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sexta-feira, 11 de março de 2022

VOCÊ JÁ FOI A UMA GUERRA, NEGA?

 


Dorival Caymmi compôs o samba “Você já foi à Bahia?
” em 1941, homenageando com dengo a culinária da sua terra: vatapá, caruru, munguzá; e as morenas, as “donzelas do tempo do Imperador”. Loas ao samba, ao Bonfim, à imensa riqueza cultural, à beleza das praias. Que alegria poder falar do que temos de bom, cantar a beleza, sem termos vivido aqui uma guerra no sentido amplo da palavra, a invasão cruel genocida. Jorge Ben cantou um país bonito por natureza, e Gil desdenhou as ogivas nucleares: “a bomba explode lá fora / e agora o que vou temer?”

"Crazy vet" (IStock)

Em Boston, cidade de Massachusetts, EUA, onde morei por diversos anos
, não há samba nem frevo, mas tem rock, jazz e salsa, e para quem visitar o país há um universo a ser visto. Porém, cuidado! O filme à noite não é para sessão infantil: sujeitos perdidos, sem rumo nem prumo, falando sozinhos ou xingando sabe-se lá quem ou o quê pelas ruas e estações de metrô. São os crazy vets, ‘veteranos loucos’, subprodutos das guerras. Certo dia eu andava na movimentada Huntington Ave., centro. Um senhor de barba estilo lumberjack (lenhador), cabelos desgrenhados, usava uma camiseta onde se lia Visit fascinating Vietnam, estampada com dedos da mão segurando uma granada. A guerra tinha acabado havia dois, três anos, e eram comuns os suvenires, como chapéu e casaco de campanha bem surrados. Um outro contou que o front era um espetáculo de luzes e sons, e se alguém perdesse um braço ou uma perna nem sentiria: havia morfina em estoque para que se dopassem antes de embrenhar alucinados no cenário de fumaça, tiros e mísseis. Eram sujeitos imprevisíveis, apesar de não necessariamente perigosos; pelo sim, pelo não, melhor evitá-los.


Como precisava de dinheiro, logo entrei para um grupo latino de salsa
, merengue, cumbia e outros ritmos, liderado por um refugiado cubano, apelido William Fox. Havia outros dois caribenhos, precisavam de sangue latino para controlar aquele balanço difícil. E lá fui eu para Roxbury, equivalente ao Harlem de NY. No metrô, ao adentrar o território do bairro, sobe um sujeito e em pé, escorado em um daqueles 'poles', pôs-se tranquilamente a preparar um baseado. Com medo de confusão, perguntei-lhe se não temia ser preso. Ah, para quê? Ele despejou um discurso de herói de guerra, que arriscara sua vida no inferno enquanto os “branquelos” descansavam tranquilos em suas casas. Desaguou um falatório caudaloso, desafiando quem lhe pusesse as mãos, enquanto puxava a bainha da calça para mostrar uma tosca prótese de madeira. O trem parou na minha estação, e saí pela porta mais próxima deixando o esfumaçado vagão para trás.


Coisa não rara ver malucos com pescoços vermelhos,
tatuados ao estilo marine nos braços, discursando - ninguém olhava ou dizia nada. Era o rescaldo da então última guerra, a do Vietnã, que sucedeu a da Coreia, encerrada antes de eu nascer. Antes delas, houve duas Grandes Guerras (1939-1945 e 1914-1918) uma história vinda desde a secessão, Guerra Civil americana (1861-1865), passado que marcou gerações após gerações. Os veteranos, sempre que retornavam às suas casas, eram aclamados, as cidades se enfeitavam e as populações lhes faziam as honras. Lindo, mas no cotidiano, para muitos deles... Depressão, pesadelos, insônia, alucinações, distúrbios do humor, síndrome do pânico, ímpetos suicidas e atitudes nada previsíveis, não raro violentas. O pouco de guerra que vimos na TV ou nos jornais fora para eles um longo e interminável fim do mundo.


Imigrantes e exilados de países invadidos
enfrentam uma outra guerra, a da adaptação à nova realidade. Um jovem pianista que me acompanhou em recitais, Minh Trihn, disse que saiu do Vietnã, ajudado pelo governo americano, com os dois irmãos e seus pais. Foram a um supermercado e compraram latas de dog food (comida de cachorro). Mas espera aí, a família não tinha animal de estimação! Simplesmente comeram aquela pasta no jantar – no Vietnã come-se carne de cachorro -, pois assim entenderam o rótulo das latas.


No Brasil, há uns 20 anos
, eu estava à frente da organização de um curso de música com dezenas de professores. A Secretaria de Cultura da cidade havia marcado – disseram que sem saber – uma reunião no mesmo local onde seria a nossa. Chamei todos à rua e fomos a uma espécie de pracinha, eu precisava da reunião para explicar sobre os passos seguintes, onde ficaria cada grupo e por aí vai. Um deles, o americano Jeff – o nome é fictício -, excelente músico, de vez em quando sorria. Achava tudo meio engraçado, sempre ria à toa e agradava a todos. Um dia, perguntei-lhe se tinha sido escoteiro, como eu, porque o oitavo mandamento da lei dos boy scouts diz: “O escoteiro sorri nas dificuldades”. Depois de mais um sorriso, Jeff respondeu-me com uma pergunta: você esteve no Vietnã? Engoli em seco e ele, sério, fitou-me os olhos até onde minha retina pôde suportar. Ele, pouco mais velho, havia estado na guerra que envolveu Laos, Camboja e Vietnã. Qualquer problema para ele era pura alegria, passatempo de criança.


A guerra que eclodiu com a invasão Russa à Ucrânia
não vai deixar sequelas diferentes. Provavelmente serão bem maiores, devido ao medo de ataques nucleares, além da terra arrasada e economia destruída. São 42 milhões de habitantes se expressando em uma dúzia de idiomas oficiais em 603.600 km². Os sobreviventes terão cicatrizes físicas e mentais profundas, a dor da perda de familiares, uma reconstrução total quase inviável e para sempre aquele odor macabro que não cessa. Um grande o número de vidas errantes em busca de sentido.

sábado, 23 de janeiro de 2021

OS ALQUIMISTAS CHEGAM A MANAUS

 


Alquimia é palavra que vem do árabe al-kīmyiā, dos tempos mais antigos. Refere-se a práticas protocientíficas, ou seja, não-científicas.  (Proto é um antepositivo que quer dizer algo como pré, como em protótipo, algo que prepara, antecede, como a Protofonia da Ópera Il Guarany, de Carlos Gomes. Pejorativamente, significa um arremedo, algo que não pretende ser). Os alquimistas dos primeiros tempos tentavam, sem base alguma, purificar e transformar metais como chumbo em espécies nobres, como ouro. Buscavam criar algum produto químico que tornasse os homens imortais, curasse qualquer doença e encontrasse a Pedra Filosofal, que teria o condão de transformar materiais e rejuvenescer, razão pela qual era tida como símbolo de uma bênção universal a se alcançar.


Em sua música “Os alquimistas estão chegando” (1974), Jorge Ben descreve: “São pacientes, assíduos e perseverantes / executam segundo as regras herméticas / desde a trituração, a fixação / a destilação e a coagulação”. Mostrou-os como seres exóticos, imersos naquelas crendices, ilações e supostos experimentos científicos. Os pós-alquimistas de Jorge Ben seriam os dos tempos modernos, que persistem com suas práticas obscurantistas até os dias de hoje, exercendo certo fascínio sobre quem ouvir explicações rápidas, simplórias e retrógradas sobre assuntos que deveriam ser analisados e comprovados pela ciência.




Desde os meus tempos de estudante, o trinômio aplicado à filosofia era basicamente o da chamada dialética de Hegel: A tese seria uma ideia a ser analisada, a antítese, como a palavra diz, seu contrário, para colocá-la à prova, e finalmente a síntese, após esse confronto: uma ideia resumida, ou conclusão. Processo semelhante acontece com o direito e a ciência, com denominações diversas mas princípios lógicos comuns.


No dia 15/01, a revista Isto é noticiou: “Pazuello montou e financiou força-tarefa para disseminar cloroquina em Manaus”. Seria essa sua alquimia, a que não precisa de explicações além de obsessão ou mania (aqui, no sentido de psicopatia) de sua lavra ou de seu chefe, a quem obedece cegamente? O mundo inteiro não reconhece benefício algum na droga – até pelo contrário, é um produto danoso à parte psíquica. Ainda no dia 30 de novembro, em Roma, a EMA (agência de medicamentos da União Europeia) alertou que o uso da medicação, em qualquer de suas denominações, seria responsável por distúrbios psiquiátricos. Todas as pesquisas mundiais apontavam não apenas ineficiência contra a Covid, mas também a periculosidade do produto, já estocado em larga escala pelo governo brasileiro. Pazuello, fiel servo, deveria saber disso – se não como cientista ou médico, coisas que ele não é, ao menos como ministro, leitor de jornais por obrigação, costume que ele parece não ter.


No mesmo mês de novembro, Pazuello já havia sido alertado para um iminente colapso no estoque de oxigênio, enquanto sua força-tarefa despejava cloroquina nos hospitais de Manaus. Privilegiou a alquimia do mandatário da nação em detrimento do oxigênio e, consequentemente, da vida de inúmeros cidadãos manauenses.


No dia 14 de janeiro, um conceituado jornal espanhol, El País, noticiava: “Morrer sem oxigênio em Manaus, a tragédia que escancara a negligência política na pandemia”, ressaltando que “após minimizar a crise, Planalto e Governo do Amazonas correm contra o relógio para transferir doentes para outros estados (...) Só “nos primeiros dias de janeiro, morreram 1.654 pessoas no estado, mais do que entre abril e dezembro”. E em 15 de janeiro: “O estado brasileiro do Amazonas está ficando sem oxigênio durante onda de Covid-19 “, ressaltando que o Brasil tem o segundo maior número de mortes, depois dos EUA. No mesmo dia, a CNN americana informava que 60 bebês prematuros foram transportados para São Paulo, a 3.875 km dali. Ainda naquele dia, o Estadão trazia matéria com o título: “Entenda o que aconteceu em Manaus”: “capital do Amazonas voltou a registrar recordes de internações e sepultamentos; situação foi agravada na quinta-feira quando a falta de estoque de oxigênio levou pacientes à morte por asfixia”. 


No dia 16, O prestigioso BBC News britânico estampou: “Hospitais do Brasil ficam sem oxigênio para os pacientes do vírus”, enquanto no dia 17 a americana CNN escancarava: “Saúde Pública no estado brasileiro do Amazonas em ‘colapso’, enquanto as infecções por Covid-19 transbordam”. No mesmo dia,  o diário Ouest France deu a manchete: “A Covid-19 asfixia novamente a cidade de Manaus” - “Já tendo passado pela pandemia na primavera, a capital do estado do Amazonas se encontra sem leitos de hospital e com falta de oxigênio. A preocupação se elevou quando uma variante do vírus foi detectada”. E assim multiplicaram-se notícias aqui e pelo mundo. Brasília distribuiu fortunas em curandeirismo à luz do dia, com sua enviesada catequese política, ao passo que um número crescente de mortos se acumulava, conforme se pôde ver nesta breve compilação de matérias publicadas em apenas quatro dias.


O compositor Sidney Miller, cult nos anos 60/70, cantou: “Duas doses de ácido lisérgico / ou uma bomba de gás lacrimogêneo / qual das duas que você prefere / na sua linda tenda de oxigênio?” A letra era simbólica - claro, tempos de ditadura -, mas como poesia ela pode ser entendida de várias formas, as palavras se transmutando na fecundidade do pensamento. Hoje, entre o delírio de uma droga sem efeitos além da vã esperança em momento de agonia ou a morte certa em tenda de oxigênio exaurida. 
Ou deitado no corredor.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

CHOVE, CHUVA...


Grande sucesso de Jorge Ben em 1963, a música foi gravada e regravada inúmeras vezes e até nos EUA, com direito a sotaque: “...chove sem parar / pois eu vou fazer uma prece / pra Deus, Nosso Senhor / pra chuva parar / de molhar meu divino amor”.  (O verbo chover é impessoal, mas eu, criança, pensava que se o céu falasse diria, poderoso, “eu chovo”; eu ria muito com isso).
A chuva evoca às vezes sentimentos líricos, outras de liberdade, aventura, o deixar-se molhar, como em “Cantando na chuva” (1952), filme estrelado por Gene Kelly, aquele tipo de ator em extinção: atuava, cantava, sapateava e dançava. A música era uma ode à chuva e ao amor, tanto que em Portugal título do tema e do filme foram traduzidos como “Serenata na chuva”. Caetano entregou-se à orgia com mistura de chuva, suor e cerveja: “Não se perca de mim / não se esqueça de mim / não desapareça / a chuva tá caindo e quando a chuva começa / eu acabo perdendo a cabeça”. O poeta lusitano Fernando Pessoa fez uma complexa digressão sobre a chuva: “Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva não faz ruído senão com sossego”. Mário Quintana retratou seu hábito musical: “Eu ouço música / como quem apanha chuva: / resignado / e triste / de saber que existe um mundo / do Outro Mundo”.
O grupo The Hollies viu na chuva a deixa para abordagem de uma garota, em “Bus stop” (1966): “Ponto de ônibus / ela está lá gelando / querendo meu guarda-chuva”. Romântico dos velhos tempos, o cantor flertou com ela muitos dias de chuva no verão, demorando a criar coragem para oferecê-la o amparo de seu guarda-chuva. E seu coração.
Tanto no filme “Cantando na chuva” quanto em “Bus stop”, o guarda-chuva é símbolo de proteção, bem explorado por um certo banco do passado em seus comerciais. Cobrir, proteger, aproximar, desculpa para chegar mais perto de alguém; aceitar “carona” em um guarda-chuva era sinal de consentimento para um início de conversa, digamos, bem “cosi”. No memorável filme “Os guarda-chuvas do amor” (“Les parapluies de Cherbourg”), de Jacques Demy (1964), com Catherine Deneuve no papel de Geneviève e música do notável Michel Legrand, uma jovem de 16 anos, filha da dona de uma butique de guarda-chuvas, vê seu amor Guy partir para a guerra na Argélia. Na orquestra Boston Pops, com Arthur Fiedler, ao final da música-tema os contrabaixistas giravam guarda-chuvas coloridos. Sucesso.
Mas nem tudo é amor e alegria no mundo da chuva. O Antigo Testamento conta que Deus salvou Noé e pares de animais, dando ao patriarca até detalhes da madeira (bordo) e as dimensões corretas para construção de uma arca. Um dilúvio acabaria com as gentes da terra e a missão seria repovoá-la, longe do mal que a atingia.
Economia.uol
Tempestades, maremotos e tsunamis são a natureza em revolta, desafiam a capacidade do homem de se prevenir e causam tragédias de dimensões imensuráveis. Em São Paulo, na madrugada e manhã do dia 10 de fevereiro, caiu 96% da precipitação esperada para o mês inteiro, a maior desde 1983. O rio Pinheiros, da marginal, uma das principais artérias da cidade, viu o maior volume de água desde 1967. O Corpo de Bombeiros, dos valorosos soldados que arriscam suas vidas, recebeu 1.400 chamadas de emergência para mais de mil alagamentos, com saldo de quatro mortos e um desaparecido - em 24 horas. Em uma metrópole como São Paulo, números em catástrofes são geralmente assustadores. O secretário de Infraestrutura e Meio Ambiente da cidade, Marcos Penido, resumiu o drama paulistano: a chuva é uma resposta da natureza pelos maus-tratos. (Apesar de os ambientalistas terem ouvido ironia recente de extremo mau gosto, a ameaça de confiná-los na Amazônia).
Malha fluvial de SP (PMSP/SMVA/SEMPLA)
O problema é um tiro no pé dos governantes. No dia seguinte à tempestade, 11 de fevereiro, matéria de O Estado informava que, de 2015 a 2019, a Prefeitura paulistana havia projetado gastos de R$ 3,8 bilhões para intervenções nos rios, riachos e córregos da cidade, mas apenas R$ 1,1 bilhões conheceram seu destino. Ou seja, a conta desses investimentos sofreu perda de R$ 2,7 bilhões, apenas 28,95% do que fora planejado terminaram aplicados, e segundo o DAAE na calha do rio Tietê meros 50% dos recursos para desassoreamento. O solo impermeabilizado na capital aumentou 11% em 33 anos, um convite à calamidade: concreto, concreto, concreto.
A LIMPEZA DO TÂMISA
50 anos após ser declarado morto biologicamente, o Tâmisa tem sido
saudado como uma história de sucesso ambiental.
Investimentos em infraestrutura como piscinões, intervenções nas imensas malhas fluvial e pluvial de São Paulo, nada disso tem visibilidade eleitoral – para colocar o assunto em pratos bem limpos. Vale mais nas urnas um lindo viaduto mal feito e mal acabado (que volta e meia redunda em tragédia) do que 100 intervenções em rios e córregos, criação, manutenção de piscinões e obras de drenagem. Não se faz um planejamento independentemente de governos, como a transposição subterrânea das vias expressas de Boston, EUA, que perpassou vários governos em 20 anos, ou a despoluição e desassoreamento do Rio Tâmisa, em Londres (o The Telegraph registrou que o rio foi declarado biologicamente morto em 1957, mas 50 anos depois estava povoado de pássaros e peixes). Não temos cultura de continuidade, o país parece ser projetado para cada quatro anos – “os meus quatro” -, e nada mais. O mal aflige também várias cidades do interior de São Paulo (com a “contribuição” da capital via Tietê), e, claro, outras metrópoles. Não dá para celebrar como Bob Dylan no Festival de Woodstock, em 1969: “It’s a hard rain a-gonna fall” (“Uma tempestade vai cair”). Nada de paz, amor e guarda-chuvas, só lágrimas e prejuízos.