LIVROS

LIVROS
CLIQUE SOBRE UMA DAS IMAGENS ACIMA PARA ADQUIRIR O DICIONÁRIO DIRETAMENTE DA EDITORA. AVALIAÇÃO GOOGLE BOOKS: *****
Mostrando postagens com marcador George Floyd. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador George Floyd. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 2 de junho de 2023

VENI, VIDI, VICI

 


D
o latim clássico, a frase teria sido proferida por Júlio César ao fim da batalha de Zela, em 47 a.C., como uma mensagem do Imperador ao Senado de Roma para festejar a vitória. Em português, “Vim, vi, venci”. A frase tornou-se famosa a ponto de ressurgir em outros momentos da história, com algumas variações - ao fim da Batalha de Viena, no século XVII, João III, rei da Polônia, teria bradado Venimus, vidimus, dio vicit: “Viemos, vimos, Deus venceu”. Do nome italiano Vinicius, dim. de vinius, vinnilus – “que tem voz agradável” - surgiu também Vinício, popular entre nós.


V
inícius José Paixão de Oliveira Júnior, nome que por necessidade de espaço foi ‘encolhido’ para Vini Jr., nasceu pobre em São Gonçalo, RJ, em 12/07/2000. É um rapaz de 23 anos incompletos que aos 16 entrou para a história, vendido pelo Flamengo carioca para o Real Madrid por 45 milhões de euros – R$ 240 mi, a segunda maior soma jamais paga por um jogador brasileiro, ficando atrás apenas de Neymar. Jovem, bamba e já dono de uma pequena fortuna, Vini só poderia esperar sucesso e desfrutar dos louros da fama. Novo, forte, artilheiro temido nos campos, Vini teve construída de repente ao seu redor outro tipo de barreira, uma muralha, digamos, de racismo, inveja, xenofobia, sentimentos que têm sido cultivados mundo afora em ciclos históricos, germinados com racismo e despeito e de mãos dadas com a inveja. Um garoto virtuoso a bordo do sucesso e da glória provocou o que há de pior, como Caim contra seu irmão Abel: o ódio, que além de envolver tudo isso pode muito mais.


E
m Valencia, Espanha, os sonhos de Vini tornaram-se agora enormes pesadelos. Há as inevitáveis comparações entre o racismo espanhol e o “estrutural” brasileiro, coisa sem sentido, já que em todos os lugares do mundo o preconceito está presente em suas diversas formas. Neste momento, muitos já culpam a vilania espanhola na questão do preconceito racial, pois estamos em um momento em que o ódio explode aos gritos de “morra, Vini!” em pleno jogo, arrancando lágrimas de muitos – e do próprio jogador em campo. Para “salvá-lo” da histeria dizem que o melhor seria ele deixar o Valencia, LaLiga, a Espanha, supostamente para proteger-se da turba ensandecida teleguiada por líderes mais radicais. Durante quase 40 anos, a ditadura espanhola de Franco, ao lado das de Mussolini, na Itália, Hitler, na Alemanha, e Salazar, em Portugal, foi radical exemplo de ódio e racismo. Talvez sobra do veneno dos monstros do Guernica, de Picasso, genial pintor espanhol.

Guernica, de Pablo Picasso


Júlio Gomes, do UOL (23/05), acha que um país que recebera Vini tão bem não teria o germe do ódio despertado assim sem mais. E muitos teriam visto um começo: setembro de 2022, em um programa de TV, “desses de baixo nível, como temos vários aqui”: “um idiota racista fala no ar que o jogador precisava respeitar os rivais, parar com as dancinhas após fazer gols e deixar de ‘fazer macaquices’”. Naquela mesma semana, torcedores do Atlético de Madri, do lado de fora do estádio, imitavam macacos; faixas com mensagens hostis engrossaram o caldo do ódio, bonecos com o uniforme do Vini foram pendurados em uma ponte, e outro surgiu qual em uma forca, simbolizando uma ação ainda mais cruel.

CAE Senado

N
o Brasil, em discurso infeliz, um senador da República, Magno Malta (PL-ES), criticou a repercussão do assunto na imprensa durante a reunião da CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) do dia 23/05: “Cadê os defensores da causa animal que não defendem o macaco?” E que tudo seria uma “revitimização” de Vini Jr. Qual o limite da imunidade parlamentar no Brasil? Um homem que se diz fundamentalista religioso, pastor evangélico e cantor? (Aliás, esta última “qualidade” não conhecia. Ele estava, sabe-se lá o porquê, em uma reunião da Frente Parlamentar pela Inclusão da Música no Ensino Escolar, de que cuja mesa de debates participei na Alesp há uns 20 anos. Por ser “cantor”? Não que eu saiba).

Javier Tebas, do LaLiga

A
pós esses episódios e suas repercussões, natural que as posições se exacerbassem. A extrema direita no mundo traz de carona a xenofobia e o racismo, e o partido de extrema direita espanhol – hoje todos temos os ‘nossos’ – chama-se VOX (do latim ‘voz’). Javier Tebas, presidente da LaLiga, notório racista e militante, ouviu de Vini “quero ações e punições, hashtag não me comove” (O Globo, 22/05, Esportes). Cabe a nós todos lutarmos juntos contra o ódio racial: os piores momentos da história o tiveram como combustível da raiva a movê-los. Segundo o IBGE, 55,8% da população brasileira é considerada negra. É verdade que a porcentagem de apresentadores de TV, jornalistas, professores universitários e economistas de pele escura e preta cresceu também, logo, sábio será lutar pela inclusão e combatermos juntos toda e qualquer discriminação.

Pelada de rua em S. Gonçalo

O
menino Vinicius, de São Gonçalo, pode jogar em qualquer país do mundo, mas isso não deveria engrossar as fileiras dos que o querem longe da Espanha, “para protegê-lo”.  Vini deve ter a mesma liberdade e autonomia de qualquer craque, já que talento lhe sobra. E o mundo tem a chance de aprender com ele, pois já há quem o eleja como um segundo marco na luta contra o racismo neste século, após George Floyd, assassinado por policiais em Minneapolis, EUA, sob sufocantes I can’t breathe (eu não posso respirar) seguidos.

Ao ouvir o nome de Vini pela primeira vez, lembrei-me daquela frase de Júlio César em 47 a.C. Hoje, não por acaso, dei título a este artigo em homenagem a ele, Vini. E que brade para todos: Vim, vi, venci.

 

quinta-feira, 11 de junho de 2020

TEMPOS DE GEORGE FLOYD: MULTIDÕES IGNORAM




O ISOLAMENTO SOCIAL 
E AS BARREIRAS DA POLÍCIA
Em 25 de maio, George Floyd, um negro de Minneapolis com dois metros de altura e aficionado pelo basquete, foi alvo de uma das mais cruéis ações policiais dos últimos tempos nos Estados Unidos. Hoje nome conhecido e evocado no mundo inteiro, Floyd teve o pescoço esmagado contra o asfalto pelo joelho de um policial branco, Chauvin (nome de onde vem chauvinista, que estranha coincidência!). Foram nove longos minutos assistidos pelas TVs do mundo inteiro, o moribundo sussurrando uma frase que se tornaria lema de protestos: I can’t breathe! (“Não posso respirar!”). Outros policiais observavam, cúmplices de sádica tortura e premeditado assassinato.
Floyd tornou-se ícone de um novo movimento e palavra de ordem na luta de milhões de manifestantes pelo mundo. Nos EUA, chamou a atenção o grande número de jovens brancos que participarem dos protestos - um fenômeno, nas proporções em que aconteceu, se comparadas a manifestações anteriores. Houve alguns absurdos vandalismos, por radicais surgidos de uma ebulição estancada, mas os riots foram pacíficos.
Ébano e marfim
Há um diferencial neste que foi mais um dos incontáveis assassinatos raciais pela polícia americana em décadas: uma amiga escritora bem lembrou a música Ebony and Ivory, “ébano e marfim”, de Paul McCartney: (negros e brancos) “que vivem juntos em perfeita harmonia”. Ébano e marfim, dois dos materiais usados nos talões dos melhores violinos: peça que retesa a crina e serve para o instrumentista manobrar a vareta, superando as mais intricadas passagens e suaves nuanças – em alusão poética).
Há também uma particularidade nessa amálgama de ébano e marfim a fazê-la tão especial; outra amiga, ex-jornalista da Veja, trouxe luz à questão. Na manifestação contra a violência de policiais brancos, todos estavam unidos, civilização contra a barbárie, tendo como bandeira de luta um crime racial cujos ecos repercutiram em protestos pelo mundo e até no Brasil. Racismo é muito mais do que ofender e humilhar negros, latinos e muçulmanos, é preteri-los nos empregos e oportunidades, é tratá-los como seres diferentes (daí o black lives matter, “vidas negras importam”).
Martin Luther King, Jr.
Não ouvi o canto lamentoso we shall overcome someday (“nós conquistaremos, um dia”) das marchas de um dos maiores líderes e oradores da história, Martin Luther King Jr., o homem do grande discurso I had a dream, “eu tive um sonho”. O ódio racial, fruto do segregacionismo americano e de tantos países, ressurge mais forte em razão da atual conjuntura política - o fascismo populista que toma corpo tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Racismo e fascismo, qual xifópagos unidos por um elo forjado em aço, é liga que deve ser rompida e ambos eliminados já, a qualquer custo.
Inegável que o acúmulo de tensões do isolamento social desses meses elevou a temperatura emocional ao vermelho nos EUA, cujo povo sofre com o avanço recorde da Covid-19. Multidões revoltadas, energias represadas até o limite, cortaram amarras em mais de 400 cidades em 50 dos estados americanos, furaram o cerco de quarentenas, barricadas, policiais armados e toques de recolher. E, mesmo após quase duas semanas, no dia 6, mais de um milhão marcharam pelo país.
Ku-Klux-Klan
O presidente americano vê trincar a maioria que o levaria de volta à Casa Branca, a única coisa que parece importar além de uma prepotente e inepta liderança. Com America First, ofende outras nações, eivado de radicalismos xenofóbicos e preconceituosos sob a égide da extrema direita, até da medievalesca Ku-Klux-Klan. Em busca de bodes expiatórios, Trump conclamou os governadores de seu país a combaterem com energia as manifestações.
Zumbi
Enquanto isso, o que acontecia no Brasil? Sergio Camargo, negro – necessário frisar -, nomeado presidente da Fundação Cultural Palmares, foi exonerado por uma ordem da Justiça, depois revogada. Novamente entronizado no cargo, o pivô da saída de Regina Duarte expressa-se não titular de um cargo, e menos ainda como um negro que dirige uma fundação que honra Zumbi dos Palmares, um quilombola assassinado no século 17. Camargo tornou-se porta-voz negro da direita branca radical e contumaz nos ataques aos seus irmãos de cor.
(Katiadoolodum)
Em tom racista, julgando-se escudado pela cor da própria pele, agrediu: “Zumbi era um filho da puta que escravizava pretos”, “o movimento negro é escória maldita”, enquanto no mundo George Floyd se tornava símbolo da luta pela igualdade de direitos. A uma mãe de santo, parte da rica cultura afro-brasileira, Camargo referiu-se jocosamente como “macumbeira”, e que “macumbeiro não terá um centavo da autarquia” frases amplamente noticiadas pela imprensa - como se o erário público fosse de seu bolso e a seu absurdo critério.  
Sergio Camargo (horadopovo.com.br)
Andreia Sadi, da Globonews, disse na TV: “Sergio Camargo está no governo a despeito de suas falas. No momento em que o mundo se levanta contra o racismo, manter Camargo no cargo é avalizar suas declarações como política de governo”.
Juracy e Castelo
Juracy Magalhães, general-embaixador do Brasil nos EUA de Castelo Branco e Costa e Silva, proferiu uma frase-símbolo, desnudando a subserviência do Brasil de então: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Hoje, vivemos uma caricatura do modelo Trump, apesar de a nação americana ser amiga e não culpada como um todo pelos crimes raciais: há tantas coisas que poderiam nos servir de exemplo! Como, agora, a opção pela civilidade contra a barbárie e um racismo endêmico e belicoso.
George Floyd foi enterrado no dia 9 de julho de 2020.
***
3º programa em meu canal do Youtube: