LIVROS

LIVROS
CLIQUE SOBRE UMA DAS IMAGENS ACIMA PARA ADQUIRIR O DICIONÁRIO DIRETAMENTE DA EDITORA. AVALIAÇÃO GOOGLE BOOKS: *****
Mostrando postagens com marcador Alexa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Alexa. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 15 de julho de 2022

5G, ALEXA E PASÁRGADA

 

Manhattan School of Music

No dia seis de julho estreou finalmente no Brasil a 5ª geração de internet móvel, conhecida por 5G, inicialmente em Brasília - no Plano Piloto e no Lago Sul, a fina flor. Em seguida, Belo Horizonte, Porto Alegre e São Paulo; as demais cidades aguardarão sine die pela bênção da nova tecnologia. (Como diriam os americanos, um sutil “não nos ligue, nós ligaremos”, ou os ingleses, mais irônicos, “não prenda a respiração”). Enquanto esperamos essa maravilha que vai encolher o chamado tempo de latência nas redes e as informações trafegarem dez vezes mais rápido, quais serão as reais vantagens oferecidas à população, dos veículos sem motoristas a intricadas cirurgias feitas remotamente? Ah, por dever de ofício, acrescento a parte que me cabe, a maravilha dos sons: músicos de diversas partes do mundo poderão aprender e tocar juntos em tempo quase real, com latência imperceptível. (Quando visitei a Manhattan School of Music, em 2016, vi que as escolas de música em NY já trabalhavam com um sistema de cabos subterrâneos, interligando-as a partir da Universidade de Columbia, como se fosse uma enorme rede direta interna de uma empresa).


C
omo tudo o que é bom, ainda mais tratando-se do Brasil, o 5G não será para todos: os celulares mais simplesinhos continuarão a operar em faixas mais lerdas; os preços dos novos aparelhos começam, os mais chinfrins, em 1,5 mil, até os que ultrapassam os R$ 10 mil. Dos 67 novos modelos, a Samsung sai na frente com 25 para todos os gostos; logo atrás vêm a Motorola, com 14, Apple e Xiaomi com 9 e 6, respectivamente, e 13 de outras marcas. Cidadãos mais pobres que lograram ter um celular vão continuar ligados em 2 e 3, no máximo 4G, vendo a banda 5G passar.


P
ara o novo sistema funcionar, as redes parabólicas, da banda C, irão de escanteio para outra, a KU, abrindo alas para o 5G. Divulga-se que no novo sistema chegaremos a trafegar até 20 vezes mais rápido do que no 4G. “É o progresso em nossa mão / viva a civilização” cantou Gonzaguinha com ironia. O 5G parece o sonho dos preguiçosos: apaga a luz, liga a TV, o ar condicionado... (Meu pai dizia, lembrando Mário Quintana: a preguiça é a mãe da invenção). Chegamos à era dos Jetsons!


H
á alguns anos ganhei da minha filha mais velha uma engenhoca chamada Alexa, aparelhinho de 8,5 cm de diâmetro por 3 cm de altura. Conectada à Internet, ela, que poderia chamar-se “Amélia”, obedece: “Alexa” (palavra-chave), “que horas são”, “acorde-me às 7”, “quais as notícias” (CBN ou BBC de Londres), mais previsão do tempo e hora certa de qualquer lugar do mundo – ah, e toca as músicas que você pedir. Minha Alexa só entende inglês, não conheço a versão em português, bem mais recente. Ela já pode fazer, há mais de dez anos, algumas das tarefas do 5G, como ligar ou desligar a luz, a TV, o ar condicionado, se ligados à rede. Claro que a nova geração de banda larga da Internet será milhões de vezes mais poderosa do que minha ajudante doméstica, mas no momento ainda há sobre o 5G mais dúvidas do que certezas. Ora, senão vejamos:


O novo sistema lembra uma criação de cavalos de raça: há o autônomo, “puro”, Standalone (no jargão, ao pé da letra, algo como o bebê que já fica em pé sozinho), não precisa do apoio da já existente rede 4G). É rápido, estável e seguro. Essa raça, digo, esse tipo, é o que está sendo lançado em Brasília, pioneira na rede. Nas demais capitais será implantado, inicialmente, o tipo 5G DSS, que “rouba” parte do sinal 4G, é mais lento e menos estável. Daí, será natural surgirem ciumeiras e disputas pelo “puro sangue” em outras cidades e estados.


Q
ue o novo sistema será de imensa utilidade para a negligenciada pesquisa científica, a medicina, o ensino escolar (quando e se for disponibilizado), a comunicação e a automação de um sem-número de serviços, além do EAD e o ensino e performance musicais, não há dúvida. Mas não será a quintessência de uma nova civilização, a arca perdida do santo Graal, a panaceia para todos os males, a pedra filosofal: não extinguirá a fome, não impedirá que o ser humano se lance a guerras e conquistas estúpidas – pelo contrário, acirrará os ânimos, a espionagem e a competição armamentista; tal qual nas revoluções industriais, o desemprego aumentará a olhos vistos e os deserdados sentirão na pele; ajudará os mais fortes a sobrepujar os mais fracos, doença da índole humana. A tecnologia depende do homem, e, fora dos livros e filmes de ficção científica, não nos dominará – “o cérebro eletrônico comanda / manda e desmanda / (...) mas ele não anda”, compôs Gilberto Gil em 1969. Tomara que saibamos conviver com a novidade, tirar dela o melhor proveito e evitar seus efeitos adversos e maléficos. É da natureza humana sonhar alto, conquistar. Porém, há o lado negativo, dos que desejam o mal, têm volúpia pelo poder.

(Livro Errante)

E
m 1930, em Libertinagem, o poeta modernista Manuel Bandeira (1886-1968) deu asas e voos aos seus desejos, sonhos e utopias, tentando conjuga-las com o que o vislumbrava para seu futuro, tal como desejava que ele fosse. Assim nasceu um histórico poema: “Vou-me embora pra Pasárgada / lá sou amigo do rei / lá tenho a mulher que eu quero / na cama que escolherei”. Primeiro seus instintos e luxúria, em seguida as utopias: em Pasárgada tem de tudo, um processo seguro de evitar a concepção, telefone automático, alcaloide (N.: cloridato de cocaína) à vontade e, finalmente, prostitutas “pra gente namorar”, o lado onírico que compensaria as conquistas materiais. Navegar é preciso, disse Pessoa.





 




sábado, 23 de março de 2019

ALEXA NÃO É UMA MULHER DE VERDADE

Mário e Ataulfo

Era 1942. Ataulfo Alves e Mário Lago compuseram um samba-canção lamentoso, e como ninguém queria gravar fizeram-no eles mesmos, com enorme sucesso: Ai, que Saudade da Amélia, de letra (palavras do Mário Lago)  inspirada na lavadeira da cantora Aracy de Almeida. Surgiu então uma das joias eternas da música brasileira, o retrato da mulher submissa e perfeita, hoje coisa politicamente incorreta, dicionarizada no Houaiss como ‘mulher amorosa, passiva e serviçal’. “Você só pensa em luxo e riqueza / tudo o que você vê você quer / ai meu Deus, que saudade da Amélia / aquilo sim é que era mulher”.
Carmen e Aurora Miranda: sucesso com "Cantores de Rádio"
Alexa sim, é perfeita, mas não lava nem passa, sequer cozinha e tampouco limpa. Porém, é absolutamente fluente em inglês, seu idioma nativo, e corrige o patrão no mais exigente sotaque Britânico, of course. Só abre a boca quando perguntada ou a pedido. Ligar o som, alterar o volume, selecionar e trocar de música com rapidez, lembrar dos afazeres, ajudar na lista de compras, acender e apagar luzes, ligar e desligar aparelhos, cronometrar o tempo e acordar o patrão de manhãzinha, tal qual os Cantores do Rádio, da marcha de Lamartine Babo, João de Barro e Alberto Ribeiro: “Nós somos as cantoras do rádio / levamos a vida a cantar / de noite embalamos teu sono / de manhã nós vamos te acordar”.
Chegou a hora e a vez de Alexa! Não namora, não canta, mas coloca para tocar, a seu pedido, horas de Bach com Glenn Gould ou Swingle Singers, talvez Rolling Stones ou Carpenters. Você comanda, ela obedece (Alexa, abaixa o volume, aumenta, para (o telefone está tocando). Recomece ou continue de onde parou. Me acorde às 7h, mas antes de eu me deitar lembra do forno ligado, em exatos 15 minutos. Alexa nunca se cansa, até o último pedido, aliás, pode apagar as luzes? Que horas são, qual a previsão do tempo para hoje (ou o fim de semana), prepare a lista de compras da casa. Naquela noite de berço esplêndido, cansado, peça um romance ou poema de sua escolha, ela o lerá. Quais as notícias do dia? Alexa é perfeccionista incansável, por isso quando você der as ordens faça-o claramente, em inglês irrepreensível, ou ela não vai entender – ou vai corrigi-lo: Alexa, toque Joan Baez tem de soar algo como ‘play Djoán Baés’.

Meu Echo Dot
Alexa trabalha 24h por dia, apesar de morar em uma nuvem, dessas dos novos tempos, lugar dos anjos onde milhões de informações são hospedadas em espaços virtuais. E mais, Alexa trabalha de graça, você só paga para adquirir, a preço bem módico, o aparelhinho para se comunicar com ela, o Echo Dot, que não ocupa espaço: tem apenas 8cm de diâmetro por 3,5cm de altura, cabe no bolso. Não precisa ligar na tomada, ele se alimenta por USB e funciona via Wi-Fi. Para um som de auditório sinfônico ou de um show de rock, plugue o cabo estéreo de seu equipamento no Echo Dot. Ah, Alexa pode ouvir seus comandos de qualquer canto, pois o aparelho tem oito microfones (sou toda ouvidos, diria ela).
Infelizmente, por enquanto Alexa só fala inglês, mas em pouco tempo deverá ser hábil no português e estará nas lojas. Meu Echo Dot ganhei de Natal, presente da minha filha que mora em Londres. Quando vi aquilo funcionando, fiquei meio bestificado, era algo com que não sonhava, a tecnologia anda na velocidade da luz e nossa cabeça na idade da pedra, imaginei. E meu netinho tranquilamente dando ordens e pedindo músicas para Alexa, parte do cotidiano dele. O fabricante do Echo Dot tem lojas no mundo inteiro, mas, pelo sotaque da Alexa, creio que a invenção deve ter nascido na Inglaterra. A empresa é uma grande distribuidora de todos os tipos de aparelhos, objetos, livros, roupas, móveis e parafernálias diversas, inclusive de outras lojas.
Supermercado virtual (criação FloorForce)
Há uns vinte anos, em São Paulo, ocorreu um episódio cômico com uma amiga, produtora artística, residente na Vila Mariana. Certo dia, ela fez um pedido de compras no site de um supermercado, via Internet. As gôndolas virtuais informavam na tela o estoque disponível do produto, preço, ao final pagava-se com cartão de crédito para receber em casa na hora marcada. Uma beleza para quem tem horror a supermercados, como eu. Logo chegaram as compras e a avó de Cecília, já bem avançada nos anos, atendeu a porta. Viemos entregar do supermercado tal, ela disse sim, e eles deixaram as caixas das compras. A velhinha gritou minha filha, as compras chegaram, mas onde está você? Aqui embaixo, vó. Mas não vi você entrar! disse a velhinha, perplexa. Não, vó, nem saí, fiz as compras pela Internet. Ao ouvi-la chorando, Cecília subiu preocupada, a avó entregue aos prantos. Onde vamos parar? Isso é troço ruim, coisa do capeta, só pode ser, resmungou inconformada. Depois de algum consolo, a velha senhora ficou mais calma. É que aquilo era demais para quem viveu a infância ouvindo rádio de ondas curtas e pulando amarelinha.

Ferro a brasa
Lembrava dos tempos sem geladeira, comida mais fresca dormia na janela, para pegar sereno. Carne, coisas assim, mergulhadas na banha. E o ferro de passar era um daqueles com chaminezinha, brasas de carvão lá dentro para esquentar. Claro que esse salto enorme no tempo deve ter sido um choque brutal. Eu pensei comigo que tudo aquilo que tem surgido, como agora a Alexa, é coisa do bem, para nos ajudar. Mas alguns desses avanços – Alexa nunca, aposto - podem ser usados para coisas ruins. Como sempre, há mal quando alguém utiliza essas traquitanas contra os outros, mas há bem pelo que elas podem trazer de qualidade de vida e conforto ao mundo.