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sexta-feira, 17 de setembro de 2021

A CARTA

 


Cartas
, além de declarações de ódio ou amor, são eficientes para gravar palavras a ferro e fogo. Diz o provérbio latino: Verba volant, scripta manent (“palavra voa, escrita permanece”). São muito mais que um e-mail, WhatsApp ou Telegram, cada vez mais taquigráficos com os cacoetes de hoje.


Cartas não morrem
, se as guardarmos com zelo. As de nossos avós amarelaram com a tintura do tempo, cor de fundo para letras desenhadas, da caligrafia à assinatura final.


Romântica é a dor
de quem espera por uma carta, como em Hey, Mr. Postman (“Ei, Sr. Carteiro”), dos Beatles: ”Deve haver algum bilhete hoje / da minha garota, tão distante / por favor, Sr. Carteiro, olhe e veja / se há uma carta, uma carta para mim” (para enamorados, esperar é angústia pura). Com angústia semelhante, “Ninguém escreve ao coronel”, de García Márquez, descreve a vã espera de um militar reformado pela  chegada da carta de pagamento da pensão, entre crises asmáticas da esposa e um galo de briga com que levantava uns trocos nas rinhas.


Frédérik Chopin
(1810-1847), compositor polonês - autor de mazurcas,  noturnos, polonaises e dois concertos para piano - nutria paixão por Aurore Dupin (foto), escritora conhecida como George Sand na velha boemia da Paris que se vestia com terno e chapéu, e fumava charutos como homem. Para Chopin, parecia-lhe um rapaz, e Liszt uma viril amazona. O relacionamento entre Chopin e Sand teve muitos bilhetes e cartas (as que Sand recebia de Chopin eram sumariamente rasgadas). Se ele desconhecia o destino de suas missivas, tanto faz, importava tê-las escrito – vítima da sofreguidão, de um amor platônico que se convertia em sons no coração, e dele para suas obras, hoje repertório de dez entre dez pianistas.


Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
, “O predileto dos deuses”, viajava muito pelas cidades da Europa. Desesperadamente apaixonado por sua amada Constanze, tinha um jeito excêntrico de escrever-lhe cartas: “beijo-te 1.095.473.082 vezes”. Tratava sua cara-metade de forma absolutamente infantil, e se despedia: do teu ‘stu! Knaller-paller. Schnip-schnap-schnur. Schneppeperl-snail – que não quer dizer nada, mas o som lhe agradava como um segredinho entre jovens namorados.


Cartas, no passado
, serviam como declaração de herança e tinham efeito legal, como o Testamento de Heilingenstadt (ilustração), de Beethoven, pródigo em alterações ao ‘calor do momento’, ao sabor de seus desentendimentos familiares; deixou bens e dinheiro como herança, e inseriu em seu inventário a confissão da loucura por que estava passando, incompreendido pelos médicos: além da surdez, uma cruel depressão e a perda do juízo.


Distrito de Whitechapel
, Londres, 1888. Jack, o estripador (the ripper), nunca identificado, enviou carta à imprensa declarando-se o assassino serial, mas, assim como seu nome pode ter sido um blefe, o texto apenas um jogo para disseminar o pânico em Londres. Alcunhado “avental de couro”, aludindo aos açougueiros, tal a crueldade empregada em suas vítimas, todas mulheres, costumava buscar prostitutas do East End londrino para dilacera-las ao seu “estilo”: garganta cortada e abdômen retalhado. Ao oficial de polícia de Whitechapel enviou outra carta (foto), que “traduzo” buscando preservar a condição de semialfabetizado do criminoso: “Do inferno. Mr. Lusk., Sinho eu lhe mando metade do rin priservado eu tirei de uma mulher a outra parte fritei e comi. Estava muito bon. Posso mandar a fac ensanguentada que tirei se o Sr. eperar um pouco. Assinado: pegue-me quando puder, Mishter Lusk” (deixando escapar um possível sotaque escocês).


Getúlio Vargas
, em 23/08/54, iniciou sua carta-testamento apontando “as forças e os interesses contra o povo”, e encerrou-a com pompa e circunstância: “dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história”. Matou-se com um tiro no coração (foto).

(cnj.jus.br)

7/09/21
, dia dos desfiles, da saudação à independência do Brasil. Concentrações de militantes, fanáticos e agregados em diversas cidades do país extrapolaram os limites. Não com ataques físicos, mas com a ocupação da Esplanada, em Brasília, e faixas contra a ordem e o STF. Discursos do presidente da República repetiam o que foi considerado grave ameaça ao estado de direito, pano de fundo para ofensas diretas a ministros do STF. Claro, houve reações negativas tanto por parte dos ofendidos quanto na imprensa; pior ainda, até mesmo por parte de indivíduos que convocaram militantes para a manifestação. O presidente chegara à encruzilhada, seria preciso galgá-la para sobreviver sem um tropeço fatal.

"Verba volant..."

Para tal, chamou Michel Temer
, ex-promotor,  ex-presidente e homem forte no MDB, que lhe propôs uma breve “Declaração à nação”. Temer leu a minuta ao telefone, e sua ida pessoal a Brasília foi condicionada à aceitação da carta pelo presidente. Pois foi, e com verve forense, usou a figura do “calor do momento” como justificativa possível para os excessos presidenciais. Ato contínuo, daqui e dali buscou-se apagar o incêndio, mas o recuo não agradou aos militantes. As palavras se foram (“verba volant...”), mas a imprensa, os vídeos não. Temer pensou que talvez bastasse um aceno, ceder discreta e elegantemente, mas a militância aguerrida estava incendiada.


O ex-ministro tatuiano do STF
, Celso de Mello (UOL, 11/09), lembrou a carta de Hitler para o acordo de paz de Munique na 2ª Guerra, em 1938, rompido quando os alemães invadiram Praga no ano seguinte. A carta do Führer, disse o antigo decano, fora uma farsa.

 (A escrita também “voa”, só os fatos permanecem, talvez)

sábado, 25 de agosto de 2018

ROMÂNTICOS, DAS MALUQUICES À LOUCURA

Aurore Dupin, aliás, George Sand

Frédérik Chopin (1810-1847), virtuose polonês do piano, compôs praticamente apenas para seu próprio instrumento: mazurcas, noturnos e polonaises, dois belos concertos cuja parte orquestral não agrada gregos e troianos e outras obras. A conduta exótica de Chopin gerava interpretações das mais diversas, pois apaixonou-se por Aurore Dupin, escritora mais conhecida como George Sand, que se vestia como homem, terno e chapéu. Sobre ela, o próprio Chopin teria dito que parecia um rapaz – já Liszt a teria descrito como uma viril amazona. O estranho relacionamento surgiu após trocas de bilhetes seguidas de vaivéns de cartas, e as recebidas por Sand em sua maioria rasgadas.
Robert Schumann
Bem mais turbulenta foi a vida do alemão Robert Schumann (1810-1856), que desde cedo despertava a atenção para seus transtornos emocionais e de personalidade. Foi músico, literato e crítico, e pensava em dois autores fictícios, Florestan e Eusébius – o primeiro, sonhador exaltado e louco, o segundo, o introvertido e racional.  Para alguns, sinal de um pé firme na esquizofrenia. Seu lado Florestan apaixonou-se doentiamente por Clara Wieck, filha de seu professor e já uma virtuose nas teclas. Ela tinha apenas doze anos e Robert era passado dos vinte, tiveram de aguardar na Justiça autorização para o casamento. Com Clara já aos vinte e um, finalmente puderam realizar seu enlace. Papai Wieck desistira de um recurso judicial em que alegava que o noivo era um perturbado boêmio.

Pequeno artefato para exercício do dedo  anelar
Robert Schumann tornou-se um dos mais importantes compositores de música vocal (Lieder, canções) e pianística, além de suas quatro sinfonias e outras peças. No desespero de ser um grande virtuose, não se conformava com os movimentos mais limitados dos dedos anelares. Ignorando lições de anatomia, passou a forçá-los no afã de liberta-los do jugo dos tendões. Amarrava os dedos a cordões que passavam por uma alça no teto, tendo na ponta um contrapeso. O abuso daquelas engenhocas por pouco não foi mais trágico, mas encerrou-lhe a desejada carreira de solista. Passou a entregar-se com afinco à composição para o resto da vida.
Local do Reno onde Schumann se atirou às águas
Como líder de orquestra, Schumann também usou invencionices como certo apetrecho, espécie de ‘cinto de segurança’ que não deixava a batuta cair-lhe da mão. Tido como regente fraco, deve ter passado por situações vexatórias à frente de orquestras. Era do tipo que se perdia pelas ruas com facilidade, e volta e meia deixava cair o que carregava, o que só acirrava os ânimos dos maldosos. Nas crises, falava sozinho, dizia que se comunicava com os espíritos e frequentemente caía em desespero. Entregue à doença, jogou-se nas águas do rio Reno, mas foi resgatado contra sua vontade. Em 1854, pediu para ser internado, tão grave era o mal que o afligia, e deu entrada no manicômio de Endenich. Até o alívio que lhe trouxera a morte, Schumann tornou-se imprestável, mal reconhecia a mulher que tanto amou, mas foi justo ela que levou adiante seu nome e obra, executando-a por toda a Europa, partituras embebidas na ideia de que dor e prazer, assim como outros sentimentos antagônicos - coisas de Florestan e Eusébius - estão intimamente ligados.

Caricatura da orquestra de Berlioz por Grandville (1846)
O excêntrico francês Hector Berlioz (1803-1869) também foi, além de compositor de obras grandiosas, crítico e literato, habilidades de escrita frequentes entre seus pares na época. Versátil na partitura e nas letras, costumava receber para longos bate-papos a nata dos melhores artistas da época: Mendelssohn, Chopin, Paganini e Liszt, além de escritores como Victor Hugo, o que dá uma ideia da riqueza de suas tertúlias e saraus. Habituou-se a compor sobre formas complexas, que orquestrava de maneira exacerbada, a exemplo do seu Réquiem, escrito para um conjunto de quatro orquestras, que tentara vender para várias famílias de defuntos. Um crítico disse que Berlioz tinha mania de compor para 500 músicos, e levou uma ironia como resposta: nem sempre, às vezes me contento com 450. A bem da verdade, grandes números não foram invenção dele, já que em 1628 Orazio Benevoli já havia escrito uma missa para cinco orquestras, dois coros duplos, contínuo e solistas.
Greve de músicos da Sinfônica de Detroit (EUA)
Na Sinfonia Fantástica, Berlioz se inspira em um músico que, perturbado pelo desespero de uma decepção amorosa, envenena-se com ópio. Como a dose foi insuficiente, o candidato a suicida não logrou seu intento, mas o efeito do narcótico passou a atormenta-lo com visões - como a da amada que se transubstanciava em divina melodia. Para traduzir suas ideias em música, o instrumento de Berlioz sempre foi a orquestra. Pouco arranhava o violão, às vezes tentava os tímpanos, sem que tenha chegado a tocar ‘a vera’ qualquer um deles. Foi um grande artista na música e na vida: enlouquecido pela noiva que o abandonou por outro pretendente, tal qual o personagem de sua própria Fantástica, Berlioz planejou disfarçar-se de criado para assassinar o rival. Dono de um gênio extravagante, o compositor tinha frequentes problemas, em especial com os músicos: durante uma apresentação da Fantástica, parte da orquestra parou à meia-noite - os músicos franceses sempre foram militantes incansáveis, e em respeito às novas determinações das guildas passaram a empacotar seus instrumentos e sair. Berlioz ignorou-os e prosseguiu com pompa arrogante e triunfal, embora tenha concluído o concerto com apenas uma parte do conjunto. A apresentação terminou em um rotundo fracasso por causa dos rebeldes paredistas. E nem havia central sindical naquela época!