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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

DISSECANDO A MENTIRA

 


E
u nunca diria “nunca antes neste país”, porque, mesmo certo mas sem segurança, pareceria estar mentindo, a despeito de não fazê-lo. Poderia, talvez, dizer “nunca antes em minha vida” (se mentisse, não seria comprovável). Pois nunca vi tanta mentira, tanto embuste, enganação e lorota como hoje. Veja o fake, cuja consagração nas mídias equivale a um Grammy, enquadrando com ouro os embustes: a falsidade se torna tão real que pode usurpar o espaço da verdade. O resto, ah, fica por conta da boca do povo, “telefone sem fio” que transforma tudo em verdade, até esquecermos onde a dita cuja foi parar.


S
egundo o caderno de filosofia Neurohacks, da BBC (26/10/16), uma equipe de cientistas liderada pela Drª Lisa Fazio saiu em campo para investigar como a ilusão do “efeito da verdade” interage com a nossa mente, se ela alteraria o conhecimento. Foram contrapostas afirmações verdadeiras e não-verdadeiras, como “O Oceano Pacífico é o maior oceano da Terra”, a outro exemplo conhecido, “O Oceano Atlântico é o maior oceano da Terra”, item não-verídico que as pessoas podem terminar reconhecendo como “verdade verdadeira”. O pesquisador Tom Stafford assegura que um fato pode tornar-se verdadeiro, mesmo sem o ser, e a compreensão desses efeitos pode ajudar o indivíduo a evitar as ciladas da propaganda.


U
m princípio no qual teria se baseado Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, ao supostamente proferir o corolário “Uma mentira repetida dez vezes se torna verdade”, é: quanto mais o indivíduo ouve algo, mais nele crê como verossímel, e quanto mais ele o repete mais acelera seu efeito multiplicador. Mc Luhan, nos anos 1960, em “O meio é a mensagem” (com o trocadilho em inglês mensagem/mass-age, “era das massas”) estudou os efeitos dessa multiplicação. (Ainda nas décadas pós-Goebbels/McLuhan, pesquisadores interpolaram um quadro entre os demais 23 na película com que se fazia cada segundo de filme naquela época, criando um efeito subliminar – ou seja, este quadro, entre os demais 23 em um segundo, não seria percebido e compreendido de forma liminar. Para confirmar, em experiências feitas em salas de cinema, naquele quadro “invisível” estava o logo da Coca-Cola com fundo vermelho, imagem que ficaria gravada no subconsciente de cada um e, terminada a sessão, teria multiplicado a sede do público pelo refrigerante, nos quiosques do saguões de entrada.


F
azer confusão, mesmo que seja no vaivém, no mente-desmente e mente novamente, faz ressurgir o efeito Pacífico-Atlântico, às vezes com grande impacto. Certa medicação inócua para combate à Covid, propagandeada insistentemente, foi usada apesar de desmentida sua eficácia. “Fulano é ladrão” (ou não é), o eu disse mas não disse, e até o famoso “a imprensa distorce tudo, coloca tudo fora de contexto”, generalizando a afirmação para desacreditar a fonte, personificando-a na “imprensa” como una. Ao final, prevalece o que for mais forte, mais verossímel, em geral o que foi mais repetido. Um exemplo desse efeito verso-reverso: recentemente, um certo senador declarou, por espontânea vontade, que teria tido uma reunião para que o atual presidente fosse impedido de tomar posse e um ministro de corte superior intempestivamente preso. Depois, renunciou ao mandato, modificou a narrativa e retirou sua renúncia, tendo terceiros a causar ainda mais confusão ao imbroglio, para que ficasse o dito e o redito por não dito. Ex-político e ex-instrutor da conhecida SWAT norte-americana, ele estaria na crista da onda da suposta armação, mas, duro na queda, treinado no esquadrão de elite americano, desfez e fez mais confusão. Experiência como ator ele tem: no filme Tropa de Elite, de José Padilha e Marcos Prado, treinou atores na simulação de investidas da Polícia em favelas. Restam aos que deverão questioná-lo judicialmente os velhos documentos dos autos, acareações e instrumentos forenses de praxe, uma vez que na habilidade de prestidigitador ele é mestre (não à toa, ele teria sido o “eleito” para engambelar e grampear um ministro de tribunal superior).

Carl Jung

O
suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), psiquiatra e psicanalista, tinha certa obsessão pelos subterrâneos da mentira, como em “O Indivíduo Moderno em Busca de uma Alma”: “...mas nós não podemos viver o entardecer da vida conforme o programa de vida da manhã – porque o que era grande de manhã será pequeno à noite, e o que de manhã era verdade terá se tornado mentira à noite”. E como, em grau diminuto, a mentira está presente em nosso dia a dia: “A observância de leis e costumes pode facilmente ser um manto para encobrir mentira tão sutil que nossos companheiros, seres humanos, são incapazes de detectá-la”.

(Helena Xausa - BBC)

H
á aquela mentirinha social: “não posso ir, não passei bem”, ou “belo quadro”, “justamente o que eu esperava” (para agradar), e a comercial: “está novinha”, mesmo usada, “custa o dobro por aí”. Mas a pior, a pior de todas, é a mentira política, pois ela sangra os cofres públicos e faz uma volta para ir dar na conta de um parente ou em uma mansão no exterior. O real mentiroso age tão bem que chega a pensar que a falsidade que prega é verdadeira, e quando a desmente, sente estar mentindo, e o faz com a convicção ao avesso.


Acima de tudo, não minta para você mesmo. O homem desleal a si próprio que ouve sua própria mentira chega a um ponto em que não pode discernir a verdade, e perde o respeito para consigo mesmo e os outros. Não havendo respeito, ele para de amar” (Fyodor Dostoievsky: Os Irmãos Karamazov).

sábado, 16 de janeiro de 2021

O QUE ACONTECEU NAQUELE DIA ENTRE A CONSTITUIÇÃO E A INDEPENDÊNCIA?

 


Nunca fui fã daquele tipo de enlatados americanos como SWAT (Armas Táticas e Especiais) e Miami Vice, mas confesso que, na falta de sono, qualquer thriller serve: o suspense, ironicamente, me embala até o ponto de desligar a TV e cair como criança nos braços de Orfeu. Filmes épicos, sim, Sansão e Dalila e El Cid, sempre me prenderam a atenção de forma especial, em parte porque versados sobre fatos históricos, outro tanto porque costumavam ser muito bem feitos.


A história da humanidade já é emocionante por si, apesar de sempre sangrenta e carregada de violências de todos os tipos. Desde 1240, em tempos de barbárie da invasão contra o Tibet, foram dezenas de ataques da Mongólia a outros países e territórios, tendo como bandeira a fome insaciável por conquistas. Em 1296, o ataque da Escócia sobre a Inglaterra, e já em 1480 o avanço sobre Rhodes pelo Império Otomano, que também atacou a Áustria em 1596. Em 1693, a Mongólia é tomada pela China, e em 1792 a Polônia toma a Rússia. A lista é imensa, até chegarmos à barbárie moderna: duas grandes guerras, o genocídio dos nazistas sobre o povo judeu e de armênios pelos otomanos. A conquista e o domínio de um povo sobre outro pela força bruta parece remontar ao tempo de Neandertal.


Um corte e uma pergunta: o que aconteceu naquele dia 6 de janeiro de 2021 entre as avenidas Constituição e Independência – nomes tão simbólicos! – em Washington DC? O Capitólio, símbolo americano e casa do Legislativo, iria ratificar o nome dos recém-eleitos Joe Biden e Kamala Harris como presidente e vice. No dia 8, a editora-chefe do famoso jornal USA Today organizou nomes, fatos e personagens, muito além de simples provocação de jovens baderneiros.


Rudolph Giuliani (foto), ex-prefeito de NY e homem forte de Donald Trump, naquele dia 6 subiu em um palanque no National Mall exigindo mais dez dias para investigar a eleição americana – como se investigar não fosse um processo sobre dados concretos e reais, e sim passar uma peneira até em água para ver se surge uma fraude. Aos gritos de “acabou a conversa!”, buscava radicalizar de vez a já formada balbúrdia. A seguir, o presidente Trump ergue-se para a multidão, já estimulada por mentiras e gritos de guerra como os de Giuliani - “julgar pelo combate!” E o próprio presidente, suposto guardião da República e dos ideais americanos, conclama a massa a seguir para o Capitólio para levar à cerimônia “alguma ousadia e audácia”.


Trump no comando: “Vamos descer a avenida Pennsylvania rumo ao Capitólio (...) falar com nossos republicanos – os fracos, porque os fortes não precisam de nossa ajuda – nós vamos tentar dá-los o tipo de orgulho e ousadia de que eles precisam para que nos devolvam o país” (registrado pelo USA Today). Havia até manifestantes pendurados em árvores, e o trajeto delineado por Trump foi seguido à risca. O show estava feito. O jornalista Chris Quintana revela ter ficado chocado com a festividade da cena, comparando-a a um festival de música ou algo parecido. Muitos faziam selfies em frente ao Capitólio antes de invadirem o prédio.


Um louco com uma capa que trazia o lema Keep America Great posava ao lado de uma rústica forca engrossando o coro “parem o roubo”. Outro, de chifres como um viking, aboletou-se em um gabinete. Jornalistas descrevem a imagem de fanatismo e insanidade, tão avessos à democracia simbolizada pelo enorme monumento a George Washington, ali à frente do prédio do Capitólio. Manifestantes ensandecidos foram recebidos por forças do Congresso de forma descrita por repórteres como “suave” e “complacente”, até convidando a guarda a juntar-se a eles. Não, nem The Capitol é Das Kapital e nem esse mob a revolução russa - unindo proletários, líderes políticos e soldados em prol de um ideal. Mesmo porque não havia um ideal, apenas um presidente debatendo-se em causa própria e seus fanáticos seguidores. Um invasor, perguntado pela jornalista do Congresso Chrystal Hayes se a Polícia havia tentado contê-los, simplesmente deu uma gargalhada: “eles foram derrotados”; “os agentes foram muito corteses conosco, nós passamos direto por eles”. A descrição do USA Today foi de que a repressão teria sido “suave”.


Cinco pessoas morreram, sendo que uma pela Polícia e outras quatro vítimas de ferimentos. Um desses, oficial do Capitólio, veio a falecer na sexta, dia 8. Porém, mesmo com a certificação da chapa Biden-Harris na Presidência, após a evacuação de autoridades e seu posterior retorno, ficaram perigosamente feridas a República e a democracia americanas. Tudo isso provocado por um fanático orador e aliciador da extrema direita dos EUA, o próprio presidente, que deveria defender os valores mais caros à nação. Surpreende-me especialmente – lembrando a espetaculosa SWAT, que citei no começo deste texto - a quase inação das forças policiais no episódio – por ter vivido naquele país, sei que é um lugar onde com Polícia não se brinca. À parte a costumeira truculência dos agentes nesse tipo de manifestação, um carro que desobedeça à ordem de parar é uma sinalização para agentes atirarem.


Bloqueado pelo Twitter e Facebook por incitação à violência, contra as normas das redes, um presidente já mudo e imobilizado aguarda o dia 20 para amargar, com frustração, a diplomação de Biden-Harris à Casa Branca. Esperamos agora ver uma América grande de verdade, digna de seu patrimônio: (...) “a terra dos livres e o lar dos bravos” (do hino Star Spangled Banner) – e sob o império da lei.