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sexta-feira, 7 de abril de 2023

BALA DE PRATA

 


D
e todos os tipos de munição, a bala confeccionada com prata – e às vezes ouro –, segundo rezam nossas lendas e folclore, é a única capaz de matar vampiros, lobisomens e outros seres aterrorizantes de todos os rincões brasileiros. A origem da lenda remonta ao século 18 na França: um monstro chamado de “A Fera de Geauvaudan”, morta por um caçador conhecido como Jean Chastel (algo como João do Castelo), em cujo chapéu carregava medalhas de Nossa Senhora, que seriam derretidas no fogo e fundidas em balas de prata (embora tal folclore já seja bem antigo, mais atrás ainda, antes das armas de fogo, flechas de prata tinham o mesmo poder - não graças à prata em si, creio, mas ao poder da Virgem Maria, de cujas medalhas era extraído o precioso metal). Enfim, tais balas de prata tinham, nessas lendas, o poder de aniquilar feras, lobisomens, vampiros e o que viesse de coisa ruim pela frente. Era um estampido e só.


E
ntre nós, nos dias de hoje, a expressão “bala de prata” adquire um outro sentido, além do poder sobrenatural, o da bala única: não se deve errar o alvo, pois, caso aconteça, haverá um final terrível. Nos EUA, no filme western-espaguete “O Dólar Furado” (1965), Giuliano Gemma, caubói italiano no papel de um ex-capitão do Exército Confederado americano, recebe a missão de matar o bandido Black Jack. Em um duelo de bala única, Gemma recebe um tiro no peito, cai e fica largado no chão. Depois – ele simulara estar morto - levanta-se: uma moeda de um dólar no bolso esquerdo da camisa o impedira de morrer - daí o título do filme. Talvez pouco tenha a ver com “A Fera de Geauvaudan” e “O Dólar Furado”, mas aqui no Brasil “bala de prata” permanece com o sentido de munição poderosa, e em geral uma só.

Edson Luís no Calabouço

C
laro, não compartilhamos literalmente desse folclore, mas há algum sentido quando se diz que o governo tem uma “bala de prata” no caso Arcabouço Fiscal, proposta gestada principalmente no gabinete de Haddad e nos aposentos palacianos, e com seus aliados. No caso da economia brasileira atual, fala-se muito em “bala de prata” quando se refere a âncora fiscal ou regra fiscal. Mas preferiram chamar o alvo de “arcabouço fiscal”, estrutura que sustenta a economia do país. Não simpatizo com a palavra arcabouço, de tantos sentidos, como esqueleto, armação, madeirame, e nem todos bons, talvez, para uma bala salvadora. (Eu diria a um analista freudiano que associo arcabouço imediatamente a calabouço, terrível cárcere subterrâneo, a masmorra, e o restaurante estudantil homônimo, o Calabouço, do Rio, onde, aos 18, foi assassinado Edson Luís, crime que provocou   o movimento que foi um dos estopins para o AI-5). Arquitetura ou resto de ossos? Bom, qual seja. Optou-se por arcabouço, que vingou como estrutura preparada para o controle dos gastos públicos, projeto que ainda vai ao Congresso Nacional – agora sim, na forma de bala de prata, não sei se munição única mas com certeza aquela que faria sossegar a fera e daria ao novo governo a segurança de que precisa em uma sociedade tão dividida, um Congresso tão disforme. O fato é que, se perdida esta bala, cunhar outra a tempo de proporcionar a viabilidade de tanta mudança desde já será missão quase impossível. De armação, a estrutura poderá se transformar em esqueleto. Um arcabouço de ossos. Não seria a última bala, mas ficaria cada vez mais difícil. Resta saber se Haddad tem o dólar de ouro para colocar no bolso e aguentar o rojão.

Keynes

E
m 2017, o governo Michel Temer conseguiu aprovar a lei do teto de gastos, que amarrou as contas de despesas de cada ano às do ano anterior - ou seja, não seria possível gastar mais do que no ano passado. Tão simples quanto parece, mas eficiente? A proposta de Haddad tenta equilibrar metas de superavit (diferença para mais entre receita e despesa) e controle de gastos a partir da evolução das receitas. A lei de Temer é tida como impeditiva aos benefícios sociais propalados por Lula desde sempre, mas a proposta acordada até agora pelo governo e parte do Congresso não é compreendida a fundo por leigos - como eu. Em princípio, o aumento de gastos sobreviverá, mas tendo como referência o desempenho da receita, com piso de 0,6% e aumento, inflação à parte, de até 2,5%. Pronto? Claro que não. Os números e a terminologia me são familiares, mas os detalhes de que preciso para compreender esta imensa equação estão longe de minha vã economia, que vai mais para o lado filosófico do que do financeiro. Fico com Smith, Marx, Keynes e Galbraith, e dá para compreender alguma coisa com esse número de pensadores e suas filosofias. Afinal, Haddad não é formado em economia, fez apenas um mestrado na USP, e nem o  foi FHC, ex-ministro da Fazenda de Itamar, sem formação específica no ramo.

Mobile de Calder

E
m vista disso, não vejo bala única ou de prata, como as nossas comentaristas dos telejornais da TV adoram dizer -, nem gosto de arcabouço. Não há apenas uma saída, um caminho, e é óbvio que todos eles são móveis, algo como uma escultura flutuante de Alexander Calder, peças oscilando como pêndulos no ar sem se chocarem, mantendo a harmonia como em tantos universos: a música, os corpos celestes, a cadência das ondas do mar. Os grandes economistas que conheci, os melhores, eram artistas, ou quase. Criam que cálculos e contabilidades caberiam melhor aos calculistas e contabilistas, e a eles próprios a estrutura e a filosofia. Porque tudo isso não é matéria de cálculo: é muito mais de pensamento, como a música que sai do papel para a fruição dos que a ouvem.

 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

O QUE ACONTECEU COM A MPB NAQUELE ANO?

Grupo Oficina: Roda Viva

Janeiro de 1968. Estreava no Rio a peça Roda Viva, de Chico Buarque, que com as alegorias de sempre traduziu em desejo de mudar toda a angústia daqueles tempos: “...a gente quer ter voz ativa / no nosso destino mandar / mas eis que chega a roda viva e / carrega o destino pra lá”. E lá ia “roda mundo, roda-gigante, rodamoinho, roda pião”... Tudo, tudo a roda levava: sonhos, ideias, pessoas.
Luther King, Jr.: I had a dream 
Naquele ano, em Memphis, EUA, a roda levou Martin Luther King, Jr., carismático líder negro norte-americano que em 1963 proferiu um dos mais belos discursos da história, “I had a Dream” (“Eu tive um sonho”).  A contralto gospel Mahalia Jackson interrompeu-o da plateia com sua voz possante: “conte-os sobre o sonho, Martin!” King abandonou a leitura e, como os bons oradores  americanos  da Igreja de Lutero, improvisou com verve única frases inesquecíveis.
Cortejo do enterro do jovem Edson Luís
Junho de 68. Cinco anos após o assassinato de seu irmão John F. Kennedy, tomba o senador Robert Kennedy, do clã da matriarca Rose, condessa pelo Vaticano, ambos vítimas da histórica disputa política, da máfia ou da guerra fria. Naquele mês, no Rio de Janeiro, marchou a “passeata dos cem mil”, um protesto pacífico contra a censura e a crescente violação de direitos. A roda levara o estudante Edson Luís, 18 anos, abatido a tiros pela polícia no restaurante Calabouço, centro do Rio. Para o enterro, no Cemitério São João Batista, o esquife foi erguido em revezamento durante quilômetros, a multidão bradando o mantra “mataram uma criança, podia ser seu filho”.
Cota  Silva anuncia o AI-5
A morte do jovem estudante, a passeata de artistas, intelectuais e religiosos de braços dados com o povo e o discurso do deputado Moreira Alves, contra a invasão da Universidade de Brasília, foram os três fios que, unidos, acenderam o estopim para que no dia 13 de dezembro fosse detonada a  promulgação do AI-5, que fechou o Legislativo, impôs censura total, suspendeu direitos e concedeu poderes imperiais ao Presidente da República.
Daniel Cohn-Bendit ("Dani, Le Rouge"
Esses acontecimentos, somados os ecos do movimento estudantil na França sob a égide do franco-alemão Daniel Cohn-Bendit, mais a semente da revolução pop que germinava e floresceu no ano seguinte em Woodstock, encontraram um mundo no ápice de um ciclo de ebulição criativa.
Jobim e Chico, Cynara e Cybele
Naquele cenário, 1968 trouxe pérolas da MPB como “Baby”, de Caetano, encomenda de Betânia para o irmão; Retrato em Branco e Preto”, de Jobim e Chico, um lamento apaixonado: “o que é que eu posso contra o encanto / desse amor que eu nego tanto / evito tanto...”.  “Sabiá”, da mesma dupla, é uma doce canção de saudade - ou uma ode ao devaneio do retorno do exílio: “Vou voltar / sei que ainda vou voltar / para o meu lugar”. O Maracanãzinho tremeu ante apupos e protestos da plateia do 3º Festival Internacional da Canção: a massa não se conformava com o primeiro lugar dado a “Sabiá” em detrimento de sua favorita, “Pra não dizer que não falei de flores”, de Vandré, que se tornaria hino político da juventude. 
E quantos bons sambas nos deu 1968! Destaque para o genial “Samba do crioulo doido”, de Sérgio Porto, samba de enredo que nunca foi à avenida mas desfilou pelos ouvidos do país inteiro: “Foi em Diamantina / onde nasceu JK / que a princesa Leopoldina / arresolveu se casá / Mas Chica da Silva / tinha outros pretendentes / e obrigou a princesa / a se casá com Tiradentes”.
A MPB pós-bossa começava sua fase universal, livre de velhos conceitos e imersa em ricas influências. “Tropicália’, de Caetano, foi a pedra fundamental: “O monumento é de papel crepom e prata / os olhos verdes da mulata” (link no final do artigo). Surrealista, dadaísta, antropofágico, Caetano também compôs “Superbacana”, enquanto Jobim lançava “Wave” (“Vou te contar”), de melodia e harmonia bastante sofisticadas. Gilberto Gil, de braços com o tropicalismo, lançou “Soy loco por ti, America” (“...soy loco por ti de amores”).
Por Hélio Oiticica
No balanço, “Nem vem que não tem”, de Carlos Imperial (“Nem vem de garfo que hoje é dia de sopa / (...) nem vem de escada que hoje o incêndio é no porão”); a Jovem Guarda chega de roupa nova com “Vesti Azul”, de Nonato Buzar, enquanto Marcos e Paulo Sergio Valle falavam de música e luta social em “Viola enluarada” (“... no sertão é como espada”). Nas artes plásticas, Andy Warhol, nos EUA, e Oiticica, no Brasil; na filosofia, Sartre, Marcuse, Adorno, Hubermas; no teatro e cinema, Gláuber, Zé Celso, Pasolini, Godard. Na poesia e prosa, Capinam, Drummond, Bandeira, Cabral e Clarice, a quem Caetano homenageou (“Que mistério tem Clarice”). O Pasquim era gestado enquanto questionamentos, inquietações e medo pululavam. Criava-se, e como se criava!
Se o ocaso do Império Romano viu a “Idade das Trevas”, também houve o Renascimento e o “século das luzes” (séc. 18). Aconteceu também um longo ciclo, barroco-classicismo-romantismo. No século 20 eclodiram duas guerras mundiais, enquanto ideologias extremistas avançavam. Seria má-fé postular que foi o mal que levou o ciclo da cultura ao pico ou creditar ao tsunami repressivo mundial em 1968 a explosão criativa em todos os níveis. Só entristece saber que hoje, no Brasil, com guinadas e retrocessos de toda ordem, mas dentro de relativa normalidade democrática, navegamos na rasante da maré, quase a seco, no ponto de tangência mais baixo de um ciclo.

SEVERIANO, Jairo. MELLO, Zuza Homem de. “A canção no tempo”. Vol. 2. SP: Ed. 34, 1998. SOUZA, Tárik de. “O som nosso de cada dia”. P. Alegre: L&PM, 1983. MOURA, Roberto. “MPB”. Sp: Vitale, 1998.