Caetano e Chico na informalidade |
“Quando vem a
madrugada ele some / ele é quem quer / ele é o homem / eu sou apenas uma
mulher”. Nesta lindíssima canção, “Esse cara” (1973), Caetano retrata a mulher
submissa, mero objeto de um homem que faz na vida o que quer, enquanto ela apenas
o aguarda. Ele se coloca exatamente no lugar dela, ao cantar, apesar de a
irmã Bethânia também ter gravado uma linda versão. Essa transmutação de um
homem cantando os sofreres de uma mulher não é incomum, Chico Buarque também a fez
duas ou três vezes, a exemplo de “Com açúcar, com afeto” (“fiz seu doce
predileto / pra você parar em casa”). É a autocrítica do homem por sua culpa pela
condição da mulher daqueles tempos, ela que aceitava com resignação os caprichos
e desígnios do companheiro.
Sendo homens a
grande maioria dos compositores e as mulheres os modelos para suas criações,
claro que no passado prevalecia o ponto de vista masculino, o lado mais forte, de quem conta a história. Para o cabra-macho
Virgulino Ferreira, o Lampião, sua companheira de cangaço tinha de ser
submissa, mas oferecer-lhe paixão como bem cantou Volta Seca, homem do grupo do Rei do Cangaço, em
gravação de 1957, dezenove anos depois da morte da amante do chefe: “Acorda,
Maria Bonita / levanta, vem fazer café / que o dia já vem raiando / e a polícia
já está de pé”. Em jornada dupla, ela participava do cangaço, preparava a boia
e o café, arrumava a tenda, limpava e areava as panelas de fundos encarvoados pela
lenha das refeições. E ainda namorava.
Assim como em Caetano
e Volta Seca, com aguçado espírito crítico “Cotidiano”, de Chico Buarque, mostra
o homem cantando o dia a dia da mulher companheira, que labuta na casa e vai esperá-lo
pontualmente na entrada quando ele chega: “Todo dia ela faz tudo sempre igual /
me sacode às seis horas da manhã”. No retorno do trabalho, doze horas depois, segue
a rotina: “Seis da tarde, como era de se esperar / ela pega e me espera no
portão”. Se na partida o beijo da mulher tinha o gosto da hortelã da pasta de
dentes, na volta do batente o sabor que o recebia era o da paixão. Genial é a “Feijoada Completa”, também do
Chico, uma receita que desce aos detalhes, um roteiro para a companheira fazer o
agrado aos compadrios do homem: “Mulher / você vai gostar / tô levando uns
amigos pra ‘cunversar’”. Como o dinheiro anda curto, ele diz para botar água no
feijão, mas pede cerveja ‘prum’ batalhão (que não pode faltar, claro!). “Bota a mesa no
chão que o chão tá posto / e prepare a a linguiça pro tira-gosto”, tarefas a
que ela deve se dedicar com especial deferência.
Em 1974, participei
da temporada de “Mais quero asno que me carregue que cavalo que me derrube”,
auto do português Gil Vicente (1456-1536) extraído da “Farsa de Inês Pereira” e
adaptado aos tempos modernos por Carlos Alberto Soffredini. Estrelava a atriz
Tereza Rachel, que cantava um fado com direito a sotaque lusitano, vestida a
caráter. Eu e o violonista Gaetano Galifi a acompanhávamos: “Pois se espelhe
aqui comigo / eu que não tenho marido / e sou por aí falada como
desavergonhada”. Era um sofrimento a mulher estar solteira, e um desterro viver
separada. E é cantando que ela dá um conselho: “Mulher tem que ter um homem / que lhe
abrace e lhe dê nome / sem homem mulher é nada / e acaba desesperada”.
Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sarte em Pequim, 1955 |
Desde o fado do auto
do Gil Vicente, de 500 anos atrás, passando pela “Maria Bonita” do cangaceiro
Volta Seca, e pelo Caetano e Chico do século 20, a música tem sido uma boa
maneira para analisarmos o caminho trilhado pela mulher rumo à tão cobiçada independência.
Da Santa Jeanne D’arc à inglesa Mary Shelley e a francesa George Sand, ambas do
séc. 18, chegando à contemporânea Simone de Beauvoir, a também inglesa Virginia
Wolf (virada do século 20), a mexicana Frida Kahlo e dela até as americanas
Gloria Steinem, Betty Friedan e Oprah Winfrey, sim, mulher, como tem sido longa
e dolorida a sua luta!
Havia um anúncio de uma marca de cigarros em revistas americanas em que uma linda mulher, sempre muito bem
vestida, aparecia em primeiro plano em pose elegante, fumando um daqueles slims. No fundo, em preto e branco ou sépia, uma cena mostrava o passado, mulher enchendo uma carroça com feno ou alguma ilustração que mostrasse a
submissão de que ela teria, enfim, se libertado. Sempre trocando a ilustração do anúncio, o mote da série era “You’ve come a long way, baby”, algo
como “Você vem de longe, garota”. Essa propaganda da Philip Morris para o
Virginia Slims, voltada ao público feminino, teve início em 1968, fazia o marketing do vício e tinha a luta das mulheres como oportuna estratégia.
Clara Zetkin e Rosa Luxemburg em 1910 |
A todas as mulheres,
aplaudimos a celebração deste seu dia, por terem feito tanto pelo mundo, rumando à posse do merecido espaço de justa igualdade, embora ainda longe de ser
conquistada. Em um 8 de março, em 1884, Susan Anthony propôs à Câmara dos
Representantes dos EUA uma emenda que garantisse às mulheres o direito ao voto.
Simbolicamente, a data serviu para uma conquista de Clara Zetkin, militante
feminista alemã, durante a Conferência Internacional das Mulheres Socialistas
de NY de 1910. Em 8 de março de 1910, a francesa Raymonde de Laroche foi a
primeira mulher a receber um brevê de piloto de avião, e na mesma data, em 1911,
eclodiu o primeiro movimento pelo voto feminino. Não é uma data qualquer, ela é símbolo de sofrimentos,
lutas, história plena de significados. O dia 8 de março continua a ser dedicado a elas em
grande parte dos países do mundo. You’ve come a long way, baby.
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