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sábado, 29 de agosto de 2020

PARA QUE PESQUISA CIENTÍFICA NO BRASIL?

 

Há mais de 20 anos fui parecerista da Fapesp por uns tempos. Convidado por via eletrônica, não sei quais foram os propositores do meu nome, mas senti-me na obrigação de aceitar. Meu trabalho era nas artes, que nem sei se ainda estão lá devido à atual crise econômica, e cada área de pesquisa tinha seus pareceristas. Eu recebia os projetos eletronicamente e nunca tive contato com quem eu estaria julgando. Analisava desde a razoabilidade financeira da proposta à consecução do projeto, além de sua relevância e, claro, objetividade, clareza e redação. Assim, uma vez julgado, retornava o material por via eletrônica com observações e eventuais ressalvas, aprovando-o ou não.

Há três anos, minha filha Isabela, aos 21, formou-se em Química na USP, recebendo do Conselho Regional de Química o prêmio de melhor aluna do período 2013-2016. Passou a mergulhar com afinco na elaboração de seu projeto de pesquisa com vistas a uma disputada bolsa-auxílio da Fapesp, sua opção preferida, ingressou no doutorado direto (sem necessidade de mestrado) e obteve a cobiçada bolsa. Sua área de atuação é química associada à biomédica, e o objeto da pesquisa foca em próteses biodegradáveis para o corpo humano (dispositivos médicos reabsorvíveis). Pela Fapesp, foi para Ohio, EUA, e com uma pequena equipe de brasileiros e americanos palestrou e pôde dividir conhecimentos. Após o retorno, engajou-se com entusiasmo ainda maior no trabalho, passando dias inteiros no laboratório do Instituto de Química da USP.

Depois dessas duas vivências em épocas distintas passei a conhecer melhor e admirar cada vez mais a Fapesp. Como ex-parecerista, recebo notícias e newsletters da entidade de fomento criada pela Constituição Estadual de 1947, leio sobre as conquistas e avanços tecnológicos em todas as áreas do saber científico, com ênfase para o campo médico. Mais recentemente, os avanços no estudo e combate à Covid-19 -  do isolamento do genoma do vírus à construção de respiradores de baixo custo, testes com o anti-inflamatório Colchicina, no HC-USP de Ribeirão, e, na semana passada, a parceria da Omni-eletrônica com o HC da Faculdade de Medicina da USP para a produção de um aparelho que capta a presença do coronavírus no ar em ambientes com aglomeração (foto acima).

Em 1988, houve uma greve geral das universidades públicas. Um acordo feito entre o então reitor José Goldemberg e o governador, à época Orestes Quércia, foi sacramentado por decreto e anos depois enviado à Assembleia Legislativa para que as três públicas do estado de São Paulo e a FAPESP não tivessem seus orçamentos sujeitos a oscilações políticas, mas baseados em percentuais da arrecadação do ICMS, hoje fixados em 5,0295% para a USP, 2,3447% UNESP, e 2,1958% UNICAMP, totalizando 9,57%. Para a FAPESP, foi aprovado o percentual de 1%, com a salvaguarda da autonomia universitária determinada pelo Art. 207 da Constituição Federal, que diz, em seu caput: “As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”.

Apesar disso e de todas as conquistas mundialmente reconhecidas da Fapesp, no dia 13 de agosto o executivo de São Paulo protocolou na Assembleia Legislativa o Projeto de Lei nº 529/20, que trata de inúmeros assuntos ligados às finanças do estado. Salta aos olhos o Artigo 14, que ou não mereceu os devidos estudos ou simplesmente ignorou como funcionam as entidades de fomento. Diz o caput: “O superávit financeiro (sic) apurado em balanço patrimonial das autarquias (...) e das fundações, será transferido ao final de cada exercício à Conta Única do Tesouro Estadual.”

Entre as mencionadas autarquias e fundações estão as universidades públicas e a Fapesp. Parece que enxergam a Fundação como fosse um órgão da administração direta, que devolve ao Tesouro do estado, a cada chamado exercício findo, eventuais excedentes - assim como acontece com secretarias e outros órgãos da administração direta. Ora, como funciona a Fapesp? Ela recebe a dotação de 1% prevista na Constituição Estadual e a aplica em conformidade com a autonomia determinada pela Constituição Federal.

Tecnicamente, desconsideraram ainda que nas universidades e na Fapesp é vital a continuidade das pesquisas em curso. Pesquisadores recebem mensalmente bolsas por até três anos, e uma vez aprovados os projetos as verbas são direcionadas à consecução dos trabalhos. Portanto, ao acatar um projeto para esse período, compreende-se desde já uma previsão da verba até o prazo final, o que desarma qualquer tese de superávit, “surplus” ou excedente. Por motivos óbvios, a Fundação não pode suspender ou abortar projetos em curso ao final de cada exercício, pesquisadores sequer usufruem de férias.

Até o presente momento, acumularam-se 623 emendas parlamentares propondo, com justificativas, alterações no texto do PL, incluindo 45 delas sobre o Art. 14, que trata das autarquias e fundações, e especificamente das universidades e Fapesp. É preciso que os parlamentares ouçam a comunidade acadêmica; urge fazer as alterações no mencionado artigo para que a pesquisa no estado de São Paulo prossiga sem rupturas em seu trabalho de vanguarda e excelência reconhecido internacionalmente. Segundo as chamadas “Leis de Rolland”, a doutrina da continuidade dos serviços públicos é a mesma que rege a continuidade do próprio Estado. 
Que haja responsabilidade e sensatez nesta hora por parte do Legislativo. 

                                                                      ***

sábado, 25 de julho de 2020

“NADA SERÁ COMO ANTES AMANHÔ

Albert Sabin e suas gotinhas 

Esta música de Ronaldo Bastos e Milton Nascimento parece ter sido feita para a ocasião. Após meses em confinamento, embaçam quaisquer previsões do cotidiano futuro, só devaneamos em uma dança espiral sobre o fim do vírus. Fim do vírus? Cientistas dizem que não, academias do mundo inteiro convergem para a ideia de que ele não será o exterminador do futuro, mas sofrerá um controle periódico, como a pólio e o sarampo. Após as esperadas vacinações em massa, imunizada boa parte da população, poderemos conviver com relativa segurança.
Não haverá um salto de paraquedas sobre a completude de uma liberdade que nunca tivemos (doces sonhares!) A transição para uma fase confiável de controle acontecerá gradualmente, e não por fórmula instantânea como o leite em pó e o macarrão usados e abusados no isolamento. Também não haverá uma bacanal pública com strip-teases de máscaras, ao menos para boa parte dos que não tiverem essa “vertigem de liberdade”, para usar uma expressão de Kierkegaard. Boa parte, eu incluído, continuará saindo de casa com máscara, álcool em gel no bolso, cuidados de praxe por bom tempo.
O que será de nossas vidas após essa tangente imaginária à curva que não achata nunca? Penso sob vários ângulos, iniciando pelo convívio social. No interior de SP, era comum as pessoas se cumprimentarem com a mão um a um, mesmo sem se conhecerem, ritual de cortesia. E o beijo, tão típico dos brasileiros, um para paulistas, dois para cariocas e três para mineiros (“para casar”), como ficará? Surgirão tipos mais seguros de gentileza. E para novos relacionamentos amorosos, serão as aproximações mais lentas, como no velho romantismo do passado? (Ao invés do baby-boom do pós-guerra, haverá uma silenciosa implosão demográfica?)
Protesto de motoboys
Alguns costumes devem permanecer, a preguiça e o conforto nos deixaram mais indolentes: palmas à ociosidade! O delivery será um deles! Supermercados, magazines e redes que vendem de parafusos a motocicletas, de bombons a vinhos de safra continuarão a se expandir no rastro de novos serviços para as classes que podem desfrutar dessas benesses - afinal, a concorrência e a demanda fazem parte do livre-mercado e se multiplicam em oportunidades, tanto que as revendas de motocicletas já não dão conta das encomendas dos entregadores!
A maneira de nos vestirmos poderá ser afetada. É comum falar com pessoas via zap e raro por videoconferência, como outro dia com o gerente de meu banco de São Paulo - ambos em casa, descabelados e de camiseta, todos igual, nada es mejor. Ficaremos menos exigentes com as aparências, vistas grossas ao inevitável sobrepeso do sedentarismo. Às mulheres, talvez fazer as sobrancelhas - “não precisamos mais usar aquela maquiagem”, cantou o Roberto; já Caymmi, dengoso, “não pinte este rosto que eu gosto”.
Ferro de passar, aos que podiam se dar ao luxo de ter empregada ou passadeira, deixou de ser prioridade: passar roupas é tortura (os homens descobrem a tarefa inglória a que só as mulheres, em histórica submissão, se dedicavam no passado). Morei anos nos EUA e não vi sequer uma dessas engenhocas - só lavanderias, o despejar da roupa na máquina, a moedinha; esperar acabar, retirar tudo, encher a secadora, a moedinha; dobrar tudo ainda quente e meia-volta, volver.
Houve até campanhas virtuais contra o ferro de passar, pela aceitação da roupa não-passada – uma delas com o lema “Passar roupa é inútil”, meme das redes (certamente, invencionice de homens ao dividirem tarefas). Haverá preferência por tecidos sintéticos e de fibras mistas e as confecções procederão à substituição gradual dos velhos por novos. Aos ferros que vêm de nossas bisavós, das pesadas geringonças com brasa ardendo aos elétricos, o museu.
Shopping em São Paulo: o "day after"
Haverá receio de grandes ambientes coletivos, mostrou-nos a experiência recente da reabertura dos shoppings, cuja frequência após o primeiro dia apinhado de famintos por consumir caiu a números pífios. O novo já era velho, em um só dia perdeu o charme. Fechando a contabilidade, ao invés da esperada curva do vírus apenas a bancária foi achatada, nos saldos e bolsos dos consumidores.
Que será dos teatros, cinemas, shows, concertos, tudo em que é vital a presença do público, sofreguidão dos artistas? (Já tão prejudicados pela política cega e paupérrima dos órgãos da cultura oficial, relegando os bons cardápios para lazeres fúteis e inócuos). Sem ônus para os cofres públicos, que afinal somos nós que provemos, novos tempos não apenas ditarão modismos como imporão formas de o povo absorver entretenimentos medíocres; os bons artistas, entregues à sorte, tratados como trabalhadores desclassificados.
Em businness, o chamado ‘pá-pum’: “me perdoe a pressa / é a alma de nossos negócios” / “Pô, não tem de que / eu também só ando a cem” (Sinal Fechado, de Paulinho da Viola). Sem aquelas conversas extensas a que nos acostumamos no passado, coisas simples como papear, jogar prosa fora. Os assuntos de hoje não passam de apenas dois: vírus e política.
Esta última já padece de uma divisão acentuada, uma dicotomia radical: ou se é contra ou a favor, perderam-se todos os tons de cinza, o exercício do senso crítico pela coletividade. (Um fenômeno mundial, que já vinha crescendo antes de sua engorda na quarentena). Divisão maniqueísta, luta entre o bem e o mal em que um lado é o certo, e errado – quando não “comunista” - é quem discorda. A história, com sabedoria, haverá de expurgar esses vícios às trevas, nas asas do bom debate e das saudáveis disputas sem fanatismos.
                                                                                  ***
  * Canal do Youtube - Ser Brega:  (clique no link)   https://www.youtube.com/watch?v=VdXYv412hsU&t=20s
* Programas passados: (copie e cole)   https://www.youtube.com/autrandourado 
  * Para  o livro Memórias de Isolamento - Saudosos Velhos Amigos e Outras   Crônicas,  escreva  : memoriasdeisolamento@gmailcom 

sexta-feira, 1 de maio de 2020

DON QUIXOTE E O INIMIGO INVISÍVEL

Miguem de Cervantes Saavedra
“O espirituoso cavaleiro Don Quixote de la Mancha”, de onde “Don Quixote”, do espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616), é uma obra que tem recebido, desde sempre, os melhores comentários pela sua grandeza. Levantamento de Chrisaphis Angelique publicado no The Guardian em 2012 exibe no título o panteão a que é alçada a obra: “É o melhor livro do mundo, dizem os maiores autores”. O personagem é tão importante no Ocidente que, ao par de outros países, em português é substantivo dicionarizado: “indivíduo ingênuo e generoso, que luta inutilmente contra as injustiças” (Houaiss). Um quixote, portanto, é aquele lutador incansável que enfrenta, sem esperar vencer, os mais terríveis inimigos. 


"Embebedou-se tanto na  leitura que passava as noites em claro"
(Por Gustave Doré)
No escritório de meu pai, em casa, entre as várias estantes de livros, havia uma reprodução de gravura do francês Gustave Doré (1832-1883) mostrando um Cervantes já meio descompassado, o corpo escorregando na poltrona entre vilões imaginários, livro na mão esquerda e espada erguida na direita. Lanças, brasões, seres estranhos fazendo-lhe um pórtico surreal com uma cabeça gigante ao chão, provavelmente decepada. Um dístico encimava toda aquela imagem alucinante e bem definia Cervantes: “Embebedou-se tanto na leitura que passava as noites em claro”. Talvez fosse o lugar para que meu pai ali se embriagasse não apenas com Cervantes, mas também Faulkner, Flaubert, Joyce, Goethe, Machado e Bandeira, no cantinho em que ele desbravava seu mundo à parte.
Don Quixote, por Pablo Picasso 1955
O fidalgo Alonso Quixano, de La Mancha - “terra dos moinhos” no centro da Espanha -, leitor de escritos sobre cavalarias, assume-se cavaleiro errante, Quixote de la Mancha. Para acompanhá-lo, busca um homem tosco do campo, Sancho Panza (do esp.: pança, opulenta barriga). Nomeia-o seu escudeiro, até mesmo pela paciência dele com as histórias malucas do fidalgo.  Quixote confunde-se cavaleiro com os personagens de seus livros. Alucinado, proclama-se Don e nomeia o velho cavalo Roncinante (‘cavalo sem força’). To tilt windmills  (“balançar moinhos”) tornou-se expressão popular em inglês, e representa lutar erraticamente contra inimigos invisíveis, imaginários ou reais –para Quixote, tanto fazia como quanto fez se era um ou outro. Há um sem-número de gravuras e desenhos do fidalgo montado em Roncinante, Sancho Panza a tiracolo, enfrentando moinhos como os de sua terra, armado com lança e protegido por um escudo, como se aqueles engenhos fossem seus adversários mortais. Um texto pleno de alegorias e sátiras, um marco que volta sua ironia para as tradições de escribas do passado.
Hoje, temos dezenas ou centenas de milhares de quixotes lutando não contra quimeras, mas entes invisíveis a olho nu, reais e devastadores - inimigo imperecível, arduamente domável, apenas, que atende pelo nome de Covid-19. É mais do que sabido que, se realmente controlarmos a ameaça, ela ficará latente, embora viva para sempre, como acontece com a influenza, a Aids, a peste bubônica, o ebola e a pólio, só para citar alguns exemplos. Uma vez domado, o vírus terá sua futura vacina acrescentada à velha lista, até que um próximo grande mal surja como novo tsunami.
Gráfico da trajetória do NHGP
Verdade que nesses novos tempos, especialmente a partir do século 20, a ciência tem evoluído em espiral ascendente, graças ao advento dos computadores – de lerdos monstrengos para cálculos e o enorme Univac até as supermáquinas de hoje, que performam milhões de cálculos por segundo. O “Human Genome Project”, de 1990, avançou muito mais rápido em suas decodificações do que os 20 anos que haviam sido previstos: terminou em 2003. A cada nova geração e upgrade, os equipamentos galgavam, eles próprios, saltos em progressão geométrica. Penetrar nos ácidos nucleicos que controlam todos os tipos de vida – como o RNA e o DNA – é algo que agora acontece em velocidade espetacular. Mas quem domina as técnicas são pessoas como nós, cada vez mais preparadas, pesquisadores científicos das nossas universidades, principalmente, vanguarda que alguns não estimulam e sequer reconhecem, seja por não enxergarem meio palmo à frente do nariz ou por interesses outros.
Forma junto aos incansáveis pesquisadores, em pequenos, mas altos passos (vacinas, fármacos, suportes como respiradores, testes, etc.), a legião de bravos médicos, enfermeiros e técnicos que, em turnos de trabalho nos limites do suportável, colocam suas próprias vidas em jogo para salvar pessoas. Eles precisam de todo o apoio das autoridades, nunca de seu descaso. Universidades públicas federais e, para ser claro, principalmente as estaduais paulistas - que têm suporte de instituições como a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) -, fazem de seus laboratórios os castelos de onde, qual novos fidalgos, se armam para empreender a guerra. As federais, com cortes de verbas no fomento de pesquisas, conquistam além do possível por puro amor à luta, dada a falta de condições mínimas.
A Batalha Naval do Riachuelo, cópia por Vítor Meireles
Vêm à mente frases que são parte da nossa história: “Considero minha obra uma carta que escrevi à posteridade, sem esperar resposta”, disse Villa-Lobos, a representar agora a humildade e devoção com que todos esses profissionais, de pesquisadores e médicos até o pessoal de apoio,  encaram suas batalhas contra o vírus. Mais: pensando em embates, vem-me a Batalha do Riachuelo (1865), em plena guerra do Paraguai, quando o Almirante Barroso conclamou: “O Brasil espera que cada um cumpra com o seu dever”. Deus salve todos esses quixotes, gloriosos quixotes.
Don Quixote e Sancho Panza, de  Gustave Doré







































































sexta-feira, 27 de março de 2020

CORONA, FERMATA, GRANDE PAUSA, CADENZA

Tullio Colacioppo
Ouvi o termo corona poucas vezes, e sempre de regentes italianos. Um deles foi o maestro Tullio Colacioppo, o único concursado efetivo do Theatro Municipal de São Paulo (orgulhava-se disso!). Homem histriônico, bom de papo como todo italiano, ele estava à frente da Sinfônica e Coro quando um palco improvisado desabou na cidade paulista de Americana, em 1993, com artistas e instrumentos. Retomando o assunto, corona, em italiano, quer dizer coroa, e por semelhança com o rico adorno dos monarcas, dá nome a um símbolo musical: um semicírculo com a parte aberta geralmente para baixo, dentro da qual fica um ponto. Fermata, também do italiano, quer dizer ‘parada’, e se refere ao mesmo sinal. Em alemão, diz-se Fermate, assim como em francês (só que com “f” minúsculo). Em inglês, chama-se hold - parada, suspensão. A fermata pode aparecer sobre (ou sob) uma nota, um acorde (grupo de notas) ou mesmo uma pausa, suspendendo no ar tanto sons quanto silêncios.

József Joachim
Temos ainda a GP, ou grande pausa, uma longa parada, frequentemente de um compasso, sempre a piacere (à discrição) do maestro. Para um solista, o símbolo da corona pode indicar uma cadenza, de cadentia, em italiano (cadere, cair, em latim). É o momento de um concerto ou ária em que o instrumentista ou cantor improvisa, geralmente sobre um trecho escrito, exibindo seu virtuosismo técnico e interpretativo até “cair” de volta na tonalidade original. Cadenzas costumam ser compostas pelos próprios compositores para a livre execução dos solistas, mas há várias famosas cadenzas de grandes virtuoses já incorporadas às partituras, como a do húngaro József Joachim para o concerto para violino de Brahms.
Beethoven, 5ª Sinfonia (redução  para piano)
O leitor pode ter acompanhado com alguma estranheza o tema que eu até agora abordava, mas já se sente confortado em saber que – fino a questo punto – o assunto era música. Esse efeito da suspensão do tempo de uma única nota ou acorde – ou mesmo o silêncio – é de suma importância em música. O exemplo mais clássico de fermata está na introdução da 5ª Sinfonia de Beethoven, dotando a nota suspensa da extrema dramaticidade, tensão e angústia tão características do compositor.  (Veja e ouça, abaixo, Herbert Von Karajan e a Filarmônica de Berlim. Karajan era mestre em criar a devida tensão nas fermatas da introdução)



Agora uma coloco uma fermata sobre a pausa, dal segno al fine:  um dos vírus com potencial mais devastador dos últimos tempos (Covid-19), popularmente Coronavírus, deve o nome à própria semelhança com o ornamento real. Agora, pasme! Em outubro de 2007 (grifei) a Revista de Microbiologia Clínica, da Sociedade Americana de Microbiologia, publicou um artigo (Vol. 20, nº 4, trecho reproduzido na imagem acima), de pesquisadores chineses e americanos, que deveria ter recebido a máxima atenção: “Síndrome Respiratória Aguda Grave como um Agente de Infecção Emergente e Recorrente”. E ressalta: “A presença de uma grande reserva do tipo SARS-COV em morcegos-ferraduras (Rhinolophidae ), juntamente com a cultura do consumo de mamíferos exóticos na China meridional é uma bomba-relógio” (grifei). Segue a pergunta: “Estaremos prontos para um ressurgimento?”.
Hubei; vazia
Mais de doze anos após, a resposta surgiu como rastilho da bomba: não! Autoridades em geral não se importam com pesquisas e alguns chegam a estrangulá-las. Em Hubei, China, dezembro de 2019, reapareceu e tomou corpo a Síndrome Aguda Grave Coronavírus 2 (SARS-CoV-2), mas não por profecia dos cientistas e sim um alerta baseado em fatos concretos, o primeiro tique-taque do que chamaram bomba-relógio. É imprevisível o pico da pandemia até que ela chegue a um estágio em que haja controle, como acontece com outras moléstias infecciosas de larga escala. Só que o Brasil, como a Itália, procrastinou as ações necessárias e profiláticas, aqui mais ainda do que no país europeu.
Crédito: New York Times
Somos obrigados ao isolamento social que impõe um prejuízo imenso: tombo na economia, escassez e desemprego; escolas, teatros, comércio e shoppings fechados. O mundo dividiu-se em núcleos familiares ou eremitas, boa parte pendurada em celulares ou computadores para se sentir viva e em comunicação com o exterior. Haverá consequências de ordem psicológica bastante óbvias, como conflitos, estresses, angústia, ansiedade, depressão e síndrome do pânico. Para a maioria, a solidão é uma novidade cruel, um hiato na vida.
Cabana de Henry Thoureau (reconstruída)  no Walden Pond e estátua
Henry Thoureau (1817-1862), filósofo, poeta e ensaísta norte-americano, publicou seu “Walden, ou Vida no Bosque”, que se tornou bastante popular ao lado do ensaio “Desobediência Civil”. Thoreau envolveu-se com ecologia, ambientalismo e abolicionismo e era considerado um anarquista radical cujos escritos libertários influenciaram de Martin Luther King, Jr., a Leo Tolstoy.  Isolou-se em Walden Pond, em Concord, Massachusetts - por acaso, local onde eu volta e meia desfrutava da minha “praia de verão” na Grande Boston, mais de um século depois. À beira de um lago maravilhoso e bosques sem fim, Thoreau construiu uma cabana de treze metros quadrados onde se isolou por “dois anos, dois meses e dois dias”. Sobre sua produção, ninguém poupa superlativos: o poeta Robert Frost disse que “em apenas um livro ele ultrapassou tudo o que tínhamos na América”, e o escritor e crítico John Updike declarou que “um século e meio após sua publicação (N.A.: “Walden”), ele se tornou um ícone do preservacionismo, da desobediência civil (...), um santo eremita”.


Hoje, todos vivenciamos nosso lado Thoureau. Meio eremitas, isolados, e para os que podem, próximos à natureza. A “cabana” de cada um de nós resume-se a coisa de três cômodos de uma casa ou apartamento. São tempos de reflexão, o país necessita que pensemos nos erros passados para corrigir os presentes, rumo ao futuro que nos aguarda para o dia em que sairmos de nossos exílios.
Walden Pond: por do sol