LIVROS

LIVROS
CLIQUE SOBRE UMA DAS IMAGENS ACIMA PARA ADQUIRIR O DICIONÁRIO DIRETAMENTE DA EDITORA. AVALIAÇÃO GOOGLE BOOKS: *****
Mostrando postagens com marcador Caymmi. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Caymmi. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 11 de março de 2022

VOCÊ JÁ FOI A UMA GUERRA, NEGA?

 


Dorival Caymmi compôs o samba “Você já foi à Bahia?
” em 1941, homenageando com dengo a culinária da sua terra: vatapá, caruru, munguzá; e as morenas, as “donzelas do tempo do Imperador”. Loas ao samba, ao Bonfim, à imensa riqueza cultural, à beleza das praias. Que alegria poder falar do que temos de bom, cantar a beleza, sem termos vivido aqui uma guerra no sentido amplo da palavra, a invasão cruel genocida. Jorge Ben cantou um país bonito por natureza, e Gil desdenhou as ogivas nucleares: “a bomba explode lá fora / e agora o que vou temer?”

"Crazy vet" (IStock)

Em Boston, cidade de Massachusetts, EUA, onde morei por diversos anos
, não há samba nem frevo, mas tem rock, jazz e salsa, e para quem visitar o país há um universo a ser visto. Porém, cuidado! O filme à noite não é para sessão infantil: sujeitos perdidos, sem rumo nem prumo, falando sozinhos ou xingando sabe-se lá quem ou o quê pelas ruas e estações de metrô. São os crazy vets, ‘veteranos loucos’, subprodutos das guerras. Certo dia eu andava na movimentada Huntington Ave., centro. Um senhor de barba estilo lumberjack (lenhador), cabelos desgrenhados, usava uma camiseta onde se lia Visit fascinating Vietnam, estampada com dedos da mão segurando uma granada. A guerra tinha acabado havia dois, três anos, e eram comuns os suvenires, como chapéu e casaco de campanha bem surrados. Um outro contou que o front era um espetáculo de luzes e sons, e se alguém perdesse um braço ou uma perna nem sentiria: havia morfina em estoque para que se dopassem antes de embrenhar alucinados no cenário de fumaça, tiros e mísseis. Eram sujeitos imprevisíveis, apesar de não necessariamente perigosos; pelo sim, pelo não, melhor evitá-los.


Como precisava de dinheiro, logo entrei para um grupo latino de salsa
, merengue, cumbia e outros ritmos, liderado por um refugiado cubano, apelido William Fox. Havia outros dois caribenhos, precisavam de sangue latino para controlar aquele balanço difícil. E lá fui eu para Roxbury, equivalente ao Harlem de NY. No metrô, ao adentrar o território do bairro, sobe um sujeito e em pé, escorado em um daqueles 'poles', pôs-se tranquilamente a preparar um baseado. Com medo de confusão, perguntei-lhe se não temia ser preso. Ah, para quê? Ele despejou um discurso de herói de guerra, que arriscara sua vida no inferno enquanto os “branquelos” descansavam tranquilos em suas casas. Desaguou um falatório caudaloso, desafiando quem lhe pusesse as mãos, enquanto puxava a bainha da calça para mostrar uma tosca prótese de madeira. O trem parou na minha estação, e saí pela porta mais próxima deixando o esfumaçado vagão para trás.


Coisa não rara ver malucos com pescoços vermelhos,
tatuados ao estilo marine nos braços, discursando - ninguém olhava ou dizia nada. Era o rescaldo da então última guerra, a do Vietnã, que sucedeu a da Coreia, encerrada antes de eu nascer. Antes delas, houve duas Grandes Guerras (1939-1945 e 1914-1918) uma história vinda desde a secessão, Guerra Civil americana (1861-1865), passado que marcou gerações após gerações. Os veteranos, sempre que retornavam às suas casas, eram aclamados, as cidades se enfeitavam e as populações lhes faziam as honras. Lindo, mas no cotidiano, para muitos deles... Depressão, pesadelos, insônia, alucinações, distúrbios do humor, síndrome do pânico, ímpetos suicidas e atitudes nada previsíveis, não raro violentas. O pouco de guerra que vimos na TV ou nos jornais fora para eles um longo e interminável fim do mundo.


Imigrantes e exilados de países invadidos
enfrentam uma outra guerra, a da adaptação à nova realidade. Um jovem pianista que me acompanhou em recitais, Minh Trihn, disse que saiu do Vietnã, ajudado pelo governo americano, com os dois irmãos e seus pais. Foram a um supermercado e compraram latas de dog food (comida de cachorro). Mas espera aí, a família não tinha animal de estimação! Simplesmente comeram aquela pasta no jantar – no Vietnã come-se carne de cachorro -, pois assim entenderam o rótulo das latas.


No Brasil, há uns 20 anos
, eu estava à frente da organização de um curso de música com dezenas de professores. A Secretaria de Cultura da cidade havia marcado – disseram que sem saber – uma reunião no mesmo local onde seria a nossa. Chamei todos à rua e fomos a uma espécie de pracinha, eu precisava da reunião para explicar sobre os passos seguintes, onde ficaria cada grupo e por aí vai. Um deles, o americano Jeff – o nome é fictício -, excelente músico, de vez em quando sorria. Achava tudo meio engraçado, sempre ria à toa e agradava a todos. Um dia, perguntei-lhe se tinha sido escoteiro, como eu, porque o oitavo mandamento da lei dos boy scouts diz: “O escoteiro sorri nas dificuldades”. Depois de mais um sorriso, Jeff respondeu-me com uma pergunta: você esteve no Vietnã? Engoli em seco e ele, sério, fitou-me os olhos até onde minha retina pôde suportar. Ele, pouco mais velho, havia estado na guerra que envolveu Laos, Camboja e Vietnã. Qualquer problema para ele era pura alegria, passatempo de criança.


A guerra que eclodiu com a invasão Russa à Ucrânia
não vai deixar sequelas diferentes. Provavelmente serão bem maiores, devido ao medo de ataques nucleares, além da terra arrasada e economia destruída. São 42 milhões de habitantes se expressando em uma dúzia de idiomas oficiais em 603.600 km². Os sobreviventes terão cicatrizes físicas e mentais profundas, a dor da perda de familiares, uma reconstrução total quase inviável e para sempre aquele odor macabro que não cessa. Um grande o número de vidas errantes em busca de sentido.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

QUEM NÃO GOSTA DE SAMBA BOM SUJEITO NÃO É


“...é ruim da cabeça / ou doente do pé”. Samba da Minha Terra (1940), de Dorival Caymmi, foi lançado pelo Bando da Lua, que viera dos EUA, onde acompanhava Carmen Miranda, e sucesso também com João Gilberto no famoso concerto da Bossa-Nova no Carnegie Hall, em 1964. Com direito à baianidade, ao requebro das mulatas - “quando se canta todo mundo bole”, João mostrou que bossa-nova era samba, sim, sinhô. Pesquisando para o meu Dicionário de Termos e Expressões da Música¹, listei em verbetes mais de trinta ritmos e gêneros de samba de todos os matizes, o que daria um livro à parte. Sigo um pouco pela cronologia e faço meus passeios, quando necessário.
Donga
De ‘semba’ (arbusto que balança ao vento), que em Luanda, capital de Angola, se refere a uma dança de umbigada, o samba tornou-se benquisto pela nossa classe média depois da primeira gravação de Pelo Telefone, por Ernesto dos Santos, o Donga, em 1917, e logo se tornou coqueluche com Lamartine, Pixinguinha, Jamelão e outros. Mesclou-se com facilidade a vários ritmos, dando início a diversos gêneros: nos anos 1930, o samba já havia flertado com canções, nos teatros de revista do Rio, shows de música, anedotas e vedetes. E veio o samba-canção. Ai, Ioiô, de Luís Peixoto e Marques Porto, já havia surgido em 1929. Bem depois, destaque para Ave-Maria no Morro (1942), de Herivelto Martins.
Ademilde Fonseca (acervo O Globo)
O choro, no princípio instrumental, passou a incluir letras nos anos 1930, como em Vida de Passarinho, de Ari Kerner e Veiga de Castro. Tico-Tico no Fubá (1931), de Zequinha de Abreu, ainda era choro, mas a ginga carioca e uma letra o fizeram samba-choro. Valdir Azevedo criou o imortal Brasileirinho para um menino que tinha um cavaco de uma corda só em 1947, e a letra viria com Pereira Costa em 1950, alcançando sucesso na voz virtuosa de Ademilde Fonseca - saltos de sexta e cromatismos não são pra qualquer um. No mesmo ano, chegou o sambalada, meio caminho entre os dois ritmos, e o samba batido, do interior da Bahia. Na época, o ritmo também se aproximou de uma dança espanhola trazida para a América Latina via Cuba, de onde nasceu o sambolero.
Jackson do Pandeiro
E vieram o samba-lenço, misturado ao fandango e com coreografias de panos coloridos, o samba-traçado, influência do Candomblé nagô com sabor de maracatu (“este samba que é misto de maracatu”:  Mais que Nada, de Jorge Ben, 1963);  o samba-rural, resquício da resistência da cultura negra paulista; o sambalelê, do congo de roda, e o samba-rock. No último, insere-se Chiclete com Banana, de Gordurinha e Castilho, lançado em 1958 pelo paraibano Jackson do Pandeiro: “Só ponho bebop no meu samba / quando o Tio Sam pegar no tamborim (...) / é o samba-rock, meu irmão”.
Com as escolas de samba vieram os sambas de enredo, que sempre exaltam um acontecimento histórico, um personagem, daí o ‘samba-exaltação’. Pioneiros foram Mano Décio da Viola, Estanislau e Penteado Silva, com Inconfidência Mineira (1949), mas a beleza maior, unanimidade nacional, fica com a portelense Foi um Rio que Passou em Minha Vida (1970), de Paulinho da Viola. Sem chegarem à avenida, são do estilo de enredo o Samba do Crioulo Doido (1968) de Sergio Porto, e Vai Passar, do Chico e Francis Hime (1984, sugestivo em ano de Diretas Já). Das escolas e blocos surgiram também o samba de morro, com percussão bem carregada, o samba de terreiro ou de quadra, o samba de valentes e outros tantos. 
Kid Morengueira
Moreira da Silva, o Kid Morengueira, malaco sambeiro que só bebia leite e andava de chapéu e ‘liforme branco’, diria Caymmi, autoproclamou-se o inventor do samba de breque, em 1936, com Jogo Proibido. O som parava e vinha o breque - brake, freio de carro, em inglês - para divertidos recitativos que  hoje muitos achariam que é rap. (Segundo Ary Vasconcelos², o breque seria a “interpolação de uma frase ou outra” no meio da música).  Contudo, três anos antes, Heitor dos Prazeres já havia criado, em Eu Choro, aquela paradinha (“breque: eu vou chorar”). O historiador José Ramos Tinhorão3 lembra que Sinhô, em 1929, já havia encaixado três redondilhas menores em Cansei, assim como a dupla Ismael Silva e Nílton Bastos: Se Você Jurar, ou O que Será de Mim (“breque: eu não sei o que será”). Mas a fama de criador do gênero quem capitalizou mesmo foi Morengueira, que fazia longos recitativos nos breques. Nos anos 1950, o breque foi também assimilado por Miguel Gustavo e Billy Blanco.
Elza, no programa Jovens Tardes
Maleável que é, o ritmo logo adentrou outras searas, a exemplo do samba de gafieira, surgido nos anos 1940 - corpos colados em gingados sensuais, à maneira da salsa cubana -, e o samba de partido alto, intimista e de harmonias simples, bom para os pagodes de quintal. (O nome pagode vem da tenda, geralmente um encerado de carroceria de caminhão, que cobria os quintais onde era cantado e dançado, sustentado por uma corda pelo meio, o formato lembrando mesmo um pagode chinês). Mesclado também era o samba-jazz, que, com Elza Soares e seu scat-singing  arrastou Ed Lincoln, Dóris Monteiro e Leny Andrade, estrela de Estamos Aí, do gaitista Maurício Einhorn, Durval Ferreira e Werneck (1968).

Toda sorte de ritmos, como o samba caipira paulista, cantado em terças por duplas de artistas, como os sertanejos, surgiu para enriquecer. O samba hoje é como o jazz: engloba uma infinidade de gêneros e continua evoluindo, conquistando novos espaços. Para ele, não há limite ne prazo de validade: enquanto a criação persistir o samba estará aí, para todos os bons sujeitos que não têm doença no pé.
(1) SP: Editora 34, 2004.  2ª ed. (2) Panorama da Música Popular Brasileira. SP: Martins, 1964. (3) Pequena História da Música Popular. SP: Círculo do Livro, s/ data. 


sábado, 16 de junho de 2018

A NECESSIDADE DO REGENTE DE ORQUESTRA



Muitos leigos perguntam se o maestro é mesmo necessário, especialmente quando veem orquestras de câmara conduzidas por seu violino solista, costume muito antigo. Um bom conjunto de câmara, a depender da peça, nas músicas que não abusam de alterações de andamento, como complicados accelerandi ou ritardandi (o inverso), pode tocar parte do repertório sozinho. Mas para a maior parte das músicas que vão do pico do romantismo aos dias de hoje a coisa é bem mais complicada. Ígor Stravinski (1882-1971) disse que a carreira dos regentes na maior parte das vezes se faz com obras do período romântico. E que as músicas do chamado período clássico ‘eliminam’ o regente, ele não é lembrado.

Orquestra de Câmara: sem regente
Houve tentativas de extinguir a figura do regente, e várias nos anos 1920, na então recém-criada União Soviética do igualitarismo sedutor Marx de e Lênin. Conforme lembrou o amigo, compositor e regente Aylton Escobar, logo alguém se sobressaía e os olhos dos colegas a ele se voltavam nas entradas – gestos que indicam o início de uma peça, uma seção, ou alguma alteração de andamento. Também na orquestra, como é da natureza humana, uns eram mais do que os outros. Nos grandes grupos, contudo, a figura do regente teve de prevalecer, impondo-lhes disciplina musical na complexidade.

Frank Battisti: quando a orquestra aplaude o maestro de pé (Xpress)
Bernstein imprimia sua personalidade sacudindo a batuta e às vezes dando pequenos saltos. Osawa chegava a se agachar nos pianíssimos, enquanto para os ataques fortíssimos reservava um gesto, às vezes com ambas as mãos, que eu apelidei de ‘golpe do machado’. Exemplo de boa regência controlada vi em 1980, tocando em uma master class do maestro Frank Battisti, que aliás já esteve no Brasil, em Tatuí. A demonstração foi dirigida a um jovem que tentava em vão fazer com que os músicos do Wind Ensemble da NEC iniciassem perfeitamente juntos o Pássaro de Fogo, de Stravinsky. Disse-lhe que não precisava tanto da batuta – ali, até olhos e sobrancelhas eram mais importantes. Battisti pegou-lhe a batuta e com um discretíssimo golpe, que eu diria de mestre, iniciou a peça com absoluta precisão. Ah, e além dos regentes econômicos há os franciscanos, de mínimos gestos.

Zukermann, o solista regente
O grande violinista, violista e dublê de regente Pinchas Zukermann, dono de cachês altíssimos, liderava a orquestra de Saint-Paul e costumava solar nos concertos. Bastava um gesto do corpo, um olhar, um movimento de arco. Sério no palco, meio moleque fora dele, não hesitou em tirar seu violino do estojo e tocar em plena rua de Vancouver - com a brincadeira, auferiu uns trocos e degustou um belo frango assado.  

Giuseppe Verdi
Voltando aos primórdios da regência, desde Lully (1632-1687) maestros tornaram-se assunto saboroso na língua áspera dos instrumentistas. Por essas e outras, o grande compositor de óperas italiano Giuseppe Verdi (1813-1901) costumava referir-se à orquestra, à boca pequena, como la divina canaglia, lembrando a Divina Comédia (séc. XIV) de seu conterrâneo Dante. Episódios reais muitas vezes tendem a se transformar em anedotas, rapidamente incorporadas ao repertório da classe, seja um fato real, com os coloridos de praxe, ou os que talvez nunca existiram e surgem como fato em conversas aqui e ali, sabe-se lá se ‘verdade verdadeira’, a vera veritas. Um conhecido maestro, em um ensaio, reclamou da afinação da terceira trompa. O primeiro do naipe, rindo, disse maestro, a terceira faltou hoje. Diz a lenda que o maestro retrucou dizendo-lhe que então quando o terceiro viesse era para avisá-lo (fazendo troça, mas meio encabulado pela gafe. Pior o remendo do que a sonata).

Bach em família 
Já em tempos distantes, Johann Sebastian Bach não se conformava com murmurinhos crueis, prática comum a nove entre dez músicos de orquestra. E ficava uma onça quando sabia que o assunto eram suas divinas habilidades musicais. Ora, resmungou, eu trabalho como um operário! (A ele se reputa a autoria da frase ‘a música é 10% inspiração e 90% expiração’). Admirável que ele tenha feito tudo o que fez como genial e prolífica formiguinha da música e à parte ainda duas dezenas de filhos, legando-nos numerosa obra musical. E descendentes.

Caymmi: "nas ondas verdes do mar"
Ao contrário de Bach, o genial baiano Dorival Caymmi deixou-nos os talentos de Nana, Dori e Danilo e compôs pouco mais de uma canção por ano de vida. Cantava ‘365 igrejas a Bahia tem’ – se a vida é um dia após o outro, daria para passar um ano inteiro a percorre-las. Webern, nascido em 1873, também foi um compositor para lá de econômico - o conjunto de sua obra não soma três horas de duração, caberia em pouco mais de dois CDs. Morreu em 1945 baleado por um soldado americano, vítima da perseguição a um genro seu procurado por atuar no mercado negro, durante a ocupação aliada da Áustria.

Felix Mendelssohn
Ao revés da produção econômica, retornamos ao prolífico  Bach, autor de algumas obras fartamente caudalosas, como suas duas Paixões: Segundo Mateus e Segundo João. A primeira delas possui nada menos que 78 seções, e em uma das vezes em que toquei houve intervalo para jantar, fazendo daquela tarde-noite um concerto extenuante, mas compensador para o espírito e o estômago. Graças à Paixão Segundo Mateus que Bach, que andava quase esquecido, foi redescoberto por Felix Mendelssohn (1809-1847), que a regeu depois de quase dois séculos. Um crítico, sabe-se lá se por causa do antissemitismo que grassava na época, escreveu, destilando seu veneno mais desaforado, que aquela ‘descoberta’ da longuíssima Paixão de Bach terminou de matar Cristo para lustrar a vaidade de Mendelssohn.

domingo, 6 de novembro de 2016

BOB DYLAN: CANTO FALADO, PALAVRA CANTADA

Está aberta a sessão do repente. Quem é do canto falado, da palavra cantada, que se apresente na roda.
O som da voz, luz criada por Deus de presente aos homens e animais, veio no princípio, mas logo depois do Verbo, servia para os seres se comunicarem, fazer amigos ou apavorar inimigos e maus espíritos, além de conquistar terras e fêmeas, é a mais antiga e completa forma de expressão. 

Safo

Haja polêmica pela indicação de Bob Dylan para o Nobel de Literatura! Sem adentrar uma discussão que nunca será resolvida, acho  que Dylan às vezes quase que “declama” seus poemas, mais do que canta. (E algumas vezes, letra caudalosa, como a original de Like a Rolling Stone, com 10 páginas. Lembra-me a poetisa grega Safo (© 650 a.C.), e o épico Homero (© 850 a.C.), que meio que declamavam e meio que cantavam, assim como o bardo inglês Shakespeare (1568-1616). Todos adeptos da palavra cantada. Bob tem um pé na onda do "Talking Blues" a exemplo da gravação de Bouchillon (1926), ou das músicas de Woody Guthrie, Mean Talking Blues. Ouça abaixo: 

Canto Gregoriano
O canto gregoriano, meio falado (ad occasum laudabile nomen Domini), usava melismas que traduziam dúvida, súplica e elevava ao estado de contemplação, com longos vaivéns tricotados em poucas sílabas sobre os sons. O responsório da missa católica romana resistiu meio cantado em belíssimo latim, até tempos recentes. Dominus vobiscum; (resp): et cum spiritu tuum.  
Encenação do Pierrot Lunaire
Schönberg, liquidificando a palavra, revelou-a em sua fase abstrata, mas traduziu para a língua de Goethe o texto escrito por Albert Giraud originalmente em francês. Os pontilhismos do Sprechgesang do Pierrô Lunar, de 1912: J'ai les vers luisants pour fortune / Je vis en tirant, comme toi / ma langue saignante(“Tenho os versos brilhantes por sorte / eu vivo mostrando, como você / minha língua cáustica...”)
B´Boying
Esse canto falado e a palavra cantada, de antes da época de nossos vovôs, é desconhecido das gangues b-boying e MC de N.York e da molecada do Vidigal carioca ou Capão Redondo paulistano. Adotam o rap (Rythm And Poetry, “Ritmo E Poesia”), hoje "musiscigenado" até mesmo entre os rappers brasileiros sem conhecer-lhe significado e raízes. Gêneros similares sempre existiram.


Caymmi (Ag. JB)
O rap americano não usa mais do que duas ou três notas. Já o suposto criador do rap que alguns creditam ao Jair Rodrigues “deixem que digam, que pensem, que falem”, é uma balela - depois da introdução segue uma elaborada melodia, que desfila quase uma escala inteira (sem falar no fato de que os autores eram Alberto Paz e Wilson Menezes. É assim mesmo, Jair era o "canário", daí...Virou "dono" da música, outro vício brasileiro). Até “Águas de Março”, do Jobim, também teria sido precursora do rap, ou o divertido Caymmi do “João Valentão é brigão / pra dar bofetão / não presta atenção...”
E os brados populares, como aquele depois da vitória contra a Inglaterra, Copa de 1970? ? (“é canja, é canja, é canja de galinha / a nossa seleção...” – cujo final me abstenho de reproduzir). Ou o marketing político de “Getúlio, Getúlio, Getúlio e João Pessoa”, quem sabe ainda o mais recente “o povo unido jamais será vencido” e afins? Tecem loas até para o rap branco de classe média alta do Gabriel Pensador:  “Existem mulheres que são uma beleza / mas quando abrem a boca (...) Lôrabúrra!”. Aquilo é poesia mesmo, e bem construída.
Kid Morengueira
Moreira da Silva, o Kid Morengueira, frequentador contumaz do bas-fond da Lapa Carioca, era rei da palavra, da métrica perfeita, e contava estórias faladas entremeando partes cantadas em seus sambas de breque. Em “Olha o Padilha” (1952), Kid lembra o delegado carioca “caçador de playboys”. Prenderam o Kid, e, levado de camburão à chefatura, um barbeiro o aguardava. Ordem do “delega” Padilha: “raspa o cabelo desta fera”, humilhação mortal para o malandro “Chico cabeleira”. Para a música e ele entra com o breque: “Ah, ele quer ver minha caveira. Eu, hein? Se eu não me desguio a tempo ele me raspa até as axilas. O homi é de morte”.


Ilustração para L'Histoire du Soldat
Sublimes são os Rezitativ das “Paixões” (João e Mateus, entre 1724 e 1727) de Bach, narrados por um tenor. Canto falado é “A História do Soldado” (1918), de Stravinsky, com texto de Charles Ramuz. Um Fausto travestido de soldado entrega seu violino mágico para o capeta, tudo com direito a princesa, embalado em marchas, tango e ragtime, com tempero de folclore russo.
Aqui no Brasil, temos baiano, que mineiro diz que fala cantando, e temos mineiro, que baiano diz que fala cantando. E os cantadores, os repentistas que cantam falando e falam cantando: “triste ô feliz é o cantadô / qu’eu apanhá prá dá o castigo” (Elomar).
Sly and the Family Stone
E o “funk carioca”, modismo que nada tem a ver com o funk verdadeiro, como o do histórico Sly and the Family Stone? A dança dos piores bailes cariocas é pura catarse, com raras ou quase nenhuma nota, um vomitar de palavras no jargão das gangues de bandidos e traficantes, como no “Tchu Tchuca” do Bonde do Tigrão ("vem aqui com seu tigrão / vou (...) te dar muita pressão"). E há o “proibidão”, linha dos MCs Catra e Sabrina, de apologia à droga, ao crime e ao sexo versão XXX. MC, para quem não sabe, rapaziada, quer dizer Master of Ceremony: made in USA, Yes, Sir!

É hábito brasileiro “criar verdades” a partir de ilações. Essas, como dizia Goebbels, repetidas muitas vezes tornam-se reais para quem as comprar. Essas “verdades” não têm prazo de validade, infelizmente. Uma das mais curiosas delas fala do forró. Afirmam firme e forte que seriam bailes dos gringos, na Base Aérea de Natal, festas aberta para todos – os for all, de onde teria surgido o termo forró, garantem. É? Mas muito antes disso Chiquinha Gonzaga compôs seu “Forrobodó”, palavra que desde a segunda metade do século XIX dividia com forrobodança o nome dos bailes de maxixe (de “sô macho, ixe”), os forrós.  

Meu povo, estamos “à vontademente” redimidos. Em música nada se cria, nada se rejeita, derrepentemente tudo se aproveita. E termina aqui esse desafio de repentista, para que o Congresso Nacional, “no uso das atribuições e atribulações”, decrete, revogadas disposições em contrário:  “fica abolido a partir desta data, a bem público da péssima saúde mental do imaginário nacional, o rigor científico da nossa lorotada musical”.  Estão encerrados desafio e sessão e, concordando ou não, salve o jeito que sempre cantou e falou o bardo Bob Dylan.