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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

BEETHOVEN: UM GÊNIO PERTO DAS TREVAS

Aquele que é considerado um dos grandes gênios da música, se não o maior, Ludwig Van Beethoven (1770-1827), foi acometido de grave e progressiva surdez, aliada a problemas mentais, no auge da carreira. As desventuras de Ludwig tiveram origem ainda menino, volta e meia espancado pelo pai, que queria vê-lo criança-prodígio e fonte de renda, tal qual Mozart. Não tinha a pirotecnia, a versatilidade do ‘Pequeno Mágico’, e dizia criar com extrema dificuldade. Ao contrário do prodígio vienense, não tanto tempo depois, Beethoven veio a compor suas obras mais representativas, como a Sinfonia n° 3, Eroica, aos 34 anos, quase a idade em que Mozart morrera, deixando-nos vasta obra. (Mário de Andrade se referia a Ludwig como Luís de Beethoven, costume de nacionalista. Poderia até ter-lhe traduzido também o sobrenome: ‘Luís de Beterraba’).
Beethoven foi um revolucionário nas ideias e na música. Na questão da forma, trocou uma pacata dança de salão do período clássico, o minueto, por uma outra mais viva e serelepe, o scherzo, uma brincadeira ou troça. O scherzo já existia, mas a troca do minueto é da lavra de Ludwig, consumando sua originalidade. Na famosa Sinfonia n° 5 mais uma vez inovou, acrescentando os trombones no último movimento. Na gloriosa n° 9 deu de presente ao mundo, no último movimento, o acréscimo de um enorme coral e cantores solistas: ‘Ode à Alegria’, sobre poema de Schiller, páginas que marcaram a história da música e abriram caminho para outros grandes sinfonistas.
Eroica: capa com a dedicatória rasgada
Algumas inovações de Beethoven foram mal recebidas. No primeiro ensaio da 5ª Sinfonia, popular no Brasil pelo comercial de aparelho de barbear - o tchã-tchã-tchã-tchã -, o tema inicial foi recebido como piada por músicos e analistas: ‘aquelas quatro notinhas’, gracejaram. Um crítico berlinense disse que nunca ouvira coisa tão desagradável, pobre em melodia, ‘um ruído sem arte alguma’. Mas o instinto revolucionário na música do compositor se estendia às paixões republicanas. Por isso mesmo, dedicou a Napoleão Bonaparte sua terceira sinfonia, Eroica. Mas quando soube que o francês havia sagrado a si próprio Imperador, a admiração caiu por terra. Com ódio, riscou até rasgar impiedosamente a dedicatória da capa da partitura.
São misteriosas e muito romantizadas as paixões de Beethoven, entre elas a famosa ‘amada imortal’. Houve quem defendesse que havia um mistério, como Bernard Rose expõe no texto do filme Immortal Beloved: a luta desesperada pela guarda de seu sobrinho menor, Carl, após a morte por tuberculose de seu irmão Johann. Pega carona aí mais uma teoria de que Carl, tão mimado pelo compositor, teria sido, na verdade, filho do próprio Ludwig com a cunhada Joanna. Na verdade, os grandes nomes da arte são campo fértil para todos os tipos de ilações e especulações, e é difícil saber se existe ou não, ao fundo delas, a chamada ‘verdade verdadeira’.
(schohenbrunn.at)
Beethoven era de um temperamento insuportável. Brigava com todos, despertava antipatias e deixava de se comunicar com o mundo, ensimesmado e entregue aos sons indescritíveis gerados pelo seu ouvido interior, no caótico inferno particular em que a surdez e a insanidade o submergiam. Era de um mau-humor e pessimismo extremos: passeando pelos jardins arborizados de Viena, olhava para os arbustos e sebes cuidadosamente aparados, e chamava-os poodles, aqueles cachorrinhos peludos.
Beethoven e Goethe
Certo dia, braços dados com o amigo e escritor Goethe, costume da época, comentou que aqueles muito bem cuidados arvoredos mais pareciam um bando de carneiros mortos.  Tinha o costume de rabiscar música em qualquer papel ou pano que pudesse encontrar, cantava e resmungava sozinho pelas ruas - sem falar em quando arremessou ovos no cozinheiro quando não lhe agradou a comida. Durante seus estudos, refrescava a cabeça e as mãos com uma jarra d’água que deixava ao lado do piano. E molhava o soalhado, para desespero do senhorio.
O obscuro Testamento de Heiligenstadt
Por tal mau-humor e inconformismo, mudou-se tantas vezes de residência que, ao reencontrar um velho conhecido, este lhe perguntou para onde deveria escrever, uma vez que nunca tinha resposta. Ludwig disse-lhe é simples, basta endereçar ‘Beethoven, Viena’. Sabia-se famoso, mas não se importava tanto com isso. Por seu comportamento agressivo e volátil, além de admirado Ludwig foi também odiado. Com a mesma paixão buscava uma inexistente perfeição na música e no sentimento, conceitos que significariam talvez a mesma coisa em sua loucura - a obra e o amor perfeitos nunca encontrados. Restaram sobre uma suposta paixão três plangentes cartas de amor encontradas após sua morte. Escritas por ele mesmo, não tinham dedicatória ou destinatária e, pior, nunca foram enviadas. Beethoven deixou tudo o que criara, além da bela poupança amealhada - para desespero de seus parentes que sonhavam com uma mordida no testamento dele -, em uma distribuição confusa num texto alucinado escrito durante um tratamento em Heiligenstadt.
Foi naufragando em sofrimento profundo que Beethoven compôs alguns de seus melhores quartetos de cordas e a magistral 9ª Sinfonia, entre outras obras-primas, empregando bugigangas de todos os tamanhos e tipos para amplificar os sons, como espécies de cornetas.


[Peguei emprestado para completar o título deste texto parte do de um livro do autor de A Escolha de Sofia, William Styron, ‘Perto das Trevas’ (Darkness Visible), um relato confessional sobre atravessar a experiência da neurose à depressão, e da demência à recorrente ideia de suicídio, tal qual Beethoven.]


sexta-feira, 23 de outubro de 2015

O ENDEREÇO DE BEETHOVEN

Em 1792, um ano após a Morte de Mozart, Ludwig Van Beethoven muda-se para Viena. A cidade, após a partida do gênio de Salzburg, acolheu o mestre de Bonn com a mesma cordialidade, apesar de ele ser apenas um jovem talento, mas promissor aos 21 anos. Foi aceito como aluno de Joseph Haydn, entre outros, que lhe proporcionou amplas perspectivas de crescimento musical. Cinco anos mais tarde, foi constatada uma doença que lhe causou uma surdez degenerativa, e com a qual deveria conviver e sofrer até o fim da vida. Dez anos depois de sua chegada à capital da música europeia e duas sinfonias após, começa a escrever a sua Sinfonia nº 3, ‘Eroica’, monumento musical que foi o grande marco do novo caminho que haveria de trilhar.


Goethe e Beethoven (Adolf Karpellus)
O problema maior de Beethoven era o gênio, a personalidade impossível de se lidar. Seu grande amigo Wolfgang von Goethe achava-o um sujeito absolutamente intratável, e o perfil mal visto dava a Beethoven a fama de pessoa conturbada e geradora de problemas. Suas várias mudanças deveram-se quase sempre a crises com vizinhos e senhorios, seu comportamento indomável era o mote das frequentes trocas de residência.


Fortepiano (1817) de Beethoven
Seu fortepiano, então um novo instrumento de maior volume do que o cravo, era mais um problema a acrescentar – som, aliás, é motivo que ainda suscita discussões e crises para músicos em todos os lugares do mundo: a perturbação do silêncio (já eu pagaria para ter um vizinho como ele).  As casas, com seus pisos de madeira, tinham frestas entre as tábuas por onde escapava o som que iria incomodar o vizinho de cima, de baixo ou de parede, que deixavam também vazar algumas sobras da água que Beethoven usava, em jarras, para refrescar sua cabeça e mãos sempre fervilhantes.

Quarto de Beethoven em Heilingenstadt
Heiligenstadt, subdistrito de Viena com vestígios da ocupação romana, foi o destino escolhido para o compositor tratar-se dos males trazidos pela depressão, a tortura da surdez crescente, além dos óbvios sinais de algum tipo precoce de demência. Em 1802 Beethoven para lá se mudou, seguindo orientação médica. No final daquele mesmo ano, redige um dos documentos mais famosos da história, depois conhecido como "O Testamento de Heilingenstadt”, escrito aos seus irmãos Carl e Johann, embora o nome do segundo tenha sumido do papel (ver o título do documento, abaixo) – com certeza, por conta de algum desentendimento familiar, como de costume.

O Testamento de Heilingenstadt
Na verdade, esse testamento ia muito além, era um desabafo insano sobre sua doença, a falta de compreensão dos médicos e um depoimento sobre suas intenções de suicidar-se – tragédia que nunca acontecera, fruto que era de seus delírios em espiral, sua tempestade interior. Apesar de ter sido escrita em 1802, a carta revela que as ameaças de terminar com a própria vida eram na verdade um desabafo para si mesmo, apesar de que, na época, o documento também pudesse produzir efeitos legais com relação aos bens que descrevera. O testamento foi descoberto somente 25 anos depois, após a morte de Beethoven, e permanece como um depoimento de inestimável valor histórico.

Mesmo após o isolamento em Heilingenstadt, Viena era um local onde a fama abria ao compositor todas as portas, apesar de seus problemas de convívio e intolerância. Seu pessimismo era outra marca, e bem o mostra o dia em que, ao lado de seu grande amigo Goethe, passeando entre os belos e muito bem cuidados arbustos e sebes da capital austríaca, resmungou que aquilo tudo lhe parecia um bando de carneiros mortos. Um dia, em um sarau na casa do Conde Browne, Beethoven apresentava seu aluno Ries ao pianoforte quando, diante do falatório do Conde e convivas, que se refestelavam fartamente, foi-se embora, diz-se que aos resmungos. 

Certa vez, de braços com seu amigo de sempre, Goethe, viu a multidão e seu companheiro curvarem-se em honra à imperatriz da Áustria, Maria Ludovica, cuja carruagem se aproximava. Mas Beethoven não deu trela e continuou seu passo, repreendendo Goethe pela subserviência. Conforme teria contado Beethoven depois, em sua própria versão, a carruagem parou para que ele pudesse receber a atenção da soberana e suas mais entusiasmadas deferências. O compositor já se confundia com tudo e a todos, mas a cidade o tinha como grande trunfo.

Pois Beethoven continuou com suas mudanças, sempre complicadas, uma espécie de sina interminável. Não lhe importavam muito as coisas materiais, além do fortepiano, que era uma das razões maiores de sua vida, instrumento no qual tocava e improvisava como ninguém, e sobre ele esboçava suas obras cada vez mais complexas e grandiosas, culminando na Sinfonia nº 9 -  ironicamente, para um deprimido, a “Ode à alegria”, cujo último movimento traz um coral que entoa o lindo poema homônimo de Schiller. Apego a lugares e coisas não eram afeitos ao seu estilo, mas todos sabiam que ali, naquela cidade, estava um dos maiores gênios que o mundo já conhecera, e isso lhes era motivo de júbilo. De mudança em mudança, era um misto de lenda e malvisto cidadão, embora a certa altura já mais bem tolerado em função de sua glória e seu nome, que ajudaram a guindar Viena ao patamar de centro da música clássica e pré-romântica.


Um dia, um velho amigo por acaso o encontrou, e disse que andava procurando-o desesperadamente, queria corresponder-se com ele, mas não lhe sabia o endereço e ninguém conseguia informa-lo ao certo. Perguntou-lhe para onde deveria endereçar suas cartas, para ter certeza. Disse-lhe o compositor: “escreva apenas: Beethoven, Viena”.