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Mostrando postagens com marcador Nelson Rodrigues. Mostrar todas as postagens
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sexta-feira, 3 de setembro de 2021

A INFORMÁTICA NÃO É, DE TODO, UM MAL

 


Há muitos anos
li uma frase de autor desconhecido, apesar das especulações de sempre, que considero genial: “A informática veio para resolver problemas que antes nunca existiram”. Parece anedota, mas é ‘verdade verdadeira’, como diz o popular, figura de linguagem usada até mesmo no meio jurídico. Basta pensar na informática em si, um campo em que a cada hora se cria uma novidade. Logo surge um vírus, um trojan, o diabo, fazendo com que o mundo consuma mais dinheiro na pesquisa e fabricação de ‘antídotos’ para cada nova cepa de pandemia digital. E, claro, na ponta é sempre o consumidor quem vai pagar o pato e a fatura.

A "Geração Espontânea", de Darwin

Golpes de toda monta
surgem como fossem a geração espontânea imaginada por Darwin: brotam em árvores para assaltar o “cidadão de bem”, termo já bem desgastado pelo sectarismo de hoje. E quando se pensa que tudo está sob controle, surge uma nova invenção (como diria o Nélson Rodrigues, para seduzir a ‘massa ignara’ - leia-se: todos nós). Veja o whatsapp: um aplicativo multiplataforma para celular que se transformou em fonte de golpes e ferramenta de extorsão. Amigo ou parente que teria mudado de número escreve para pedir dinheiro ao incauto cidadão – “é só pra cobrir uma despesa e amanhã devolvo”... Só que, no caso, amanhã não vai ser outro dia, esse amanhã nunca virá.


E há o novo golpe
(Folha, 28/08), com o logo do Ministério da Saúde, sobre a 3ª dose da vacina: o sujeito recebe mensagem dizendo que foi sorteado para a inoculação extra, bastando apenas clicar no link do fabricante desejado. Mas...Todos os caminhos levam a Roma, e todos os links entregam o cidadão ao hacker.


Vem o Banco Central
e lança mais uma invencionice eletrônica, panaceia para todos os males financeiros que aparentemente veio para privilegiar os mais pobres – os que possuem celular, bem entendido. Talvez para fazê-los viver o charme discreto das classes mais altas, que passa TEDs, DOCs e afins: o PIX (de pictures, ou ainda pixels, em inglês).


A nova ‘pedra filosofal’
parece transformar latão em ouro fazendo do pacato cidadão um pagador à vista - que seja de três vinténs, como na peça de Brecht e Weill (1928) adaptada da “Ópera dos Mendigos”, de John Gay. Orgulhoso, ele saca seu celular e paga, toca a pagar, é tão fácil, não? O negociante, ou credor, agradece penhoradamente.  É a maravilha, salvo-conduto para a Pasárgada de Manuel Bandeira - “tem um processo seguro / de impedir a concepção / Tem telefone automático / tem alcaloide à vontade...”

(folhadaregiao)

No dia 26 de agosto
, o Estadão publicou matéria que escancarava o título “Roubo com PIX dispara em SP; sequestros-relâmpagos crescem 39%”. E descreve uma cena dramática: André Chaves e sua noiva param em um sinal vermelho no centro de São Paulo. Em um segundo, o vidro da passageira é estilhaçado, um sujeito rouba o celular e foge por entre os veículos. Resultado: em meia hora Chaves havia perdido R$ 5,8 mil, transferidos via PIX. Pior ainda são os que envolvem o sequestro do dono do celular que, ao toque do cano gelado de um 38 ou uma .40, transfere tudo o que tem para a conta que o bandido mandar. Na garupa do roubo, vem ainda o perigo de estupros, agressões e mesmo assassinatos. A depender da fragilidade da vítima, basta uma faca de cozinha para consumar o crime.

"Bob Fields", à direita, e Castelo Branco

No dia seguinte
, 27 de agosto, novamente segundo o Estadão, a Polícia fez soar o alarme da escalada vertiginosa dos sequestros-relâmpagos, 39%, e logo o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, anunciou mudanças para prover melhor segurança às operações com o PIX, falando em uma salvadora limitação no horário das transações. Neto do ultra-ortodoxo economista Roberto Campos, ministro do governo militar de Castelo Branco tido como “americanista” e "entreguista" pelos críticos – de onde o apelido “Bob Fields” -, o atual presidente do BC não prima pela argúcia do avô, personagem de parte de nossa triste história: a maior vantagem do PIX, para os bandidos e sequestradores, é exatamente poder levantar sua féria em plena luz do dia, sem que ninguém - ou quase – perceba, fazendo sua operação tão rapidamente quanto um mago prestidigitador. Ou discretamente, com a vítima sob sua mira. Após as 20h, só se poderá “pixar” (e vamos neologizando) até R$ 1 mil. Não sabe o ilustre presidente do BC, nascido em berço de ouro, que R$ 1 mil é muito dinheiro tanto para a vítima pobre quanto para o bandido pé de chinelo! Portanto, às favas com limitações de horários. E esqueçam os sensores biométricos, que reagirão sob os dedos das vítimas conforme a dança e à medida que lhes é apontado um cano de arma ou o brilho de um punhal.


Particularmente
, torço o nariz para bancos e nuvens virtuais, prefiro o convencional, sem pequenas operações via PIX ou investimentos milagrosos em Bitcoins. Sem lenço nem documento, lembro Caetano, eu vou.  Ouço sobre muitos outros problemas relacionados ao novo sistema de transferência do BC, como aquele digitozinho a mais que escorrega na operação e não tem volta; o pagador depende da boa-fé de quem recebeu por engano ou lá se vai seu pouco mas rico dinheirinho. Pior de tudo, o PIX é um atrativo também para engambelar sob coação as presas mais fáceis, já que qualquer um pode usá-lo: adolescentes, moças e idosos, deixando-os vulneráveis a ainda outros malfeitos.


Com a economia em frangalhos
, os preços nos píncaros, o desemprego chegando a 15%, o comércio estagnando, a Selic prometendo chegar a 8% na virada do ano e a comida escassa em incontáveis residências, seriam esses novos gadgets eletrônicos uma espécie moderna de ‘ópio do povo’, mais um factoide a dourar a pílula, já tão amarga, da sobrevivência neste país?



 

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

TRAPALHADAS POLÍTICAS NA MÚSICA BRASILEIRA – FINAL

Comício Diretas Já
Entre os músicos, a coerência política é qualidade nem sempre presente em suas relações com o Poder Público (mais precisamente, os nobres ou governantes de plantão). Nisso alguns de nós são favorecidos, é claro, pela reconhecida tendência do povo brasileiro à rápida perda de memória - e não é preciso cairmos em tentação ou conclusões radicais e de gosto duvidoso, como professava o imortal teatrólogo Nélson Rodrigues, que dizia que a massa é ‘ignara’, é burra. Exemplo desse tipo de camaleão político é certo regente mediano que conseguia se locomover como papagaio dos piratas entre as multidões que se comprimiam nos comícios das Diretas Já (movimento que, em tempos recentes mas também já um pouco esquecidos, brigava-se pela volta do sufrágio direto para presidente, acreditem os jovens se quiserem). Também havia colocado sua arte nas mani­festações pela legalização dos partidos de esquerda, até o PCdoB, então proscritos, com a mesma desenvoltura com que, em passado nem tão remoto, animava com seus corais as festas comemorativas do golpe de 64 (daqueles mes­mos militares responsáveis pela extinção do direito de voto e de organizações e partidos de esquerda que ele depois defenderia com pátrio fervor). Gênero volátil, que sabe reger conforme a música.
O grande Lamartine Babo (radiobatuta)
Há casos de espertos apolíticos, distantes de rixas, como o composi­tor de marchas carnavalescas Lamartine Babo (1904­-1963), torcedor do América Futebol Clube do Rio de Janeiro, time para o qual compôs o hino oficial ("pois a torcida americana é assim..."). Sob pressão dos rivais, para que não o acusassem de proteger o próprio time com seu farto talento musical, Lamartine escreveu, entre outros, o hino do Flamengo ("Flamengo, Flamengo, sua glória é lutar..."), do Botafogo ("Botafogo, Botafogo, campeão de 1910...") e do Fluminense ("Sou tricolor de coração..."). Detalhe históri­co: a letra de Lamartine para o hino do Botafogo teve de ser mudada para "campeão de mil novecentos e sete", em virtude de descoberta arqueológica que bons tempos depois apontou aquele ano como o do primeiro campeonato. Não é gozação, mas soou esquisito.
Cidade de Deus, em Osasco, SP. Vista aérea ainda em fase de construção
Por fim, não se pode confundir ecletismo com interesse: lá pelos idos de 1982/83, a cúpula do Bradesco mantinha, na Cidade de Deus, uma espécie de laboratório para lavagem cerebral de famílias de bancários em Osasco, um gueto pródigo em colaboração com organizações pararreligiosas e de laços estreitos com o regime militar. Certa vez, aconteceu ali um concerto fa­buloso. Revezavam-se como narradores o comediante Lúcio Mauro e a atriz Elizabeth Savalla, malvistos pelos artistas que não comungavam do regime de exceção, sobre um palanque erguido em um parque tomado por um oceano de crianças ‘espontaneamente’ arrastadas para aquela grande jornada cívica. A profusão de bandeirinhas do Brasil dificultava enxergar até mesmo o pouco que ainda havia de grama sobre o chão. Parecia coisa do Estado Novo, ou de algum daqueles famosos regimes europeus da primeira metade do século 20.
Entre arroubos cívicos, apologias ao poder instituído (e não constituído) e outras manifestações, uma sinfônica do interior apresentou-se sob a batuta de seu incansável regente, em uma de suas intermináveis exibições, tão longas que quase wagnerianas. Depois daquele inusitado espetáculo cívico, como peixes fora d'água, os músicos da orquestra saborearam o tradicional lanche de água mineral com tangerina, sem saber o que foram fazer ali mas engolindo com apatia o azedume da fruta e o amargor da festa. Obrigações de funcionário público.
Sid Vicious em show
Assim como houve regentes de canhestras ligações políticas no passado, houve quem conseguisse apaga-las em prol de um futuro mais próspero e menos comprometedor. Da mesma forma, tanto quanto o punk Sic Vicious, que se automutilava nos palcos para deleite da plateia, há os que sensibilizam fãs exibindo sua "mutilação" (verdadeira ou não) via crucis, exposição pessoal em prol de dividendos. Mas já o auto-flagelo do punk Sid Vicious foi real e um outro viés, uma nova abordagem da compaixão alheia. 


A qualidade musical passa a não render tanto, mas assume contornos de uma espécie de São Sebastião, mártir francês do terceiro século  perseguido por Diocleciano, imperador de Roma. Amarrado a um tronco, Sebastião foi flechado várias vezes, tendo seu rosto sido retratado com expressões entre fé e sofrimento, nas antigas ilustrações. Entre essas figuras do punk-rock e as dos clássicos que expõem sua dor há quase que um reverso do espelho, ou seja, o espectador vê o que deseja ver, seja o sofrimento real ou o virtual.
André Rieu
Regente é quem está regendo, lembro pela enésima vez, e maestro é o mestre. Um que faz sucesso com suas habilidades de showman sem se meter em política e pouco sabendo reger é o holandês André Rieu. Adepto da chamada easy listening, só rege valsas de Strauss como O Danúbio Azul e música popular romântica e melosa. Como violinista, não passaria em uma prova para a OSESP. No entanto, respeitando o gosto de cada um, tem grande espaço na mídia e atrai multidões mesmo cobrando ingressos caríssimos. Seu passado parece ser limpo, sem ligações políticas duvidosas, a não ser as naturais de quando precisa “vender seu peixe”, parece que dentro da legalidade.

Narciso. Uma obra-prima de Caravaggio
Creio apenas que ele se excede ao apresentar crianças-prodígio, ‘candidatas a Mozart’, o que também arrebata plateias – muito embora os infantes sejam comparáveis, para dizer o máximo, a pencas de crianças talentosas de nossas escolas de música do Brasil. Com esses passes, emoldura seu espelho. Pois Narciso, como se sabe, acha feio o que não é espelho.