LIVROS

LIVROS
CLIQUE SOBRE UMA DAS IMAGENS ACIMA PARA ADQUIRIR O DICIONÁRIO DIRETAMENTE DA EDITORA. AVALIAÇÃO GOOGLE BOOKS: *****
Mostrando postagens com marcador Godard. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Godard. Mostrar todas as postagens

sábado, 17 de abril de 2021

A CHINESA

 


Toda vez que penso nesse gentílico lembro-me dos tempos em que, ainda no colégio, cabulávamos aula para ir ao Studio Paissandu, no Rio, servir-nos do manjar da juventude da época: filmes de arte. Era um título por dia, à tarde, durante a semana, e tinha público. Ali conheci as boas fitas do Godard, talvez o mais maluco de todos os cineastas. Era ambíguo, lançava grandes questões no ar, e, mesmo ateu, rodou o belo Je vous Salue, Marie (“Eu te saúdo, Maria”), sobre a mãe do Senhor e José, o nascimento do Salvador e seu paralelo moderno. Mas a produção que mais me intrigou foi A Chinesa (La Chinoise, 1967), mesmo.


O filme foi rodado quase que inteiramente dentro de um ‘aparelho’ – nome dado a qualquer esconderijo ou local de reuniões secretas de estudantes ou revolucionários da época. Os personagens são uma socióloga maoísta e seus companheiros, entre discussões e leituras de trechos do histórico “livrinho vermelho” do líder comunista chinês Mao Zedong (Tsé-Tung), dezenas deles empilhados no apartamento. Apesar da visível pobreza técnica e da locação – alguns grandes filmes foram feitos em condições adversas e paupérrimas -, é um marco.  Para os raros sobreviventes da doutrina de Mao, uma ode ao revolucionário comunista autor de feitos heroicos, como atravessar a nado uma enorme distância (foto) - em montagens fotográficas, claro -, contraponto atlético ao estalinismo; em atrocidades, nada devia ao soviético. Havia um outro lado no filme, que me puxava pelo pé, uma crítica ao “aparelhismo” e o fascínio de parcela da juventude por Mao. Com o passar dos anos, consolidou-se em mim esse aspecto de crítica do filme -  Godard era anarquista e ironicamente ligado a um tosco existencialismo.


A China de Mao foi uma grande mentira que perdurou do golpe, em 1949, até 1976, com a morte do líder. Retratava um país sem fome, igualitário, de trabalhadores felizes nos meios de produção do Estado. Divergências, opiniões, arte, como em todo regime autoritário e autocrático, não tinham espaço, já que o onipotente regime tudo dava (mas punia exemplarmente quem não o seguisse às cegas).

Bolsa chinesa

Um salto para a atualidade, e um novo velho regime, a velha bandeira, o velho epíteto República Popular da China, o velho partido único, o mesmo discurso messiânico de seus líderes. Em 1978, dois anos após a morte de Mao, o país começou a empreender uma grande reforma econômica que hoje derrubou a linha de pobreza para 8% graças à imensa industrialização que o leva à segunda potência mundial, atrás apenas dos EUA. Conquistou assentos de importância em inúmeros organismos internacionais, como o Conselho de Segurança da ONU, a OMC e outros. O PIB chinês alcança mais de 20 trilhões de dólares, e a renda per capita (PIB do poder de compra) chega a US$ 15 mil (R$ 82 mil) anuais. A antes monolítica economia de Estado permitiu o surgimento de grandes fortunas individuais e empresas que hoje competem com as melhores do mundo, quando não produz insumos eletrônicos ou componentes pré-montados.


O mouse do meu computador é chinês! Ah, o teclado sem fio também. E meu relógio, o celular e seu carregador, a calculadora, o multímetro, o aparelho para fisio no tornozelo e, creia, os medicamentos, principalmente os genéricos, que usam insumos chineses, paquistaneses ou indianos. “Nossos” chineses costumam ser bons e duros negociantes, bem ao seu estilo mundo afora, ótimos cozinheiros ou gestores de restaurantes, massagistas de técnicas milenares, agricultores, cientistas e até gênios de nossa música ocidental, como o violoncelista franco-chinês Yo-Yo-Ma e o prodígio do piano Lang Lang (1982), que já assombrava o mundo quando criança. Ironicamente, o país socialista criou alguns dos mais poderosos bilionários do mundo, como Jack Ma, dono de uma das maiores cadeias de vendas existentes, a Alibaba (que me vendeu massageador, aliás), William Ding, poderoso tycoon dos games on-line, e Ma Huateng,  detentor das patentes de aplicativos e jogos como WeChat e League of Legends. A TikTok, de vídeos e trocas, tornou-se tão poderosa que foi proibida pelo governo norte-americano para uso no país sob alegações de viés claramente fascista e xenófobo de Trump, argumentos que não escondiam uma terrível dor de cotovelo: especialistas de todos os cantos projetam a China como a futura primeira potência mundial em alguns anos.


Dúbio como sua economia e ideologia atuais ou o filme de Godard, o país de 1,4 bilhões de habitantes tornou-se também paradigma na área médica e de pesquisa, uma produção sempre potencializada em grandes números. De lá o nosso Butantan importa insumos para a fabricação de uma vacina de pleno sucesso contra o Covid-19, e em breve terá autonomia suficiente para fabricar exclusivamente nas suas instalações de São Paulo a popular Coronavac. Isso, mesmo ante uma altamente reprovável xenofobia sob o manto de preconceito ideológico patrocinado pelos altos escalões brasileiros, uma sinofobia política que entre outras coisas tenta erguer barreiras para produtos como a tecnologia 5G chinesa, que já revoluciona o mundo. Usam as mesmas obstruções focais já empreendidas contra a vacina, mas terminaram perdendo, e hoje o consórcio sino-brasileiro domina não apenas a vacinação dos brasileiros quanto boa parte da produção interna nacional.

Chegando minha vez de ser vacinado – e que não demore tanto -, aceito outra, claro, mas ficarei contente com a segurança que sinto na chinesa. Na dúvida, claro, La Chinoise.



sexta-feira, 3 de abril de 2020

O CONFINAMENTO SEGUNDO O DECAMERON, A PESTE, A CHINESA E NAVALHA NA CARNE

Entrevista exclusiva: Braz Chediak, cineasta de “Navalha na Carne”

Decameron vem do grego deca, dez, e meron, dias, como em Hexameron, os seis dias da criação (“no sétimo, Deus descansou” – Genesis 2:2). É uma obra de valor inestimável para a literatura, e coloca Giovanni Boccaccio (1313-1375) ao lado de Dante Alighieri (1265-1321) entres os grandes da literatura italiana e mundial.  Ficção de técnica primorosa, passa por tragédia, traições e erotismo com dez personagens confinados durante a Peste Negra, que dizimou entre 75 e 200 milhões de pessoas na Eurásia. Segundo o Historical Estimates of World Population (census.gov), havia no mundo no máximo 475 milhões de habitantes. Podem ter morrido  até 200 milhões, ou 42% da população.
Sete moças e três rapazes confinam-se em uma pequena vila isolada perto de Florença a fim de se protegerem da praga que já deixava rastros macabros pela cidade. Durante as noites, eles se revezavam contando estórias; chamavam-se Pampineia, Neífile, Filóstrato, Fiammetta, Elissa, Dioneu, Leuretta, Emília e Pânfilo. Dez jornadas em dez dias cujas sessões eram concluídas por Dioneo, que seria o próprio Boccaccio (GRIFFITH, David. The Origin of the Griselda Story. Seattle: UWP, 1931). Os temas dos jovens passeavam entre finais felizes, conquistas e reconquistas, amores desfeitos, espertezas, traições de mulheres e homens, temas livres e “cupidos” do amor alheio. Assim foi a temporada em confinamento dos dez jovens.
“A Peste” (La Plague), de 1947, do francês Albert Camus, tem lugar na vila de Oron, na Argélia Francesa, e versa sobre a peste bubônica que amontoou cadáveres, ratos mortos e dejetos nas ruas da cidade. Uma abordagem da condição humana com traços do Teatro do Absurdo que remete à epidemia de cólera de cem anos antes na mesma cidade de Oran, após a ocupação da Argélia pela França. Entre “O Processo”, de Kafka, e o existencialismo - negado pelo autor -, a transposição é uma alegoria sobre a ocupação da França pelos nazistas. Oron foi bloqueada, viagens e grande número de atividades proibidas. A cada mês a crise piorava, enquanto um certo Dr. Castel buscava um soro contra a praga. Após meses de isolamento, a epidemia estava controlada e os portões da cidade foram reabertos. A novela expõe conflitos e solidariedade humanos.
No filme La Chinoise (1967), de Jean-Luc Godard, rodado basicamente em um apartamento, um grupo de jovens se confinara a fim de travar embates ideológicos liderados pela socióloga Véronique (Anne Wiazemsky), seduzida pela experiência do maoísmo na China. Na “célula”, conspirava para derrubar o regime soviético – entre sérias discussões sobre a opção pelo terrorismo e acusações de revisionismo e colaboracionismo. No intento de assassinar o ministro da Cultura soviético em Paris, a radical Véronique, amante do companheiro Guillaume (Jean-Pierre Léaud), confunde o apartamento do ministro e mata a pessoa errada. Logo, é dissolvida a célula montada em Paris. A fleuma política da radical Véronique havia sucumbido aos seus próprios inconfessáveis limites.
Plínio Marcos (Época)
“Navalha na Carne” (1967) é uma peça teatral do dramaturgo brasileiro Plínio Marcos (1935-1999). Confinados no quarto de um prostíbulo, um cafetão de nome Vado, uma prostituta, Neusa Sueli, e um homossexual, Veludo, falam de suas histórias marginais, seus feitos, levando ao extremo os óbvios antagonismos e enfrentando disputas e desafios até sob o fio de uma navalha. A censura não tardou em vetar a peça de vez até os estertores da ditadura, 13 anos depois, quando foi reencenada.  
Braz Chediak (Filmow)
Levada ao cinema pelo amigo Braz Chediak, em 1969, “Navalha na Carne” teve como protagonistas Jece Valadão, no papel do cafetão Vado, Glauce Rocha como Neusa Suely, a prostituta, e Emiliano Queiroz como Veludo, um empregado homossexual. Ao chegar ao seu quarto no bordel, Neusa 


é agredida por Vado, que a acusa de surrupiar a féria do dia. Juntos, chamam Veludo, imputando-lhe a culpa pelo furto. Tensão sobre tensão, o filme consegue fazer o espectador sentir-se “in loco” naquele quarto. É um privilégio contar com o depoimento que o cineasta Braz Chediak me deu com exclusividade, do qual reproduzo alguns trechos, na medida que o espaço me permite.
Os três personagens, segundo Braz, “estão ligados entre si por pertencerem ao mesmo universo particular, a prostituição, e ao mesmo universo universal: a miséria”. Quanto à sua psique na direção, ele revela “intimidade com este cenário, já que a iniciação sexual de todo jovem interiorano era na zona”, e que aos 18 morou “no coração da prostituição da Lapa”. Sobre o isolamento, lembra “Quem Tem Medo de Virgínia Wolf”(E. Albee) e “Um Bonde Chamado Desejo” (T. Williams), por exemplo, que mostram que “agressões e revelações só acontecem quando os personagens se confinam no mesmo ambiente”, e que Alfred Traps, de “A Pane”(Die Panne ), de Dürrenmatt, “suicida-se após o julgamento na casa onde buscou abrigo e se confinou”.

Marlon Brando e Vivien Leigh
Em Navalha na Carne, diz, “fui influenciado por diretores de filmes que vi na infância ou na adolescência. A cena em que Jece lava a cara da Glauce e a mostra no espelho (...) parece muito com aquela em que Marlon Brando lava a cara de Vivien Leigh em “Um Bonde Chamado Desejo”. “Manter um filme num ambiente único, em preto e branco, miserável, é muito difícil. Se facilitar, o público sai do cinema. Mas gritavam, aplaudiam, riam ou xingavam os personagens como se tudo estivesse acontecendo ali, na sua frente”.


ENTREVISTA COM BRAZ CHEDIAK

Henrique Autran Dourado: Como você vê um gigolô, uma prostituta e um homossexual praticamente centrados em um cenário de isolamento em um quarto de bordel?

Braz Chediak: São 3 personagens que estão ligados entre si por pertencerem ao mesmo universo particular, a prostituição, e ao mesmo universo universal: a miséria. Dois ambientes que levam as pessoas a um constante conflito, ainda que também à solidariedade, desde que sejam preservados seus interesses particulares. Isto foi o que primeiro pensei, quando li a peça, e quis passar aos espectadores do filme.

HAD: Como foi filmar a angústia, a loucura do bas-fond, e seu envolvimento psicológico no trabalho?

BRAZ:  Desde criança tive intimidade com este cenário, já que a iniciação sexual de todo jovem interiorano era na zona. Mais tarde, com 18 anos, morei no coração da prostituição da Lapa, no lendário Edifício Souza. Convivi com as prostitutas, os gigolôs e os homossexuais que ali viviam, fiz amizade, vi e ouvi suas vidas.
Sempre me identifiquei com esses personagens. Também a leitura de Dostoiévski me ajudou a compreendê-los com mais profundidade.
Fiz o filme sentindo ternura por todos os personagens, que considero a maneira certa de filmar, de um diretor que não é brechtiano.

HAD: Você veria semelhanças com outras situações de confinamento, no que tange à relação entre seres humanos, suas neuroses e seus defeitos?

BRAZ: Sim. No cinema mesmo:  se analisarmos “Quem tem medo de Virgínia Wolf”¹ e “Um bonde chamado desejo”², por exemplo, veremos que as agressões e revelações só acontecem quando os personagens se confinam no mesmo ambiente.
Na literatura também isto acontece. Veja, por exemplo, o personagem de “A pane”, de Dürrenmatt: ele se suicida após o julgamento feito na casa onde buscou abrigo e se confinou com os outros personagens.
E Raskólnikov³, quando está sozinho, confinado em seu quartinho miserável, tem um comportamento diferente de quando está em outro ambiente, dialogando, etc., etc.

HAD : Você, obviamente, teve contato com o Plínio para fazer o filme. Ele te passava esses sentimentos?

BRAZ: Ele era um amigo e saíamos juntos quando eu ia a São Paulo ou quando ele vinha ao Rio. Raramente conversamos sobre os filmes mas, em entrevista à imprensa, ele diz que gostou. Queria, a todo custo, que eu filmasse “Abajur Lilás”. Na época ele já não conseguia trabalhar, por perseguição política, e eu estava sendo visado, meus filmes sofrendo censura, etc. Ponderei a ele que seria perigoso fazermos o filme do jeito que eu imaginara. Ele compreendeu, concordou, e ficamos de fazê-lo mais tarde, mas isto não aconteceu.

HAD: Queria espremer os personagens para ver o caldo daquilo, e como diretor deu para sentir isso?

BRAZ: O Plínio, como o Nelson Rodrigues, não dava palpite nos filmes (pelo menos comigo). Raramente ele aparecia, via um copião e sempre dizia com aquele jeito dele: “Caralho, Chediak. Tá du caralho!” e desviava o assunto para contar as histórias que ele conhecia do submundo paulistano ou do meio teatral.

HAD: Você sentia com ele a angústia desse convívio entre pessoas cujos papeis na vida são tão diversos, dividindo um mesmo espaço?

BRAZ: Não. O trabalho do autor é um trabalho solitário. O diretor trabalha com um roteiro já escrito e estudado várias e várias vezes. Suas angústias são anotadas como uma rubrica para conversar com os atores. Em geral o diretor tem um roteiro que não mostra a ninguém porque só ele entende. No Navalha na Carne tive a colaboração importante do Emiliano Queiroz, que conhecia bem a peça.
E, instintivamente, fui influenciado por diretores de filmes que vi na infância ou na adolescência. A cena em que Jece lava a cara da Glauce e a mostra no espelho, por exemplo, parece muito com a cena em que Marlon Brando lava a cara de Vivien Leigh em “Um bonde chamado desejo”. É o subconsciente trabalhando.
Quando o diretor Italiano Giorgio Moser, palma de ouro em Cannes com “O Continente Perdido”, viu o filme, me disse que eu tinha obsessão por escadas. Só depois, pensando a respeito, vi que era verdade. Sempre fui fascinado por escadas de pedra, não sei o motivo.
Mas voltando à sua pergunta: é bom o diretor ter o filme pronto na cabeça, senão se confunde e pode perder o ritmo. E manter um filme num ambiente único, em preto e branco, miserável, é muito difícil. Se facilitar, o público sai do cinema.
Com Navalha o foi o contrário: o público gritava, aplaudia, ria ou xingava os personagens como se tudo estivesse acontecendo ali, na sua frente. Foi bom fazer o filme.

HAD: Muito obrigado, Braz Chediak.

Notas:
1.     1. Edward Albee
2.   2. Tennessee Williams
3.   3. Personagem de Dostoiévski em “Crime e Castigo”


[No link abaixo, Plínio Marcos fala das filmagens de suas peças, com especial deferência para Braz Chediak e seu “Navalha na Carne”.Obs.: avance para 1 min]




sábado, 12 de agosto de 2017

DEUS É O POETA. A MÚSICA É DE SATANÁS

Casarão, hoje demolido, onde morou Machado de Assis, no Cosme Velho
“..., jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passado sem mais nada se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera do qual abrira mão, por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno”. Trechos do capítulo IX de Dom Casmurro, do Machado de Assis, o chamado “bruxo” do Cosme Velho, tradicional bairro carioca.

(Michael Thompsett)
Quando alguns incrédulos me perguntam por que as desgraças acontecem, “então Deus não existe! Não poderia ter evitado?”, dá vontade de mandar ler Machado de Assis. Deus não é personagem ou mesmo ‘comprimário’ (papel secundário ou figurante), como bem mostrou o sábio escritor carioca. Satanás está presente, sem chifrinhos e rabinho, claro, em nome do mal, com sua regência malévola. Machado fez esse achado literário que tem um significado muito mais profundo do que aparenta ao leitor desavisado. A Deus não restou alternativa, chamou Satanás e mandou-o reger bem longe Dele. Caiu em palco que calhou por azar de ser aqui, na Terra.

Salto várias décadas, de Machado para os Rolling Stones – isso mesmo, o grupo de rock -, e seu sucesso Devoção ao Demônio (Sympathy for the devil), música que inspirou um filme de Godard no final dos anos 1960. Sem conhecer Machado de Assis - infelizmente, pois se tivessem lido teriam feito ainda melhor -, a banda de rock tocou a versão de Keith Richards e Mick Jagger: “Por favor permita-me conhecê-lo, sou um homem de riqueza e gosto”. “Roubei muitas almas do homem para esbanjar”. “E eu estava perto quando Jesus Cristo teve seu momento de dúvida e dor” (N. do A.: ‘Deus, Deus, por que me abandonaste?’). “Exigi que Pilatos lavasse suas mãos e selasse o destino dele” (N. do A.: de Cristo). “Prazer em conhecê-lo, espero que adivinhe meu nome / mas o que te perturba / é a natureza do meu jogo”.

Anastasia Nikolaeva
E assim os Stones, creia, eles, mostram o perfil do demônio na Terra, o próprio falando de Satanás na primeira pessoa: Matei o Czar e seus ministros, enquanto Anastasia gritava em vão. Também passei pelos tanques de guerra nazistas em blitzkrieg. E gritei “quem matou os Kennedy, quando afinal fomos você e eu”. O demo disse que se cada policial é um criminoso e todos os pecadores santos, como cabeças são traseiros, apenas “chame-me Lúcifer porque eu preciso que alguém me contenha”.

Auschwitz
A poesia dos longevos ídolos do rock faz ironicamente um duo com a tese de Machado - que se compreendida muito pode explicar. As batalhas, as grandes guerras mundiais, os campos de concentração, as perseguições aos judeus – e agora aos islamitas -, aos armênios, a insanidade de Hitler, a prepotência de seu admirado Mussolini, a era Stalin, as ditaduras, torturas, perseguições e Inquisição no mundo inteiro não são atos, de forma alguma, da lavra de Deus, e sim do abusado maestro, que rege a partitura. E assim como quem está sempre presente nas coisas do mal descritas pelos Stones, eis o personagem maléfico pairando sobre os EUA, a Venezuela, os enormes propinodutos subterrâneos da corrupção brasileira que faz povo sucumbir ao desemprego e à fome. Síria, Coreia do Norte, os delírios de Putin, os grupos terroristas que se intitulam islâmicos sem seguirem o Corão, a miséria no mundo. Deus fez a partitura, mas o diabo é que Satanás é o maestro! Salve Machado de Assis!

Todos agradecem quando “Deus salva” uma vida, mas ninguém culpa o Pai quando a pessoa morre. Resignam-se: Deus assim o quis. Se Deus salva por meio de uma cirurgia, é pelas mãos de algum “comprimário” comprometido com o bem. Mas esse médico não tem o controle absoluto da situação exatamente porque lhe falta o domínio sobre a morte - no caso, a ciência ainda não avançou a esse ponto, e nunca vai chegar lá. Ele apenas possui o estudo, o bom coração e a boa vontade com que trata seus pacientes. Tampouco a morte do doente foi culpa do diabo, que apenas rege, mas não toca.

Os músicos de nossa orquestra também erram, pois são filhos do Pai, o grande poeta que desistiu da partitura. A questão do bem e do mal existe desde sempre, e na filosofia é assunto inesgotável, assim como os mistérios da vida e da morte. Está muito acima de nós, reles músicos, e até os solistas, coadjuvantes e figurantes. Somos submetidos aos implacáveis desígnios rabiscados no ar pelo maestro e sua regência, e nos resignamos quando o maestro compromete o bom andamento da obra, cabendo a nós repudiar os erros de condução ou quando a partitura da orquestra tem alguma grande aberração que transforma a bela ópera da vida em um verdadeiro inferno.  


Como bem disse Machado de Assis, Deus é o poeta, a partitura foi levada para o abismo de onde rege Satanás, ópera cuja direção temos de acatar por imposição. Apenas podemos tentar tomar as rédeas quando há o necessário suporte da Administração Superior, dando-nos ferramentas para a vitória. Porém, após cada embate, ao final Satanás sempre volta, enquanto nós, pobres músicos, apenas nascemos, morremos, somos substituídos por outros que prosseguem obedecendo à partitura e à pontaria ameaçadora da cruel batuta do capeta. Não tive o menor “prazer em conhecê-lo”, devolvo retribuindo Lúcifer na apresentação do dos Rolling Stones. Mas passei-lhe a perna porque adivinhei seu nome. E sei da natureza do seu jogo!

sábado, 24 de setembro de 2016

EU TE SAÚDO, MARIA

Do original, em grego
Je vous salue, Marie, é o início da oração Ave Maria, em francês (Je vous salue, Marie, pleine de grâce), com que o arcanjo Gabriel anuncia à escolhida que seria a mãe do Salvador (Lucas, 1:28). Dá título a um filme (1985) do mestre do moderno cinema francês Jean-Luc Godard, que transpõe a anunciação de Maria para o mundo moderno, com personagens mundanos e atores comuns. Detalhe: Godard era anarquista, e, como todo ateu de grande inteligência, tinhas suas frequentes recaídas na fé.

A Marie de Godard
No filme, Marie é uma estudante que ajuda seu pai em um posto de gasolina e gosta de jogar basquete. Orgulha-se de sua virgindade e mantém um relacionamento casto com seu namorado Joseph, motorista de táxi que abandonou a escola, e que se mantém fiel a Marie mesmo tendo ela negado reiteradamente deitar-se com ele. 


A anunciação (detalhe): Fra Angelico, 1426
Um senhor chamado Gabriel surge para anunciar à casta Marie sua gravidez. Ela fica absolutamente transtornada e decide relatar a Joseph o acontecido. O jovem, enlouquecido, a acusa de traição, mas Gabriel intercede para convencê-lo de que sua Marie daria mesmo à luz o filho de Deus, e que Joseph deveria aceita-lo com fé. Simbolicamente, Marie encontra algumas respostas em suas orações, entre visões de elementos como o sol, a lua e água.

Correndo em paralelo, Eva, também estudante, tem um caso com seu professor, que a seduziu com um “xaveco” sobre ela ser uma superdotada, especial, fazendo uma trama cotidiana em contraponto. A história paralela de Eva mostra a dúvida de fé de Godard no mistério da Virgem, como era difícil para ele entender um texto bíblico frente à sua realidade, mas o filme prossegue com Marie se casando com Joseph e, sem ser por ele tocada, dá à luz um menino, que cresce e cedo sai de casa para assumir os negócios do Pai, clara referência à missão de Jesus na Terra. E Marie, enfim, que o havia amamentado, descobre seu corpo de mulher, humana que é.

Alphaville, de Godard
O filme, claro, chocou alguns países mais conservadores, e no Brasil foi proibido por José Sarney, então presidente, autodeclarado devoto de Nossa Senhora (mas nunca visto como dono dessa pureza como político. A Argentina, claro, também proibiu). Na França, berço da chamada Nouvelle vague (no Brasil, Cinema Novo), Godard se tornara, já de há muito, um ícone da chamada sétima arte. Dos filmes a que assisti marcaram-me Desprezo, de 1962, e Alphaville, de 1965, um lugar fictício em que era proibido o amor e todos os cidadãos eram controlados por um supercomputador (Alpha-Soissante) - qualquer semelhança com os dias de hoje, meio século depois, é mera coincidência.

Weekend
Adorei Pierrot, le Fou (Pierrot, o Louco, também de 1965), com Anna Karina e Jean Paul Belmondo, cujo título, traduzido para o português, é lastimável: “O Demônio das 11 Horas”. Outros foram Duas ou Três Coisas que Eu Sei Dela, A Chinesa, de 1967, inteiramente rodado em um cubículo, e Weekend à Francesa (1968), uma crítica à classe média parisiense, que no fim de semana saiu da cidade e engarrafou as estradas para a praia de tal forma que, parados, os carros em fila tornam-se mesas de pôquer ou de comida, alternando alguns acidentes, mais adiante as crianças brincando, uma vida comunitária forçada muito mais neurótica do que a da capital que deixaram para descansar. O filme é um marco por trazer o talvez mais longo travelling da história do cinema: a câmera desliza sobre um longo trilho, filmando por onze minutos em movimento constante a fila de carros e as loucuras dos parisienses que aconteciam no engarrafamento.

Stones no estúdio, com Godard
Um filme marcante foi One Plus One: Sympathy for the Devil (Devoção ao Demônio, de 1968), em que Godard faz uma salada de ideias, verdadeira loucura. Há ensaios do grupo Rolling Stones tocando a música que deu título ao filme (“Por favor, permita me apresentar / sou um homem de riqueza e bom gosto”), contando a história do demônio na Terra. 


Sympathy for the Devil
A letra fala desde “eu estava perto quando Jesus Cristo / teve seus momentos de dúvida e dor” até a morte dos czares, e, na época, no original, até quando Guevara foi assassinado. “Encantado em conhece-lo / espero que tenha descoberto meu nome”, diz o demônio. Os ensaios no estúdio são perpassados por cenas de jovens lendo poemas de Mao-Tsé-Tung enquanto andam entre pilhas de carros em um desmanche, e outras cenas totalmente surreais.

Pier Paolo Pasolini
Voltando ao mistério de Maria e José, um contemporâneo de Godard, também ateu, mas comunista e homossexual assumido, o italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975), é autor de uma obra-prima, Teorema, de 1968, em que um jovem, interpretado pelo ídolo das garotas da época, Terence Stamp, seduz família inteira, levando o caos ao seio de um lar burguês. 


O Cristo de Pasolini
Pasolini filmou com não-atores seu Evangelho (Il Vangello Secondo Matteo) em 1964. Buscava a imagem com que visualizava Cristo, judeu palestino, interpretado por um rapaz pobre, franzino e de rosto comum (nada de branco loiro com olhos azuis). Recaída de fé de outro intelectual ateu engajado politicamente, como Godard! O francês, anarquista, e o italiano, comunista. 


O velho e bom Cine Paissandú
Entre esses e Antonioni, Resnais, Bergman, Costa-Gravas, Glauber, Diegues, vivi uma juventude muito rica. Ia ao Cine Paissandu, frequentado pela turma mais esclarecida, onde vim a ser apresentado e conhecer um solitário frequentador, Milton Nascimento. Verdade que cabulávamos aulas do colégio de padres para ir ao cinema, mas o que perdíamos em classe era recuperado e, acima de tudo, coroado por um conhecimento bastante amplo de uma arte que não existe mais: perdeu para Hollywood, com seu cinema pasteurizado, modelo imposto ao mundo. Hoje há séries e filmes como Narcos, Capitão América, Cidade de Deus, Harry Potter, Ghostbusters e Hobbit, efeitos sobre efeitos produzidos em computadores e pouca riqueza de conteúdo e objetivos. Ah, e novelas da TV. Não sou contra, mas também não costumo frequentar. Só que o meu cinema sumiu. Uma pena.