitano Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa), em Quando Está Frio no Tempo do Frio: “Que são para mim as doenças que tenho (...) / senão o inverno da minha pessoa e da minha vida? / (...) virtude da mesma fatalidade sublime / (...) o calor da terra no alto do verão / e o frio da terra no cimo do inverno”. Como ele, acatemos também os desígnios da natureza e suas vicissitudes, mas urge lutarmos para reduzir as desigualdades sociais em todas as estações do ano.

Fernando Pessoa


sexta-feira, 6 de agosto de 2021

FRIO: DOIS LUGARES, DOIS OLHARES

 


Estados Unidos, julho de 1977. A primeira vez que tive contato com um frio de doer foi em Brighton, New England, lugar onde fui morar, estudar e trabalhar. Sim, estava bastante frio, mas ao chegar ao apartamento que um amigo me cedeu por uns tempos, bastou ligar a calefação elétrica para o sol lá fora fazer cara de verão. Esgotado da viagem, arrumei minhas coisas e fui dormir cedo. Quando acordei passei pela sala e, atônito, vi uma massa branca por fora da porta envidraçada da varanda. Olhei para o pátio, mas onde os portões dos prédios, onde os carros? Desci, e ao lado de vizinhos pasmei olhando a portaria de vidro: uma imensa parede branca.


Logo, pessoas com pás e enxadas uniram-se solidariamente para abrir uma passagem daquele iglu, digo, prédio, para a rua a fim de podermos sair. Mas para onde? Não havia metrô externo, uma colina de neve cobria os trilhos, nem loja aberta. Voltei para o apartamento e fui procurar comida. Nada. Apenas uma cebola, que comi crua com sal, devidamente fatiada, meio ardida, mas era o que tinha. Liguei a TV, e aí o susto: jornalistas exaltados, avisos de alerta, números para ligar por socorro em casos extremos de fome ou frio. Aquela nevasca era a maior blizzard dos últimos 150 anos, soube depois, coisa nunca vista por toda aquela população. Uma deixa para me agasalhar com casaco estofado com pena de ganso, botas, gorro e cachecol no rosto e sair à procura de alimentos. Andando por cima dos carros, guiando-me por entre aquelas longas antenas antigas, atravessei a linha férrea e... Salve! Encontrei a longa fila de um mercadinho! Pela neve da linha férrea, em declive, exibiam-se pessoas de esqui, o que me distraiu do gelo até poder entrar no ambiente da loja.


Seriam gelados todos os invernos, com neve quatro a seis meses no chão por ano, mesmo que sem aquela tragédia de 77. O lado bom: depois de engolir flocos na rua, como criança, ver nevar de casa, gelar uma cerveja colocando-a para fora da janela por cinco a dez minutos. Ah, os pinheiros e maples cobertos de neve, arte da natureza - mas olhando do quentinho de dentro, privilégio a ser desfrutado por quase todos. Sim, digo quase todos por causa dos moradores de rua, miseráveis, geralmente nas bocas da saída de ar quente das estações de metrô. Os pobres que ainda tinham onde morar eram impedidos por lei de serem despejados, o que seria como condená-los à morte. O mesmo valia para o corte por falta de pagamento das contas de luz e do óleo que aquecia as caldeiras nos porões.


Ricaços partiam com seus esquis rumo a algum resort como Aspen, Colorado, para se divertirem com garbo e estilo entre um chocolate quente e um conhaque. Porém, havia um lado triste, amargurante: o frio não era só festa, era seletivo pela natureza da sociedade americana, dividida em maioria privilegiada e pobres, gente açoitada pelas lufadas de vento baixando as temperaturas de até -15°C para -30°C ou ainda menos, fenômeno chamado windchill factor (fator de gelo do vento, por aqui conhecido suavemente como sensação térmica).

(Mapa: Climatempo)

Tatuí, julho de 2021. Conforme as previsões meteorológicas, uma frente fria se abatera sobre o Brasil nos últimos dias. No quarto onde escrevi este texto, no dia 30, o termômetro registrava internamente 10°C, e do lado de fora, acredite, a mesma temperatura, tendo marcado 0°C durante a madrugada. O país sofre com o frio, as casas não são preparadas, não há calefação e os que mais penam são os peões de obra, pessoal de serviços externos e entregas – a mais dura parte cabendo aos motoboys de delivery, moto-táxis, que têm de se locomover deslocando ar contra si mesmos. (O Inmet disponibiliza uma tabela de cálculo da sensação térmica que pode ser resumida da seguinte forma: a cada 7 km/h de velocidade, o vento faz cair 1°C, ou seja, se a temperatura é de 10º, como no dia em que escrevi este artigo, e o vento chega a 21 km/h, a sensação térmica é de 7ºC. Para um motociclista dirigindo a 42 km/h, a sensação será de apenas 4°C).


O frio tomou, mesmo que em diferentes proporções, todo o país, e nevou em diversas cidades do sul; houve onde a sensação térmica chegasse a -6,5°C com previsão de cair ainda mais. Com roupas não preparadas, casacos comuns e na falta de luvas e botas especiais, o sofrimento é ainda maior. (Nas residências, também, sem as mantas térmicas de lã de vidro internas às paredes e forros como nos EUA, por exemplo, o frio é impiedoso. As raras que possuem uma lareira são privilegiadas – porém, apenas nos ambientes em que ficam, as pessoas ao redor como em adoração ao fogo). Rio e Salvador, fregueses contumazes de calor intenso de 42°C ou mais, viveram momentos de rigoroso inverno, de 15°C na primeira cidade e 24° na segunda. (Contraste: lembro-me de que quando chegava a primavera, em Boston, com os 15°C do Rio estudantes desciam às ruas de shorts e camisetas regata, som ligado alto, para jogar bola e festejar. Deve ter sido essa, concluo eu, a alegria do russo Igor Stravinsky ao compor seu célebre balé orquestral “A sagração da primavera”, um marco na história da música).


É inegável que dez ou vinte minutos na geada ou na neve, com as crianças bem agasalhadas, podem ser prazerosos, divertidos. Para os adultos, uma doce alegria infantil que quase sempre termina em vinho ou chocolate quente. Mas é preciso nunca esquecer que há uma população sofrendo: os sem-teto, moradores de rua. (Fora os muitos que perderam a vida por causa do frio). Os que vivenciam o gelado intenso na carne merecem atenção especial das autoridades e de todos nós, privilegiados.