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sexta-feira, 27 de março de 2015

DE COMO O PRIMO BASÍLIO PASSOU A GOSTAR DE MÚSICA CLÁSSICA







Primo Basílio é um daqueles sujeitos folgazões, sempre na moda, no passado conhecidos como playboys. Gostava de estar ‘na onda’, conhecia os barzinhos da Vila Madalena, bancava o filho de família aristocrata paulistana, apenas um disfarce para o burguesinho com um passado fútil do qual conserva hábitos como frequentar coquetéis sem convite, arrumar uma boquinha em recepções para sair em coluna social e ser assunto da gente fina paulistana.

Sobre música clássica, o primo desconversava. Gostava da pior pagodagem da TV nos fins de semana, programas de calouros, até esse suposto 'funk', qualquer coisa em alto volume. E dizia que curtia Elis Regina, para não passar por inculto (sua preferência era o que a mídia lhe enfiava na cachola). Sobre cinema, disse-me que adorava. Assistiu a quase todos os últimos vencedores do Oscar, os lançamentos de Hollywood e grandes sucessos. Também gosto de alguns, disse-lhe eu, e cutuquei: mas você gosta de 2001, uma Odisseia no Espaço, do Stanley Kubrik, primo? Adorei e veria de novo, disse ele. Pois vou armar uma arapuca, pensei comigo. Vamos então assistir ao filme, convidei, e Basílio disse lá em casa. Prometeu salgados, alguma bebida, uísque anda caro demais, deixou entrever.

Passo de valsa
No sábado, o grupo se juntou na casa de Basílio, com modestos tira-gostos (não deu tempo para fazer compras, desculpou-se ele) e cerveja que já trazia da cozinha nos copos, para não mostrar a garrafa. São copos gelados, disse para justificar. Ligou seu belo home theater, luxo de que ele não abria mão, enquanto todos se serviam, peguei o DVD e coloquei no aparelho. Mal começou o filme, Basílio exclamou: esse é um dos meus favoritos, sempre atual! Ao final, perguntado sobre a música, Basílio disse que adorava a trilha do filme, mas a única música que reconhecia era uma valsa cujo nome não sabia – era O Danúbio Azul, de Johann Strauss II, que ele dançou em festas de debutantes. E o resto da trilha, a do começo, você gosta? Impressionante, uma trilha de impacto. Agora você me deve uma, Basílio. Vamos a um concerto na Sala São Paulo semana que vem. (Assim, armei a arapuca).

OSESP (foto: pt.wikipedia.org)
Na Sala, após uma abertura que não despertou a menor emoção no primo, a Osesp mostrou um imponente Assim Falou Zaratustra, de Richard Strauss. Basílio quase se levantou da cadeira, e cochichou aos meus ouvidos “a música do 2001!”. Eu apenas sorri. Deleitou-se até o fim, aplaudiu de pé. Saímos para um drinque à nossa amizade e no papo, disse-lhe eu, sabe que ‘a música do 2001’, de 1968, do Stanley Kubrick, não é bem um trilha de filme, na verdade é uma obra-prima de Richard Strauss chamada Assim Falou Zaratustra. E é de 1896, bem mais de um século atrás! Pois adorei, disse Basílio. E eu convidei: por que então não vamos na terça, assistir a outro concerto na Sala? Tenho convites!


Orquestra e Coro Sinfônico do Conservatório de Tatuí
e Coral Vivace, com solistas, na Sala SP
Sala cheia, na terça estávamos lá. Era uma apresentação completa, com solistas, da 9ª de Beethoven com a Orquestra Sinfônica e Coro do Conservatório de Tatuí. Basílio parece que só se animou no último movimento, após o recitativo. Mas isso é daquele filme maluco, o Laranja Mecânica, disse, e eu, psiu! À noite, cumprindo o ritual, juntamos o grupo para assistir ao filme Laranja Mecânica, de 1971, também do Stanley Kubrick, e, no meio da loucura, psiquiatria, violência e crimes, Basílio logo sorriu ao identificar a música que ouvira na Sala no dia anterior: e Beethoven havia composto a obra em 1824, tanto tempo atrás! A música adorei, mas o filme é muito violento, disse Basílio. Eu propus assistirmos então a um desenho animado fenomenal para descontrair. Concordou, apesar de ter torcido o nariz. Coisa de criança, mas depois do ‘Laranja’, muito violento, até aceitaria, disse. (Abaixo, Beethoven, 9ª Sinfonia, Finale. Leonard Bernstein e Filarmônica de Viena. Para ver e ouvir). 


The Philadelphia Orchestra, em Fantasia
Outra sessão de cinema, outro sábado à tarde, e coloquei para rodar o fenomenal desenho animado Fantasia, de Walt Disney, de 1940! Montado quadro a quadro, 24 quadros por segundo, cada precioso movimento do desabrochar das flores em sintonia tão perfeita que nem Steven Spielberg ousaria imaginar, foi antes de ele nascer. Basílio delirou. Mas isso não é para crianças, disse, e respondi que sim, era para crianças de todas as idades. A Orquestra da Philadelphia soava deslumbrante sob a batuta de Stokowsky. À noite, novo encontro na Sala São Paulo. A Osesp brilhou com A Sagração da Primavera, de Stravinsky, e logo ao lindo solo de fagote inicial Basílio lembrou-se do filme e olhou-me de soslaio, sem precisar comentar é do filme, é do Fantasia, primo Henrique! E a orquestra soou como nunca, montada em dos cavalos de batalha mais duros do repertório, com destaque para o solo de fagote de Alexandre Silvério e a precisão da timpanista Elizabeth. E metais, madeiras, cordas, tudo!
Sala São Paulo (salasaopaulo.art.br
Terminado o concerto, despedimo-nos, e Basílio agradeceu-me pelo passeio no mundo clássico. Passamos muitos meses sem nos vermos e, um dia desses, parou junto ao meu carro sua velha Harley Davidson, resto dos tempos de bon-vivant, da gorda mesada. Disse-me que comprara uma assinatura da Osesp, havia virado frequentador. Deu adeus e saiu roncando sua máquina, deixando-me com os olhos cheios de felicidade. Pena. Queria ter dito a ele que as pessoas só não gostam daquilo que é bom quando não conhecem, elas gostam apenas do que re-conhecem.


Eça de Queiroz
[O Primo Basílio é um romance de 1878 do escritor português Eça de Queiroz, texto de verdadeira crítica à decadência burguesa da época. Basílio era um dândi, um transviado, diriam nos anos 1950. Daí, tomei do Primo Basílio de Eça o perfil de meu primo imaginário, com a devida licença do além.]

sexta-feira, 20 de março de 2015

ENERGIA: O RETORNO À ESCOLA (OU: DE VOLTA AO FUTURO)

Woodstock (Smithsonian mag)
Quando adolescente, inebriado pela fantasia de que transformaríamos o mundo, nada parecia impossível. A revolução seria social, de costumes, tudo. E havia charme naquelas pessoas falando de fontes alternativas para energia, visionárias para a época, coisa de filme de ficção científica.

Hervard Mark 1 (parte)
‘O tempo passa, o tempo voa’, e passei a ver um mundo mais cruel: um fado, o destino selado rumo ao desconhecido, e apenas sonhos delineados pelo avanço científico. (O computador já era realidade, mas nada acessível aos cidadãos, e assustava. Gilberto Gil gravou: “O cérebro eletrônico comanda / manda e desmanda / mas ele não anda”). Desde 1936 (com o alemão Konrad Zuse), após histórias milenares de engenhocas para calcular e processar dados simples, chegou-se a um experimento que pode ter sido o marco inicial. Durante a Segunda Guerra, a Universidade de Harvard desenvolveu com a IBM o que se pode chamar de primeiro computador, o Harvard Mark I, que ocupava o espaço de um apartamento de quatro dormitórios (120m²), mas tinha uma memória que hoje caberia com folga em um simples chipezinho de celular.

Cérebro Eletrônico, com Gil e Maria Gadú

Alfabeto Genético de seis letras
As descobertas foram tomando curso acelerado, e passamos a assistir ao avanço da decifração do código genético, da física, da química, espaço, atmosfera e tudo o mais que se pode imaginar. A decifração do código genético teve seu prazo de pesquisa incrivelmente encurtado, pois o tempo previsto inicialmente era baseado nas informações que tínhamos, sem previsão de que as possibilidades da informática, como capacidade de processamento, velocidade e memória dos computadores, cresceriam tanto em progressão geométrica. A ciência avançou em todas as áreas, da genética à astrofísica, entre tantas outras. Pois agora chegamos ao ponto que é a ideia deste artigo: a energia no futuro que nos espera.

Há uma década, dentro de minhas limitações, acharia graça ao ler, como na Folha de São Paulo (17/03/14, C6), matéria com a chamada de capa “Cientistas tentam minimizar efeito no clima dos gases de bois e vacas”. O subtítulo, na página interna, é “O arroto que esquenta o mundo”. Por causa de serem animais ruminantes, os flatos e flatulências (para usar palavras elegantes) dos animais produzem uma quantidade nada agradável de gás metano: tubos na boca dos animais indicaram emissões de gases surpreendentes! (A Unesp Jaboticabal também conduz estudos sobre o assunto com a Embrapa).

Projeto de energia eólica no Texas:
investimento da Google de US$ 75 milhões
Já a energia eólica, a produzida pelo vento, tem custo perto de zero, mas traz poluição sonora e somente serve para locais com vento constante e com poder de deslocar bem as pás dos aerogeradores. Existem ainda os biocombustíveis, a energia hidráulica, a termelétrica, a solar (não só as placas para aquecer água em residências, é geração de eletricidade mesmo). Há energia gerada por ondas marítimas e a nuclear, esta última bastante questionada pelo seu risco.

Automóveis movidos a gás e etanol trouxeram certo alento, mas não alívio para o futuro: o combustível fóssil (gasolina, querosene, diesel, gás) tem prazo de validade na terra e as plantações de cana arruínam o solo com o tempo. Já avança com rapidez a tecnologia dos automóveis abastecidos com eletricidade e autocarregamento de bateria. Cá em minha ignorância, creio até em soluções para o etanol, óleo de mamona e outros de origem vegetal como o milenar rodízio gado/plantação nas terras, para que haja sobrevida maior para a lavoura.

James Watt (1736-1819)
Agora, impressionado com o salto do custo mensal do consumo de energia, com a ajuda da professora Isabela Dourado e do meu assessor Pedro Dourado, de 19 e 18 anos, sentei-me novamente no banco de escola e pus-me a estudar. Aprendi que o consumo de energia de lâmpadas e quaisquer aparelhos é dado em kWh (quilowatt-hora), e que a maioria dos aparelhos hoje evita mostrar esses dados. Parti para outros cálculos que me ajudassem em minha residência e em meu trabalho. Os aparelhos têm impresso, sempre, quando não o número de kWh (medida de energia), ou W (unidade de potência, medida de energia por tempo), a voltagem de saída (V, unidade de voltagem) e a amperagem (A, de ampère, unidade internacional de medida de corrente).

Alessandro Volta (1745-1827)
[Uma parte meio chata, mas que ensina muito, se tiver paciência: Multiplique a voltagem de saída (V) pela amperagem (A) e você terá a potência, ou seja, o número de Watts do que você quer medir. Por exemplo, a fonte de um notebook possui na saída 12 V e 4,5 A, portanto o consumo é de 12 x 4,5 = 54 W, ou 0,054kW, e se deixada ligada por 24 horas o resultado mensal será de R$ 19,68! (O custo quilowatts-h em São Paulo é de R$ 0,50616, basta multiplicar o total de Watts pela quantidade de horas ligadas durante o mês e pelo valor acima e dividir por mil, ou seja, 54W x 24h x 30 dias x 0,50616 / 1000). E todos os aparelhos com aquela luzinha (os LED) acesa, mesmo sem funcionar, podem ser desligados das tomadas.]

Um nobreak salva o seu computador em inesperada queda de energia por umas 2 horas, mas consome de R$ 60,00 a mais de 240 por mês se deixado ligado direto; uma lâmpada de 100 w, 8 horas /dia, joga na conta de luz mais R$ 12,15; um condicionador de ar de 10.000 BTU, idem, R$ 108,00, e um ventilador de mesa (grande) R$ 20,00, pelo mesmo horário.

Contra a disparada nos preços da energia, além de gritar e protestar, é hora de começarmos a revê-los em nossas casas e no trabalho - e pensar no que nos trará o futuro (veja ao final deste texto um link que calcula seus gastos automaticamente). Cada um deve cumprir a sua parte, e não apenas pela redução de despesas, ante a escalada dos gastos com combustíveis e conta de luz. Mas são urgentes, mesmo, e cada vez mais, as pesquisas para encontrar novas soluções energéticas e ambientais para um futuro melhor. Ou ao menos que seja apenas um futuro.


[Recomendo o site da AES/Eletropaulo para suas próprias contas. Calcula automaticamente, por aparelho (muitos, de todos os tipos), podendo fazer o cálculo total de seu uso doméstico ou no trabalho: https://www.aessul.com.br/areacliente/servicos/simula.asp]

sexta-feira, 13 de março de 2015

O BRASIL DA PRESIDENTE MANUELA PEREIRA PASSOS

(Simulação: jornal Atlanta Voice, oficial de serviço de desempregados)
A presidente Manuela Pereira Passos, célebre por sua luta contra a corrupção e eleita para mandato de transição de dois anos, tornou-se a grande esperança dos brasileiros, após os anos de escândalos que macularam o país. Com poderes determinados pela nova Constituição, cabe a Manuela transmitir o cargo ao político com ela eleito para prosseguimento efetivo, com mandato único de 5 anos.

Óleo de Bernardino Campi (1522-1595)
O Conselho de Notáveis, referendado pelo Câmara dos Representantes, é formado por personalidades de grande experiência não vinculados a partidos ou entidades de classe. Cada membro da Corte Superior é escolhido vitaliciamente por profundo saber jurídico e conduta ilibada por seus pares, sem interferência política.

Alegoria do Bom Governo, afresco de Lorenzetti (c. 1290-c.1348)
A Câmara de Representantes remunera por jetons cada uma das cinco sessões semanais, mais estadia, sem carro oficial e outras despesas. Os 6 partidos, agregando as mais diversas tendências, legislam na Câmara, para onde foram eleitos por voto distrital, com independência do executivo, cujo poder de veto a qualquer ato legislativo somente pode ser exercido com o aval da Corte Superior que analisa a constitucionalidade de cada proposta de corte ou veto integral, ouvido o Conselho de Notáveis.

A Corte Superior somente pode ser acionada judicialmente em casos extremos, e apenas se o Núcleo Recursal de primeiro grau assim o decidir por maioria absoluta de votos. As decisões dos magistrados de primeiro grau têm cumprimento imediato, cabendo apenas um único recurso para análise da Câmara Especial de cada estado, pleito distribuído por sorteio entre três de seus integrantes para cada caso, cabendo-lhes a decisão sobre o prosseguimento ou não do agravo. Em caso de crime com fartas provas, à parte a detenção em flagrante, a voz de prisão é dada logo após o bater do martelo, e recursos devem ser analisados sumariamente. Todas causas cíveis são decididas de forma semelhante, logo após a urgente audiência preliminar da Câmara de Conciliação de cada Comarca, com representação de membros da sociedade civil. Inexiste qualquer imunidade ou privilégio judicial, sendo todas as autoridades julgadas pelas mesmas instâncias a que são encaminhados os réus como criminosos civis.


Dragões da Independência em Brasília (Foto: Exército Brasileiro)
O ministro da defesa, General José Carlos Conrado Gama, também advogado com especialização em direito constitucional e internacional, lidera as três armas que atuam tanto na defesa da Nova Constituição, sua missão maior, quanto da soberania, das fonteiras nacionais, das missões de paz e das Forças Especiais da ONU. Há especial atenção para a segurança pública, em auxílio às polícias, quando acionado pela presidente Manuela a pedido dos estados. O Gen. Gama tornou-se figura notável na República por sua participação na elaboração da Nova Constituição e reorganização do Exército, Marinha e Aeronáutica, incorporando à vida de caserna o domínio da informática e dos modernos meios de comunicação, o estudo da Nova Constituição, da Segurança Nacional e do Estado Democrático de Direito. O ministério é avesso a qualquer tipo de intervenção ou interferência política brasileira, fora de suas atribuições legais. 

Aos sindicatos é dado o amplo direito de negociação e reivindicação, sendo vedada sua ligação como grupo a entidades partidárias. As diretorias são eleitas a cada dois anos, vedada a recondução, e têm estabilidade no serviço por outros dois anos após o mandato. Faltas ao trabalho são regularmente descontadas, mas as atividades de representação poderão ser exercidas livremente nos locais e horários de trabalho mensalmente, conforme determinado por convenção coletiva. É livre a associação a entidades de classe, ficando os empregados não contribuintes privados de benefícios à parte da lei obtidos pelas entidades representativas.

O Chanceler de Rolin e a Virgem (Van Eyk, 1390-1441
Ao Chanceler (primeiro ministro), indicado pela presidente Manuela com aprovação majoritária das casas legislativas e da Corte Superior (para análise de competência ou injúria prévia direta ou indireta do postulante ao erário público e outros crimes graves), cabe um mandato por período indeterminado, enquanto houver sustentação das casas legislativas, sendo seu poder de decisão definido por lei, à parte das prerrogativas do presidente da república. O sistema vigente é o presidencialismo parlamentarista, com o chefe de governo (Chanceler) tendo funções executivas, mas submetendo-se às disposições constitucionais e sujeito a destituição a pedido da presidente ou por decisão de maioria de 3/4 dos membros da Câmara dos Representantes.

Primeira Constituição Brasileira (1824)
As revisões constitucionais acontecem a cada 10 anos, desde que aprovadas por maioria absoluta, em número não maior do que 10 propostas por período, previamente avaliadas como prioritárias por comissões mistas proporcionais. A Nova Constituição é composta por 40 artigos, subdivididos em não mais do que 10 parágrafos e igual número máximo de incisos cada. Também são incorporadas automaticamente ao texto constitucional as súmulas dos tribunais superiores, que norteiam as decisões judiciais de primeiro grau em casos análogos.

Força Pública de SP (1932): pilotos e mecânicos no Campo de Marte
A Polícia Civil é municipalizada, exceção feita aos serviços judiciários, de investigação e inteligência, e seu orçamento advém da União, estados e municípios. Retornou a antiga Força Pública, atuando sob o comando dos estados. Processos, inquéritos, cartas precatórias e mandados correm com celeridade por vias eletrônicas  sumariamente entre as autoridades policiais e judiciárias. Aos advogados é dado acesso a todas as instâncias nos processos em que são patronos e direito de discussão conjunta nas entidades de classe reconhecidas em casos julgados mais importantes.

Todas as formas de imprensa e comunicação são absolutamente livres e observadas por um Conselho de Ética independente, com a participação de personalidades notáveis com poderes para propor sanções administrativas ou encaminhamento das violações previstas em lei à instância competente. É livre a manifestação de pensamento e reivindicações públicas nos espaços reservados em cada município, salvaguardado o direito de todos de ir e vir e o acesso ao trabalho nos casos de greve, sendo tanto o cerceamento do direito de greve quanto casos de violação da ordem e impedimento ao trabalho passíveis de sanções penais.

Na data de hoje, a presidente Manuela encaminhou à publicação oficial o seguinte despacho: DECRETO Nº 58 (numeração 2). Manuela Pereira Passos, Presidente de Transição, no uso de suas atribuições legais e com fulcro no Art. 2º, § 1º, da Nova Constituição de 2031, decreta: Art. 1º – Fica transmitido a partir desta data o cargo de Presidente da República ao Sr. Pedro Evangelista de Souza, eleito por maioria em voto direto dos eleitores optativos, para o exercício do mandato de Presidente da República por 5 anos, sem direito à recondução. § único: ficam revogadas disposições em contrário. Nova Brasília, 1º de janeiro de 2035.




[Este texto teve alguma confessa inspiração em Platão e sua República, na organização política e judiciária norte-americana e na Constituição do Reino Unido, além do regime parlamentarista de países europeus e as Constituições Brasileiras. É uma alegoria livre de um cidadão brasileiro]

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

XENOFOBIA, PRECONCEITO, RACISMO E GENOCÍDIO

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Segundo o Oxford Dictionaries, xenofobia (do grego xénos, estrangeiro, e phóbos, medo) é ‘um medo não fundamentado do que vem de fora’. Para o Houaiss, ‘desconfiança, temor ou antipatia por pessoas estranhas ao meio (...) ou pelo que é incomum’. De acordo com o trabalho liderado por Guido Bolaffi (Dictionary of Race, Ethnicity and Culture. London: Sage, 2003), ela se manifesta ‘de diversas formas (...) inclusive o medo de perder a identidade (...), suspeição de (suas) atividades, agressão e desejo de eliminar sua presença para assegurar uma pureza presumida’.

Viena: Congresso dos 80 anos da Declaração
A Declaração e Programa de Ação de Viena (junho de 1933) entende (Parte II, parágrafo 20) ‘urgente que todos os governos tomem medidas imediatas e desenvolvam fortes políticas para combater todas as formas de racismo, xenofobia, intolerância (...) por legislação apropriada, incluindo medidas penais’.

Moisés e o Êxodo (József Molnár, 1861)
A xenofobia está no cerne de interesses pessoais em que o poder ou domínio sobre regiões ou suas riquezas tem um vínculo dissimulado com o racismo. O Antigo Testamento já relata a perseguição ao povo judeu durante o Império Romano e a fuga dos hebreus para o Egito (Êxodo, 1).


Friedrich Nietzsche
Mais recentemente, Nietzsche (1844-1900), pensador e escritor alemão, insuflou (talvez não diretamente) o antissemitismo – muito mais por causa da interpretação de seus escritos pelo genro, o radical antissemita Bernhard Föster do que pelos seus próprios trabalhos. Pensamentos atribuídos a (ou ‘destilados de’) Nietzsche tornaram-se uma ideia fixa para Richard Wagner (1813-1883), maior compositor de óperas germânico.

Wagner: Judaísmo na Música
Daí resultaram publicações em que o músico empreendia verdadeiras perseguições aos compositores judeus, com foco especial em Felix Mendelssohn Bartoldy (1809-1847), mesmo que esse último sobrenome, adotado, fosse de origem cristã. Talvez a publicação mais conhecida e controversa de Wagner sobre o assunto seja O Judaísmo na Música (Judenthum in der Musik).

Hitler: Camarote na Berlin  Opera House
Adolf Hitler (1889-1945) foi grande admirador da música de Wagner, cujas óperas lhe reforçavam a ideia da raça ariana como superior. Os pontos de vista de Wagner seguramente ‘glamourizaram’ o pensamento nazista, que avançou em 1908: Eva, filha do compositor, casou-se com Houston Stewart Chamberlain, autor de um livro racista, ‘Os Fundamentos do Século Dezenove’ (Die Grundiagen des neunzehnten Jahrunderts, 1899) chancelado pelo nazismo.


As publicações de Chamberlain (foto), um inglês germanófilo que obteve nacionalidade alemã e escrevia no idioma adotivo, asseguravam a superioridade da raça ariana e tinham o antissemitismo como bandeira principal. Suas teorias ajudaram a abrir campo ao pensamento racista que conquistou espaço e resultou em brutal perseguição aos judeus pelos nazistas e países sob seu domínio, chegando à chamada ‘solução final’, o Holocausto, um dos maiores genocídios que a humanidade conheceu. Em 2007, a União Europeia aprovou uma lei que considera crime quem negar a existência daquele genocídio de mais de seis milhões de pessoas.

Não teria sido diferente com o 1,5 milhão de armênios mortos pelos otomanos e humilhados com as maiores e inenarráveis atrocidades, genocídio ainda não reconhecido pela ONU. (Recomendo o livro O Grito do Cordeiro, do meu amigo Luis Carlos Magaldi [SP: Editorial 25. 2013], ficção baseada em fatos reais coletados com esmero de descendentes dos vitimados pela cruel perseguição).

Armênios perseguidos a crânios amontoados de vítimas do genocídio
Em Boston, em 1980, participei de um concerto em homenagem aos 65 anos do massacre, com a presença e a música de compositores e regentes de origem armênia, como Hovhaness (1911-2000), que lecionou no Boston Conservatory e é considerado um dos mais prolíficos e importantes autores da música norte-americana. Técnica refinada aliada ao domínio da orquestração, música, harmonia e melodias impregnadas da cultura de seu povo.

Stalin
Segundo o Oxford English Dictionary, massacre é ‘o brutal e indiscriminado assassinato de pessoas (...), em grande número’. Entre os mais conhecidos, o de Anglesey (Brittania, 61 d.C.), o de Banu Quraysa, na Arábia Saudita (627 d.C., mais de 900 mortos), o ‘Massacre dos Latinos’ (1.182), em Constantinopla, pelo Império Bizantino, o de Chipre (1.580), 50 mil cristãos gregos e armênios mortos pelos otomanos, a Noite de São Bartolomeu, em Paris (1.572), massacre de huguenotes pelos católicos, Yangzhou, na China (1645), perto de 800 mil vítimas, chegando enfim aos 4 ou 5 milhões de mortos por Stalin, e os já citados genocídio de armênios e o Holocausto, entre outros.

'Todos são estrangeiros em algum lugar'
Discriminações aparentemente inofensivas como a xenofobia podem desencadear consequências como preconceitos, e daí a coisas piores. Felizmente, muita luta tem sido empreendida em tempos recentes contra todos as discriminações – sejam por origem, raça, credo, sexo ou opção –, em parte aliadas à defesa de interesses financeiros.

A 'West-Eastern Divan Orchestra, do judeu Barenboim e o palestino Said,
com jovem de ambos os lados
Salve a música, que não conhece fronteiras! À parte certos arroubos ultranacionalistas brasileiros durante certo período, que em nada colaboraram para o nosso crescimento artístico -  basta ver que a Sinfônica do Municipal de São Paulo foi criada com mais de 80% de italianos, muitos ótimos músicos. Nos EUA e Europa, Claudio Abbado, italiano, e Simon Rattle, inglês, são os dois últimos nomes à frente da Filarmônica de Berlim, e da Sinfônica de Boston não conheço sequer um regente norte-americano. A condição para qualquer músico entrar em uma grande orquestra é apenas uma: tocar melhor. A música une as pessoas, fala todos os idiomas e promove a boa convivência dos povos, sem limitações geográficas, raciais e de idioma. 


West-Eastern Divan Orchestra apresenta
9ª de Beethoven: Ode à Alegria. Final. Legendas em inglês

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O QUE ACONTECEU COM A POESIA NA MPB?

Não é fita, é fato. Chico, Caetano, Jobim, Aldir Blanc e os que partiram, como Vinícius e Gonzaguinha. Todos muito lidos, tinham na bagagem uma cultura de peso. Conheciam não apenas o universo musical, mas também os grandes poetas da nossa língua, de João Cabral e Drummond a Olavo Bilac e Claudio Manuel da Costa aos lusitanos Camões e Fernando Pessoa. A cultura de Caetano Veloso é enciclopédia, a despeito de seu charme simplório. Já Chico tem incursões felizes na dramaturgia, como em Calabar, A Gota d’Água, adaptação para uma favela carioca da tragédia Medéia, de Eurípedes (431 a.C.), e Ópera do Malandro, adaptada de John Gay e da Ópera dos Três Vinténs, de Brecht e Weill. Mas seus livros de prosa ficam à sombra de seu talento musical.

Em ‘Chuva, Suor e Cerveja’, Caetano Veloso domina a técnica de recursos de figura de linguagem como a aliteração (repetição de sons iguais ou semelhantes): “(...) ladeira abaixo / acho que a chuva / ajuda a gente a se ver / venha, veja, deixa / beija, seja / o que Deus quiser”. “Acho que a chuva ajuda”, faz ressoar os sons ‘x’ e ‘u’ de maneira percussiva, com forte apelo rítmico. (Ouça abaixo uma boa gravação). Em ‘Irene’, Caê esbanja seu talento de poeta: “quero ver Irene rir / quero ver Irene dar sua risada”.


Chico em "Esta Noite"
Em um velho programa da TV Record, Esta Noite se Improvisa, apresentado no final dos anos 1960 por Blota Júnior, Caetano desafiava cantores e compositores famosos. Exibia seu conhecimento do cancioneiro popular brasileiro e do além-mar, fados e modinhas portuguesas. O prêmio para o vencedor era um carrinho muito raro hoje, mas objeto de desejo na época: um Dolfine zero Km. Chico e Caê deixavam a mão perto do botão, e logo após Blota Júnior sortear e anunciar “e a palavra é”, os dois já metiam a mão na campainha. Caetano era assombroso, tudo lhe vinha de imediato, era apertar a campainha antes mesmo de acionar sua rápida memória. Em uma das palavras sorteadas pelo Blota, ‘profundo’, Chico foi mais rápido no botão, e na falta de ideia inventou: “desci pro fundo da rede...” Blota anulou, a palavra era ‘profundo’. Chico perdeu o ponto, mas não perdeu a piada. Eu era então um garoto que adorava música, e em algumas festas, com violões e gente ligada à MPB, também brincávamos do sadio joguinho de salão ‘e a palavra é’.

Vinicius: poeta 24 horas por dia
Naquele tempo era parte da vida conhecer o cinema novo de Glauber e Pereira dos Santos, assim como ícones da contracultura como Kerouak, os antipsiquiatras Laing e Cooper e os então novos pensadores de esquerda, como Marcuse. Lia-se muito do melhor, de Machado de Assis aos modernos. Compositor e poeta, Vinicius de Morais nos deixou preciosidades, como o “Soneto de Separação”, ricamente musicado por Jobim: “De repente do riso fez-se o pranto / silencioso e branco como a bruma / e das bocas unidas fez-se a espuma / e das mãos espalmadas fez-se o espanto”. (Veja e ouça abaixo, gravação de 1979)



Aldir Blanc em seu canto de livros e música
Aldir Blanc, bamba no gênero, deixou letras brilhantes como "Dois pra lá, dois pra Cá’, em que elementos do dia a dia do povo envolvem o ouvinte em um ambiente sedutor: “Sentindo frio em minh’alma / te convidei pra dançar / a tua voz me acalmava / são dois pra lá, dois pra cá”. Era o homem tímido que não sabia dançar bolero, mas a voz carinhosa de seu par o ensinou: “são dois pra lá, dois pra cá”. O cotidiano outras vezes surge na letra de maneira sutil, na forma de um simples curativo a amenizar a dor de um calo no pé: “e a ponta de um torturante ‘band-aid’ no calcanhar”. E segue o cotidiano: "no dedo um falso brilhante", "eu hoje me embriagando de uísque com guaraná". (Veja e ouça esta linda gravação de 1979, com Elis Regina, uma beleza poética cristalina)



Cazuza com o pai, o produtor João Araújo
Exemplos são infindáveis. Porém, naquele auge de criatividade dos anos 1960 a 1980, havia a inquietude juvenil, as teorias políticas sedutoras, o ler e ver bons livros e filmes, as conversas de bar que passeavam por todos os assuntos. Talvez um dos últimos nomes da boa letra popular tenha sido Cazuza. Não foi gênio em música, mas filho de João Araújo, produtor musical, conheceu bons artistas e tornou-se a voz de muitas letras emblemáticas, como em Brasil: “Brasil! Mostra tua cara / quero ver quem paga / pra gente ficar assim / (...) Qual é o teu negócio? / O nome do teu sócio? / Confia em mim”. (Veja e ouça uma gravação histórica de 'Brasil' [1989], com Cazuza e Gal Costa). E Raul Seixas, com letras inteligentes e refrões que ficaram na memória, como “eu sou a mosca que pousou na sua sopa”, com direito a escorregões em português que não acontecem com os outros poetas citados acima: “Eu nasci há dez mil anos atrás...”


Renato Russo, incensado por uma geração
Depois deles, não o dilúvio, mas alguns arremedos de qualidade aqui e ali, como em Renato Russo, inteligente mas menos rico na construção e uso dos recursos poéticos. Servia melhor ao discurso direto, panfletário, como em “Que país é esse?”, título que virou lema para todos os protestos: “Nas favelas, no Senado / sujeira pra todo lado / ninguém respeita a constituição / mas todos acreditam / no futuro da nação”. São as chamadas ‘rimas pobres’, da mesma categoria gramatical, e vêm aos pares, mas a necessidade de comunicação direta e fácil lhe concedia esse favor em detrimento da veia poética. Muito aquém do Geraldo Vandré da "Disparada"

Hoje, pegue o leitor uma lista das dez mais tocadas nas rádios e TVs: entre as 100 primeiras de 2104 (site ‘Top 10 +’), Jorge & Mateus em 3º, Luan Santana, 5º, e Anitta, 9º. E ainda surgem João Bosco e Vinicius, mas não compre gato por lebre: os nomes são iguais, mas não são os grandes xarás do passado. ‘Indescritível’, deles, fica em 37º e ‘Sorte é ter Você’ é o 62º. E nada encontro que mereça atenção.

Paula Fernandes (foto: divulgação do site)
Gosto de letras do Zeca Baleiro, do José Miguel Wisnik e mesmo de outras mais simples, como as do Almir Sater, e as singelas como as da 'nova' Paula Fernandes (agora declarada MPB), cuja voz discreta e cenários de clipes lembram a adorável Karen Carpenter. Mas vivemos uma crise cultural, e a MPB não cai sozinha com ela: em todo esse processo histórico, o pensamento humano fez uma curva para baixo, reflexo da perda de referências ideológicas (“ideologia, quero uma pra viver”, gritou Cazuza), de perspectivas políticas, filosóficas e artísticas. Com a cultura de hoje em recesso escolar, sem previsão de retorno, mais a educação brasileira largada em terceiro plano, há apenas dúvidas para a pergunta do título desta matéria, não respostas.