LIVROS

LIVROS
CLIQUE SOBRE UMA DAS IMAGENS ACIMA PARA ADQUIRIR O DICIONÁRIO DIRETAMENTE DA EDITORA. AVALIAÇÃO GOOGLE BOOKS: *****
Mostrando postagens com marcador Julinho adelaide. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Julinho adelaide. Mostrar todas as postagens

sábado, 14 de abril de 2018

A VOLTA DO BOÊMIO

Roda-viva

Lembro-me dos primeiros versos de uma música do Adelino Moreira cujo título acima tomei emprestado: “boemia, aqui me tens de regresso”. Ao assunto: quando famoso, o músico popular é vítima da sanha impiedosa de seus fãs, de que é exemplo aquela matilha ensandecida a devorá-lo, retratada por Chico Buarque na peça Roda Viva. A privacidade passa a ser mera figura de linguagem: artista famoso é patrimônio e objeto da volúpia coletiva. Sua saúde a todos pertence, suas preferências são divulgadas e imitadas – ou condenadas.
Como no Brasil ditaduras acontecem em períodos cíclicos, gente como Chico Buarque foi alvo de perseguição na última delas, o último regime de exceção, quando o cerco ao compositor era tão implacável que ele teve de gravar com o pseudônimo ‘Julinho da Adelaide’. O povo criava e inventava. Com Milton Nascimento, Chico compôs Cálice: “Pai, afasta de mim esse cálice” (‘cale-se’). Empregava sem parcimônia o duplo sentido e os jogos subliminares, a exemplo também do famoso Apesar de Você, samba que dava a impressão de ser dedicado a uma mulher. Vazou, ‘sem querer, querendo’, que era endereçado ao então todo-poderoso Médici. Censuraram no ato.
Amália, Geisel e Lucy
Naquela época, o cineasta e poeta Ruy Guerra escreveu para o Milton uma letra que dizia “brota em guerra e maravilha”, que esmaecia no final - “na hora, dia e futuro da espera virar...” e os mais radicais da plateia completavam com “guerrilha!”, fazendo sua rima. Outro déspota, Geisel, detestava o Chico - foi a deixa para o compositor inventar um roquezinho bem brega, dois acordes e apenas dois versos: “você não gosta de mim / mas sua filha gosta”, já que Amália Geisel havia declarado que era fã das músicas dele. Assim eram os tempos em que se sobrevivia fazendo música. Sobrevivia: conjugação vestida como uma luva.
Chico costumava secar, com os amigos Vinicius e Jobim, pelo menos uma garrafa de uísque com facilidade. O Poetinha, apelido de Vinicius de Moraes, já devia estar meio alto, e em certa roda de amigos em um bar disse, “o uísque é o melhor amigo do homem”. Foi corrigido por um conviva provavelmente sóbrio: é o cão, Vinicius, o cão é que é o melhor amigo do homem! O Poetinha, certeiro, devolveu-lhe com sua aguçada ironia: então o uísque é o cão engarrafado - frase logo celebrizada.
Véspera da estreia da peça Gota D’Água, do Chico Buarque e Paulo Pontes. Ficou difícil para nós, artistas, vermos coerência entre o discurso e a prática do compositor. Os bailarinos ganhavam menos do que um salário mínimo por até, às vezes, doze horas de ensaios diários. Nós, instrumentistas, nos rebelamos contra o descumprimento de acertos verbais e o despotismo dos irmãos produtores. Uma breve paralisação dos músicos, que já haviam decorado e sumido com as partituras, recompôs acordos e acordes e reverteu minha demissão. E eu, na tentativa de dialogar com o Chico, havia exposto o caso e nossas exigências onde o encontrei: um bar logo ali fora do Teatro Teresa Raquel, a tomar seu uísque. Ele disse que aquilo era assunto da produção, ele era apenas o autor – o problema não é meu, ficou claro. Patético. Uma ducha de água fria.
Noel Rosa e Adoniran Barbosa
Bom de samba e de copo, inspirador do Chico, o Noel Rosa de Feitiço da Vila, Conversa de Botequim e Com Que Roupa, foi flagrado em um boteco da velha Lapa carioca tomando cerveja e conhaque. Alguém passou e o repreendeu, dizendo-o irresponsável, pois sabia que Noel convalescera de uma tuberculose. O compositor riu e respondeu que seu médico o proibira terminantemente de beber, mas caso a teimosia fosse tanta, que ao menos bebesse pouco e bem alimentado. Noel disse que saiu para tomar um conhaque, e “já que se sabe que cerveja alimenta...”
O sambista quase não tinha queixo – as más línguas diziam que era para os goles descerem mais rápido –, suposta manobra de um fórceps barbeiro durante o parto, e foi flagrado em um boteco logo após o enterro de sua mãe. À vontade, camisa colorida, dedicava-se ao seu esporte predileto, o halterocopismo, levantamento de copo. Alguém disse que aquilo era um absurdo, ele deveria estar recolhido em luto. O sambista improvisou: “luto preto é vaidade / neste turbilhão de dor / o meu luto é a saudade / e saudade não tem cor”.
Madame Satã
Outro bom de samba, Geraldo Pereira, autor de Falsa Baiana e Acertei no Milhar, foi frequentador assíduo dos muquifos e bordéis da Lapa carioca e cercanias. Adepto da chamada “mardita”, brigava quase sempre depois de mamado - jargão da malandragem – e com quem estivesse na frente, fosse homem, mulher ou travesti. Em consequência de uma dessas querelas, Geraldo foi assassinado, em 1955, por um violento murro no fígado desferido pelo lendário Madame Satã, folclórico pederasta do bas-fond carioca. Com Satã ninguém mexia, ele devia ser o próprio demo encarnado.

Como Noel e Geraldo, Nelson Cavaquinho raramente se afastava de um copo. No final da gravação de Pranto de Poeta, do Cartola, autor dos lindos versos “em Mangueira quando morre / um poeta todos choram”, promoveu-se no final da música um afago entre os dois sambistas: Cartola disse obrigado, Nelson, ao que este respondeu “ovligado, Gardola”. Na segunda tentativa melhorou, mas ficou no disco, voz arrastada. Nascido muito pobre, Nelson construía toscos instrumentos com caixas de charutos, fazendo de arames as cordas. Mais tarde, quando teve seu primeiro violão ‘de loja’, usava afinação  mais baixa, não se conformava com a tensão das cordas e  sonoridade, estridente para ele. Afinal, estava acostumado à caixa de charutos e aquele som fanhoso dos arames frouxos, roucos como a voz dele!
Um instrumento de caixa de charutos, de três cordas, bem mais sofisticado, com os "cortes em 'F'" dos violinos 


sábado, 22 de julho de 2017

CRIMINALIZANDO O FUNK – PARTE I

Escrito a partir do meu artigo para a Veja de 13 de julho

Minha posição sobre o projeto que ora corre no Senado Federal (SUG n° 17/2017), que pretende a criminalização do Funk, corre fora do escopo de qualquer credo ou ideologia; é técnica, e dentro do contexto social, como convém a um estudioso da música. A “Sugestão” foi feita pelo paulista Marcelo Alonso, ‘que ninguém sabe quem seja’, talvez candidato a candidato. Só que o cidadão arrastou 22 mil assinaturas de apoio – o suficiente para colocar a “SUG” em pauta na Comissão de Direitos Humanos do Senado. Alonso considera o gênero musical “um crime de saúde pública desta ‘falsa cultura’ denominada ‘funk’” (sic). Acusa ainda os bailes funk de “recrutar redes sociais” (...) “para atender criminosos, estupradores e crime contra a criança e o menor adolescente” (...) “uso de drogas, agenciamento, orgias e exploração sexual, estupro, pornografia, pedofilia, arruaça, sequestro, roubo e etc.” - sem explicar o que vem a ser esse “etc.”
O Senador Romário
A reação que mais repercutiu veio da cantora Anitta, hoje em franca ascensão internacional, e dirigida aos seus perto de 5 milhões de seguidores no Twitter. Ela convida “os 22 mil desinformados” que assinaram a petição a conhecerem melhor o seu país. Afirma que o funk é gerador de trabalho e renda, e pede que antes de tudo invistam em Educação. Pondera que se o conteúdo das letras não agrada, é por causa da vida nas periferias, os jovens “cresceram vendo e vivendo aquilo que cantam” – pois há dificuldade de acesso das classes mais pobres a outros assuntos, e que se tivessem tido a oportunidade hoje poderiam estar cantando sobre outras coisas. A cantora também critica a precariedade da saúde pública, além de desafiar se “quem decide nosso futuro fosse obrigado a frequentar uma escola pública sem cursinho particular”. O relator da proposta será o senador Romário, que se diz “carioca e funkeiro”, e é um dos mais assíduos e elogiados representantes do Legislativo. Tenho certeza de que o parecer do ex-jogador será contundente e certeiro. Como seus gols.

Todo brasileiro deveria conhecer, ao menos por alto, a Constituição da República. Nos EUA, é matéria da escola. Um dos pilares de nossa Carta Magna é o direito à livre manifestação. Mais ainda, a Lei Maior é de absoluta clareza especificamente no caso do respeito às manifestações artísticas, frontalmente atingidas pela proposta de criminalização de um gênero, em golpe que se pretende mortal.
Julius Cæsare
Não sou linguista ou historiador, mas por dever de ofício frequentemente a música me lança além da fronteira dos sons. Cabe, por causa disso mesmo, uma breve digressão sobre a censura, cuja origem é a mesma de cesura, que em música se traduz como um ‘corte’ em uma melodia: é o ato de suspender, interromper. Igualmente, ela passa por César (lat.: cæsare, de onde cirurgia ‘cesariana’). A censura é cirurgia dolorosa, e quem passou por ela sabe o que é.

Hitler e Goebbels
O Brasil sobreviveu aos enormes prejuízos de diversos períodos de censura aguerrida, a exemplo do Estado Novo, com seu DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), sob o comando de Lourival Fontes, à semelhança do Goebbels de Hitler. Também foi o caso do regime de exceção que chegou ao ápice a partir de 1968, com o AI-5. A censura atingiu os intelectuais, escritores, professores, artistas e a imprensa. No período mais negro do regime a espada rondava os artistas, as faculdades, escolas, festivais, e se instalava nas redações dos jornais. Chico Buarque cansou-se de submeter suas músicas ao crivo dos censores, elas passaram a ser invariavelmente proibidas. Chegou a adotar o pseudônimo de Julinho da Adelaide, e com ele conseguiu ver liberadas pérolas como “Acorda, amor / eu tive um pesadelo agora / sonhei que tinha gente lá fora / batendo no portão, que aflição / era a ‘dura’, numa muito escura viatura...”
Ouça e veja "Acorda, amor", com Chico

Stalin em um exemplo perfeito de "realismo socialista"
Na União Soviética de Stalin (1922-1953) imperou o chamado realismo socialista bolchevique, sob o comando de Jdanov, fiel escudeiro e censor-mor do regime. Não buscavam apenas coibir ‘vícios burgueses’, queriam obrigar todo artista a escrever, compor ou pintar sob a ótica militarista, propagandeando os soviéticos e suas ‘maravilhas’. O regime obrigou compositores a reverem sua estética, período em que a qualidade da produção musical decaiu acentuadamente. As pinturas tinham jeito de fotografias, já que elas, como arte, não serviam à revolução (leia-se: o poder do Estado).

Volonté, como o Chefe de Polícia
O que ajuda a manter um regime ou, nesse caso do funk, um ‘pensamento de exceção’, é a censura da liberdade de que têm medo e não apraz aos falsos profetas por alguma razão obscurantista. Em um filme de Elio Petri (1970), “Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita”, o Chefe de Polícia italiano reúne seus policiais para um discurso que entrou para a história do cinema. Do alto de sua soberba e prepotência, ao final de sua fala exaltada, o personagem maravilhosamente representado por Gian Maria Volonté gritou: repressione è civiltà – repressão é civilização! E tome aplausos da claque. Quando assisti ao filme, a ameaça me arrepiou: vi ali, na Itália, o espelho do que acontecia no Brasil.

Fahrenheit 451
Esse projeto que quer criminalizar o funk também me fez lembrar outro filme, o Fahrenheit 451, de 1966, obra do cineasta François Truffaut, sobre o livro de Ray Bradbury.  Na fita, bombeiros não apagavam fogo, apenas queimavam armas perigosas com lança-chamas: os livros! (Daí o título: 451 graus Fahrenheit é a temperatura da queima do papel, equivalente a 233 Celsius). Nesse ritmo, chegaremos lá.

(Continua na próxima semana)