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sexta-feira, 28 de outubro de 2022

REFLEXÕES SOBRE O VOTO

 

Tiradentes

E
nfim, lambendo nossas feridas, como se diz, termina neste domingo uma longa e belicosa disputa. Face a face com uma obrigação a ser cumprida com orgulho, participaremos da escolha mais importante da última década. É muito menos a opção por um nome, um rosto, é o que ele traz na bagagem: precisamos do mapa do caminho que, espera-se, deverá mudar a régua do país. Muito deverá acontecer, embora no horizonte haja poucas chances de avanços reais - difíceis de serem colecionados – e muito mais riscos. Uma falha será um tiro n’água, bala perdida com sua errante trilha de espuma perfurando o oceano. Ecoa a frase do inconfidente, repetida na peça Arena Conta Tiradentes (1967), de Augusto Boal: “Hei de armar uma meada tal que não se há de desembaraçar em dez, vinte ou cem anos”.

Constituinte de 1988: o final 

S
ofremos até hoje com erros do Império, da inevitável abolição, assim como os dos tempos da proclamação da República, do golpe de Deodoro à ditadura de Floriano Peixoto, o “marechal de ferro”. Depois, os desmandos de Getúlio e os males do longevo golpe de 1964; a censura e o recrudescimento via AI-5 até a conquista da “Constituição cidadã” de 1988, que nos libertou dos entulhos do passado, consolidou o Estado Democrático e os direitos e garantias individuais em todos os 79 incisos do Artigo 5°. Amargarmos a Carta do Império, de 1824, passamos pela de 1891 e depois as de 1934, 1937, 1946 e 1967 - esta última já na ditadura pós-64, sob a qual padecemos silentes e trôpegos por um ano, quando um ato institucional nos tirou o pouco oxigênio que restava. Duas dessas Constituições foram imposições autocráticas: a imperial, de 1824, e a de Getúlio, em 1937. A de 1934 tornou obrigatório o voto aos maiores de 18 anos e concedeu “generosamente” o direito às mulheres – enquanto vedava o sufrágio aos “mendigos e analfabetos” - cidadãos como nós, mas devidamente excluídos da sociedade.

Constituição de 1937: o golpe de Getúlio

C
om a Constituição do Estado Novo, em 1937, Getúlio rasgou, manu militari, a de 1934, promulgada a duras penas por uma Constituinte. O ditador suprimiu os partidos políticos, direitos e garantias, a liberdade de imprensa e partidária, e concentrou nas suas mãos todos os poderes. Mesmo se ora votamos e ora não, permaneceu riscado a ferro e fogo o amargor dos grilhões físicos ou da censura à opinião. O Brasil sempre esteve fadado a engolir arroubos autocráticos, varrendo para o lixo da sadia liberdade dos indígenas em suas origens à dos negros então livres da África - sequestrados para o trabalho desumano e cruel em nossos engenhos, fazendas e cidades. Tirando fora uma existência anterior desconhecida, que se esvanece na fumaça dos tempos pré-descobrimento, o país ainda vive a plena liberdade e os direitos garantidos após 1988, ano a que devemos boa parte do que usufruímos como cidadãos - malgrado a fome, a injustiça social, a devastação de florestas, a rapinagem das riquezas e uma das piores distribuições de renda do mundo.

Caronte

T
udo isso serve à reflexão sobre o direito que exerceremos no dia 30 de outubro: o de escolher os mandatários da nação e do estado para os próximos quatro anos. Voto, do latim votum, é promessa, desejo, palavra que surge em nossa língua de tantas formas, com sentidos os mais diversos, rumando à mesma direção: voto de castidade e de pobreza, de boas festas ou de felicidade; voto por acórdão, unânime, de Minerva, de qualidade ou por maioria simples; o ex-voto, que é oferenda pela cura de uma doença por um santo milagreiro que é cura ou jura, coisa entranhada em nossa cultura. Escolheremos os dirigentes que nos guiarão nos anos vindouros – lembrando a mitologia grega: Teseu nos conduzindo pelo labirinto ou Caronte em seu barco sabe-se lá para onde?  Soa, ao fundo, o Va, pensiero, sull’ali dorate, belíssimo coro da ópera Nabucco, de Verdi, sobre a libertação do povo hebreu escravizado na Babilônia, hoje um segundo hino italiano (“Vá, pensamento, sobre as asas douradas”). Há que serem líderes que olhem de verdade para os mais pobres, os descalços, os que têm fome, os que  não possuem onde morar, pois são esses que precisam mais que nós da opção escolhida.

Ex-votos



É
de se lamentar o uso e abuso das notícias falsas, as fake news, ofensas, o acobertamento “nada canônico” – diria meu pai - de fatos e dados; a artilharia de bits e bytes no anonimato de uma tecnologia que cada vez mais foge ao controle da sociedade - pior, cujo futuro sequer imaginamos. Vimos avançarem novas palavras e expressões: bots, deep fakes e cyberwar, fora as já velhas hackers, likes e zap (esta última, redução mais fácil do que o original, What’sApp, trocadilho com a expressão what’s up? - “o que é que há?” Sai o up, entra o app, de application).

Falsos padres

A
lguém se arrisca a prever um cenário midiático para 2026? Com tudo isso e os gabinetes do bem ou do ódio, com o concurso de apologias ou execrações a Igrejas que nem deveriam ter entrado no tabuleiro, candidatos exóticos, ataques violentos aos tribunais superiores - e recursos a essas instâncias quando conveio -, faltou ética e acima de tudo civilidade a personagens dessa cruzada surreal. Basta relembrar como têm sido esses dias.


É
chegado o momento de, com o simples pressionar de um dedo, escolhermos os melhores. Na cabine, lá com nossos botões, sem mentiras, mídia e pressões a nos atormentarem, finalmente cravaremos a decisão final para presidente e governador. Mas atenção, seremos cúmplices dos que escolhermos! Não é um jogo, mas se acertarmos, a sorte estará lançada. Porém, se errarmos...

 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

O QUE ACONTECEU COM A MPB NAQUELE ANO?

Grupo Oficina: Roda Viva

Janeiro de 1968. Estreava no Rio a peça Roda Viva, de Chico Buarque, que com as alegorias de sempre traduziu em desejo de mudar toda a angústia daqueles tempos: “...a gente quer ter voz ativa / no nosso destino mandar / mas eis que chega a roda viva e / carrega o destino pra lá”. E lá ia “roda mundo, roda-gigante, rodamoinho, roda pião”... Tudo, tudo a roda levava: sonhos, ideias, pessoas.
Luther King, Jr.: I had a dream 
Naquele ano, em Memphis, EUA, a roda levou Martin Luther King, Jr., carismático líder negro norte-americano que em 1963 proferiu um dos mais belos discursos da história, “I had a Dream” (“Eu tive um sonho”).  A contralto gospel Mahalia Jackson interrompeu-o da plateia com sua voz possante: “conte-os sobre o sonho, Martin!” King abandonou a leitura e, como os bons oradores  americanos  da Igreja de Lutero, improvisou com verve única frases inesquecíveis.
Cortejo do enterro do jovem Edson Luís
Junho de 68. Cinco anos após o assassinato de seu irmão John F. Kennedy, tomba o senador Robert Kennedy, do clã da matriarca Rose, condessa pelo Vaticano, ambos vítimas da histórica disputa política, da máfia ou da guerra fria. Naquele mês, no Rio de Janeiro, marchou a “passeata dos cem mil”, um protesto pacífico contra a censura e a crescente violação de direitos. A roda levara o estudante Edson Luís, 18 anos, abatido a tiros pela polícia no restaurante Calabouço, centro do Rio. Para o enterro, no Cemitério São João Batista, o esquife foi erguido em revezamento durante quilômetros, a multidão bradando o mantra “mataram uma criança, podia ser seu filho”.
Cota  Silva anuncia o AI-5
A morte do jovem estudante, a passeata de artistas, intelectuais e religiosos de braços dados com o povo e o discurso do deputado Moreira Alves, contra a invasão da Universidade de Brasília, foram os três fios que, unidos, acenderam o estopim para que no dia 13 de dezembro fosse detonada a  promulgação do AI-5, que fechou o Legislativo, impôs censura total, suspendeu direitos e concedeu poderes imperiais ao Presidente da República.
Daniel Cohn-Bendit ("Dani, Le Rouge"
Esses acontecimentos, somados os ecos do movimento estudantil na França sob a égide do franco-alemão Daniel Cohn-Bendit, mais a semente da revolução pop que germinava e floresceu no ano seguinte em Woodstock, encontraram um mundo no ápice de um ciclo de ebulição criativa.
Jobim e Chico, Cynara e Cybele
Naquele cenário, 1968 trouxe pérolas da MPB como “Baby”, de Caetano, encomenda de Betânia para o irmão; Retrato em Branco e Preto”, de Jobim e Chico, um lamento apaixonado: “o que é que eu posso contra o encanto / desse amor que eu nego tanto / evito tanto...”.  “Sabiá”, da mesma dupla, é uma doce canção de saudade - ou uma ode ao devaneio do retorno do exílio: “Vou voltar / sei que ainda vou voltar / para o meu lugar”. O Maracanãzinho tremeu ante apupos e protestos da plateia do 3º Festival Internacional da Canção: a massa não se conformava com o primeiro lugar dado a “Sabiá” em detrimento de sua favorita, “Pra não dizer que não falei de flores”, de Vandré, que se tornaria hino político da juventude. 
E quantos bons sambas nos deu 1968! Destaque para o genial “Samba do crioulo doido”, de Sérgio Porto, samba de enredo que nunca foi à avenida mas desfilou pelos ouvidos do país inteiro: “Foi em Diamantina / onde nasceu JK / que a princesa Leopoldina / arresolveu se casá / Mas Chica da Silva / tinha outros pretendentes / e obrigou a princesa / a se casá com Tiradentes”.
A MPB pós-bossa começava sua fase universal, livre de velhos conceitos e imersa em ricas influências. “Tropicália’, de Caetano, foi a pedra fundamental: “O monumento é de papel crepom e prata / os olhos verdes da mulata” (link no final do artigo). Surrealista, dadaísta, antropofágico, Caetano também compôs “Superbacana”, enquanto Jobim lançava “Wave” (“Vou te contar”), de melodia e harmonia bastante sofisticadas. Gilberto Gil, de braços com o tropicalismo, lançou “Soy loco por ti, America” (“...soy loco por ti de amores”).
Por Hélio Oiticica
No balanço, “Nem vem que não tem”, de Carlos Imperial (“Nem vem de garfo que hoje é dia de sopa / (...) nem vem de escada que hoje o incêndio é no porão”); a Jovem Guarda chega de roupa nova com “Vesti Azul”, de Nonato Buzar, enquanto Marcos e Paulo Sergio Valle falavam de música e luta social em “Viola enluarada” (“... no sertão é como espada”). Nas artes plásticas, Andy Warhol, nos EUA, e Oiticica, no Brasil; na filosofia, Sartre, Marcuse, Adorno, Hubermas; no teatro e cinema, Gláuber, Zé Celso, Pasolini, Godard. Na poesia e prosa, Capinam, Drummond, Bandeira, Cabral e Clarice, a quem Caetano homenageou (“Que mistério tem Clarice”). O Pasquim era gestado enquanto questionamentos, inquietações e medo pululavam. Criava-se, e como se criava!
Se o ocaso do Império Romano viu a “Idade das Trevas”, também houve o Renascimento e o “século das luzes” (séc. 18). Aconteceu também um longo ciclo, barroco-classicismo-romantismo. No século 20 eclodiram duas guerras mundiais, enquanto ideologias extremistas avançavam. Seria má-fé postular que foi o mal que levou o ciclo da cultura ao pico ou creditar ao tsunami repressivo mundial em 1968 a explosão criativa em todos os níveis. Só entristece saber que hoje, no Brasil, com guinadas e retrocessos de toda ordem, mas dentro de relativa normalidade democrática, navegamos na rasante da maré, quase a seco, no ponto de tangência mais baixo de um ciclo.

SEVERIANO, Jairo. MELLO, Zuza Homem de. “A canção no tempo”. Vol. 2. SP: Ed. 34, 1998. SOUZA, Tárik de. “O som nosso de cada dia”. P. Alegre: L&PM, 1983. MOURA, Roberto. “MPB”. Sp: Vitale, 1998.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

O FUNDAMENTALISMO POLÍTICO E RELIGIOSO


O Estadão publicou, no dia 12/11, matéria que acende a luz vermelha: “Até que ponto chega o ódio cego e visceral, quando não patológico” (link da TVT logo abaixo). Palavras do ministro do STF Celso de Mello, indignado com a alucinada incitação de uma advogada gaúcha: “estuprem e matem as filhas dos ordinários ministros do STF”.  Ela protestava contra a decisão da Suprema Corte pela inadmissibilidade da prisão em segunda instância, antes de esgotados todos os recursos e o trânsito em julgado. A advogada se referia, claramente, à decisão que teve como consequência a soltura do ex-presidente Lula. Sem entrar no mérito da questão, que é coisa julgada, sirvo-me desse gravíssimo incidente de possíveis desdobramentos penais para uma digressão a partir do que Mello chamou “fundamentalismo político”.

O então deputado Moreira Alves, em seu pronunciamento
Para mim, foi imediata a associação das palavras da advogada a um discurso do passado, guardadas as proporções e o contexto histórico. Em setembro de 1968, em Brasília, o então deputado Márcio Moreira Alves fez um pronunciamento, no Congresso, com teor naïve se comparado ao tom da advogada contra o STF. Longe de ser uma ameaça criminosa, a fala de Alves foi uma atitude até pueril naquele momento crítico do país.
UnB, 1968
A Polícia Militar do Distrito Federal havia invadido a Universidade de Brasília (UnB) e Alves subira à tribuna para pedir o boicote ao desfile de 7 de setembro, que seria um artifício para incutir no povo um “falso instinto patriótico”. E estendeu o pedido “às moças, aquelas que dançam com cadetes e namoram oficiais”. O governo Costa e Silva, via STF, exigiu do Congresso a cassação de Alves, que terminou rejeitada. Foi o estopim: em dezembro, três meses depois do discurso e seus desdobramentos, era baixado o hediondo AI-5; Alves fugiu do país, retornando somente com a anistia, em 1979.
Karen Armstrong
A inglesa Karen Armstrong (1945), formada em Oxford e ex-professora da Universidade de Londres, conseguiu uma façanha: chegou a ser freira durante sete anos, no Sagrado Coração de Jesus, hoje leciona Judaísmo e Treinamento para Rabinos na escola superior Leo Baeck e é membro honorário da Associação de Estudos Sociais Muçulmanos. Seu precioso livro “Em Nome de Deus¹” remete a 1492, ano em que, segundo ela, aconteceram três fatos de suma importância para Cristãos, Judeus e Muçulmanos: “a descoberta da América, a conquista de Granada e a expulsão dos Judeus da Espanha”, quatro décadas após a queda de Constantinopla.
Muhammad XII se rende aos "reis católicos" (F. Pradilla)

Baruch Spinoza
Com seu cabedal e ecletismo, Karen tornou-se uma das maiores especialistas sobre o fundamentalismo nas três grandes religiões monoteístas. O livro traz uma caudalosa bibliografia como suporte, incluindo textos de Nietzsche e os teológico-filosóficos de Spinoza, e é primordial para quem quer compreender o fundamentalismo político ou religioso (ou ainda ambos em convergência) nos dias de hoje.
Embaixada da Venezuela invadida
Dias após a investida afrontosa da advogada contra as filhas dos ministros, um grupo de 30 militantes favoráveis a Juan Guaidó, autoproclamado presidente da Venezuela, invade a embaixada de seu país em Brasília. Segundo declarou à Revista Forum o deputado Paulo Pimenta, que lá esteve, não lhe parece que o governo brasileiro tenha relação com o episódio em si, mas foi notório o acirramento de ânimos após o declarado apoio do Brasil a Guaidó contra o presidente Maduro. Detalhe importante: todos os invasores venezuelanos portavam mochilas com celulares, carregadores, baterias e... uma bíblia - o que nos leva à certeza de que o fenômeno que acontece no Brasil não nos é exclusivo, está presente em vários outros lugares. Além de cristãos de diversas ordens e seitas, incluindo as obscurantistas como os católicos “Arautos do Evangelho” e “Opus Dei”, são tão fundamentalistas quanto alguns núcleos ortodoxos judeus e muçulmanos, seguindo a ótica equidistante e imparcial de Karen Armstrong.
Sempre em nome de Deus, é inegável que o fundamentalismo político e religioso vem avançando no Brasil. Sem qualquer nexo, a ministra Damares Alves (também  já alvo de críticas do ministro), em um seminário sobre a “cura gay” (Estadão, 12 de novembro), disse que “o Estado é laico, mas não é laicista”. No dia 2 de janeiro já havia declarado ao mesmo jornal: “O Estado é laico, mas esta ministra é terrivelmente cristã”. Laicista é um termo que não está no VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa) nem no Houaiss, há uma referência  no Priberam . Damares na verdade quis contrapor-se a quem compreende a laicidade, “qualidade do que é laico ou leigo”. Todas essas palavras que remetem à mesma coisa. Ou seja, têm a ver com o antigo secularismo e o lema revolucionário francês “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” identificado, em 1905, com a lei que determina a separação entre Igreja e Estado. Hoje, políticos tentam seduzir certas correntes religiosas que, além de lhes proporcionarem o apelo hoje sedutor do extremo conservadorismo, representam números bastante significativos na contabilidade eleitoral.
A indignação do ministro Celso de Mello com a provocação da advogada não é só dele, que de pronto resolveu manifestar-se à luz de sua vasta cultura jurídica e universal, à parte das possíveis consequências de uma denúncia criminal. Na verdade, ele representou todos os brasileiros que pensam um país mais justo, mais digno e sob plena democracia. Quem diria, o discurso de Moreira Alves virou história da carochinha.

[¹AMSTRONG, Karen. Em Nome de Deus (O fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo). Trad. Hildegard Feist. SP: Ed. Schwarcz,  2001]

sábado, 25 de novembro de 2017

A MÚSICA A SERVIÇO DO PODER (Final)

Joan Baez
Ao emoldurar uma poesia, a música abre novos horizontes. Na Música Popular – vide alguns pop stars, como Joan Baez e Bob Dylan, apóstolos da luta contra a guerra do Vietnã - a mensagem política nas letras flui e chega melhor aos ouvidos quanto mais simples for a estrutura melódica e harmônica. Já a música panfletária costuma ser pobre de harmonia e melodia, visando às massas. Exemplo é Bandiera Rossa, dos radicais italianos do passado, inspirados na Revolução Soviética (e tanto quanto radical e blasfêmica): Avanti, popolo, facciamo greve / viva Lenine, viva Kruschev /  Bandiera rossa, color di vino / viva Lenine, viva Stalino / A mezzanotte, cielo stellato / Il santo papa, sarà inforcato.
Brecht e Weill
Um caso emblemático foi o de Kurt Weill (1900-1950), compositor alemão que se associou ao teatrólogo Bertold Brecht - parceria que resultou nas célebres Mahogonny (1927) e  Ópera dos Três Vinténs (1928), paródia sobre a Ópera dos Mendigos, de John Gay (1728). (Chico Buarque aproveitou Weil-Brecht na sua Ópera do Malandro). Como Eisler, Weill abandonou a linha romântica e a expressão musical de sentimentos para veicular em suas obras ideias revolucionárias.
Vandré e Caminhando: voz, violão e dois acordes
Geraldo Vandré,  compositor de Caminhando (Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores), conquistou, em 1968, o 2° lugar no Festival Internacional da Canção do Rio de Janeiro, ante a gritaria inconformada do público do Maracanãzinho, que achou a vencedora Sabiá, de Chico Buarque e Jobim, uma cançoneta boba e alienada. Não haviam se dado conta de que se tratava de uma canção do exílio ("Vou voltar, sei que ainda vou voltar / para o meu lugar / foi lá e é ainda lá / que eu hei de ouvir cantar / uma sabiá ..." Mesmo com o 2º lugar, Caminhando virou hino de todos os movimentos populares de 1968 em diante. A carreira de Vandré foi bruscamente interrompida durante uma turnê em Goiás (das trevas, viera o nefasto AI-5). O compositor descobriu que apenas ‘acreditando nas flores’ não venceria o canhão. Era pouco lirismo, singeleza, para muito chumbo.
Na iminência de ser preso, Vandré passou à clandes­tinidade. Saiu do Brasil, deu alguns giros e terminou em Paris, cidade que adotou até seu retorno, em 1973, negoci­ado com os militares (no terrível período Médici). Pisou emocionado o solo brasileiro e leu um texto, na TV Globo, onde dizia querer integrar-se à “nova realidade social brasileira”. E que dali em diante só queria fazer canções que falassem de amor e paz. Era a autocrítica pública para nossos "soviéticos" às avessas daquele período. Compôs Fabiana, em homenagem à FAB, mas não voltou batendo muito bem da bola. Tive um diálogo surreal com ele no café do Edifício Copan, em cujo pulguento cinema ensaiou a Osesp temporariamente. Por volta de 1989, com a bênção da Erundina, que o paparicava, volta e meia aparecia na Escola de Municipal de Música querendo mostrar alguma peça para piano que queria clássica (muito melhor era a Disparada!), e eu comecei a fugir dele de vez em quando. Era insistente, e nada poderia fazer para ajudá-lo naquela "viagem".
Caetano e Nelson
O libreto é a única maneira mais consistente de se expressar uma mensagem política na ópera. Mesmo assim, na maioria das vezes é praticamente impossível entender o que os cantores estão dizendo, independen­temente de o idioma ser alemão, italiano ou francês: expressam-se com dicção difícil de compreender pela plateia. Rameau (séc. 17/18), durante um ensaio de sua ópera Les Paladins, pediu à orquestra um tempo muito mais rápido. Foi quando a soprano reclamou que naquele andamento o público não entenderia o texto. O compositor disse que não fazia a menor diferença, bastava entenderem a música. Há também problemas de registro vocal, como quando Nelson Gonçalves, dono daquele vozeirão, gravava com Caetano, bem mais intimista. Caetano pediu ao Nelson que subisse um pouco o tom, pois achava difícil articular as palavras com notas tão graves. Nelson respon­deu, à queima-roupa: "vai falando, como faz o João Gilberto".
La Callas
Maria Callas, em uma récita de I Puritani, em 1949, iniciou a ária Son vergin vezzosa - sou virgem caprichosa - com um sonoro son vergin viziosa - sou virgem viciosa. Mas apenas um punhado de aficionados de ouvidos treinados perceberam. (Callas bem que poderia ter tido sua gafe listada como mondegreen, palavra que veio de laid him on the green - deitou-o na grama, trecho de letra de música que uma jornalista da Califórnia nos anos 50/60 havia entendido como Lady Mondegreen, escorregada – ou barrigada - que deu nome ao neologismo).
Villa-Lobos não gostava do bel canto de mãos juntas no peito ou no colo: ele queria ouvir claramente a soprano dizer: ‘a cantar o cariri...’ Bernstein compartilhava da necessidade de se entender o que os solistas cantam, e isso se reflete em suas Candide e West Side Story, por exemplo. Chegou a afirmar que a melhor coisa que aconteceu para a música vocal no século 20 foram os Beatles.

O incrível Itzhak Perlman
Bom, voltemos à Alemanha nazista, onde fechávamos o assunto Kurt Weill, que, perseguido pela Gestapo, fugiu em 1933 levando Bertold Brecht. Bebia nas fontes revolucionárias e ainda por cima era judeu. O mundo conhece a tradição dos grandes violinistas judeus, certamente a maioria dos melhores de todos os tempos, que nos deu nomes como Heifetz, Menuhin, Stern, Zuchermann, Gingold, Perlman e Milstein, entre muitos e muitos outros. Nos campos de concentração o violino era frequentemente tolerado pelos soldados alemães, para seu próprio deleite musical. Para os confinados, além de servir como distração e passatempo durante seu intenso sofrimento, era também uma forma inteligente de transportar, sem chamar atenção, alta quantias – tudo o que a família tinha – para o caso de lograrem sair do Inferno enclausurado dos nazistas. (Lembrei-me agora de uma divertida história de Itzhak Perlman, que teve um violino milionário roubado de seu camarim, após um recital. Sorte dele, alguém viu a peça em uma loja de penhores, e Perlman comprou o instrumento de volta por um preço ridículo - não mais do que US$ 50). O apego dos judeus a violinos é algo que tem história no holocausto nazista. Daí o correr de seu som nas veias de gerações.

A música na política foi um desastre, exceção à Revolução Francesa, com a Marseillaise: cruel, plena de sangue, mas tão bela e empolgante!  Não foi música panfletária, apesar da letra violenta e conclamatória: serviu ao levante do povo pelo fim do regime e até hoje é o hino da pátria, aliás um dos mais admirados do mundo, que surge até como citação no meio da monumental Abertura 1812, de Tchaikovsky (com direito a um instrumental enorme e até salvas de canhões), escrita em celebração ao rotundo fracasso do ataque de Napoleão ao seu país, a Rússia.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

FIGURAS MUSICAIS QUE TODOS DEVERIAM CONHECER

JORGE ANTUNES

Pode não ser o compositor mais popular, nunca deve ter pensado nisso. Sua música é plena de conceitos, faz pensar, sua missão não lhe permitiria a fama. O carioca Jorge Antunes (1942), radicado em Brasília, onde trilhou longa carreira na UnB e orientou uma legião de talentos da vanguarda, não é um desses simples adeptos da modernidade: para chegar onde chegou, conheceu os caminhos da mais sofisticada erudição, formando-se na UFRJ, e depois em Paris, Utrecht e Buenos Aires, tendo sido aluno de nomes históricos como o do papa da música concreta, Pierre Schaeffer, e do ícone da composição Alberto Ginastera. Foi laureado como "Chévalier des Arts", entre diversos títulos. Sua obra é das mais ecléticas, tendo composto desde música eletroacústica, da qual foi pioneiro no Brasil, criou sua Música Cromofônica (sons e luzes) e compôs óperas, música de câmara, peças sinfônicas e tudo o que pudesse unir sons ao seu pensamento filosófico. Não faz música para apenas para se ouvir, sua arte persuade a pensar.

Universidade na Grécia
Controverso, polêmico, Antunes, pessoalmente, cumpre papel inverso. É uma personalidade de fácil acesso, boa conversa e bastante simpático no trato com colegas, público e alunos, esses últimos a grande devoção de sua vida, que é ensinar. Mais ainda, não os introduz, apenas, aos cânones acadêmicos, mas literalmente chacoalha as mentes e faz despertar nos jovens a necessidade da consciência política e da reconstrução musical. E faz tudo isso com um português escorreito, redigindo seus textos com clareza cristalina. Procura despertar a indagação, a necessidade de pensar, pensar, pensar, criticar. Ou seria outra a missão da universidade, desde o seu primórdio?

Vou falar de três momentos meus com Jorge Antunes. Há muitos anos, houve um programa da Rádio Bandeirantes de São Paulo sobre o Hino Nacional – e tive a grata honra de dividir, cada um em sua área, a conversa com o especialista em língua portuguesa Pasquale Cipro Neto. Daí, uma revista nacional de grande porte me entrevistou e ao Jorge Antunes. Enquanto eu fiquei por conta da dificuldade de se cantar uma música instrumental complexa de 1831 (já foi Hino da Abdicação) e uma letra de tão difícil compreensão para o povo, Antunes expôs sobre seu Hino Nacional alternativo, polêmica que poderia ter tido consequências nada agradáveis, já que questionava um símbolo pátrio em tempos mais duros.

Não demorou muito, e o compositor me pediu que analisasse uma obra sua, “Três Impressões Cancioneirígenas” para sua Poética Musical, depois publicada pela Ed. Sistrum (2002). A peça que abordei é um caleidoscópio de símbolos musicais, visuais e textos, com alusões ao AI-5, usando de truques como “éramos ene / aí um foi embora / aí dois foram embora / aí três foram, embora (...) aí 5, aí 5", clara referência ao famigerado Ato Institucional de 1968, que foi um golpe fortíssimo dentro do golpe militar.

Escrevi, com plena liberdade para fazê-lo, abrindo o texto com as colunas do Niemeyer no Palácio da Alvorada dando forma gráfica ao monte empilhado de palavras e sílabas do texto do Ato Institucional, simbolizando a imagem-símbolo do Distrito Federal, as belas colunas do Alvorada.




Olga Benário
Há mais de dez anos, Antunes estava com sua ópera Olga, baseada na perseguição e morte da companheira do líder Luís Carlos Prestes, inteiramente pronta. Disse-me que ele já chegava aos 65, e tinha medo de morrer antes de vê-la encenada. Ora, disse-lhe eu, rindo, você não vai tão cedo, vamos batalhar. Uma vez em São Paulo, Antunes, puxando em um carrinho de bagagem os enormes volumes encadernados da ópera, viu a primeira tratativa fracassada. Raro se fazer ópera no Brasil, quase impossível vê-la encenada.

O sofrimento de Olga, com Martha Herr
Pois foi no tradicionalíssimo Teatro Municipal de São Paulo, que em 2006, portanto há dez anos, aconteceu a grande encenação, com nossa amiga comum, a saudosa Martha Herr, soprano, no papel de Olga, que lhe coube como uma luva. Como o terrível Chefe de Polícia de Vargas, Filinto Müller, o grande tenor Fernando Portari. O cenário foi impactante, as citações de Tristão e Isolda, de Wagner, de uma riqueza inteligentíssima, remetendo a uma das maiores óperas de todos os tempos, até a longa ária final de Olga lembrando o Liebestod (canto de amor e morte) de Isolda, na cena final. Nunca imaginei ver meninas, com cara daquelas aficionadas por novelas jovens, chorando ao final, bem da fila da frente – devem ter vindo em grupo colegial ou coisa assim. Isso foi prova que o povo não pode gostar daquilo que não conhece, bastando a oportunidade de conhecer algo para se apaixonar pela música, quando ela consegue seduzir.


Ano que vem, 2017, Jorge Antunes completa 75 anos de plena e incessante atividade. Não me falou nada sobre medo de “partir” assim, sem o reconhecimento à altura, isso ele deve guardar para si, mas advirto logo que ele não irá tão cedo, e o Brasil saberá reconhecê-lo, com as mais justas homenagens pelos 75 anos de vida. Tendo à disposição diversas publicações, certamente poderemos fazer de uma apresentação uma breve viagem por sua obra, no Conservatório de Tatuí. Todos têm espaço para compor, no Brasil, seja pela trilha mais nacionalista, conservadora ou vanguardista, correntes que revelaram alguns gênios, fora as de visões personalíssimas, marca de Antunes. Só desejamos que a celebração tenha o mais amplo espaço no país, pois cravar esse marco em sua homenagem é fundamental. Mesmo porque não se faz um músico desses e 75 anos todos os dias.



Contato: Sistrum Edições musicais (61) 3683976 / mauritz@americasnet.com.br