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sábado, 7 de março de 2020

MULHER !


Caetano e Chico na informalidade
“Quando vem a madrugada ele some / ele é quem quer / ele é o homem / eu sou apenas uma mulher”. Nesta lindíssima canção, “Esse cara” (1973), Caetano retrata a mulher submissa, mero objeto de um homem que faz na vida o que quer, enquanto ela apenas o aguarda. Ele se coloca exatamente no lugar dela, ao cantar, apesar de a irmã Bethânia também ter gravado uma linda versão. Essa transmutação de um homem cantando os sofreres de uma mulher não é incomum, Chico Buarque também a fez duas ou três vezes, a exemplo de “Com açúcar, com afeto” (“fiz seu doce predileto / pra você parar em casa”). É a autocrítica do homem por sua culpa pela condição da mulher daqueles tempos, ela que aceitava com resignação os caprichos e desígnios do companheiro.
Sendo homens a grande maioria dos compositores e as mulheres os modelos para suas criações, claro que no passado prevalecia o ponto de vista masculino, o lado mais forte, de quem conta  a história. Para o cabra-macho Virgulino Ferreira, o Lampião, sua companheira de cangaço tinha de ser submissa, mas oferecer-lhe paixão como bem cantou Volta Seca, homem do grupo do Rei do Cangaço, em gravação de 1957, dezenove anos depois da morte da amante do chefe: “Acorda, Maria Bonita / levanta, vem fazer café / que o dia já vem raiando / e a polícia já está de pé”. Em jornada dupla, ela participava do cangaço, preparava a boia e o café, arrumava a tenda, limpava e areava as panelas de fundos encarvoados pela lenha das refeições. E ainda namorava.
Assim como em Caetano e Volta Seca, com aguçado espírito crítico “Cotidiano”, de Chico Buarque, mostra o homem cantando o dia a dia da mulher companheira, que labuta na casa e vai esperá-lo pontualmente na entrada quando ele chega: “Todo dia ela faz tudo sempre igual / me sacode às seis horas da manhã”. No retorno do trabalho, doze horas depois, segue a rotina: “Seis da tarde, como era de se esperar / ela pega e me espera no portão”. Se na partida o beijo da mulher tinha o gosto da hortelã da pasta de dentes, na volta do batente o sabor que o recebia era o da paixão.  Genial é a “Feijoada Completa”, também do Chico, uma receita que desce aos detalhes, um roteiro para a companheira fazer o agrado aos compadrios do homem: “Mulher / você vai gostar / tô levando uns amigos pra ‘cunversar’”. Como o dinheiro anda curto, ele diz para botar água no feijão, mas pede cerveja ‘prum’ batalhão (que não pode faltar, claro!). “Bota a mesa no chão que o chão tá posto / e prepare a a linguiça pro tira-gosto”, tarefas a que ela deve se dedicar com especial deferência.
Em 1974, participei da temporada de “Mais quero asno que me carregue que cavalo que me derrube”, auto do português Gil Vicente (1456-1536) extraído da “Farsa de Inês Pereira” e adaptado aos tempos modernos por Carlos Alberto Soffredini. Estrelava a atriz Tereza Rachel, que cantava um fado com direito a sotaque lusitano, vestida a caráter. Eu e o violonista Gaetano Galifi a acompanhávamos: “Pois se espelhe aqui comigo / eu que não tenho marido / e sou por aí falada como desavergonhada”. Era um sofrimento a mulher estar solteira, e um desterro viver separada. E é cantando que ela dá um conselho: “Mulher tem que ter um homem / que lhe abrace e lhe dê nome / sem homem mulher é nada / e acaba desesperada”.
Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sarte em Pequim, 1955
Desde o fado do auto do Gil Vicente, de 500 anos atrás, passando pela “Maria Bonita” do cangaceiro Volta Seca, e pelo Caetano e Chico do século 20, a música tem sido uma boa maneira para analisarmos o caminho trilhado pela mulher rumo à tão cobiçada independência. Da Santa Jeanne D’arc à inglesa Mary Shelley e a francesa George Sand, ambas do séc. 18, chegando à contemporânea Simone de Beauvoir, a também inglesa Virginia Wolf (virada do século 20), a mexicana Frida Kahlo e dela até as americanas Gloria Steinem, Betty Friedan e Oprah Winfrey, sim, mulher, como tem sido longa e dolorida a sua luta!
Havia um anúncio de uma marca de cigarros em revistas americanas em que uma linda mulher, sempre muito bem vestida, aparecia em primeiro plano em pose elegante, fumando um daqueles slims. No fundo, em preto e branco ou sépia, uma cena mostrava o passado, mulher enchendo uma carroça com feno ou alguma ilustração que mostrasse a submissão de que ela teria, enfim, se libertado. Sempre trocando a ilustração do anúncio, o mote da série era “You’ve come a long way, baby”, algo como “Você vem de longe, garota”. Essa propaganda da Philip Morris para o Virginia Slims, voltada ao público feminino, teve início em 1968, fazia o marketing do vício e tinha a luta das mulheres como oportuna estratégia.
Clara Zetkin e Rosa Luxemburg em 1910
A todas as mulheres, aplaudimos a celebração deste seu dia, por terem feito tanto pelo mundo, rumando à posse do merecido espaço de justa igualdade, embora ainda longe de ser conquistada. Em um 8 de março, em 1884, Susan Anthony propôs à Câmara dos Representantes dos EUA uma emenda que garantisse às mulheres o direito ao voto. Simbolicamente, a data serviu para uma conquista de Clara Zetkin, militante feminista alemã, durante a Conferência Internacional das Mulheres Socialistas de NY de 1910. Em 8 de março de 1910, a francesa Raymonde de Laroche foi a primeira mulher a receber um brevê de piloto de avião, e na mesma data, em 1911, eclodiu o primeiro movimento pelo voto feminino.  Não é uma data qualquer, ela é símbolo de sofrimentos, lutas, história plena de significados. O dia 8 de março continua a ser dedicado a elas em grande parte dos países do mundo. You’ve come a long way, baby.


domingo, 24 de fevereiro de 2019

UM FURACÃO CHAMADO BIBI


Chegamos os seis quase juntos naquele teatro enorme, vazio, eu já havia tocado bastante ali. Fomos para o nosso lugar, afinamos, arrumamos as estantes, preludiamos, papeamos como em qualquer conjunto. Logo chegou o Dori Caymmi, proseamos um tanto, ele pegou umas partituras novas e, naquela bagunça, passou a escrever arranjos sem usar o piano, transpondo de cabeça as partes, uma a uma, até as de sax alto e tenor, sem uma partitura geral! (Aí o porquê do Grammy Latino e da indicação ao Grammy Internacional). Ao piano, Luizão Paiva, sax, Zé Nogueira (do segundo não me lembro), violão, Vital Farias, bateria, Joca Moraes, eu no contrabaixo. Pronto, hora de ensaiar a vera, Dori com a palavra. Assim nasceram os arranjos das músicas do Chico para a Gota D’Água, peça de 1975. Sob o medo (não, já não cabia temer) de um possível veto da censura logo na estreia (no ano anterior, o gen. Bandeira havia mandado a PF impedir Calabar, de Chico e Ruy Guerra, 'subversiva ode à traição').
Eurípides: 480-406 a.C. 
A peça era baseada na tragédia grega Medeia, de Eurípides (480-106 a.C.), ambientada em um conjunto habitacional pobre do Rio. Creonte, papel de Osvaldo Loureiro, era o todo-poderoso da comunidade, e sua filha Alma, a jovem e linda Bete Mendes, seduzia Jasão, marido de Joana, a Medeia. Na batuta da cena, o milanês Gianni Rato, gênio da cenografia, da coreografia e tudo o que se desenrola sobre um palco. Em sua bagagem, a Meca da ópera, o La Scalla de Milão, Maria Callas. Atores no palco, bailarinos, músicos a postos, ensaios, tudo sob os olhos críticos do Chico Buarque e Paulo Pontes, autores da peça, e os argutos Dori e Rato. As cenas, o clima, os movimentos, tudo ia tomando forma e espaço em um emaranhado orquestral.
(Folha PE)
Um dia percebi que observava tudo a Sra. Abigail Izquierdo Ferreira (a mãe dela, Aída, era argentina, e tinha esse sugestivo prenome operístico). Meio franzina, baixinha, mal saída dos 50 anos. Modesta, simpática, logo fez amizades, armada apenas com seu carisma. Bibi Ferreira, atriz com formação em Londres, cantora, diretora, artista vinte vezes premiada, musicista e dona de uma simpatia que conspirava com sua luz natural e estelar. Dia daqueles, sentou-se ao piano, nem tinha tempo de estudar mas sabia muito bem do teclado. Cabelos escorridos, braços magros, um corpo que não escondia a idade (nem se incomodava com isso, haveria de colecionar tantas décadas de vida). O palco luzindo à presença dela.
Chico e Paulo
Chico e Paulo Pontes, marido de Bibi na época, escreveram o texto como se ela fosse a única. Cantava muito bem, exprimia na face e no corpo um drama para lá de intenso. As juras de vingar Jasão, marido e traíra, traidor com o beneplácito do chefão canalha, Creonte: “pra mim / basta um dia / não mais que um dia / um meio dia”. A plateia seria conduzida à tragédia, um crescendo enorme, como em uma sinfonia do romantismo tardio. Medeia envenena os filhos e se mata. No longo monólogo final, apenas um canhão, aquele pequeno foco redondo e intenso de luz circundando Bibi, já atirada no chão, o resto era breu, silêncio. Logo nas primeiras récitas não resisti, fui fazendo um coração da corda mais grave abafada, tum-tum, tum-tum. Daí esmorecendo, como se a vida fosse desvanecer na pulsação audível, logo suave até sumir, logo estancada em silêncio. Havia sido a gota d’água.
Momentos divertidos, papos de bastidor, molecagens de músicos. Certa vez, com apenas uma longa camisa social masculina, Bibi chegou para nós músicos com a delicadeza de sempre. Vim lhes pedir um favor (diabo, o que seria? Tocar mais baixo?). Disse que estava meio afônica, não conseguiria chegar aos agudos com a garganta ruim, se a gente poderia baixar em um semitom a tonalidade da música. Pânico. Era impossível, havia 2 saxes, instrumentos transpositores, baixar todos um meio tom de lá menor, loucura tentar, estava tudo escrito, ia desarranjar os arranjos do Caymmi, tudo escritinho com esmero.
Resolvemos encarar a fera, enganar a Bibi. E haveria de ser só entre nós e na cara de pau. Vamos tocar a música como está, decidimos. Hora da cena, canta a Bibi “...se tritura, se atura e se cura a dor / na orgia”. Uma voz gutural, uterina, em desespero, sangue nos olhos, cravou todos os agudos. Na hora dos aplausos, ao final, do proscênio Bibi fez um gesto elegante para nós seis, talvez já sete, talvez já fôssemos sete, talvez Bibi tivesse percebido e nos fosse cúmplice. Guardando os instrumentos, a peça havia terminado outra vez, o Teatro Tereza Rachel apinhado, já íamos saindo, chega a Bibi, o que ela ia fazer, ralhar conosco, dar um pito de mãe, xingar? Não, ela veio agradecer e me lembro bem das palavras, obrigada, meninos, vocês são uns amores, disse. Assoprou um beijo sem batom de rosto lavado, sem maquiagem, linda.
Tum-tum, tum-tum do coração, e sai da cena Bibi, sem termos tido a chance de explicar o ocorrido, nossa consciência já pesava como um tijolo. Mas estrela é estrela, estava acima disso, receberia tudo de coração, com um sorriso, pensamos. Se um dia nos encontrarmos, Bibi, ou seja, a Medeia, Joana, com que roupa for (a vida de todos os papeis era dela mesma), My Fair Lady, se nos encontrarmos eu conto, se é que você não sabe. Você, que além de todo o já dito e redito é e sempre será magnânima, nos perdoará (mas será que percebera  a travessura?).
Nesses últimos dias publicaram tantas biografias, reportagens, não me caberia acrescentar nada. Só este depoimento e a prazenteira confissão póstuma da traquinagem.