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sexta-feira, 14 de outubro de 2022

TIPOIAS, SISTEMAS PÚBLICOS DE SAÚDE, PARALELISMOS

 

(CNN)

Às
vezes, rascunhando um texto, somos atropelados por alguma ideia. Daí nos lançamos a pesquisar outros problemas, e quem sabe ainda aprender alguma coisa mais de nosso idioma. Explico. Ao sentar-me para escrever, fui desviado do tema escolhido: minha filha Marta me liga de Londres e avisa que Thomas, meu netinho de 8 anos, fraturou a clavícula. Pânico: assim de longe, tudo parece visto com lupa, a mente não tem limites. Conhecendo o NHS, sistema de saúde londrino, fiquei mais tranquilo, e esperei (o National Health System foi criado no pós-guerra para acesso irrestrito e gratuito de todos os cidadãos. Medicina privada existe, mas é para uns raros aquinhoados que, na emergência, correm para o NHS, claro).


Exame
geral, chapa de raios-x, laudo: fratura na clavícula. Nada grande, chororô, muita dor, um sling de gaze e pronto. A médica disse que ele poderia tirar para dormir, houve quem dissesse que não. Eu, daqui, fiquei com meu bom senso e a palavra dela – são pessoas que inspiram preparação e confiança - e a lógica: o sling é um suporte para retirar o peso do braço do ombro quando sentado ou de pé. Daqui mesmo, de Tatuí, comprei um sling especial, em uma grande loja de departamentos de Londres.  Uma tipoia chique, que abriu caminho para uma nova lição: eu sabia de slingshot, conhecido aqui pela forma abrasileirada de ‘estilingue’ - atiradeira, ou ainda bodoque. O termo remete a funda, uma faixa que, girada no ar, lança uma pedra, tal como fez Davi para derrubar Golias.


Em
menos de 24h, o sling que comprei chegou na residência da minha filha, para conforto do moleque. Confortável, leve, ajustável, fácil de colocar e tirar. Segunda lição: de onde tipoia, se em inglês é sling? Dicionário. Claro, tipoia só podia vir do tupi, ti’poya, “barraca feita de folhagem”, dada a semelhança com a cobertura de uma oca. A palavra gerou outras, tão rica que é nossa língua portuguesa brasileira, acepções como “espécie de rede com que as indígenas mantinham os filhos às costas ou escanchados nos quadris”. Notável! Refere-se a apoios de tamanhos diversos, e eis enfim o ‘nosso’ significado: “tira de pano que se amarra ao pescoço para apoiar braço enfermo”. Quanta riqueza, quanta história aprendemos com os indígenas brasileiros de todas as etnias, quanto vocabulário! Se pesquisarmos a fundo, há uma vastidão de palavras e costumes que enriquecem nossa cultura e a dos que estavam aqui antes de nós (só temos a agradecer e pedir desculpa, mea culpa, pelo descaso ou violência de alguns).



stoneclinic.com

Volto
ao Brasil de doze anos atrás, quando meu filho Pedro, hoje engenheiro, era um meninão uns 4 anos mais velho do que meu neto hoje. Também jogando futebol, em São Paulo, caiu, machucou-se, foi levado a um hospital particular distante, na Zona Sul, e... Clavícula fraturada. A médica que o atendeu disse que teria de operar, e passou a descrever com detalhes como seriam as cirurgias (sim, duas, uma para fazer o serviço e outra para desfazer) – isso, na frente do menino, já pálido! Corri daqui para São Paulo e levei-o a uma clínica especializada na Vila Clementino. Não, nada de cirurgia, não é o caso, só tipoia, disse o médico. Trouxe-o a Tatuí, onde ele morava comigo, e mais uma consulta, com um ótimo ortopedista da cidade (e há vários!): tipoia. Nossos médicos falam a língua dos tupis-guaranis, quem diria. Assim, livrei-me do procedimento invasivo da médica de São Paulo, além das implicações que poderiam advir para o garoto, inclusive psicológicas, uma vez que ele já teria passado por uma torturante cirurgia imaginária ao assistir à descrição pormenorizada do procedimento.  Mas não. Com a tipoia, algum tempo depois tudo isso era assunto esquecido.


Fora
a parte léxica, houve a visão médico-hospitalar de dois países com sistemas públicos diferentes, gratuitos e para todos (a rede privada inglesa é para a mais casta elite, apenas). O NHS do Reino Unido – que na verdade são três - os NHS England, Scotland e Wales - foi criado em 1948, três anos após o fim da Segunda Guerra, e é 100% custeado com dinheiro público. No Brasil, quarenta anos depois, a Carta de 88, chamada “Constituição Cidadã”, criou o Sistema Único de Saúde, à imagem e semelhança do NHS. O sistema inglês consome 45% dos gastos em bens e serviços de Saúde (fonte: ONS, 2001 Census). As despesas governamentais chegam a R$ 14,5 bi (câmbio de 7/10). Quanto a nós, o site Transparência Brasil do mesmo ano (2001) pede desculpas mas... está “fora do ar”. Diz o federacaors.org.br, o Ministério da Saúde, principal mantenedor, o SUS recebeu um corte de 20% no orçamento de 2022.

Klinik NHS

Se
o nosso sistema público ainda não chega àquele NHS dos bons tempos, é pura questão financeira: orçamento cortado, rendimentos baixos, falta de equipamentos e aparelhos de todos os tipos, instalações, medicamentos e insumos. Lá, os salários vão do básico, R$ 14.130,00, ao do especialista, R$ 24.290,00, pelo câmbio de 7/10 (fonte: The Complete Guide to NHS Doctors, in BMJ Careers, 22/08/22). Isso, fora extras, bônus e gratificações. Mesmo considerando o custo de vida inglês, a diferença é gritante.


Em
decorrência dessa fratura na clavícula vim a descobrir que o sling inglês nada mais é do que uma tipoia ajustável, de material sintético. A origem da palavra tipoia é riquíssima, e traz à lembrança o grande Mário de Andrade, com sua ironia modernista: “Você sabe o francês singe, mas não sabe o que é guariba? Pois é macaco, seu mano, que só sabe o que é da estranja”.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

RETROSPECTIVA INTROSPECTIVA E O BANQUETE DOS MENDIGOS

 


TVs, jornais, revistas, Internet. Por todos os meios, nos últimos dias do ano passado houve uma avalanche de retrospectivas, depoimentos ou flash-backs, como se dizia dos trechos de antigos filmes lembrados no presente. Em sua primeira acepção, O Houaiss define retrospectiva como “uma exposição em que se apresentam as obras de um artista, de uma escola, com perspectiva histórica, mostrando a respectiva evolução <o museu fez uma r. da obra de Lasar Segall>”. Interessante definição, além da costumeira a que me referi no princípio, até porque temos visto mais um retrospectivo (s.m.), “relativo a fatos passados; que se volta para o passado” - desde o advento da telinha, um flash-back picotado do que se foi com o ano velho.


Quem nasceu de quem
, quem morreu entre as ‘celebridades e famosos’, especialmente em tempos de pandemia, deram o tom dessas coleções de ‘quadros em uma exposição’, que depois começam a se diluir nas névoas dos dias, meses e anos. Houve o que se pinçar entre uma coisa boa aqui e outra ali: feitos olímpicos, medalhas, maratonas, casamentos de ricos e famosos (feitos ou desfeitos com  estardalhaço pela mídia). O cidadão comum, excluído, é o pobre neste rol de assuntos, as alegorias de que contarei a seguir.


Tudo lembra O Banquete
, obra derradeira e inacabada de Mário de Andrade da década de 40. No livro, o autor faz um contraponto entre os pratos estrangeiros, sedutores e muito vistosos, e os nacionais, talvez de maior riqueza em sabor, mas de nem tão atrativo glamour. Trata-se de um paralelo com o que acontecia musicalmente na época, quando Andrade pedia que os compositores ‘transpusessem’ elementos do folclore nacional à música de concerto. No banquete, degustavam e comentavam sobre música quatro entre cinco convidados: a anfitriã, apreciadora das manifestações artísticas, uma cantora famosa, um político benfeitor das artes e um compositor esquecido e pobre.


Ópera do Mendigo
é o título em português para The Beggar’s Opera, de John Gay (1724) – também título e capa de um álbum dos Rolling Stones de 1978 -  dois séculos mais tarde adaptada por Bertold Brecht e Kurt Weill como A Ópera dos Três Vinténs (1928), sempre tendo como fio condutor a discrepância entre as classes sociais e o fruir artístico – banquete não muito diferente em sabor filosófico do descrito pelo nosso Mário de Andrade. O assunto também ressurge com Chico Buarque (Ópera do Malandro, 1978).


Os banquetes jornalísticos
de encerramento do ano serviram-nos de tudo, com escassos pratos finos e iguarias apetitosas, porque houve muito mais tristezas, acidentes, doenças, mortes, catástrofes nas mesas simbólicas das telas e monitores. Em várias retrospectivas parece que nos ofereciam a parte dos mendigos no banquete, e não a da finesse, que terminou por não se sobressair perante os vendavais negativos por que passaram o mundo e o país. No réveillon, descortinou-se um novo ato da ópera da vida: fogos de artifícios ao redor do mundo iluminaram esperanças, a fé em tempos melhores e na cura, se não para todos os males, ao menos para os que mais nos afligem e amedrontam, e que ameaçam tomar-nos o que temos de mais precioso neste banquete: nossas próprias vidas e as dos que nos são mais próximos.


Contra a ameaça de variantes
arrasadoras da Covid, exaltou-se a ciência das descobertas, vacinas de diversos tipos em vários centros do mundo fazendo o que era angústia e medo transbordar em lágrimas de felicidade nos olhos, no instante mágico da inoculação. Sim, elas foram as protagonistas da grande ópera de 2021, e continuarão sendo em 2022. Depositemos nos cientistas, vacinas e medidas protetivas nossas esperanças e a imensa fé no porvir – que, não curiosamente, também serve de alívio para a amargura dos esfomeados, vítimas de incêndios, alagamentos e outras catástrofes. As vacinas inocularam corações e mentes com esperança por dias melhores, além de protegerem nossas vidas na forma do controle ora possível pelas mãos de profissionais abnegados – cientistas, médicos, enfermeiras e técnicos. Entre tantos infortúnios, pensando na vacina como o “biscoito fino” - expressão do velho Mário de Andrade - a que o povo tem tido acesso, providencialmente serviu-se à mesa para que todos tenham sua cota de iguarias e a possibilidade de degustar o que é lhes justo e de direito. Devemos isso ao Sistema Único de Saúde, criado pela Constituição de 1988 à imagem e semelhança do NHS britânico do pós-guerra, sistema que nos provê bálsamo e salva-vidas, apesar do descaso e da inoperância dos que têm por obrigação mantê-lo.


Haveremos de varrer para trás
o que ficou de ruim e buscar esperanças, abrindo caminho para o ano que se apresenta em longa e árdua batalha pela frente. Onde houve trevas, que surja a luz, onde faltou pão que haja o que comer - seja por lídimo direito ou pelo exercício da solidariedade entre os homens, a chamada fraternidade. Contra as guerras, que sejam ouvidos os clamores pela paz e flutue aos quatro ventos a bandeira branca nas mãos de todos; se males foram perpetrados pelo apetite incontrolável de tiranos, poderosos e bandidos insaciáveis neste grande banquete passado, que no futuro sucumba diante daquilo que é predestinado por Deus e pela natureza para vencer e consolidar um mundo melhor: o bem.



Diante de todo o dito ou não dito, concluo lembrando uma celebração meio esquecida: 1º de janeiro foi o Dia da Fraternidade Universal! 

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sábado, 27 de março de 2021

SAÚDE!

 


Do latim salus, utis, no sentido de ‘salvação, conservação da vida’ [Houaiss], de onde ‘saudar’. Em várias línguas latinas, como o português, a palavra soa no mesmo tom: salud, em espanhol e salute, italiano, e costuma associar a nossa mente àquele brindar de champanhe, festas, coisas alegres, entretenimento fantasiado de alegria. Desejamos saúde também nos aniversários como o bem mais precioso da nossa existência, e antes do sucesso na carreira ou coisas materiais. Há quase um século, Mário de Andrade, o do Macunaíma, ironizou: “muita saúva e pouca saúde os males do Brasil são” (interprete livremente a “saúva” como qualquer mal que destrói, e saúde nosso bem) maior).


Ser saudável, na concepção pós-moderna, é ser ‘sarado’, malhador, ter o corpo moldado, barriga de tanquinho, o que não impede este falso ideal romano de escamotear algum mal ou doença. Descartes (1596-1650) discorreu sobre o dualismo mente-corpo, abrindo nova visão sobre o monismo dos gregos - a unidade das partes. No passado, o poeta romano Juvenal (55/60 a 127 d.C. - ilustração), em sua Sátira X, tornava unas as duas esferas da vida: orandum est ut sit mens sana in corpore sano (ore por uma mente sã em um corpo são). Visão hoje nada ocidental, faz mais sentido entre os budistas, os taoístas e hinduístas. Nossa cultura foi bastante impregnada de filosofias como o hedonismo, o prazer como bem maior, hoje transbordando na indústria do consumo, do sexo como máquina de vender e de sentimentos materialistas como posse, poder e luxo.


Depois desta breve introdução, um assunto de extrema gravidade: no mundo, o Brasil, em particular, vive o que será o pior desastre sanitário, a pior das pandemias de sua história. Aqui morre-se nas filas dos corredores engarrafados de hospitais, faltam insumos, equipamentos e cilindros de oxigênio. Com o número de contágios e leitos ocupados, doentes internados ou em espera e óbitos em expansão, ainda falta pessoal, em todos os níveis de atendimento. Cenário dramático? Não, teratológico – dos entes monstruosos, do demo mesmo. Salve os profissionais engajados que purgam esse dia a dia, que têm um amor profundo pelo que fazem, arriscam suas vidas pela do próximo. Salve os voluntários ou empresas que, em diversos lugares, sozinhos ou organizadamente, em grupos, arrecadam alimentos como podem em quantidade ainda bastante tímida para enfrentar esta guerra. Dão de comer a vítimas da fome, aos desvalidos, descalços, aos que vivem em situação de rua, desempregados e famílias esfomeadas, por mais modesta que a ajuda seja. Que quadro dantesco ruiu sobre um país que merece tudo, pelo seu povo, sua linda natureza tão maltratada, sua miscigenação, riqueza única que se traduz nas artes como a pintura, a música, a dança, nas manifestações populares e tradições folclóricas!


Em sua longa experiência de luta contra endemias, epidemias e pandemias, o Brasil alcançou um pódio, o mundo inteiro reconhece. Devemos à luta de Oswaldo Cruz, desde 1904, essa tradição nacional da vacina como instituição e bandeira, o que nos faz admirados mundialmente. Recebi as vacinas de praxe, mesmo porque sem elas não poderia ser matriculado em escolas, e assim também foi com meus filhos. Essa cultura da vacina, como tantas outras iniciativas de sucesso, a exemplo do uso obrigatório de cinto de segurança, é parte de nossas vidas, e não está sujeita a ideologias, crenças, manias ou medos infundados, – muitas vezes sob estímulo de uns poucos. Se no início foram medidas coercitivas, hoje o dever tornou-se direito, os resultados estão na história e seus efeitos revertidos em prol da vida.


Há um aparato monumental a gerir a Saúde no país: ministério, secretarias, agências. A máquina pública - e louvemos nosso SUS, muitas vezes negligenciado - é gerida por pessoas, e delas depende: de sua competência, expertise, vontade e independência como agentes técnicos especializados. Para piorar, em nível federal, onde as ações deveriam ser centralizadas, em pouco mais de dois anos já tivemos 4 gestores: Mandetta, médico e político com vida útil de um ano e quatro meses que suportou os conflitos com as ingerências leigas e disparatadas do executivo; Teich, um médico tímido em tudo que ‘durou’ 29 dias; um general de exército, Pazuello, que não vai completar um ano na cadeira e cujo misterioso e longo processo de exoneração e substituição compromete mais ainda a conjuntura das operações. No lugar dele, um outro médico, Queiroga, forjado na ideologia oficial (se é que se pode chamar de ideologia), vem tentando maquiar com dúbias declarações o que realmente veio fazer: mais do mesmo. Mais da mesma negligência, inação, falta de prumo e rumo e nada da logística que se espera enérgica e contundente para combatermos a praga do século. Não será rezando por essa “cartilha”, a mesma do antecessor, como ele mesmo repetiu, que veremos alguma luz. Senhores, deixem as orações conosco e trabalhem.


Ante previsões apocalípticas de cientistas daqui e do exterior de até 4 mil óbitos diários no país em coisa de dois meses, o que nos restará? Encolhermos ante o medo até nos transformarmos em insetos, como na Metamorfose de Kafka, ou, em um ímpeto de loucura, lembrando Caetano, “abrir as janelas para que entrem todos os insetos” e flertar com o vírus? Pior ainda, como no tema do filme M.A.S.H.: “suicídio é indolor, ele traz muitas opções, e eu posso usá-las ou não, se eu quiser”? Nunca! O bem mais precioso do universo é e será a vida. Seguiremos na luta pela saúde, não importam os nomes das saúvas.