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Mostrando postagens com marcador Helen Keller Caruso. Mostrar todas as postagens
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sábado, 15 de fevereiro de 2020

QUANDO INICIAR UMA CRIANÇA NA MÚSICA?

Câmara à prova de sons externos
Em princípio, até mesmo antes de ela nascer. Mas como, alguém perguntaria. Experimentos mostram que, ao ser colocado em uma câmara com máxima vedação acústica, o indivíduo escuta dois tipos de sons: um é bem agudo, de seu próprio sistema nervoso (o “tinnitus”, som interno agudíssimo, quase sempre acompanha pessoas com perda auditiva). Os outros sons são graves: respiração, batimentos cardíacos e fluxo sanguíneo, uma espécie de sinfonia aleatória. Quando o feto estiver plenamente consolidado, são esses os sons que o futuro bebê passará a ouvir no saco amniótico. Bem antes de enxergar (quando vier “à luz”), ele já ouve e sente vibrações sonoras. Um ambiente musical, a proximidade entre o ventre materno e uma fonte sonora, tudo será vital para essa iniciação. Isso, sem falar que a música é um perfeito ansiolítico natural para a futura mamãe. (Diz Daniel J. Levitin, em seu This is your brian on music": o feto escuta música, como foi descoberto por Alexandra LaMont, da Universidade de Keele, Reino Unido.  Ela descobriu que crianças reconhecem e preferem as músicas a que elas foram expostas  na gestação um ano depois de nascerem".  London,  Penguin Books, 2019)

Gestante iniciando seu bebê na música
É claro que essa introdução deve ser começar com músicas suaves, talvez renascentistas, ou um cravo barroco - e não, claro, um heavy metal ou uma orquestra com impactos fortes de volume. Mas quando, exatamente, o feto pode começar a ouvir música? Segundo estudo supervisionado pela Dra. Debra Sullivan (PHD, Kansas Medical Center) publicado na revista americana Healthline, um feto começa a perceber sons na 18ª semana, e entre a 25ª e 26ª, por volta de sete meses de vida, ele passa a reagir a sons e ruídos. Provavelmente este é o momento ideal para a introdução da música na vida do bebê. Minha filha mais velha passou pela experiência por volta desse ponto da gestação, inclusive com headphones tocando músicas na barriga da mãe. Vem o nascimento, e o bebê já no quarto reage a um pequeno aparelho de som tocando Mozart e Bach muito suavemente, a música já não lhe era novidade. A luz, com certeza, sim.
Um parto Leboyer
Baseando-se na ideia dos sons internos da barriga da mãe e seus efeitos no feto e ao nascer, e partindo das pesquisas do obstetra francês Leboyer, autor de Pour une naissance sans violence  (traduzido aqui como “Nascer sorrindo”), cientistas aperfeiçoaram um método ideal, segundo eles. Além do nascimento dentro de uma banheira com água quente, quase na penumbra, conforme preconizado pelo francês, foi incluído um acolhedor som grave que lembraria ao bebê os misteriosos sons que ele ouvia na placenta, suavizando o choque da passagem para o mundo exterior.
Pesquisa realizada em berçário neonatal do Canadá separou os bebês em três grupos: um ouvia música rudimentar, bem simples, o segundo melodias mais elaboradas, como Mozart, e o terceiro era um grupo placebo, não ouvia música. Ao levarem os três grupos para um berçário sonoro, o de músicas básicas ficava meio apático, talvez menos com o repertório mais simples. A “turma placebo” era indiferente, mas a que ouviu Mozart reagia bastante ao compositor, preterindo o repertório básico ou o silêncio.
Pouco tempo depois a criança já fica deitada no chão com aqueles sininhos e chocalhos pendurados, tudo o que pode torná-la feliz, produzindo os próprios sons. O estímulo é sempre fundamental: música de fundo, a voz de mamãe e papai, um violão ou outro instrumento, se eles souberem tocar.  Cantando sempre no mesmo tom, os pais vão se surpreender com a criança começando a repetir um ou dois sons da música, depois uma linha inteira, uma estrofe. E vão pasmar ao ver que ela é capaz de fixar a tonalidade de cada música, uma espécie de ouvido absoluto espontâneo. Coisas como a “Lullaby” de Brahms (ouça abaixo), “Brilha, brilha”, ao som de Mozart, “Terezinha de Jesus”, sempre nas tonalidades corretas. Detalhe: tudo isso antes de o bebê balbuciar palavras.

Tommy e seu bongô
Quando ele conseguir ficar sentado, percussão é bom atrativo. Objetos de casa tornam-se mirlitons, instrumentos fáceis, como colher de pau, latinhas, tudo o que possa produzir sons. Com um ou dois anos, o bebê pode se interessar por instrumentos. Concertos de orquestra, choro, boa música, enfim, em bons ambientes. Do meu lado um tanto behaviorista, ligo o comportamento ao meio em que se cresceu.  Se a criança for levada a ouvir o pior, o mais barulhento, é nesse meio que sua mente será desenvolvida, e ela sofrerá reflexos de uma convivência nem tão boa quanto se desejaria. A melhor música no melhor ambiente conforta, faz uma criança saudável (nada de auditórios caros, há muitas possibilidades baratas e gratuitas). Isso é educá-la para crescer feliz desenvolvendo o potencial da mente.
Hora do contato com os primeiros instrumentos. Importante que ela mesma experimente um daqueles xilofonezinhos, uma flauta doce, brinquedos que alguma hora podem ser trocados por instrumentos com alguma qualidade. E depois um pequeno violão, quem sabe um violino?
Caruso e Helen Kellerf
Entra em campo o professor de música. As aulas de início podem ser em grupo, um poderoso meio de socialização e percepção do indivíduo no coletivo, com regras próprias e participação comum. E nunca esquecer o canto! Os que infelizmente nasceram mudos podem tocar, e os cegos desenvolvem a audição em níveis bem acima da média. Surdos podem “ouvir” pela vibração (o fenômeno Helen Keller - cega, surda e muda - gostava de “ouvir” música com os dedos. Um dia levaram-na ao grande tenor Caruso, mito da ópera, e Keller, ao colocar o indicador nos lábios dele abriu um sorriso especial, soava-lhe tão bem! Aos que têm deficiências físicas, nada impede tocar ou cantar. Assim criaremos não necessariamente musicistas, mas com certeza adultos inteligentes e sensíveis.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

MÚSICA E SURDEZ


Foi padecendo da perda daquilo que lhe era mais caro que Ludwig Van Beethoven compôs, já em quase oclusão dos ouvidos, alguns dos seus melhores quartetos de cordas, sui generis e abstratos. Se soam modernos para a época, pura consequência do que lhe ocorria na mente. Ludwig passou a usar artefatos e espécies de cornetas de diversos tamanhos, no desespero de ouvir seu arredor. Fez encomendas especiais ao construtor e inventor Maelzel, o mesmo que criara o metrônomo, aquela pequena pirâmide cujo pêndulo oscila de um lado para o outro, alternadamente, para marcar o tempo.
Em 1812, já assinava cartas de modo inusitado: ‘de seu fidelíssimo amigo surdo’. Notas, acordes e frases de seu ouvido interno passaram a lhe atordoar, mas deixavam-no mais livre ante as normas rígidas do classicismo, dos invejosos e da crítica. À parte a surdez que torturava seu espírito, a fama lhe era perversa, não sabia lidar com ela. Na primeira audição de sua nona sinfonia, talvez a mais importante obra sinfônica de todos os tempos, Ludwig, já totalmente surdo, após encerrado o último acorde demorou a voltar-se para a plateia. Tinha medo de vaias e um fracasso tremendo, mas ao virar-se para o público só viu aplausos efusivos.
Helen Keller ouve Caruso
Se é possível um surdo criar música, que dirá dos que querem curtir lindas melodias? Helen Keller (1880-1968), ativista cega, surda e muda formada em Radcliffe (EUA), bem o mostrou. Sentia vibrações, e delas fazia o seu ouvido pessoal. ‘Ouvia’ cantores a seu modo, e do seu jeito manifestava sua opinião com sorrisos.
Apresentaram-na ao mito Caruso, o tenor maior, e este pôs-se a cantar-lhe uma ária. Com os dedos tocando os lábios do tenor, sorria como se comentasse cada frase. Assim, seu ouvido interno sentia pelo tato sons de beleza tão grande que a inebriavam.
Beethoven: máscara mortuária
Mas a surdez de Beethoven não era como a de Keller, nascida sem os principais sentidos. A vida do compositor parece ter sido melancólica, suas feições marcadas pelo sofrimento. Os retratos feitos pelos bons artistas destoam daquele vulgarizado, longos cabelos cuidadosamente revoltos como um modelo de passarela, a exemplo dos pequenos bustos comuns de se ver encimando pianos domésticos. Vi a máscara mortuária dele, e não era o rosto de um boa-pinta, consoante os retratos romantizados, só retratavam sofrimento e amargor. 
John Kamitsuka
Apesar da aparência malcuidada e desleixo, o gênio de Bonn parecia agradar os corações das mulheres. Seria a compaixão feminina pelo sofrimento dele um charme a mais? As investidas amorosas de Ludwig eram discretas, volta e meia sobre suas alunas. (O pianista John Kamitsuka lembra que o piano a quatro mãos, tocado por duas pessoas sentadas lado a lado no mesmo instrumento, foi criado tanto para facultar a audição doméstica de peças como sinfonias - já que não havia meios de registra-las em discos e afins - quanto para aproximar o professor de suas pupilas).
Condessa Giulietta Guicciardi
Levando adiante as simpatias femininas de Beethoven, as discussões intermináveis sobre quem teria sido a ‘amada imortal’ do compositor, já especularam que talvez a cunhada Johanna, como quer a ilação do cineasta Bernard Rose. Quem sabe Teresa de Brunswik ou a condessa Giulietta Guicciardi, ambas suas alunas? Em algumas cartas para sua misteriosa amada, Beethoven refere-se a um lugar chamado ‘K’. Seria referência ao balneário de Karlsbad? Ou Korompa, onde a família Brunswik teria propriedade? Bernard Rose (de Immortal Beloved) perdeu a oportunidade de fazer um filme interativo, em que os espectadores escolhem a resposta, versão a ser apresentada no final.
Helen Keller: laureada
Entre Beethoven e Keller, contrastam duas formas de se conviver com a surdez. Enquanto o primeiro se deixava levar pelos malefícios da perda de audição e problemas mentais, a segunda superou os obstáculos à ausência de três dos sentidos, escalou graus acadêmicos e alcançou notoriedade com seus estudos sobre o socialismo.
Em Beethoven, a surdez fora progressiva, em Keller de nascença. A do primeiro pode ter sido consequência de alguma outra moléstia ou a convivência com o epicentro da orquestra em alto volume, a PAIR (Perda Auditiva por Indução de Ruído). Esta, irreversível, pode acometer músicos e plateias - vide o caso de shows de rock, funk e outros, em volume pornográfico. Sirva isso de alerta para um exemplo cotidiano: a poluição sonora e o absurdo volume dos sons automotivos. Matam aos poucos nossos ouvidos.
Nos EUA: proteção auditiva exigida acima de 85 dB
Que ninguém amaldiçoe, buscando vingança, os donos dessas máquinas de fazer doido, pensando que logo terão uma perda auditiva, porque aos poucos elevarão o volume para continuarem ouvindo alto, daí mais surdez, e tome mais volume e assim vai, círculo vicioso até a perda total ou quase. Os cidadãos que se resignem a compartilhar à revelia a doença deles! Poluição sonora não é 'frescura de ambientalista', ela é cruel e selvagem. O limite de ruído para os humanos é de 90 dB (decibel, medida de volume) por 8 horas, segundo o Departamento de Trabalho dos EUA, mas um acréscimo de apenas 5 dB reduz esse tempo máximo de resistência para a metade da jornada, quatro horas. A 100 dB, o dano começa em 15 minutos, e a 112 dB, apenas um minuto. A 140 dB, a perda neurossensorial tem início imediatamente. Para se ter uma ideia, um escritório fechado, em silêncio e sem condicionador de ar ligado, registra entre 40 e 60 dB de ruído local externo ou vizinho (existem apps gratuitos para a medição em celulares, são os decibelímetros ou sound meters).
O guitarrista Mark Goffney, nascido sem os braços
É possível deficientes físicos, surdos, cegos ou mudos tocarem algum instrumento, cantarem? Sim, claro, observadas as condições de cada caso, a escolha e objetivos ao fazê-lo. Novas tecnologias ajudam, como os metrônomos com luz piscante para surdos. Esses ‘ouvem’ a música no seu instrumento, pela vibração em seu corpo ou ainda pelo chão.
A música, além de confortar os que perderam ou nasceram sem algum dos sentidos ou movimentos do corpo, é alimento do espírito e recompensa da vida.