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sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

O QUE VOCÊS FIZERAM NAQUELE 6 DE JANEIRO?

 


O que teria acontecido nos EUA naquele dia de 2021?
Um fenômeno de massas desencadeado de forma nunca vista no país enquanto república democrática! O que levou as pessoas ao descontrole, àquele ponto? São perguntas que historiadores e cientistas sociais ainda não conseguiram responder a contento – afinal, fenômenos de massa não são palpáveis, geralmente nem é possível contabilizá-los pela absoluta falta de meios. Porém, um caso isolado pode servir de amostra exemplar do todo pela parte, peças que refletem como pequenos espelhos o quadro geral do acontecido.

A denúncia contra Bancroft

Uma amostra poderia ser Dawn Bancroft
, pacata eleitora republicana da Pensilvânia, proprietária de um estabelecimento de fitness que por impulso resolveu viajar até Washington, D. C., capital do país, seguindo afoita o brado de Donald Trump, derrotado nas eleições presidenciais americanas: “lutem com todas as suas forças!” Junto com uma amiga, chegou à Constitution Ave., e tendo a pressão da massa ensandecida como elemento contaminador de seus instintos mais reprimidos, com ela atravessou uma vidraça espatifada e invadiu o Capitólio, sede das casas legislativas do país. Segundo o The Economist (7/01/22), elas estavam “à caça” de Nancy Pelosi, então líder do partido Democrata e presidente da Câmara dos Representantes após a posse de Joe Biden, "para meter uma bala na cabeça dela, mas não a encontramos”. Saldo: 5 mortos e mais de 100 policiais feridos.


Disse o jornal que, diante do juiz Emmert Sullivan
, Bancroft reconheceu sua culpa na invasão. O magistrado suscitou uma questão estarrecedora: o que faz gente de bem, que nunca teve problemas com a lei, de repente transformar-se em terrorista? (Lembra o título da obra Pergunta sem Resposta - Unanswered Question -, do norte-americano Charles Ives composta em 1908). Todas as atitudes coletivas podem ser bem analisadas, mas nunca esclarecidas; no campo psíquico podem ser investigadas à luz de Carl Jung (1875-1961), ligado a Freud, que via dois segmentos no inconsciente: o pessoal e o coletivo. Este último seria o “conjunto de imagens primordiais, representações coletivas que são heranças de geração e que constitui os traços coletivos verificados no interior do psiquismo de cada indivíduo (...), imagens a que deu o nome de arquétipos (...), que não são jamais conscientes e não proveem de uma experiência pessoal do indivíduo”. Esses arquétipos são sempre inconscientes, “exprimem-se por símbolos que chegam ao consciente e podem invadir os sonhos ou se traduzir em mitos” (in Apoio às Disciplinas, USP).


A pergunta do juiz Sullivan
no caso Bancroft continuará sem resposta, mas as explicações de Jung sobre o inconsciente coletivo esclarecem até para nós, leigos no assunto, onde se encontra o cerne da questão, e se não trazem respostas ao menos lançam uma luz clara sobre o inconsciente coletivo no comportamento das massas: “esses arquétipos chegam ao consciente e podem invadir os sonhos ou se traduzir em mitos”. (O excelente dramaturgo e frasista Nélson Rodrigues, assumidamente de direita, proferiu uma lapidar: “a massa é ignara”).

Corpos de Benito e Clara

O inconsciente coletivo
pode levar a grandes convulsões, distúrbios de massa como o linchamento de Benito Mussolini e sua amante Clara Petacci, que terminaram pendurados pela turba de cabeça para baixo em uma viga de um posto de gasolina, como fossem bois abatidos em um açougue. Na famosa música Devoção ao Demônio (Sympathy for the Devil), dos Rolling Stones - que Mick Jagger diz ser um “samba” influenciado pelo Candomblé da Bahia, onde o grupo ficou por semanas -, ilustraram com o demônio esses arquétipos humanos: “Eu estava lá, em São Petersburgo / quando vi que era hora para mudança / Matei o Czar e seus ministros / Anastasia gritou em vão / (...) Eu gritei: quem matou os Kennedys? / Quando afinal fomos eu e vocês”.

O monstro do Lago Ness

O inconsciente coletivo potencializa forças
, destila o ódio nas veias ou, como me disse um velho russo: faz a urina subir à cabeça. E há sempre o fanatismo e a ocasião para acionar o detonador no momento propício para agir: elas precisam ouvir algo como uma voz ecoando na revolta trancada na profundeza de suas mentes: “lutem com todas as suas forças!”, brado de Trump, estopim que incendiou as supostas fraudes nas urnas de votação – foi o estímulo que apontou evidências inexistentes de manipulação, tentativa frustrada de alcançar a vitória “na marra”. O que queria o então presidente, conclamando aquela invasão ensandecida e abilolada, sabendo que poderia desencadear um morticínio sem proporções? Outra vez uma incógnita, pois os desígnios de extremistas descontrolados são impenetráveis. Sabe-se também que é necessária uma liderança com energia suficiente para fazer emergir, tal como o monstro do Lago Ness, o intangível, o quase sobrenatural, que satisfaça sua volúpia e abra espaço para seus sonhos e pesadelos: é fundamental criar o caos, grande aliado no erguimento de um Estado de fanáticos.


CNN, 10/12/2021
: “Eleitores que acham que Trump venceu são os mais entusiasmados para votar em 2022” (para o Senado). “Por uma vantagem de 74% contra 25%, republicanos e independentes com tendência republicana dizem que Joe Biden não obteve votos suficientes para vencer a eleição de 2020 legitimamente”. A ocasião, a arma e os motivos – ainda que falsos – deverão estar presentes outra vez na eleição presidencial de 2024, e a decantada democracia americana será colocada de novo à prova, servindo de exemplo para o mundo.

sábado, 12 de agosto de 2017

DEUS É O POETA. A MÚSICA É DE SATANÁS

Casarão, hoje demolido, onde morou Machado de Assis, no Cosme Velho
“..., jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passado sem mais nada se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera do qual abrira mão, por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno”. Trechos do capítulo IX de Dom Casmurro, do Machado de Assis, o chamado “bruxo” do Cosme Velho, tradicional bairro carioca.

(Michael Thompsett)
Quando alguns incrédulos me perguntam por que as desgraças acontecem, “então Deus não existe! Não poderia ter evitado?”, dá vontade de mandar ler Machado de Assis. Deus não é personagem ou mesmo ‘comprimário’ (papel secundário ou figurante), como bem mostrou o sábio escritor carioca. Satanás está presente, sem chifrinhos e rabinho, claro, em nome do mal, com sua regência malévola. Machado fez esse achado literário que tem um significado muito mais profundo do que aparenta ao leitor desavisado. A Deus não restou alternativa, chamou Satanás e mandou-o reger bem longe Dele. Caiu em palco que calhou por azar de ser aqui, na Terra.

Salto várias décadas, de Machado para os Rolling Stones – isso mesmo, o grupo de rock -, e seu sucesso Devoção ao Demônio (Sympathy for the devil), música que inspirou um filme de Godard no final dos anos 1960. Sem conhecer Machado de Assis - infelizmente, pois se tivessem lido teriam feito ainda melhor -, a banda de rock tocou a versão de Keith Richards e Mick Jagger: “Por favor permita-me conhecê-lo, sou um homem de riqueza e gosto”. “Roubei muitas almas do homem para esbanjar”. “E eu estava perto quando Jesus Cristo teve seu momento de dúvida e dor” (N. do A.: ‘Deus, Deus, por que me abandonaste?’). “Exigi que Pilatos lavasse suas mãos e selasse o destino dele” (N. do A.: de Cristo). “Prazer em conhecê-lo, espero que adivinhe meu nome / mas o que te perturba / é a natureza do meu jogo”.

Anastasia Nikolaeva
E assim os Stones, creia, eles, mostram o perfil do demônio na Terra, o próprio falando de Satanás na primeira pessoa: Matei o Czar e seus ministros, enquanto Anastasia gritava em vão. Também passei pelos tanques de guerra nazistas em blitzkrieg. E gritei “quem matou os Kennedy, quando afinal fomos você e eu”. O demo disse que se cada policial é um criminoso e todos os pecadores santos, como cabeças são traseiros, apenas “chame-me Lúcifer porque eu preciso que alguém me contenha”.

Auschwitz
A poesia dos longevos ídolos do rock faz ironicamente um duo com a tese de Machado - que se compreendida muito pode explicar. As batalhas, as grandes guerras mundiais, os campos de concentração, as perseguições aos judeus – e agora aos islamitas -, aos armênios, a insanidade de Hitler, a prepotência de seu admirado Mussolini, a era Stalin, as ditaduras, torturas, perseguições e Inquisição no mundo inteiro não são atos, de forma alguma, da lavra de Deus, e sim do abusado maestro, que rege a partitura. E assim como quem está sempre presente nas coisas do mal descritas pelos Stones, eis o personagem maléfico pairando sobre os EUA, a Venezuela, os enormes propinodutos subterrâneos da corrupção brasileira que faz povo sucumbir ao desemprego e à fome. Síria, Coreia do Norte, os delírios de Putin, os grupos terroristas que se intitulam islâmicos sem seguirem o Corão, a miséria no mundo. Deus fez a partitura, mas o diabo é que Satanás é o maestro! Salve Machado de Assis!

Todos agradecem quando “Deus salva” uma vida, mas ninguém culpa o Pai quando a pessoa morre. Resignam-se: Deus assim o quis. Se Deus salva por meio de uma cirurgia, é pelas mãos de algum “comprimário” comprometido com o bem. Mas esse médico não tem o controle absoluto da situação exatamente porque lhe falta o domínio sobre a morte - no caso, a ciência ainda não avançou a esse ponto, e nunca vai chegar lá. Ele apenas possui o estudo, o bom coração e a boa vontade com que trata seus pacientes. Tampouco a morte do doente foi culpa do diabo, que apenas rege, mas não toca.

Os músicos de nossa orquestra também erram, pois são filhos do Pai, o grande poeta que desistiu da partitura. A questão do bem e do mal existe desde sempre, e na filosofia é assunto inesgotável, assim como os mistérios da vida e da morte. Está muito acima de nós, reles músicos, e até os solistas, coadjuvantes e figurantes. Somos submetidos aos implacáveis desígnios rabiscados no ar pelo maestro e sua regência, e nos resignamos quando o maestro compromete o bom andamento da obra, cabendo a nós repudiar os erros de condução ou quando a partitura da orquestra tem alguma grande aberração que transforma a bela ópera da vida em um verdadeiro inferno.  


Como bem disse Machado de Assis, Deus é o poeta, a partitura foi levada para o abismo de onde rege Satanás, ópera cuja direção temos de acatar por imposição. Apenas podemos tentar tomar as rédeas quando há o necessário suporte da Administração Superior, dando-nos ferramentas para a vitória. Porém, após cada embate, ao final Satanás sempre volta, enquanto nós, pobres músicos, apenas nascemos, morremos, somos substituídos por outros que prosseguem obedecendo à partitura e à pontaria ameaçadora da cruel batuta do capeta. Não tive o menor “prazer em conhecê-lo”, devolvo retribuindo Lúcifer na apresentação do dos Rolling Stones. Mas passei-lhe a perna porque adivinhei seu nome. E sei da natureza do seu jogo!