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sexta-feira, 28 de abril de 2023

TRANSGÊNEROS, ARQUEOLOGIA E IDIOMA

 


V
ilma Gryzinski publicou na Veja de 19/4/2023 o artigo “Os EUA também estão na ‘decadança’”? (“O declínio da superpotência tem algum fundo de verdade”). Discorre sobre tudo, citando uma ironia do intelectual conservador francês Patrick Buisson: “a sociedade ocidental se suicida dançando”. Fala de delírio coletivo e até de uma seita adepta de princípios radicais. Cito uma aberração destacada por Gryzinski, entre outros apontamentos: “...sem contar que o mundo da ciência está sendo assolado pela mesma doença ocidental da autocrítica alucinada, além de acusações de que a matemática, a física e outras áreas são racistas e sexistas. E quanto mais absurda a tese mais sucesso faz na academia: até a arqueologia entrou na dança, com a promessa de uma ala ‘anarquista’ de não mais definir o sexo das ossadas ancestrais, para não designar erradamente esqueletos – acredite se quiser - que tinham opção de gênero diferente daquela que os ossos e o DNA nos contam”.


S
im, é isso! Parece necessário respeitar a opção sexual de esqueletos da pré-história (sic), sua escolha de gênero. E daí a generalizarmos e cairmos no engodo que toda generalização traz, podemos crer que a essa altura tais “antropólogos anarquistas” já estão lá na frente a fazer a taxonomia (classificação sistemática em categorias) dos animais pré-históricos trans: dinossaures, brontossaures, pterodátiles e outros, ficando dispensados alguns como os T-rex, que já vêm com a desinência (fim, sufixo) “x” pronta: haja ‘anarquismo’. Além de desinventarem nosso vocabulário parece quererem avançar sobre outras ciências, além da arqueologia. Misture-se bem tudo isso, acrescente-se a dita “inteligência artificial”, algumas pitadas de modismo e teremos aí o homo ignorant” dos novos tempos: feito para repetir as asneiras que lhe ensinam–programam e assumir seu personagem, negando o conhecimento científico anterior. Pronto para vigiar e ser vigiado por seus pares, algo como no surreal filme “Alphaville” (1965), do francês Jean-Luc Godard (onde, numa cidade imaginária, além de obrigada a seguir os frios ditames do computador central, “Alpha-Soissante”, ‘desvios’ como falar de amor eram proibidos,). Há uma corrida científica, na área do chamado STEM (ciências da tecnologia, engenharia, matemática e natureza): a China, prestes a se tornar a maior economia do mundo, prepara quase cinco milhões de graduandos por ano, enquanto os EUA fazem menos de 500 mil, cada vez mais sujeitos a modismos e ideias malucas.


D
o lado de cá, na banda brasileira, qual seria o papel de um professor sério nesse imbróglio crescente? Afastar a grafia incorreta, pois embora aparentemente muito mais simples, a pseudomoderna de hoje só coaduna muito bem com a escrita de dois ágeis polegares digitando no teclado de “smartphones”; ensinar o que se chama “norma culta”, que vem a ser o conjunto de regras e padrões linguísticos empregados por pessoas de alta escolaridade, tal qual a língua falada e escrita por juristas, pesquisadores e cientistas. Ou seja: a turma das ossadas transexuais dos “x” ou “es” não entra.

Charles Dickens

N
ada contra a gíria bem usada e os neologismos bem escolhidos, além da transexualidade – afinal, os idiomas, como ela, são dinâmicos. Mas certa fixação adolescente em transgredir todos os idiomas até mesmo por ignorância léxica e gramatical, e, pior, a ciência mundão afora, tem de ser, por dever de ofício, alvo de toda a classe dos formadores de opinião na luta contra a proliferação de tantos vícios e desvios. [Abro aqui espaço para o uso desses dialetos na língua inglesa, segundo o escritor norte-americano Christopher Moore (1957): “Do ‘londonês’ de Dickens aos ‘fakes’ de Salinger, dos ‘beatniks’ de Kerouac às loucuras de Cheech & Chong e daí aos neologismos do Hip-hop, dialetos sempre foram usados como forma de uma geração se distinguir das outras”. Ou seja, segregar para se defender, tentando manter o isolamento de sua tribo].

Segundo Buisson, o delírio coletivo perpassa um fundo de realidade - mesmo se a defesa dos transgêneros virar uma seita obscura que exige adesão a princípios como intervenções médicas radicais em crianças! Até onde vai o fanatismo? Mas isso não seria uma ideia medieval, antes de mais nada?


O
utro perigo é a pasteurização, o estreitamento da mente e da escrita. Em 2014, uma certa Patrícia Engel Secco surgiu no Minc com um projeto de distribuição de livros simplificados, para fácil leitura. E foi-se iniciar logo com Machado de Assis, ícone da nossa língua portuguesa. Coisa para ganhar dinheiro fácil via incentivo fiscal, logo esbarrou em séria oposição. Eu havia trabalhado com a então nova ministra Marta Suplicy no Instituto Florestan Fernandes e na Prefeitura de SP, além de estado com ela em alguns encontros, e tomei a liberdade de deixar um depoimento. Não demorou, a resposta: “Prezado Henrique Autran, o projeto apresentado pela escritora (...) não é mais do meu alcance, pois foi autorizado para captação de recursos em 2009. Espero que isso não ocorra mais e que, daqui para a frente, autores consagrados passem por critérios mais rigorosos. Informo, ainda, que fiquei contrariada ao tomar conhecimento do fato, pois iniciativas como essa maculam os grandes escritores”. Não sei no que deu o projeto, do qual não mais se falou, e espero nunca ouvir meus netos e eventuais bisnetos lendo a que já foi chamada “Última flor do Lácio, inculta e bela” de forma abreviada, deturpada e enxugada por conta de modismo ou simples ignorância.

 

sexta-feira, 14 de abril de 2023

ANJOS

 

Anunciação: Fra Angelico

Os anjos e os arcanjos, os querubins e serafins, não o cessam de louvar dizendo em uma só voz: santo, santo, santo, é o Senhor Deus do universo. Céus e terras estão cheios de vossa glória. Hosana nas alturas”. Oração dos tempos de criança, despertou-me curiosidade sobre os anjos (nos EUA, 70% dos habitantes creem neles!). A palavra vem de ággelos, em grego, de onde angelus, em latim. São personagens celestiais de tão grande vulto que no séc. 4 teólogos criaram a hierarquia angelical e sua organização. São nove entidades, entre elas os citados anjos, arcanjos, querubins e serafins. Um anjo com uma espada levou a mensagem de expulsão de Adão e Eva do Paraíso, e um outro abençoado teve a missão de levar à Virgem Maria a notícia de que ela daria vida a Jesus, gestado em seu ventre. Entre os anjos, sete se destacam: Gabriel, Miguel, Rafael, Raguel, Remiel, Sariel e Uriel (SILVA, Deonísio. “De onde vêm as palavras”. RJ: Lexicon, 2014, 17ª ed.). Angelus” é também a tradicional oração do Papa no Vaticano: Dominum nuntiavit Mariae (“O anjo do Senhor anunciou a Maria”).



E
m nossa música e poesia, eles também existem, e mais do que nunca são irreverentes: “Quando nasci veio um anjo safado / o chato do querubim / e decretou que eu estava predestinado / a ser errado assim” (“Até o fim”, Chico). Outro desses anjos arteiros é o de Drummond, em “Poema de sete faces”: “Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / Disse: Vai, Carlos, ser gauche na vida”. Bem aqui na Terra, os “Guardian Angels” (Anjos da Guarda), organização fundada em 1975  em NY, tinham, entre suas missões, passear em grupos pelo metrô de NY evitando assaltos, ajudando idosos, crianças perdidas. Vestiam jaquetas que lembravam outros anjos, os “Hell’s Angels” (Anjos do Inferno), briguentos em suas possantes motos Harley Davidson, que faziam arruaça por onde passavam. Fundado em 1948, na California, EUA, os HA tinham como primeira exigência que o “Angel” possuísse uma Harley 1.200 cc, uma máquina com força de touro e rugido de leão. Sua “capital”, Los Angeles, 2ª cidade dos EUA com 4 milhões de habitantes, foi tomada dos indígenas para a Espanha por Juan Rodríguez Cabrillo em 1781, de onde o nome em espanhol da metrópole (em português, “Os Anjos”).


N
o dia 4 de abril, logo abaixo do título e antes mesmo do headline da capa – “A barbárie vai à escola” -, o jornal O Estado de São Paulo publicou uma lista apavorante: “5/4/23 Blumenau, Sta. Catarina, 4 mortos, 5 feridos; 23/7/23 São Paulo, 1 morto, 4 feridos; 25/11/22 Aracruz, ES, 4 mortos, 13 feridos; 26/9/22 Barreiras, BA, 1 morto; 4/5/21 Saudades, SC, 5 mortos; 13/3/19 Suzano, SP, 8 mortos, 11 feridos; 6/11/17 Alexânia, GO, 1 morto; 20/10/17 Goiânia, GO, 2 mortos, 4 feridos; 26/9/11 São Caetano do Sul, SP, 1 morto; 7/4/11 Rio de Janeiro, RJ, 12 mortos, 22 feridos; 29/1/03 Taiuva, SP, 1 morto, 3 feridos; 28/10/02 Salvador, BA, 1 morto”. Não seria preciso explicar, mas este é um gráfico por extenso dos ataques, da violência, dos assassinatos e das chacinas que vêm acontecendo em escolas de crianças, aparentemente sem explicação alguma.


N
o dia 8/4, em Blumenau, na creche Cantinho Bom Pastor, 9 crianças foram atingidas por facadas e machadinha, fazendo de quatro delas vítimas fatais. Uma, com escoriações e a mandíbula trincada, conseguiu escapar. Recebeu seu pai, em desespero: “Pai, estou vivo”. Este o breve desdobramento do final do último lamentável episódio. Nos funerais das crianças faziam flutuar estrelinhas, como fosse cada um dos anjos perdidos. Sim, a palavra mais ouvida foi “anjo” – pela inocência das crianças, pela pureza de suas tenras idades, pelo que representam em um país tomado pela violência, belicismo e mortes, ataques em geral sem qualquer coisa que lhes dê fundamento, além de simplesmente matar. São maníacos contagiados pela onda que preocupa vários outros países: entre meus contatos nos EUA, sei que eles não apenas compartilham das nossas dores, há uma espécie de mea culpa sem razão alguma, por uma prática importada de lá. Sim, são anjos, salvos do mal que os atacou. Ou levados por outros anjos onde se encontrarão com tantos anjos-crianças para sempre. Resta aos que ficaram, seus pais, às comunidades, o medo, o medo, o medo.


O
Brasil, com seus 5.570 municípios, não poderia ficar à parte desse pânico. Tatuí, por exemplo, com seus 124 mil habitantes (2021), chegou a estampar na capa do jornal O Progresso (9/4/23), encabeçando as notícias: “Ameaças alteram rotina das escolas locais”. Noticiou como reação local um encontro da Polícia Civil, PM, GCM, secretários de Segurança e Educação, além de docentes e gestores. Ainda na capa, um cartaz encontrado na escola “José Celso de Melo”: “Todo mundo dessa escola vai morrer”. Segundo Telma Vinha, pesquisadora de violência escolar, câmeras, detectores de metal e segurança por si não são soluções, ajudam mas não vão ao fulcro da questão: “Traz segurança para a sociedade, mas não (...) diminui o discurso de ódio” (Estadão, 9/4/23). Há fanatismo, há psicopatia, há os que querem seu tempo de fama nas mídias sociais e na imprensa, a que custo for.


N
a Nova Zelândia, onde 51 pessoas foram mortas, foi criada em 2019 a Christchurch Call to Action, que hoje reúne 120 governos, ONGs e empresas tecnológicas. Um supremacista branco matara meia centena em ação transmitida online por todo o mundo! Nesta luta, é preciso entendermos antes as mentes do que os atos. A herança política do que as armas. E proteger os nossos anjos.

 

sexta-feira, 7 de abril de 2023

BALA DE PRATA

 


D
e todos os tipos de munição, a bala confeccionada com prata – e às vezes ouro –, segundo rezam nossas lendas e folclore, é a única capaz de matar vampiros, lobisomens e outros seres aterrorizantes de todos os rincões brasileiros. A origem da lenda remonta ao século 18 na França: um monstro chamado de “A Fera de Geauvaudan”, morta por um caçador conhecido como Jean Chastel (algo como João do Castelo), em cujo chapéu carregava medalhas de Nossa Senhora, que seriam derretidas no fogo e fundidas em balas de prata (embora tal folclore já seja bem antigo, mais atrás ainda, antes das armas de fogo, flechas de prata tinham o mesmo poder - não graças à prata em si, creio, mas ao poder da Virgem Maria, de cujas medalhas era extraído o precioso metal). Enfim, tais balas de prata tinham, nessas lendas, o poder de aniquilar feras, lobisomens, vampiros e o que viesse de coisa ruim pela frente. Era um estampido e só.


E
ntre nós, nos dias de hoje, a expressão “bala de prata” adquire um outro sentido, além do poder sobrenatural, o da bala única: não se deve errar o alvo, pois, caso aconteça, haverá um final terrível. Nos EUA, no filme western-espaguete “O Dólar Furado” (1965), Giuliano Gemma, caubói italiano no papel de um ex-capitão do Exército Confederado americano, recebe a missão de matar o bandido Black Jack. Em um duelo de bala única, Gemma recebe um tiro no peito, cai e fica largado no chão. Depois – ele simulara estar morto - levanta-se: uma moeda de um dólar no bolso esquerdo da camisa o impedira de morrer - daí o título do filme. Talvez pouco tenha a ver com “A Fera de Geauvaudan” e “O Dólar Furado”, mas aqui no Brasil “bala de prata” permanece com o sentido de munição poderosa, e em geral uma só.

Edson Luís no Calabouço

C
laro, não compartilhamos literalmente desse folclore, mas há algum sentido quando se diz que o governo tem uma “bala de prata” no caso Arcabouço Fiscal, proposta gestada principalmente no gabinete de Haddad e nos aposentos palacianos, e com seus aliados. No caso da economia brasileira atual, fala-se muito em “bala de prata” quando se refere a âncora fiscal ou regra fiscal. Mas preferiram chamar o alvo de “arcabouço fiscal”, estrutura que sustenta a economia do país. Não simpatizo com a palavra arcabouço, de tantos sentidos, como esqueleto, armação, madeirame, e nem todos bons, talvez, para uma bala salvadora. (Eu diria a um analista freudiano que associo arcabouço imediatamente a calabouço, terrível cárcere subterrâneo, a masmorra, e o restaurante estudantil homônimo, o Calabouço, do Rio, onde, aos 18, foi assassinado Edson Luís, crime que provocou   o movimento que foi um dos estopins para o AI-5). Arquitetura ou resto de ossos? Bom, qual seja. Optou-se por arcabouço, que vingou como estrutura preparada para o controle dos gastos públicos, projeto que ainda vai ao Congresso Nacional – agora sim, na forma de bala de prata, não sei se munição única mas com certeza aquela que faria sossegar a fera e daria ao novo governo a segurança de que precisa em uma sociedade tão dividida, um Congresso tão disforme. O fato é que, se perdida esta bala, cunhar outra a tempo de proporcionar a viabilidade de tanta mudança desde já será missão quase impossível. De armação, a estrutura poderá se transformar em esqueleto. Um arcabouço de ossos. Não seria a última bala, mas ficaria cada vez mais difícil. Resta saber se Haddad tem o dólar de ouro para colocar no bolso e aguentar o rojão.

Keynes

E
m 2017, o governo Michel Temer conseguiu aprovar a lei do teto de gastos, que amarrou as contas de despesas de cada ano às do ano anterior - ou seja, não seria possível gastar mais do que no ano passado. Tão simples quanto parece, mas eficiente? A proposta de Haddad tenta equilibrar metas de superavit (diferença para mais entre receita e despesa) e controle de gastos a partir da evolução das receitas. A lei de Temer é tida como impeditiva aos benefícios sociais propalados por Lula desde sempre, mas a proposta acordada até agora pelo governo e parte do Congresso não é compreendida a fundo por leigos - como eu. Em princípio, o aumento de gastos sobreviverá, mas tendo como referência o desempenho da receita, com piso de 0,6% e aumento, inflação à parte, de até 2,5%. Pronto? Claro que não. Os números e a terminologia me são familiares, mas os detalhes de que preciso para compreender esta imensa equação estão longe de minha vã economia, que vai mais para o lado filosófico do que do financeiro. Fico com Smith, Marx, Keynes e Galbraith, e dá para compreender alguma coisa com esse número de pensadores e suas filosofias. Afinal, Haddad não é formado em economia, fez apenas um mestrado na USP, e nem o  foi FHC, ex-ministro da Fazenda de Itamar, sem formação específica no ramo.

Mobile de Calder

E
m vista disso, não vejo bala única ou de prata, como as nossas comentaristas dos telejornais da TV adoram dizer -, nem gosto de arcabouço. Não há apenas uma saída, um caminho, e é óbvio que todos eles são móveis, algo como uma escultura flutuante de Alexander Calder, peças oscilando como pêndulos no ar sem se chocarem, mantendo a harmonia como em tantos universos: a música, os corpos celestes, a cadência das ondas do mar. Os grandes economistas que conheci, os melhores, eram artistas, ou quase. Criam que cálculos e contabilidades caberiam melhor aos calculistas e contabilistas, e a eles próprios a estrutura e a filosofia. Porque tudo isso não é matéria de cálculo: é muito mais de pensamento, como a música que sai do papel para a fruição dos que a ouvem.

 

sábado, 1 de abril de 2023

ETARISMO: O LADO OBSCURO DA IDADE

 


A
pós uma busca pelos dicionários, definições muito simples convergem para pontos e situações semelhantes. Incomum mesmo é a palavra. Refere-se ao preconceito por idade, discriminação de pessoas mais velhas. Não encontrei referências aos de menor idade, embora ache que este preconceito também exista. Já o idadismo é apenas um sinônimo dicionarizado que remete à palavra-mãe etarismo. Uma outro termo, ageísmo, não tem registro nos compêndios que busquei, mas, óbvio, vem de age (idade, em francês ou inglês). Em dicionários de inglês a palavra ageism existe, assim como em francês, o que leva a crer que, em nossa língua, seja um simples anglicismo ou galicismo, vícios tão comuns em nosso cotidiano.


N
ão me lembro de quando surgiu em mim algum preconceito – e por autodefesa mesmo nem sei se já tive. Minhas referências são ambíguas, e, se foi um etarismo precoce, foi “do bem”. Pode ser que a fase da vida em que o etarismo se mostre mais evidente seja a adolescência, quando não se quer a companhia de crianças e menos ainda de idosos de todas as faixas etárias, aqueles a quem simplesmente se chama “coroas” (de trinta ou oitenta anos, a depender da idade de quem vê). O adolescente põe em conflito o passado de criança e o futuro que enfrentará, quando idoso. Em termos de preconceito, nossas vidas parecem centradas nesses tempos de adolescentes, e, talvez por isso mesmo, cercados nas duas pontas, os tempos de antes de agora e os de pós-jovens. Mas o futuro, afinal, sabemos inexorável.



U
ma reflexão que é de lei, a paixão entre os dois extremos: quanto mais distantes mais forte. Lembro de minha mãe, quando estava com netos e bisnetos. Como diz o popular, neto é filho com açúcar. Quem não pode observar isso em casa pode vê-lo nas redes sociais, onde  vovó, vovô e seus netos são uma constante; todos lindos, podem tudo. Retrato perfeito é o “Poema enjoadinho”, do Vinicius de Moraes: “Cocô está branco / cocô está preto / bebe amoníaco / comeu botão (...) / Porém que coisa / que coisa louca / que coisa linda / que os filhos são!” Os dois extremos, avós e bebês, são onde se tocam e se fecha um círculo, a circunferência da vida. O reencontro consigo mesmo, o começo e o fim, esse amor que nada mais é do que a paixão pela própria vida. Contempla-se os pequenos como Maria contemplava Cristo. (Resposta do Senhor ao questionamento a Marta sobre a aparente inação da irmã: “Maria escolheu a parte certa” - Lucas, 10:39-42).

Foto: G1

A
gora surge um preconceito cruel e já frequente nesses novos tempos: uma senhora de 46 anos, que nunca tivera a oportunidade de estudar em um curso superior, foi hostilizada em vídeos nas redes sociais ao ingressar em uma faculdade de Bauru (SP). Mas há um motor reverso na sociedade: sob uma pressão imensa que contaminou até suas vidas particulares, as três alunas agressoras acabaram por abandonar o curso; a vítima, discreta e feliz, pôde iniciar os estudos. Em outro caso, uma estudante de 59 anos de São Paulo foi vítima em uma reunião de docentes de uma escola pública onde fazia estágio. “Alguns professores falavam alto e um deles disse que era melhor parar porque tinha uma senhorinha” (Folha, 16/03/23). Como nos dias de hoje tudo tende a ser coletivizado, repercutindo o acontecido com a caloura de Bauru um movimento começou a surgir na forma de uma “corrente do bem”:  uma caloura de 42 anos do curso de engenharia, em Minas Gerais, expôs seu caso no grupo e em três dias teve cinco milhões de acessos e três mil comentários (G1, 15/03/23). Esses seriam de fato casos óbvios de etarismo.


O
espírito que move essas ações preconceituosas é o mesmo que alimenta o racismo, a xenofobia, a homofobia e outros, fantasiados de bullying e imbuídos de um tipo de segregacionismo que lembra os fascistas. Com o mundo dando uma guinada à direita – que boa parte das pessoas sequer sabe o que é -, não surpreende que surjam esses comportamentos, que nos anos 70/80 praticamente não existiam: havia uma massa de estudantes, profissionais liberais e uma intelectualidade; emblemáticos, música, literatura e cinema os alimentavam, fazendo da rejeição aos regimes radicais sua bandeira. Hoje, este novo tipo de extremismo de direita pode chegar a um perigoso radicalismo, e deve ser combatido com cautela, pois é daninho à vida de uma sociedade fraterna e de paz.
Juventude fascista 


U
m fato cotidiano: quem tem 50 ou mais e está desempregado tem muito menos chances no mercado de trabalho, quando não impossível: frequentemente, logo na entrevista, ele sente que seu tempo de “vida útil” como empregado já está terminando. Custos das licenças médicas, faltas ao serviço, multa na demissão, limite de horário e tempo de serviço são fatores que trabalham contra o candidato. O ingresso em um emprego regular é difícil, o fator idade pesa sem dó. E, no caso, não parece preconceito - ou não transparece - mas preponderam razões financeiras do empregador.  No ambiente de trabalho, sim, pode surgir claro o etarismo: o olhar de soslaio, o falso sorriso, o falso tapinha nas costas... E o mais velho se sentindo cada vez mais preterido aqui e ali, deixado meio de canto.


N
ão sofro nem exerço qualquer forma de etarismo: não estou em competição para nada. Aposentado, faço do meu quarto escritório e escrevo o que quero, para lugares e pessoas de quem eu gosto. O etarismo se esconde atrás do medo daquele “mais” que os experientes podem produzir, na sala de aula ou no trabalho: efeito colateral da insana competição da vida.

 

sexta-feira, 24 de março de 2023

O QUE FARÃO COM A NOSSA LÍNGUA?

 


R
ecentemente minha filha, química que mora na Bélgica, ao ler uma decisão judicial que lhe mandei porque nos interessava, perguntou-me: por que juízes e advogados escrevem tão complicado? Não poderiam fazê-lo de um jeito que todo mundo pudesse entender? (A primeira coisa que me veio à cabeça foi: por que vocês químicos, teóricos e laboratoristas também não redigem de forma mais simples, sem hieroglifos, para que todos compreendam?) Respondi de forma mais ou menos simples: é uma espécie de linguagem formal da profissão. Há fórmulas e vocabulário consagrados nesse jargão forense que são usados daqui ao Oiapoque e ao Chuí, viajando para lá e para cá entre palavras e expressões latinas. Não é uma linguagem concebida ‘para todo mundo entender’, ela visa apenas ao seleto grupo que participa de determinado assunto ou processo, que está envolvido nele ou no estudo de seu fazer. E isso também vale para os técnicos em astronomia, virologia, especialistas em inteligência artificial e por aí vai. E abriga o dialeto particular de neurocientistas, lexicólogos e psicanalistas, assim por diante.

Florestan Fernandes

O
estudo de algum assunto muito específico – voltemos aqui à música popular - pode ser, digamos assim, “eruditado”, na medida em que quem examina o assunto usa uma visão analítica complexa, com certeza apenas para ser entendida pela sua classe, e não o público em geral. Um bom exemplo dei outro dia acerca da própria palavra ‘erudição’, a respeito de uma antiga polêmica acerca da expressão “música erudita”, que teria – grifo, teria! - sido criada por Mário de Andrade. Mas nem perto, Mário fez apenas uma alusão a um certo ‘transporte erudito’ do eminente professor Florestan Fernandes (“Mário de Andrade e o Folclore Brasileiro”. SP: Revista do Arquivo Municipal, vol. XCI, 1946): “Os contatos iniciais da arte popular com o folclórico, portanto, perdem o caráter de um compromisso estreito com a tradição para adquirir, ao contrário, o caráter de libertação natural do tradicional”. (Em tempo: tive a honra de ter sido colaborador em estudos de políticas públicas na área da Cultura do Instituto Florestan Fernandes para a cidade de S. Paulo).

Mário de Andrade e Câmara Cascudo

E
ste conceito de Fernandes, a “transposição do folclore para o campo erudito”, claro, é o de um sociólogo de vulto, não o de um folclorista. A passagem da “transposição do folclore para o campo erudito”, deve, sim, ser creditada a ele, Florestan Fernandes, Patrono da Sociologia Brasileira (Lei nº 11.325/2006). Processo visto, portanto, mais aos olhos de um cientista social do que de folcloristas como Mário de Andrade e Câmara Cascudo.

"Croquettes"

S
egundo o conceituado etimólogo Deonísio da Silva, em seu “De Onde Vêm as Palavras” (RJ: Ed. Lexicon, 2004), erudito vem do latim eruditus, “palavra formada de ex rudis- aquele que deixou de ser rude, (...) tornou-se instruído”, com toda a carga de preconceito que essa origem possa trazer. Designa também os que, como o pedante gramático Antônio de Castro Lopes, rejeitam as contribuições populares de nossa língua: propôs substituir abajur por ‘lucivelo’, anúncio por ‘preconício’, cachecol por ‘castelete’. Machado de Assis deu-lhe o troco: “nunca comi croquettes, por mais que digam que são boas, só por causa do nome francês. Tenho comido e comerei filet de boef, com a restrição mental de estar comendo lombo de vaca”. Completa dizendo que “fillet de boeuf virou (...) bife, apenas,
com um sotaque meio ridículo. “Os gramáticos, como o sapateiro de Apeles, não podem sair das sandálias” (dar pitaco em assunto que não conhecem).

Assino a comparação de Machado, que fez um acréscimo de fina ironia: “...à semelhança dos sexólogos, que podem orientar-nos; jamais nos substituir na hora de falarmos ou escrevermos”. A proposta do gramático Antônio de Castro Lopes de “eruditar” a língua chega a ser ridícula, enquanto a fala de Machado rebatendo-o é simplesmente hilária e saborosa. Lembra de novo o próprio Mário de Andrade: “Você sabe o que é singe, mas não sabe o que é guariba. Pois é macaco, seu mano, que só sabe o que é da ‘estriba’” (você sabe o que é singe [macaco, em francês], mas não sabe o que é guariba [em português] ...e só sabe o que é ‘da estriba’, estrangeiro).

Estratégias eruditas para uma nova arte: 

Caros amigos, o desenvolvimento contínuo de distintas formas de atuação nos obriga à análise das posturas dos órgãos dirigentes com relação às suas atribuições. Por outro lado, a consulta aos diversos militantes talvez venha a ressaltar a relatividade das diretrizes de desenvolvimento para o futuro. Não obstante, a contínua expansão de nossa atividade pode nos levar a considerar a reestruturação das novas proposições.


N
ão, não fui eu o autor: este último parágrafo foi 100% elaborado por um mecanismo da Internet chamado “Gerador de Lero-lero”, e não quer dizer coisa alguma (conheça em lero-lero.bgn.com.br). O “Gerador” é uma simples brincadeira, mas pegou e ainda faz “piada séria” sobre qualquer assunto. Hoje, já existe uma forma aprimorada de inteligência artificial, bem à frente do Gerador, que chega a enganar os mais incautos: o ChatGPT (link: openai.com), mecanismo de software extremamente complexo, capaz de maravilhas que parece fazerem sentido, ou quase, elaborando textos com aparente exatidão. Aparente. Só imagino o que essa ferramenta poderá fazer, sozinha, com o universo erudito, muito em breve. Um “samba do crioulo doido” em tempos de informática de última geração. 

O que farão com a nossa língua?

 

sábado, 18 de março de 2023

COBRA ENGOLINDO COBRA

 


Recebi um aviso no celular para que os condôminos de onde eu moro limpem e capinem seus terrenos, se vazios, para evitar animais peçonhentos que costumam se alojar entre restos de obras, capim, madeira. Coisa comum onde há mato, áreas verdes como um bosque, lugar onde eles se escondem, entre preás, carcarás e outros bichos. Junto com o texto, a foto de uma cobra enrolada em um poste, lembrando uma das inúmeras ilustrações de Adão e Eva: a árvore do mal, e ambos no paraíso prestes a cometerem o pecado da maçã proibida. Aqui não era uma cobra imensa, como em algumas daquelas ilustrações, nem tinha cara de capeta ou era mais parruda do que o tronco, como em outras. Mas era uma cobra de se tirar o chapéu (e passar correndo)! O condomínio vizinho, já totalmente construído, optou por predadores de peçonhentos como escorpiões: vê-se aqui e ali grupos de pavões, angolas ciscando sabe-se lá o quê, e com sua técnica especial cortam o ferrão do aracnídeo, onde fica o perigoso aguilhão (fonte: Fiocruz).


Mas e a expressão “ver a cobra fumar”? Lembra algo como “galinha criar dente”. Bom, por volta de 1944 corria pelo Brasil o boato de que o país entraria na 2ª Guerra Mundial. A hipótese parecia tão impossível que jornalistas, de chacota, fizeram uma aposta: era mais fácil ver uma cobra fumar do que o Brasil ingressar no conflito (melhor do que galinha criar dente). Pois não é que entrou, e a Força Expedicionária Brasileira (FEB), por ironia, passou a usar como símbolo uma cobra fumando um cachimbo? Toda verde, fundo amarelo, sob um dístico azul onde se lê, em branco - as cores da Bandeira Nacional! - “Brasil”. Um ano antes, o primeiro Grupo de Aviação de Caça criara seu logo: um avestruz com um escudo representando o Cruzeiro do Sul, na asa direita uma arma expelindo uma bala. “Senta a Pua”, bradavam os soldados da aeronáutica, e daí surgiram brasão e lema de combate da Força Aérea.


“A cobra vai fumar” traz uma aura de medo, como “o bicho vai pegar”, e às vezes “é hora da decisão”. Agora, se for por ordem sabe-se lá de quê ou quem – “cobra mandada”, segundo nosso rico folclore -, é um modo de dizer que sob a ordem de alguém do mal fará o mal. O folclorista Câmara Cascudo diz que “cobra mandada” veio da cantiga da roça “os olhos dele são de ‘cobra mundiada’”, entendendo-se por “mundiado” o jeito de olhar de alguém meio que hipnotizado para cumprir o mando do mal. Já quando se diz que fulano gritou “cobras e lagartos” é porque a pessoa falou coisas terríveis sobre outrem. E “copla” era uma deliciosa forma poética espanhola de métrica variável da Idade Média, como o villancico, com coplas (estrofes) variáveis. Na América Latina, casta e pura, a copla veio a mesclar-se de vez às canções de Natal.


Algumas expressões associam “cobra” a experiente, com expertise em algum assunto, tal como “ele é cobra nisso” (ou, ao contrário, malaco, “cobra criada”). Não somente nas coisas ruins, às vezes tem um lado bom. Pois se “ninho de cobras” é lugar onde vai gente ruim, pode ser também o da elite experta. Há cobras na música: o serpentão, instrumento sinuoso de sopro criado na França do século 16, e sua variante “serpent d’église” (de igreja), entre vários outros. Há a dança do fandango paulista que é brincada serpenteando – daí o “cobra” -, nome também da “cobrinha”, um passo jocoso do maxixe. Cobra, na cultura popular, tem essa ideia de fila, como em “olha lá vai passando a procissão / se arrastando que nem cobra /pelo chão” (G. Gil).


Não é sem um pouco de maldade que se diz “matar a cobra e mostrar o pau”, algo como “resolver o assunto e provar”, geralmente em auto-exibição. Haja vista a historieta contada por Monteiro Lobato, em seu livro “Fábulas” (SP: Ed. Brasiliense, 1960), “O homem e a cobra”: nesta fábula, ao encontrar uma cobra ferida, ele a levou ao peito, para aquecê-la, e chegando em casa colocou-a junto ao fogão. Saiu para trabalhar e, ao retornar, lá estava ela toda cheia, com a língua esticada, em posição de bote. O sujeito, furioso, armou-se de um pedaço de pau e a matou, chamando-a de ingrata. Diz-se que se alguém mata a cobra a pauladas e, como fosse um estandarte, ele a exibe, é para mostrá-la como troféu. Já cobra que perde o veneno é o gaiato que fica atormentado com algo ruim que lhe aconteceu, mas é incapaz de reagir.


Ah, elas são terríveis: podem ser más ou nem tanto, mais dóceis ou assassinas; dão nome a danças, instrumentos ou festejos de procissões, são o fiel da balança do mal entre Adão e Eva ou, ao contrário, o mensageiro da tentação. Na farmácia, o cálice está associado à cura, e a serpente ao saber, à ciência. Mais ainda: na medicina, Asclépio, deus da cura na mitologia grega, tem em seu bastão a cobra-símbolo do espiritual sobre o corporal, a própria constante renovação (troca de pele, ou couro), entre a luta para salvar e o risco ver morrer; também se atenua ou anula um veneno com o seu próprio (e não seria essa a base para vacinas e tratamentos alternativos, como a homeopatia?).


Pelo sim, pelo não, mesmo havendo aqui e ali um lado simpático no popular, é de bom alvitre carpinar o mato, como se diz no interior, para afastar o risco desses animais peçonhentos, como as cobras-Quixotes e suas companheiras Sancho Panza, as lagartas. “Cobra engolindo cobra” é briga sem fim, de igual para igual, dizem os jagunços; é cantoria em ‘moto perpétuo’, estrofes de duas palavras – cobra e engolindo - repetidas emendadamente, como rosca sem-fim. 

Bora, povo, carpinar, roçar e limpar o matagal!



 

sexta-feira, 10 de março de 2023

ERUDITOS E ERUDÍPTEROS

 


M
udei-me para Boston (EUA), em 1977, e fiquei em um apartamento na cidade de Brighton, em New England, onde morava um saxofonista brasileiro, Zé Nogueira. Lá conheci o outro morador, o guitarrista argentino Victor Biglione, tão bom nos acordes e floreados quanto nas brincadeiras. Vendo-me estudar quase o tempo todo – m’apparecchiava a sostener la guerra, como Dante em La Divina Commedia -, deu-me um apelido: “erudíptero”. Fazia uma troça com a palavra erudito e algo pré-histórico, como o pássaro-dinossauro pterodáctilo. Não me importava, devolvia-lhe a brincadeira (incomodava-me a sombra pré-histórica, talvez). Nos EUA simplesmente não existe a expressão “música erudita” – como de resto na Inglaterra, na Alemanha, na França, na Itália e todos os demais; não me incomodava a pecha, coisa de Brasil, eu só não sabia o real significado, que viria a descobrir mais tarde.  

Universidade de Coimbra

A
erudição é um bem, desenvolve a capacidade de investigar e analisar - é algo como sapiência, diz o dicionário. E lembra aqueles jovens de beca, toga e capelo da Universidade de Coimbra, Portugal, instituição fundada em 1.290 e homologada em 1.537. Mas em Portugal não existe a tal “música erudita”! Em italiano, é erudizione, em inglês, erudition, em espanhol erudición, em francês érudition e em alemão Gelehrsamkeit – como palavras isoladas, nunca em uma expressão tal qual ‘música erudita’. Usa-se Klassischemusik, classical music, musique classique e por aí vai. E nós, por que não música clássica? Estrangeiros esticam o pescoço e franzem as sobrancelhas quando ouvem alguém daqui dizer “música erudita” (foi esta a reação do maestro alemão Felix Krieger). Tal reflexão foi o Vitinho quem me despertou, via “erudíptero”, logo ele que estudava guitarra até no armário, com as escusas pela indiscrição.


N
o Rio de Janeiro praticamente inexiste a expressão “música erudita”. O comum é lermos “música clássica”, ou “de concerto”, contexto bem mais amplo e flexível – o que é natural, gêneros não ficam trancafiados em gavetas, eles se comunicam, se tocam, se trocam. Eu, pessoalmente, prefiro “de concerto”, e por onde estive foi o que levei. Linguagens se encontram, multiplicam-se. Razão de eu ter escrito um artigo para a Revista Concerto, de circulação nacional, intitulado “por que eu odeio música erudita”. Defendi que as origens da estranha expressão estariam no Rio, mais precisamente na Universidade do Brasil (hoje ENM da UFRJ) e na criação da OSN (Orquestra Sinfônica Nacional). No primeiro caso, para justificar a criação de cargos de professor de música na carreira universitária em uma época em que tal curso sequer existia (e, não havendo curso superior na área, não haveria, claro, diplomas para os candidatos ingressarem). Os músicos foram equiparados aos seus colegas “eruditos” de Direito na Universidade. No segundo caso, em 1960 – ano da criação da Orquestra Sinfônica Nacional -, criou-se no quadro de cargos e salários o título “professor de orquestra”, para que o músico pudesse receber vencimentos mais dignos, como os dos seus colegas universitários.


E
ssa discussão SP-RJ quase seria um jogo Fla-Flu entre paulistas (incluindo eu, mineiro!) e cariocas. Com alguma razão o grande pesquisador Flávio Silva escreveu na edição seguinte da revista que isso de “erudito” teria sido invenção paulista. Ora, que fosse, meio de longe, com Mário de Andrade, talvez, mas vale explicar melhor em que contexto ele teria inserido essa erudição, conforme alguns relatos, como os do estudioso Henrique L. Alves (em “Mário de Andrade”, Ed. Ibrasa). O grande educador paulistano defendia as raízes brasileiras da nossa música, bom pesquisador de folclore que era. Assim, achava que o compositor deveria fazer em sua obra uma “transposição erudita” dos elementos de raiz para sua composição. Isso foi só, Andrade ele mesmo nunca se referiu à música dos salões sinfônicos, de ópera ou recitais sob o epíteto de “música erudita”. Enfim, foram dois artigos nossos com intervalo de um mês, colóquio que poderia ter sido espichado para o futuro, não fosse o inesperado falecimento do pesquisador Flávio Silva, em 8/10/2019.

Camargo Guarnieri

Erudíptero”, ideia do Vitinho (apelido do Victor Biglione) ressurgiu em minha cabeça há dias como uma anedota, após ler um trecho sobre o Mário de Andrade na tese de PhD da minha filha Marta, que vive em Londres, cujo objeto de estudo foi o tieteense Camargo Guarnieri, ex-aluno – como se sabe, muito bem aplicado - de Andrade (vide os choros, ponteios e modinhas do compositor). Passadas décadas, a brincadeira do Victor passou a fazer mais sentido: “música erudita” seria um antigo animal paquidérmico, pura ironia. Quanto ao saudoso Flávio Silva, hoje concordo que em parte lhe assistia alguma razão. Enfim, concluo agora, “nada como a tintura do tempo”, como diz um provérbio inglês, pois, divergências esclarecidas, poderíamos discutir de forma mais saudável. Aos que abusam de “música erudita”, um alerta, o rótulo não agrega público: usará ele, o povo, um dicionário para saber-lhe o significado, se isso pesar na decisão de ir ou não ao concerto? Zé Povino só gosta daquilo que ele “re”-conhece, como disse McLuhan - e se vê excluído dessa “música erudita”. “O artista só tem que dar, pros elementos já existentes, uma transposição erudita que faça da música popular música artística”, disse Mário de Andrade.  E foi só isso aí.

No dia 5 de março comemorou-se o “Dia Nacional da Música Clássica” (Decreto de 13/01/2009). Felicidades!

Mário de Andrade


 

sexta-feira, 3 de março de 2023

DEUS E O DILÚVIO NA TERRA DO SOL

 


A
água é implacável. Tanto que Deus confiou a Noé, homem de coração puro, que um imenso dilúvio sobreviria, cobrindo a Terra até que toda a vida desaparecesse. E mandou-o construir uma enorme arca, de dimensões suficientes para transportar a bordo o que deveria levar na missão, a salvo do castigo. Ele queria que Noé, sua família e animais, sobrevivessem ao dilúvio, para ao final começarem o repovoamento da Terra: raça humana e fauna. E Deus fez-lhe o plano nos mínimos detalhes: “Você fará uma arca em madeira gofer, depois divida-a em compartimentos e revista-a de betume por dentro e por fora” (Genesis, 6:14). O dilúvio seria tanto um grande castigo pelo mal que imperava na Terra quanto sua purificação; a arca, travessia segura para recomeçar o mundo.


F
evereiro de 2023. O longo e caudaloso temporal que achacou o Litoral Norte de São Paulo não chegou a volumes ínfimos se comparado com o que descreve o Gênesis a título de lição, mas ceifou – até a manhã do dia 24 - a vida de 52 pessoas. Deixou um enorme número de feridos, 2,5 mil desabrigados e incontáveis órfãos, parentes e amigos dos mortos ou desaparecidos. Foram necessários 200 bombeiros e 100 homens do efetivo do Exército para salvar, tratar, e para escavar os rescaldos de uma guerra implacável e o desespero. Faltou água potável, preciosidade que chegou a ser vendida por atravessadores a 90 reais a garrafa -indivíduos que não respeitam sequer o sofrimento humano para seu injustificável e egoísta proveito financeiro. Sem dizer da fome, dos alimentos destruídos ou levados pelo barro e até mesmo pelos piratas da lama, ávidos por saquear o que surgisse. Esqueceu-se das infecções, hepatite, leptospirose, gastroenterite, tétano e uma série de outras ameaças que acossam as vítimas desses flagelos. E o medo, um medo de ser impossível a fuga daquele tormento sem limites.


D
ebates sobre ações preventivas são intermináveis e não são de ontem. Guilherme Simões, secretário nacional de Políticas para Territórios Periféricos do Ministério das Cidades, irritado, pegou no fígado, em entrevista ao UOL (22/02): “Defender que para prevenir desastres é simplesmente retirar as pessoas das áreas de risco é falta de senso de realidade. Tirar para onde? Sem uma política de moradia você retira a família e ela vai para outra área de risco”.  Politicamente, a curto prazo essa remoção de moradores das encostas traz algum efeito, saneia cosmeticamente. E foi preciso um secretário de ministério para alertar que o problema é mais complexo e demorado – pior ainda, demanda continuidade de obras passadas as eleições! “Obras para prevenir tragédias das chuvas não geram voto”, completou.

Caraguá 1967

M
as não foi um recorde. Números não escalam as estatísticas em linha reta, crescem oscilando em volume e frequência. Ora, em março de 1967, quando as condições de infraestrutura e moradia eram ainda mais precárias, Caraguatatuba, também no Litoral Norte de São Paulo e então com apenas 15 mil habitantes, viu uma tormenta desabar e levar 400 vidas, deixando outras centenas desaparecidas. Na manhã do dia seguinte, o jornal A Tarde dava como manchete: “Em dez minutos, quatrocentos mortos”, cabeça de matéria farta de descrições lúgubres de um cenário que mais parecia o de um abatedouro. Se, nos dias de hoje, as condições de permeabilização da terra para absorção de enormes volumes de água são péssimas, imagine há 56 anos. Permeabilizar, escorar morros e encostas, canalizar córregos, construir casas populares de boa alvenaria e, em suma, criar estruturas condizentes com o reerguimento da cidade eram sonhos futuros, mas esses sonhos ainda repousam na imaginação.


V
oltando para São Sebastião/Bertioga: 57 mortos (25/02). O volume de chuva se superou: 683 mm, ou seja, 68,3 cm por metro quadrado. Carlos Nobre (ex-Inpe), o mais reputado climatologista brasileiro, reforça que eventos climáticos como essa catástrofe estão e se tornarão cada vez mais frequentes. Os que acreditam que esses desastres são glamourizados por organizações “de esquerda” que copiam modismos de primeiro mundo vão morder a própria língua, e, muito pior, desabrigar, ferir e mesmo tirar vidas humanas. Fauna, flora e o complexo do meio ambiente estão juntos com o ser humano nesta aventura da vida, ou, fazendo um paralelo com a lição de Noé, nesta arca imaginária da qual fazemos parte.  O climatologista fez o alerta dizendo que as recentes tempestades do litoral norte paulista foram três vezes maiores do que aquilo que os modelos de previsão utilizados indicavam. E que é um desafio enorme para a ciência conseguir antecipar que esses picos gradualmente mais altos possam ser previstos na natureza a cada ano, no mundo inteiro.


D
e todas as observações feitas sobre o assunto, a que parece mais pertinente é a sábia frase – não uma tese, pura constatação - do secretário do Ministério das Cidades, Guilherme Simões: “Obras para prevenir tragédias das chuvas não geram voto”. Eis o ponto. Com pouca verba ou dinheiro mal empregado para manutenção da cidade, resta menos ainda, quem sabe, do que é visível para a população e nada rende em dividendos eleitorais. Pois se assim o é, que diria da nada vistosa e insossa engenharia de salvaguarda da população? O povo, voluntário, a sociedade civil, em geral, e mesmo entidades e empresas podem doar víveres e até emprestar sua mão de obra. Mas nunca farão o milagre de substituir o que aqueles que de direito e de fato deveriam fazer: a sua parte ao administrar as cidades.