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sábado, 7 de outubro de 2017

AUTRAN DOURADO, ROMANCISTA . Pai, amigo e herói - Parte II

Com alguns favoritos à mão
(Termino o texto a partir de onde havia parado na Parte I) 

Eventuais falhas em meus livros seriam corrigidas se fosse possível, mas tudo foi escrito com cinzel sobre pedra. Voltando ao pai, aquele estado pós-livro não fazia bem ao velho Autran. Fases deprimidas, brechas na intensa volúpia literária, a doença de escriba que o fazia escrever cartas e artigos aos borbotões, produção impressionante para quem usava uma máquina. Pouco simpático ao computador, cada vez que começava a digitar tinha de ter rápidas aulas para reaprender - menos pela modernidade do que por certo ‘tremor essencial’ nas mãos, doença de quem escreve, explicava repetindo o médico. 
Lev Tolstoi
Perguntei-lhe se o tempo consumido por Lev Tolstoi para escrever Guerra e Paz não poderia ter-lhe rendido muito mais livros se na época houvesse computadores. Ele foi categórico, nunca! Guerra e Paz é o que é porque foi escrito a bico de pena! Entendi que era, em tempos modernos, o que ele fazia na velha máquina, e só não escrevia com caneta porque tinha uma péssima caligrafia, que herdei dele. Tinha de pensar antes de cada tecla, cada sílaba, cada palavra. Aqueles corretivos maravilhosos não existiam ou não se dera bem com eles, acho que preferia pensar a conta-gotas enquanto escrevia. Tolstoi fora meticuloso como um relojoeiro, o bico de pena molhado com parcimônia na tinta, letras desenhadas para o texto planejado a cada palavra.
Servidor público da Justiça, meu pai viu abater-lhe a maldita aposentadoria compulsória, que viria aos poucos arrefecer sua febre criativa. Com o passar dos anos foi ficando ainda mais introvertido. O caipira do sul de Minas ainda conservava aquele humor característico e frases lhe brotavam da cabeça, forma de se comunicar com o mundo exterior, a família e os já menos frequentes amigos. Sair da vida de trabalho cotidiano foi-lhe fechando o casulo, e ele parecia se conformar com aquele fado.
Cabana de Henry Thoreau  em Walden Pond: reconstituição
Continuou escrevendo, mas já havia bons anos que evitava noites de autógrafos, seja por necessidade de isolamento, timidez ou pela dificuldade de tornar seus garranchos dedicatórias legíveis.  Virou, assim, uma espécie de Henry Thoreau de Botafogo, fechado em sua cabana imaginária, um escritório cercado de livros por todos os lados, na falta da água de um lago como o do norte-americano. De seu refúgio, saía quase que apenas para comer ou dormir, o que só conseguia à custa de medicamentos. 
Cervantes entre seus livros, sonhos e insônia
Os médicos pareciam seus reféns, as consultas eram economicamente narradas por minha mãe, companheira de vida, braço direito e às vezes também esquerdo dele. Era ela quem o acompanhava aos consultórios e escondia trancados os comprimidos, dosando-os conforme a prescrição e não segundo a cabeça já tanto quanto confusa de meu pai. Nessa fase, passou a ser usual cochilar na cadeira de balanço com um livro na mão, cena que fazia par com a gravura pendurada na parede ao seu lado, em que se via Don Quixote entre muitos livros e Cervantes, esparramado sob o dístico “embebeu-se tanto na leitura que passava as noites em claro”. Era o retrato daquela fase paterna.
Vem-me agora à cabeça um episódio de passado bem distante, lembro-me com detalhes e conto para concluir esse breve depoimento. Entreguei ao meu pai um dia, na hora do almoço, alguns títulos de livros pedidos pelo colégio. Ao ver um deles, arregalou os olhos, limpou a boca com o guardanapo, e, sem dizer nada, abriu a porta e desceu. Soube depois que tinha ido ao meu colégio, e exigiu que retirassem aquela publicação, seu filho não iria ler aquilo e ponto final.
A Monte Santo de antigamente
Se eu o vi furioso raras vezes, uma delas foi nesse dia, e ensinou-me a evitar esses novos best-sellers de ocasião. Dizia que escrever porcaria para vender ele também sabia, bastava juntar suspense, traição, escrita de gibi e uma pitada de sacanagem. Mas recusava-se a fazer isso abrindo mão da sua literatura. Best-sellers no Brasil são reles 20 mil exemplares vendidos, se passar muito além comece a desconfiar, alertou-me. Literatura em nosso país é útil para poucos, infelizmente. Para mim, que fui criado em Monte Santo, está muito bom, falava.
Na vida, na escrita, na música, aprendi que temos de fazer o que muito bem definiu meu pai na sua carpintaria literária o crítico Humberto Werneck: um trabalho de formiguinha. Werneck publicou em jornal artigo sobre um saudável bate-boca de amigos entre o Autran Dourado e o Fernando Sabino. Meu pai sempre instigou Sabino a escrever algo de maior fôlego, completo, deveria esquecer um pouco as breves crônicas e partir para o que, em música, chamamos ‘grande forma’ - no caso da literatura, o romance. Sabino já havia feito sucesso com seu O Encontro Marcado (1956), mas, passaram-se mais de 20 anos e ele continuou amarrado às suas divertidas crônicas. Provocado, Sabino vaticinou que o romance havia morrido. O velho Autran saiu-se com essa, dando aquela risada de sempre: engraçado, o Fernando, desaprendeu a nadar e quer esvaziar a piscina!
Tanto já foi escrito sobre a obra de meu pai que eu não poderia entrar nessa seara já tão desbravada sem ser um especialista estudado no ramo. Por isso, preferi mostrar o escritor como o homem e pai Autran Dourado, com suas imperfeições e manias, seu jeito tão mineiro e caipira de ser e viver, sem desfrutar da fama que a soberba, a vaidade e a busca por exposição poderiam tê-lo proporcionado, se dado fosse à exposição pública e às colunas sociais. Autran Dourado foi apenas uma coisa a vida inteira: um escritor, e isso bastou para justifica-la como ideal. O resto foi amor, família e ganha-pão. 

terça-feira, 26 de setembro de 2017

AUTRAN DOURADO, ROMANCISTA. Pai, herói e amigo - Parte I


Casa onde nasceu
(Trinta de setembro. Cinco anos que partiu!) O velho Autran não era muito de conversar sério, mas com seu jeito zombeteiro conseguia entremear conselhos sábios, tiradas filosóficas e usar a aguda visão política de um rapazola que fora inscrito no Partidão, de onde saiu por perceber que a ‘patrulha’ queria interferir em sua literatura. Viveu com os pés no barro de quem foi muito Brasil, desde as Minas Gerais de sua Monte Santo, que inspirou a mítica cidadezinha de Duas Pontes, recorrente em seus livros. Aos 19 já publicara um livro, porém a mim ensinou a não tentar ser precoce na vida, repetindo a lição que lhe havia sido dada pelo escritor Godofredo Rangel, que seguiu à risca desde o início. Não seja precoce, seja perseverante, obstinado, dizia – uma formiguinha, analisou um crítico há alguns anos, conforme veremos adiante.
Com Hélio Pellegrino e Maria Urbana, sentados no sofá
As conversas com os amigos, especialmente os que frequentavam nosso apartamento em um predinho de três andares sem elevador, se eram entre risadas com o Otto Lara Resende ou o Hélio Pellegrino, pareciam ser mais sérias nas domingueiras com Clarice Lispector, quando o assunto passeava por Schopenhauer, Goethe e Kafka. Mais tarde eu iria me iniciar nas leituras dos grandes pensadores da esquerda ‘real’, levado, como o pai no passado, pelo canto da Lorelei que, à beira do rio Reno alemão, com seu corpo deslumbrante e voz virtuosa atraía barqueiros pela sua formosura. Inebriados pelo uivo, digo, canto do vento em uma reentrância das margens do rio, os barqueiros eram lançados para dentro de um grande vão nos rochedos, e suas embarcações espatifavam-se contra as pedras, fazendo-os vítimas de suas próprias ilusões. A minha Lorelei, no caso, era o fim das torturas, a liberdade intelectual e artística e a justiça social.
Momento solene: JK, Israel Pinheiro (de pé), e Autran Dourado (óculos, à direita)
Nomeação de Pinheiro para a presidência da NOVACAP, empresa que construiu Brasília

Pois minha atração pela vigiada esquerda estudantil daqueles tempos não via a risca tênue a separá-la do ingresso em uma revolução visionária. Era tudo a que se resumia na época a vida dos jovens sonhadores, tal qual acontecera com meu pai. Um dia, em Petrópolis, ele me convidou para um chopinho no tradicional D’Angelo. Lá, falou sério sobre sua vivência, primeiro taquigrafando falas do Luís Carlos Prestes na Assembleia de Minas. Mostrou também a sabedoria acumulada nos tempos de JK, de quem foi Secretário de Imprensa. Contou sobre sua longa ‘sala’ para – sim, ele mesmo, meu então ídolo - Che Guevara.
Não foi carrancudo em um pedestal, nem foi com intenção de me desmontar, do alto de sua experiência, apenas usou a tática correta, quem sabe remanescente de seus estudos dialéticos. Falou-me da expressão “democracia y libertad”, que ouviu incontáveis vezes de um verborrágico Guevara durante horas a fio, prática dos sermões em forma de discursos do comandante Fidel.
Em um duplo movimento, ‘roque de xadrez’, o pai se aproximava do filho ombro a ombro, mostrando como aquele canto da sereia atraía os jovens para o enfrentamento da ditadura. Lembro-me especialmente de ter ouvido a expressão “bucha de canhão”: enquanto a juventude era presa, torturada e às vezes morta, os “velhos” – alguns bastante conhecidos – ficavam encastelados no controle como em um videogame, preservando-se com a desculpa de serem a ‘inteligência’ da luta armada, que haveria de prosseguir e vencer. Começou a cair ali, na chopada, meu sonho irrealizável. (Alguns dos seduzidos pela cantilena da luta: jovens como Dilma, Dirceu e Gabeira). 
Viaduto Paulo de Frontin
Fora essas raras lições, falava dos livros, da necessidade de ler, uma enfermidade sadia que contaminou seus quatro filhos. Ontem mesmo, na rua, pensando em Dom Casmurro, do Machado, lembrei-me de mais uma frase lapidar que meu pai proferiu. Eram tempos pós-tragédia da Paulo de Frontin, no Rio (“Caía a tarde feito um viaduto”, pensei nos versos do Aldir Blanc), e afirmou que se todo mundo lesse Machado de Assis menos viadutos cairiam, menos pessoas morreriam na mesa de cirurgia. Hoje arrisco, com o beneplácito dele de lá de seu merecido descanso, que menos corrupção haveria!
Machado de Assis, nosso escritor maior, como o chamava, era seu porto seguro. Entre outros, alternava o carioca com Flaubert, Joyce e Faulkner. E passava horas lendo, e em algum momento e lugar inesperados a “ideia súbita” (não acreditava em inspiração) lhe surgia. Primeiro, ia anotando tudo em taquigrafia ­– a espanhola, mais rápida, dizia, com uma ponta de orgulho -, aprendida nos tempos da Assembleia de Minas.
Era taquigrafando que anotava detalhes em cartõezinhos que levava nos bolsos, peças do quebra-cabeça com que arquitetaria um futuro livro. Uma vez traçados os contornos principais da nova obra, punha-se a escrever desesperadamente, como se estivesse ficando – ou evitando ficar, sei lá – louco. E tudo isso com uma rotina metódica, um trabalho de carpintaria, dizia ele. Sua confidente era minha mãe, Lucia, que lia seus originais, e ele não mais costumava comentar sobre o que estava fazendo. Apenas uma vez perguntou-me se havia uma sonata em Fá de fulano (não me lembro a quem ele se referiu), e eu disse que sim. Achou bonitas as palavras, pois embora gostasse de música não era nada chegado à teoria, títulos e afins. Apenas ouvia. E usou a tal sonata em um texto, soava bem, pareceu-lhe.

Depois que terminava de escrever uma obra, a ressaca. Um dia ouvi uma frase do Jorge Luis Borges, o livro só acaba quando está impresso. Pura verdade que eu só vim a confirmar mais tarde, em minhas teses e livros técnicos, que só dei por terminados depois de vê-los impressos, seguros nas mãos. Coisa de formiguinha, pai! (Continua na próxima semana)