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sexta-feira, 8 de outubro de 2021

PESSIMISMO, NIILISMO E NEGACIONISMO

 

Schopenhauer

É difícil encontrar a felicidade em seu próprio interior, mas é impossível encontrá-la em qualquer outro lugar”. Arthur Schopenhauer, 1788-1860, filósofo, autor de um sistema ético oposto ao idealismo alemão. Suas ideias envolviam a negação do “eu” e o ceticismo, cernes do pessimismo filosófico. Sua obra “O mundo como vontade e representação” (
Die Welt als Wille und Vorstellung), de 1818, fala da ”coisificação“ do ‘eu‘ e das raízes do sofrimento. O sentido da vida seria consequência de uma negação total da vontade de viver.

Platão

O pessimismo de Schopenhauer
não era um disparate, tinha fundamentos no que há de mais profundo, de Platão à filosofia indiana. Admitiram influência do pensador compositores como Schönberg, Mahler e Wagner, além de Freud, Jung e uma legião de escritores, como Herman Hesse, Thomas Mann e os nossos Machado de Assis e Clarice Lispector. Goste dele ou não, era uma filosofia consistente, de profunda reflexão, não um arroubo ignorante; impregnado de ateísmo, sim, que não se estende necessariamente a todos os seus seguidores.

A Niilista, pelo ucraniano Paul Merwart

Já o niilismo
(do latim nihil, nada), é a rejeição primordial de fundamentos da existência humana, como a verdade, o conhecimento, os valores, a moralidade, chega a negar até a nossa própria existência (Walter Veilt, em “Niilismo existencial“). Ao contrário 
do pessimismo, o niilismo não é centrado em um filósofo, mas em uma atitude coletiva: não vê sentido nos valores da humanidade, o conhecimento é impossível, certas entidades (entenda-se aqui como divindades) ou não existem ou não fazem qualquer sentido. Como ponto de partida, o niilismo surgiu após Søren Kierkegaard (1813-1855), filósofo dinamarquês.


De certa forma, há algo em comum
entre a filosofia do pessimismo,  o niilismo e o negacionismo. Mas superficialmente: nunca, nunca podemos comparar este último a filosofias que marcaram a humanidade. Por quê? Porque o negacionismo é ingênuo, tem personalidade política maleável, não possui fundamentos ou lastro em filosofia alguma. Pode colocar "Deus acima de tudo" e agir inconsequentemente em nome dele, ou, conformista, simplesmente deixar de agir. Reflete uma paupérrima formação de pensamento, e uma espécie de ignorância endêmica, encobertas pelo véu de fanatismo. Mais do que nunca, é negação da ciência, do conhecimento adquirido e de tudo o que significa progresso para a humanidade. Como fermento para o bolo da manipulação do povo, já é, como se diz, um prato cheio.


O termo negacionismo
foi cunhado pelo historiador francês Henry Rousso em seu livro “A síndrome de Vichy", de 1987 - bem recente, portanto. Trata do Estado encabeçado pelo marechal Pétain na II Grande Guerra: um regime autoritário, antissemita, homofóbico e xenofóbico. Como Estado independente, Vichy estreitou laços com os nazistas alemães que ocuparam posições no oeste e nordeste da França, até avançarem sobre a região metropolitana em 1942 (ilustração). Essencialmente, era um antissistema confuso, de negação, e, claro, instrumento para fácil manipulação de massas fanatizadas.

Antivacinas americanos

Uma forma ainda mais desorganizada
de negacionismo são os atuais movimentos antimáscara e antivacina, que alimentam sobremaneira a pandemia, sabe-se lá a troco de quê. Em depoimento à CPI da Covid no dia 30 de setembro, o empresário Otávio Fakhoury, entre negações generalizadas, classificou as vacinas como “testes“. Disse – haja viés machista e autoritário! – que ele  somente levaria sua família para ser inoculada após certificar-se da eficácia do imunizante (como se não bastassem os exemplos diários de comprovações científicas em publicações internacionais abalizadas e sucesso pleno em Portugal e na Alemanha). Homofobia não estava na pauta, mas o presidente da Comissão, Omar Aziz, cedeu sua cadeira para que um senador, Fabiano Contarato, se manifestasse sobre o ataque virtual de Fakhoury à própria família dele (é casado com um homem e tem dois filhos): O negacionismo de Fakhoury lembra vários dos sintomas que Rousso descreveu em “A síndrome de Vichy“, mas não necessariamente a mesma doença.

Mapa eleitoral da vacinação nos EUA
(NY Times)

Trump é um negacionista
com boa parte dos componentes exposta e outra camuflada. No entanto, com sua ascendência sobre o eleitorado de extrema-direita, exerce influência sobre o movimento antivacina nos EUA. Segundo o jornal The New York Times de 27/09, “Uma pesquisa da Pew Research Center, no mês passado, mostrou que 86% dos eleitores democratas receberam ao menos uma dose, enquanto os republicanos vacinados foram 60%“. E mais: “A divisão política da vacinação é tão grande que quase todos os estados confiavelmente democratas têm um índice de vacinação mais alto do que o dos estados seguramente republicanos“ (Trad. do A.).


No Brasil
, não há estudos sobre esses estratos e suas ligações partidárias, até mesmo porque a eleição é direta, e não por colégios, como nos EUA - o que impossibilita um mapa à semelhança daquele do NY Times. Contudo, é óbvio que neste país, reconhecido pela luta sem trégua contra endemias e pandemias e um trajetória modelar de campanhas de vacinação desde o início do século passado, com Oswaldo Cruz, os antivacinas não são tantos, mas multiplicam-se digitalmente - este o dado novo na comunicação político-eleitoral. (Por 'multiplicam-se' entenda-se um apenas tornar-se muitos, por meio de artifícios de informática; movimentam-se simulando um número muito maior do que realmente são). Serão eles os novos coadjuvantes virtuais da reencarnação da antiga fábula “O rei está nu“.
                                              ***
                         Dia 9 de outubro, 320 mil acessos!



 

sábado, 25 de julho de 2020

“NADA SERÁ COMO ANTES AMANHÔ

Albert Sabin e suas gotinhas 

Esta música de Ronaldo Bastos e Milton Nascimento parece ter sido feita para a ocasião. Após meses em confinamento, embaçam quaisquer previsões do cotidiano futuro, só devaneamos em uma dança espiral sobre o fim do vírus. Fim do vírus? Cientistas dizem que não, academias do mundo inteiro convergem para a ideia de que ele não será o exterminador do futuro, mas sofrerá um controle periódico, como a pólio e o sarampo. Após as esperadas vacinações em massa, imunizada boa parte da população, poderemos conviver com relativa segurança.
Não haverá um salto de paraquedas sobre a completude de uma liberdade que nunca tivemos (doces sonhares!) A transição para uma fase confiável de controle acontecerá gradualmente, e não por fórmula instantânea como o leite em pó e o macarrão usados e abusados no isolamento. Também não haverá uma bacanal pública com strip-teases de máscaras, ao menos para boa parte dos que não tiverem essa “vertigem de liberdade”, para usar uma expressão de Kierkegaard. Boa parte, eu incluído, continuará saindo de casa com máscara, álcool em gel no bolso, cuidados de praxe por bom tempo.
O que será de nossas vidas após essa tangente imaginária à curva que não achata nunca? Penso sob vários ângulos, iniciando pelo convívio social. No interior de SP, era comum as pessoas se cumprimentarem com a mão um a um, mesmo sem se conhecerem, ritual de cortesia. E o beijo, tão típico dos brasileiros, um para paulistas, dois para cariocas e três para mineiros (“para casar”), como ficará? Surgirão tipos mais seguros de gentileza. E para novos relacionamentos amorosos, serão as aproximações mais lentas, como no velho romantismo do passado? (Ao invés do baby-boom do pós-guerra, haverá uma silenciosa implosão demográfica?)
Protesto de motoboys
Alguns costumes devem permanecer, a preguiça e o conforto nos deixaram mais indolentes: palmas à ociosidade! O delivery será um deles! Supermercados, magazines e redes que vendem de parafusos a motocicletas, de bombons a vinhos de safra continuarão a se expandir no rastro de novos serviços para as classes que podem desfrutar dessas benesses - afinal, a concorrência e a demanda fazem parte do livre-mercado e se multiplicam em oportunidades, tanto que as revendas de motocicletas já não dão conta das encomendas dos entregadores!
A maneira de nos vestirmos poderá ser afetada. É comum falar com pessoas via zap e raro por videoconferência, como outro dia com o gerente de meu banco de São Paulo - ambos em casa, descabelados e de camiseta, todos igual, nada es mejor. Ficaremos menos exigentes com as aparências, vistas grossas ao inevitável sobrepeso do sedentarismo. Às mulheres, talvez fazer as sobrancelhas - “não precisamos mais usar aquela maquiagem”, cantou o Roberto; já Caymmi, dengoso, “não pinte este rosto que eu gosto”.
Ferro de passar, aos que podiam se dar ao luxo de ter empregada ou passadeira, deixou de ser prioridade: passar roupas é tortura (os homens descobrem a tarefa inglória a que só as mulheres, em histórica submissão, se dedicavam no passado). Morei anos nos EUA e não vi sequer uma dessas engenhocas - só lavanderias, o despejar da roupa na máquina, a moedinha; esperar acabar, retirar tudo, encher a secadora, a moedinha; dobrar tudo ainda quente e meia-volta, volver.
Houve até campanhas virtuais contra o ferro de passar, pela aceitação da roupa não-passada – uma delas com o lema “Passar roupa é inútil”, meme das redes (certamente, invencionice de homens ao dividirem tarefas). Haverá preferência por tecidos sintéticos e de fibras mistas e as confecções procederão à substituição gradual dos velhos por novos. Aos ferros que vêm de nossas bisavós, das pesadas geringonças com brasa ardendo aos elétricos, o museu.
Shopping em São Paulo: o "day after"
Haverá receio de grandes ambientes coletivos, mostrou-nos a experiência recente da reabertura dos shoppings, cuja frequência após o primeiro dia apinhado de famintos por consumir caiu a números pífios. O novo já era velho, em um só dia perdeu o charme. Fechando a contabilidade, ao invés da esperada curva do vírus apenas a bancária foi achatada, nos saldos e bolsos dos consumidores.
Que será dos teatros, cinemas, shows, concertos, tudo em que é vital a presença do público, sofreguidão dos artistas? (Já tão prejudicados pela política cega e paupérrima dos órgãos da cultura oficial, relegando os bons cardápios para lazeres fúteis e inócuos). Sem ônus para os cofres públicos, que afinal somos nós que provemos, novos tempos não apenas ditarão modismos como imporão formas de o povo absorver entretenimentos medíocres; os bons artistas, entregues à sorte, tratados como trabalhadores desclassificados.
Em businness, o chamado ‘pá-pum’: “me perdoe a pressa / é a alma de nossos negócios” / “Pô, não tem de que / eu também só ando a cem” (Sinal Fechado, de Paulinho da Viola). Sem aquelas conversas extensas a que nos acostumamos no passado, coisas simples como papear, jogar prosa fora. Os assuntos de hoje não passam de apenas dois: vírus e política.
Esta última já padece de uma divisão acentuada, uma dicotomia radical: ou se é contra ou a favor, perderam-se todos os tons de cinza, o exercício do senso crítico pela coletividade. (Um fenômeno mundial, que já vinha crescendo antes de sua engorda na quarentena). Divisão maniqueísta, luta entre o bem e o mal em que um lado é o certo, e errado – quando não “comunista” - é quem discorda. A história, com sabedoria, haverá de expurgar esses vícios às trevas, nas asas do bom debate e das saudáveis disputas sem fanatismos.
                                                                                  ***
  * Canal do Youtube - Ser Brega:  (clique no link)   https://www.youtube.com/watch?v=VdXYv412hsU&t=20s
* Programas passados: (copie e cole)   https://www.youtube.com/autrandourado 
  * Para  o livro Memórias de Isolamento - Saudosos Velhos Amigos e Outras   Crônicas,  escreva  : memoriasdeisolamento@gmailcom