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sábado, 27 de março de 2021

SAÚDE!

 


Do latim salus, utis, no sentido de ‘salvação, conservação da vida’ [Houaiss], de onde ‘saudar’. Em várias línguas latinas, como o português, a palavra soa no mesmo tom: salud, em espanhol e salute, italiano, e costuma associar a nossa mente àquele brindar de champanhe, festas, coisas alegres, entretenimento fantasiado de alegria. Desejamos saúde também nos aniversários como o bem mais precioso da nossa existência, e antes do sucesso na carreira ou coisas materiais. Há quase um século, Mário de Andrade, o do Macunaíma, ironizou: “muita saúva e pouca saúde os males do Brasil são” (interprete livremente a “saúva” como qualquer mal que destrói, e saúde nosso bem) maior).


Ser saudável, na concepção pós-moderna, é ser ‘sarado’, malhador, ter o corpo moldado, barriga de tanquinho, o que não impede este falso ideal romano de escamotear algum mal ou doença. Descartes (1596-1650) discorreu sobre o dualismo mente-corpo, abrindo nova visão sobre o monismo dos gregos - a unidade das partes. No passado, o poeta romano Juvenal (55/60 a 127 d.C. - ilustração), em sua Sátira X, tornava unas as duas esferas da vida: orandum est ut sit mens sana in corpore sano (ore por uma mente sã em um corpo são). Visão hoje nada ocidental, faz mais sentido entre os budistas, os taoístas e hinduístas. Nossa cultura foi bastante impregnada de filosofias como o hedonismo, o prazer como bem maior, hoje transbordando na indústria do consumo, do sexo como máquina de vender e de sentimentos materialistas como posse, poder e luxo.


Depois desta breve introdução, um assunto de extrema gravidade: no mundo, o Brasil, em particular, vive o que será o pior desastre sanitário, a pior das pandemias de sua história. Aqui morre-se nas filas dos corredores engarrafados de hospitais, faltam insumos, equipamentos e cilindros de oxigênio. Com o número de contágios e leitos ocupados, doentes internados ou em espera e óbitos em expansão, ainda falta pessoal, em todos os níveis de atendimento. Cenário dramático? Não, teratológico – dos entes monstruosos, do demo mesmo. Salve os profissionais engajados que purgam esse dia a dia, que têm um amor profundo pelo que fazem, arriscam suas vidas pela do próximo. Salve os voluntários ou empresas que, em diversos lugares, sozinhos ou organizadamente, em grupos, arrecadam alimentos como podem em quantidade ainda bastante tímida para enfrentar esta guerra. Dão de comer a vítimas da fome, aos desvalidos, descalços, aos que vivem em situação de rua, desempregados e famílias esfomeadas, por mais modesta que a ajuda seja. Que quadro dantesco ruiu sobre um país que merece tudo, pelo seu povo, sua linda natureza tão maltratada, sua miscigenação, riqueza única que se traduz nas artes como a pintura, a música, a dança, nas manifestações populares e tradições folclóricas!


Em sua longa experiência de luta contra endemias, epidemias e pandemias, o Brasil alcançou um pódio, o mundo inteiro reconhece. Devemos à luta de Oswaldo Cruz, desde 1904, essa tradição nacional da vacina como instituição e bandeira, o que nos faz admirados mundialmente. Recebi as vacinas de praxe, mesmo porque sem elas não poderia ser matriculado em escolas, e assim também foi com meus filhos. Essa cultura da vacina, como tantas outras iniciativas de sucesso, a exemplo do uso obrigatório de cinto de segurança, é parte de nossas vidas, e não está sujeita a ideologias, crenças, manias ou medos infundados, – muitas vezes sob estímulo de uns poucos. Se no início foram medidas coercitivas, hoje o dever tornou-se direito, os resultados estão na história e seus efeitos revertidos em prol da vida.


Há um aparato monumental a gerir a Saúde no país: ministério, secretarias, agências. A máquina pública - e louvemos nosso SUS, muitas vezes negligenciado - é gerida por pessoas, e delas depende: de sua competência, expertise, vontade e independência como agentes técnicos especializados. Para piorar, em nível federal, onde as ações deveriam ser centralizadas, em pouco mais de dois anos já tivemos 4 gestores: Mandetta, médico e político com vida útil de um ano e quatro meses que suportou os conflitos com as ingerências leigas e disparatadas do executivo; Teich, um médico tímido em tudo que ‘durou’ 29 dias; um general de exército, Pazuello, que não vai completar um ano na cadeira e cujo misterioso e longo processo de exoneração e substituição compromete mais ainda a conjuntura das operações. No lugar dele, um outro médico, Queiroga, forjado na ideologia oficial (se é que se pode chamar de ideologia), vem tentando maquiar com dúbias declarações o que realmente veio fazer: mais do mesmo. Mais da mesma negligência, inação, falta de prumo e rumo e nada da logística que se espera enérgica e contundente para combatermos a praga do século. Não será rezando por essa “cartilha”, a mesma do antecessor, como ele mesmo repetiu, que veremos alguma luz. Senhores, deixem as orações conosco e trabalhem.


Ante previsões apocalípticas de cientistas daqui e do exterior de até 4 mil óbitos diários no país em coisa de dois meses, o que nos restará? Encolhermos ante o medo até nos transformarmos em insetos, como na Metamorfose de Kafka, ou, em um ímpeto de loucura, lembrando Caetano, “abrir as janelas para que entrem todos os insetos” e flertar com o vírus? Pior ainda, como no tema do filme M.A.S.H.: “suicídio é indolor, ele traz muitas opções, e eu posso usá-las ou não, se eu quiser”? Nunca! O bem mais precioso do universo é e será a vida. Seguiremos na luta pela saúde, não importam os nomes das saúvas.



 

sábado, 23 de janeiro de 2021

OS ALQUIMISTAS CHEGAM A MANAUS

 


Alquimia é palavra que vem do árabe al-kīmyiā, dos tempos mais antigos. Refere-se a práticas protocientíficas, ou seja, não-científicas.  (Proto é um antepositivo que quer dizer algo como pré, como em protótipo, algo que prepara, antecede, como a Protofonia da Ópera Il Guarany, de Carlos Gomes. Pejorativamente, significa um arremedo, algo que não pretende ser). Os alquimistas dos primeiros tempos tentavam, sem base alguma, purificar e transformar metais como chumbo em espécies nobres, como ouro. Buscavam criar algum produto químico que tornasse os homens imortais, curasse qualquer doença e encontrasse a Pedra Filosofal, que teria o condão de transformar materiais e rejuvenescer, razão pela qual era tida como símbolo de uma bênção universal a se alcançar.


Em sua música “Os alquimistas estão chegando” (1974), Jorge Ben descreve: “São pacientes, assíduos e perseverantes / executam segundo as regras herméticas / desde a trituração, a fixação / a destilação e a coagulação”. Mostrou-os como seres exóticos, imersos naquelas crendices, ilações e supostos experimentos científicos. Os pós-alquimistas de Jorge Ben seriam os dos tempos modernos, que persistem com suas práticas obscurantistas até os dias de hoje, exercendo certo fascínio sobre quem ouvir explicações rápidas, simplórias e retrógradas sobre assuntos que deveriam ser analisados e comprovados pela ciência.




Desde os meus tempos de estudante, o trinômio aplicado à filosofia era basicamente o da chamada dialética de Hegel: A tese seria uma ideia a ser analisada, a antítese, como a palavra diz, seu contrário, para colocá-la à prova, e finalmente a síntese, após esse confronto: uma ideia resumida, ou conclusão. Processo semelhante acontece com o direito e a ciência, com denominações diversas mas princípios lógicos comuns.


No dia 15/01, a revista Isto é noticiou: “Pazuello montou e financiou força-tarefa para disseminar cloroquina em Manaus”. Seria essa sua alquimia, a que não precisa de explicações além de obsessão ou mania (aqui, no sentido de psicopatia) de sua lavra ou de seu chefe, a quem obedece cegamente? O mundo inteiro não reconhece benefício algum na droga – até pelo contrário, é um produto danoso à parte psíquica. Ainda no dia 30 de novembro, em Roma, a EMA (agência de medicamentos da União Europeia) alertou que o uso da medicação, em qualquer de suas denominações, seria responsável por distúrbios psiquiátricos. Todas as pesquisas mundiais apontavam não apenas ineficiência contra a Covid, mas também a periculosidade do produto, já estocado em larga escala pelo governo brasileiro. Pazuello, fiel servo, deveria saber disso – se não como cientista ou médico, coisas que ele não é, ao menos como ministro, leitor de jornais por obrigação, costume que ele parece não ter.


No mesmo mês de novembro, Pazuello já havia sido alertado para um iminente colapso no estoque de oxigênio, enquanto sua força-tarefa despejava cloroquina nos hospitais de Manaus. Privilegiou a alquimia do mandatário da nação em detrimento do oxigênio e, consequentemente, da vida de inúmeros cidadãos manauenses.


No dia 14 de janeiro, um conceituado jornal espanhol, El País, noticiava: “Morrer sem oxigênio em Manaus, a tragédia que escancara a negligência política na pandemia”, ressaltando que “após minimizar a crise, Planalto e Governo do Amazonas correm contra o relógio para transferir doentes para outros estados (...) Só “nos primeiros dias de janeiro, morreram 1.654 pessoas no estado, mais do que entre abril e dezembro”. E em 15 de janeiro: “O estado brasileiro do Amazonas está ficando sem oxigênio durante onda de Covid-19 “, ressaltando que o Brasil tem o segundo maior número de mortes, depois dos EUA. No mesmo dia, a CNN americana informava que 60 bebês prematuros foram transportados para São Paulo, a 3.875 km dali. Ainda naquele dia, o Estadão trazia matéria com o título: “Entenda o que aconteceu em Manaus”: “capital do Amazonas voltou a registrar recordes de internações e sepultamentos; situação foi agravada na quinta-feira quando a falta de estoque de oxigênio levou pacientes à morte por asfixia”. 


No dia 16, O prestigioso BBC News britânico estampou: “Hospitais do Brasil ficam sem oxigênio para os pacientes do vírus”, enquanto no dia 17 a americana CNN escancarava: “Saúde Pública no estado brasileiro do Amazonas em ‘colapso’, enquanto as infecções por Covid-19 transbordam”. No mesmo dia,  o diário Ouest France deu a manchete: “A Covid-19 asfixia novamente a cidade de Manaus” - “Já tendo passado pela pandemia na primavera, a capital do estado do Amazonas se encontra sem leitos de hospital e com falta de oxigênio. A preocupação se elevou quando uma variante do vírus foi detectada”. E assim multiplicaram-se notícias aqui e pelo mundo. Brasília distribuiu fortunas em curandeirismo à luz do dia, com sua enviesada catequese política, ao passo que um número crescente de mortos se acumulava, conforme se pôde ver nesta breve compilação de matérias publicadas em apenas quatro dias.


O compositor Sidney Miller, cult nos anos 60/70, cantou: “Duas doses de ácido lisérgico / ou uma bomba de gás lacrimogêneo / qual das duas que você prefere / na sua linda tenda de oxigênio?” A letra era simbólica - claro, tempos de ditadura -, mas como poesia ela pode ser entendida de várias formas, as palavras se transmutando na fecundidade do pensamento. Hoje, entre o delírio de uma droga sem efeitos além da vã esperança em momento de agonia ou a morte certa em tenda de oxigênio exaurida. 
Ou deitado no corredor.