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sexta-feira, 18 de março de 2022

PUTIN, MACCHIAVELLI, NAPOLEÃO E A MENTIRA

 

O Kremlin

Chamada da manchete de capa do NY Times
de 10 de março: “Cada vez mais isolada, Rússia intensifica ataques a civis”. Embaixo, um subtítulo: “Atingido pelas sanções, Kremlin acusa os EUA de ‘guerra econômica’”. Enquanto isso, no mesmo dia O Estado publicou a opinião do conceituado analista político Thomas L. Friedman – três prêmios Pulitzer -, com o título “Putin não tem saída, e isso realmente assusta”: “Espere até 
Putin 
compreender totalmente que as únicas escolhas que lhe restam são sobre como ele pretende perder: uma derrota mais rápida e menor, com pouca humilhação; ou uma mais prolongada e maior, profundamente humilhado”. Ou seja, ou perde ou perde, pensa Friedman. O problema é se a Rússia pode suportar e o quanto um vilipendiado Putin, com sua soberba, resistirá até o momento final.


Dois autores de épocas diferentes
que refletiram sobre poder, guerra, invasão e ocupação: um, o diplomata, filósofo e historiador Niccolò Macchiavelli (1469-1527), por muitos tido como o primeiro cientista político. Nada a ver com a caricatura que fazem os que não conhecem sua obra: “maquiavélico”, aquele que é diabólico. Peguei na estante dois livros do florentino: O Príncipe e A Arte da Guerra. Do primeiro, gosto da edição da Martin Claret, com comentários de Napoleão Bonaparte, figura controversa mas grande entendedor da arte de guerrear, com um estudo do Marcílio Marques Moreira, economista, professor e diplomata brasileiro.


Macchiavelli foi o funcionário mais alto
da segunda Chancelaria de Florença, um dos órgãos da administração republicana instaurada em 1494. Para ele, há dois conceitos principais: a virtù, “qualidade do homem que o capacita a realizar grandes obras e feitos (...), pré-requisito da liderança”, e a fortuna, que seria o acaso, o curso da história, o destino, a fatalidade. Segundo Moreira, virtú e fortuna são “os grandes polos da ação política”. Em O Príncipe, Macchiavelli trata dos assuntos por capítulos, começando por “As monarquias hereditárias”. De “As monarquias mistas”, tiro alguns trechos bem interessantes: diz ele que quando se conquista uma província com leis, idiomas (obs.: na Ucrânia há doze oficiais), costumes diferentes, é preciso muita sorte e habilidade para manter-se. Aconselha o novo governante a “fixar-se na província, fazendo-a sua residência. Isso tornará seu domínio mais firme e durável” (...) E “A presença do governante inibirá a ganância de seus lugares-tenentes”. Napoleão comenta em uma anotação bem ao seu estilo: “...nada farão que não seja por minha ordem, ou serão destituídos”.

O iate de Abramovich (Reuters)

E aqui Putin erra mais uma vez:
 “é preciso tratar bem os homens, ou então aniquilá-los” – por errar refiro-me à primeira parte da frase de Macchiavelli, ‘tratar bem’. Ao atacar uma maternidade ou uma mesquita, Putin revela apenas que é perverso, seu intuito primeiro é aniquilar. Segundo o britânico The Guardian do mesmo dia 10, UE e RU “congelam bens de sete oligarcas russos, como Roman Abramovich” (dono de R$ 155 bi declarados e dono do clube Chelsea). Todos ligados a Putin. Um gesto político, mas bem pensado nas possíveis necessidades futuras do presidente russo – lembrando uma das tendências como a descrita por Friedman (primeiro parágrafo deste texto): derrota “mais prolongada e maior, profundamente humilhado”. Macchiavelli, no 5º capítulo - “O modo de governar as cidades e Estados” -, diz que “quando se conquista um Estado acostumado a viver em liberdade, e regido por suas próprias leis, há três maneiras de mantê-lo: arruiná-lo (...), ir nele habitar ou permitir-lhe continuar vivendo sob suas próprias leis”. Napoleão observou que já em seu tempo a primeira opção de nada valia, e que, quanto a arruinar, melhor seria tudo continuar como estava. Sobre a segunda, habitar no Estado ocupado, menciona a “Comissão Executiva, em Milão, de três adjuntos, como o meu triunvirato ditatorial de Gênova”. (Por aí, vê-se que o francês seria, no jargão popular, mais “maquiavélico” do que o próprio Macchiavelli).


Aconselha-te com muitos sobre as coisas que deves fazer e comunica a poucos o que depois irás fazer”; “muda de resolução quando perceberes que o inimigo a previu” (MACCHIAVELLI, N. A arte da guerra. P. Alegre: L&PM, 2008). Em seu Manual do Líder, Napoleão Bonaparte anotou um grande número de curtos aforismas: “Os homens são aquilo que queremos que sejam”; “O homem superior não segue os passos de ninguém”; “O coração de um homem de Estado deve estar sempre à sua cabeça”; “A melhor maneira de manter a sua palavra é nunca dá-la".

(Daily Express)

Ditado antigo
, “na guerra, a primeira vítima é a verdade”, serve bem a Putin. Em seu artigo “Putin e a mentira como arma de guerra na Ucrânia”, Brenno Grillo  diz: “Nenhum país domina tanto a arte da desinformação - a dezinformatsia - com fins bélicos como a Rússia”. Putin emprega a mentira com tanta frequência que sempre convém fazer uma reflexão inversa para antecipar-lhe a estratégia. Joga sozinho, e talvez nem os mais próximos saibam de seus futuros passos.


Cidadãos esclarecidos
devem estar razoavelmente informados via especialistas de hoje e, por que não, lendo os estudos históricos. Esta guerra já tem consequências desastrosas para o Brasil e existe uma lógica perversa que tenta dividir as pessoas em compartimentos estanques, principalmente nas redes sociais. Há os que chegam a satanizar a vítima - a Ucrânia e Zelensky. Gente de mentes e ‘memes’ curtos, tomada por pensamentos censórios. Livre pensar é só pensar, dizia Millôr Fernandes, e todos têm o direito de fazê-lo. O que é diferente de seguir e repetir com os olhos vendados ideias manipuladas por terceiros.  

 

sábado, 10 de novembro de 2018

UM ÓDIO, DOIS ÂNGULOS


A respeitabilíssima revista americana Scientific American publicou há semanas a conclusão de uma abrangente pesquisa sobre as eleições do dia 6 de novembro para o Congresso americano. Nela, a metralhadora giratória da raiva também esteve presente: o estúpido massacre de judeus na Sinagoga de Pittsburgh, onze mortos e seis feridos. Houve, pontua a revista, influência indireta dos recorrentes estímulos ao ódio e às armas, o clima beligerante.
Como entender esse ódio? A sinagoga seria um detestável massacre a mais. Por outro ângulo, o Irã, em 1980, por ordem direta do então presidente Jimmy Carter, foi palco de uma tentativa mal-ajambrada de resgatar 52 reféns na embaixada americana, a chamada Operação Garra da Águia, cujo eventual sucesso serviria a Carter de bandeira em eleições semelhantes às do dia 6/11. O helicóptero da USAF espatifou-se contra um avião com técnicos e combustível, deixando oito mortos. Iranianos creditaram o malogro da operação aos ‘Anjos de Alá’. Hoje, a pressão sobre o Irã segue cada vez mais forte, há ameaças alucinadas de ataques de 5 mil soldados contra 5 mil civis, um para cada homem.
[Pano de fundo: Vale lembrar o colega Osvaldo Coggiola, historiador da USP com quem tive o prazer de dividir um lançamento de livros, que faz sua ‘radiografia do conflito nas Bálcãs’, em Imperialismo e Guerra na Iugoslávia (SP: Xamã, 1999). Ele deixa claro que todos os grandes eventos bélicos, do início do século 20 aos dias recentes, têm como objetivo encoberto o ouro negro, petróleo].
Corria o ano de 1980. Eu vivia em Boston e morava perto da Northeastern University, que atraía estudantes do Oriente Médio, e senti de perto os efeitos colaterais da grande trapalhada de Jimmy Carter. Meus vizinhos iranianos eram falantes e corteses, um deles até consertou uma peça no meu carro. À noite, ouvia os libaneses vizinhos entoando seus cânticos religiosos plenos de melismas, comuns tanto entre muçulmanos quanto judeus. Eu relaxava, embalado por aqueles vocalises em sinuosas orações.
Ruholah Khomeini
Aquela paz foi quebrada pela estúpida Garra da Águia. O ódio contra o país do louco radical Aiatolá Khomeini espalhou-se como fogo no mato. À noite, como se os estudantes iranianos fossem os culpados pelo erro de Carter, uma horda passou aos urros pelas ruas, fazendo os vizinhos do Oriente Médio apagarem as luzes. Fuck you, iranians!, era o grito de ordem que visava a apavorar genericamente os estudantes do Oriente Médio, já que os americanos não sabiam distinguir quem era de um país de quem era de outro.
Retomemos, e que sobre o atual presidente americano não caiba a sombra de qualquer ônus direto sobre o recente ataque à sinagoga, maior assassinato coletivo de judeus da história dos EUA. Ladino, ele aproveitou o tema ao avesso: enrubescido, as jugulares e o topete saltando, esbraveja e ameaça, com o ódio que lhe é característico, contra quem quer que deseje inimigo. E o Irã, de novo, está na alça de mira presidencial. O mandatário dos EUA capitalizou um justo sentimento pátrio e do povo judeu de forma canhestra, olho na campanha: ódio ao Irã. Seria crucial para ele a vitória no legislativo no dia 6 de novembro, pavimentando a disputa para a reeleição. Sem maioria no Congresso, diz a tradição, é bem mais difícil um novo mandato. Eram 35% das vagas dos 100 senadores e 100% das cadeiras dos 435 deputados. Essa contabilidade pode parecer truncada, mas é natural para os americanos, e tem como objetivo evitar mudanças abruptas na balança do poder e instabilidade para o país. Depois de anos nos EUA, eu pessoalmente confesso, como aquele comediante da TV: ‘entendi, mas não compreendi’.
[Sloan compôs um verdadeiro brado, uma bandeira contra o ódio disseminado, uma canção de protesto para a juventude na voz meio áspera e desafinada de Barry McGuire: “O mundo ocidental / está explodindo / a violência irrompe / e a munição é carregada / Você tem idade para matar / mas não para votar / você não acredita em guerra / ...mas o que é esta pistola que você carrega? / Ah, você não vai acreditar, estamos todos na véspera da destruição” (Trad. Livre do A.). Também falava do ódio na China vermelha e em Selma, Alabama, epicentro da luta pelo direito dos negros ao voto, conquistado e tornado emenda constitucional em 1965. A canção foi um alerta contra o ódio, arma sem lei.
No dia 6/11, da chamada eleição midterm, o presidente obteve esperada vitória de cadeiras no Senado, mas perdeu a maioria da Câmara, que detém enormes poderes. Enquanto alardeia vitória que não houve, dizendo-a acachapante, desde já pressente o futuro que lhe está reservado. O cenário vai mudar e o tresloucado deixará de ser um déspota já desde o primeiro ou segundo embate legislativo.
Niccolò Macchiavelli (1469-1527), em um de seus ensinamentos ao príncipe, mostrou-lhe que ‘novos soberanos, em novos domínios, devem armar seus súditos’. Isso, no sentido estrito. E há outro, figurado: o ódio como arma. Cidadãos americanos, acha o presidente, devem ser bem armados, como queria Macchiavelli. A disseminação do ódio cresce no ritmo do arsenal de fuzis, em mistura incompatível com a paz. O objetivo é vencer - sejam pessoas, uma guerra ou a reeleição.
Domínio, poder – seja em casa ou no Oriente Médio! Só o tempo dirá o que o resultado do dia 6 de novembro significará para a história americana e para o mundo. Mas o estímulo às armas, somado ao ódio estimulado a raças que não a branca, povos e minorias, já terá deixado mais tantas de suas dolorosas marcas.