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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

ROCK’N’ROLL, SUTIÃS, A MORAL E O NOVO FUNDAMENTALISMO (Reflexões em forma musical)

A ideia de escrever este artigo surgiu com o “Rock in Rio 2015”. Não pelo cover do insubstituível e saudoso Freddie Mercury, líder e corpo e alma do Queen, assim como Paul e John para os Beatles! O tal cover veio apenas para chamar a atenção para o grupo, já meio combalido, uma espécie de “sebastianismo pop”. Freddie foi único, ouça o LP com a soprano Montserrat Caballé, grande diva lírica! (Veja, ouça e deleite-se com o vídeo abaixo).


Após a ‘introdução’, o ‘1º tema': o retrocesso ideológico e moral, neste momento em que fisiologismo se alia à corrupção com acenos imaginários ao socialismo, indesejável para os donos do poder (lembrando a poeta Cecília Meireles, sobre a liberdade: “que ninguém sabe o que seja”). Matéria de uma rede de TV (19/09/15), na internet: “Solteiras (sic), amigas aproveitam (sic) calorão no Rock in Rio para ficarem de sutiã”. Não seriam “solteiras” e “aproveitam (...) para ficarem de sutiã”, preconceito das jornalistas - ou, não é impossível, de quem fez o tíluto? As moças, alegres e sadias, poderiam também ser casadas, divorciadas ou gays. Os tais sutiãs eram do tipo que as meninas de hoje chamam “da vovó”: enormes, uma opção para o velho bustiê, sem alças, colante e bem mais sensual, que teria passado batido, é “uniforme” de verão carioca. Foram então as alcinhas das enormes peças? Que efeito exerceriam essas alcinhas no imaginário masculino – e, cabe dizer, no freio moral das jornalistas?

Não passo de mero leitor contumaz, mas creio que posso remeter o assunto aos seguidores do pai da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939). Antes, porém, vou buscar outra associação: a capa do CD de uma cantora que eu nem conhecia, Karina Buhr - a internet faz e destrói ídolos rapidamente, como a TV faz, vide a peça “Roda Viva” (1968), do Chico Buarque. A capa do CD mostra a cantora com seus pequeníssimos seios, algo como mamas masculinas à mostra. Pois a maior rede social da Internet censurou a foto – assunto a pensar mais adiante, o novo fundamentalismo. Que dizer das capas de LPs de Gal e Betânia, décadas atrás, pondo à mostra seios que nem de longe foram imoralidades?

Sigmund Freud
Arrisco-me sob a inspiração do ilustre neurologista de Freiburg, Herr Freud, criador da arte de escarafunchar consciente e inconsciente, ego, id e alter ego. Na foto de capa do CD de Karina, seus seios não são erotismo, mas, sendo femininos, representam a virtude da maternidade. Pano pra manga para especialistas: a chave está no seio-símbolo maternal (caberia ao Édipo freudiano, em seu desejo oculto pela mãe, preservá-la com o objetivo de ocupar o papel do próprio pai). Reflexos do falso moralismo de hoje em uma sociedade em que, por um lado, as liberdades de opção sexual avançam, contrastando com um puritanismo sem precedentes.

Mark Zukerberg
E teríamos de remeter igualmente à análise, no caso da capa censurada, o criador do Facebook, Mark Zuckerberg, o jovem bilionário de origem judaica que trocou sua fé por um obscuro ateísmo fundamentalista. Algum software poderoso deve existir na rede para rastrear formas que lembrem seios, genitálias, glúteos, além das denúncias castradoras de internautas que realizam eles próprios a “purificação” da rede social. Não bastaria excluir a postagem ou o autor de seus perfis e deixa-la ao livre-arbítrio alheio? Há nessa “patrulha” um perfil castrador, com um pé no complexo edipiano, gesto tipicamente ditatorial ao tentar proibir que cada um opte pelo que quer ver.

‘Tema secundário’ e ‘desenvolvimento’: Em 1957, meu pai foi com minha mãe a Paris. Anos depois, ela contou-me que havia boates de strip-tease, todas com posters e fotos de vedetes expostas, mas as crianças que passavam de uniforme, com suas malinhas escolares, sequer olhavam: não mais lhes despertavam a menor curiosidade. 

Dia de sol nas "Dunas da Gal"
No Rio de Janeiro, nos anos 1970, havia o teatro desnudo de Zé Celso Martinez Corrêa e Antonio Bivar, e praias onde a juventude podia sublimar sua revolução política, de costumes e artística cujo símbolo maior, as “Dunas da Gal” eram elevações na areia de uma obra para jogar esgoto a 2 km da praia de Ipanema. Ali era o ponto de encontro da “intelligentsia”, dos rebeldes com causas. 

O deputado Gabeira
Nas “Dunas”, qualquer um fazia amigos, dividindo o espaço com Gal Costa, Caetano, Monique Evans, Claudia Ohana, Regina Casé, Evandro Mesquita e tantos outros. O hoje deputado Fernando Gabeira retornou do exílio direto para a areia posando com uma minúscula tanguinha de crochê, entre algumas moçoilas de topless (quem não se lembra da musa Janis Joplin saindo do mar, como uma Iemanjá moderna?).
Janis no Rio (O Pasquim, 1970)

Leila, anos 1960, querendo ser feliz
Foi dali, também, anos antes, que o mundo viu uma foto que repercutiu aos quatro ventos: o barrigão de grávida emoldurado por um discreto biquíni da linda Leila Diniz, presenteada com uma música do Milton Nascimento ("Leila", ou "Venha ser feliz"). Hoje, futuros papais divulgam suas mãos e beijos carinhosos no barrigão das future-mamans de seus anunciados rebentos – e até nossos modernos censores anônimos aplaudem essa beleza! Será que eles “permitem” essa exposição materna, que simboliza uma criança que irá nascer, porque não poderia ser filho deles, já que será fruto de outro pai?

Ouça, abaixo, a gravação de “Leila”, ou “Venha ser feliz”, com Milton, tendo à bateria o lendário Edison Machado, criador da batida da bossa-nova no contratempo e no aro da caixa. [Músico: atenção para o mais incrível - em minha opinião - solo de bateria gravado no Brasil, valendo, a partir de certo ponto, e sem perder passo e compasso, “quebrar tudo”, até quiálteras de cinco no bumbo (!!!)]. "Leila" começa aos 33,26" de gravação, pouco antes da terceira marca em amarelo, da direita para a esquerda. 



Coda’ (seção final da música): Nos anos 1990, a ‘lambada’, uma dança inspirada na salsa caribenha, temperada com maxixe e samba de gafieira, virou coqueluche no país. Uma revista de São Paulo publicou uma matéria com depoimentos como o de Inezita Barroso – que fez duras críticas, fiel à sua raiz, e eu disse que era outro modismo com prazo de validade carimbado. O depoimento de um religioso, meu primo Frei Betto, foi na mosca: “o pecado é muito mais do que uma dança de corpos colados”.
Antonio, filho de minha sobrinha Manuela Henriques, beatlemaníaco eclético,
ensaia uns passos de lambada com amiguinha no Centro de Arte Contemporânea de Inhotim.
(de "Nhô Tim"). 
Atente para a decoração pós-pop, vale lembrar Andy Warhol.. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

EU VOU TAXAR A RUA E SEUS PÉS (de graça, só o chão pra dormir e a concessão pra sorrir)

Liverpool
"Se você dirigir um carro / eu vou taxar a rua / se tentar se sentar / eu vou taxar seu lugar / se esfriar muito vou taxar seu calor / se você for andar / eu vou taxar seus pés". Taxman (literalmente, "homem da taxa", ou cobrador de impostos) é uma beleza de letra de George Harrison do LP Revolver (1966). Os Beatles, grupo formado por quatro jovens da cidade portuária inglesa de Liverpool, não eram politizados - apenas Lennon, mais tarde, por influência da esposa e guru Yoko Ono, abraçou as causas libertárias do gênero "paz e amor". (Ouça, abaixo, Taxman, dos Beatles)


Distribuição da receita no RU: 59% para a área social,
5% para a defesa e 2% para a cultura
O imposto de renda básico (fonte: www.gov.uk) na Inglaterra é de 20% para quem ganha até o equivalente a R$ 15.800,00 ao mês (e ainda há o chamado personal allowance de R$ 5.300,00, que é algo parecido com a nossa “parcela a deduzir”). Desse patamar até R$ 75.000 mensais, um belíssimo salário, aliás, são descontados 40%. A próxima faixa vai desses 75 mil em diante, com acréscimo de 5%. Ao se comparar as taxações sobre renda, é leviano dizer que no Reino Unido elas são de 50%. E isso tem sido dito e publicado por alguns próceres da nossa república, em defesa do aumento de impostos em nosso país, hoje malvisto pelo investimento externo e com muita pobreza. Não existe INSS inglês, ele já está embutido no Imposto de Renda. Mesmo assim, há uma imensa contrapartida: transporte público exemplar, um sistema de saúde pública (NHS) que é considerado o melhor do mundo, nível dos nossos melhores hospitais e clínicas particulares. Se você aqui paga um convênio médico, veja o seu custo-saúde, que para o cidadão britânico é zero. Esse custo que pagamos significa renda a menos para a classe média brasileira!

Nos EUA, a primeira faixa de imposto, de até R$ 13.300,00 mensais, é taxada em 10% até R$ 3.025, e daí em diante, o que restar, em 20%. Para quem ganha até R$ 137.733,00 mensais, salário para classe A nenhuma botar defeito, o imposto é de 35% (fonte: Federal Income Tax) - exatamente a maior alíquota que nossos tecnocratas tupiniquins querem agora arrancar a fórceps já a partir de renda muitíssimo menor.

Carga tributária brasileira
Hoje, no Brasil, se você recebe R$ 4.664,00, o corte já será de 27,5% (compare com RU e EUA!). E somem-se os 11% de INSS: são 38,5%. Nos EUA, o Social Security desconta 6,2% do cidadão e o mesmo tanto paga o empregador. Nossa carga tributária total esbarra nos 40% do PIB!



Getúlio entre amigos (1930)
Em Boston, meu contracheque destinava cada parte do imposto já dividindo-o entre união, estado e município, de forma que as taxas, centralizadas, não têm como escorrer, como aqui, por dutos e ralos misteriosos (hoje bem conhecidos) até seu destino. Verbas públicas tornam-se moeda de troca para favores via emendas parlamentares, ou benesses generosas do executivo para estados e cidades ‘amigos’ do governo, sob a ética de Getúlio: "aos amigos, tudo. Aos inimigos, a lei".

A derrama
No Brasil, desde muito antes da “derrama” dos inconfidentes, sempre houve cobranças extorsivas. Hoje, há impostos que embutem outros, indiretos, em uma equação em espiral: entre os impostos federais, o II (sobre importações), o IE (exportação), o IPI (produtos industrializados, que o governo quer aumentar!), o IOF (operações financeiras), o ITR (rural) e o IGF (grandes fortunas, ainda não regulamentado).  Fora o JCP (juros sobre capital próprio), Pis e Cofins, “contribuições” tributárias empresariais. E há as taxas que podem sofrer reajuste com uma “canetada”, sem passar por lei, como o CIDE (importação e venda de combustíveis). Já os impostos estaduais são: ICMS (mercadorias e serviços), o IPVA (veículos) e o ITCMD (causa mortis e doação), hoje em 4% em SP, e que o ministro da Fazenda quer equiparar ao de alguns países do 1° mundo: 40%! O ICMS é cobrado em uma média de 25 a 30% para a maioria dos estados e chega a 38% na Bahia! (Nos EUA, o state tax é cobrado no máximo em 7%). 
"Impostômetro" (ver cada segundo de 01/01 até hoje em http://www.impostometro.com.br/


Casa à venda em Marília, interior de SP: R$ 130 mil
Se vingar, para receber uma herança de um imóvel de 100 mil (vale a tabela do imposto, não o valor venal), o cidadão terá de desembolsar 40 mil, ou tentar vende-lo por um contrato particular, prometendo saldar o imposto após o recebimento do sinal, ou deixar leiloarem, um péssimo negócio. Por sua vez, os impostos municipais são o ISS (serviços), o IPTU (propriedade predial e territorial urbana) e o ITBI (transmissão de imóveis inter vivos).

Jatene: um cirurgião idealista
O IPMF foi um “imposto provisório” instituído em 1993 por Itamar Franco. Voltou como CPMF a pedido do cirurgião Adib Jatene, então ministro da saúde de FHC, para erguer a medicina pública claudicante no país. Triste sonhador, o médico viu seu imposto ser usado para cobrir gastos outros, e durou um ano, sendo enfim rejeitado pelo Senado em 1997 (em 1996, frustrado, Jatene já havia largado o cargo com protesto público). O ICMS ressuscitou como IOF em 1999. O atual governo quer emplacar novamente o imposto, para gerar caixa (porém, creia, sem revogar o IOF, seu substituto!). O coro dos contrários e a base política, em franca oposição, matou na praia a volúpia arrecadadora, que ainda resiste. (Detalhe: à parte o fato de um imposto ter substituído o outro, no afã do governo de somá-los, o primeiro incide sobre "operações financeiras", o segundo sobre "movimentações financeiras", o que deixa claro que há convergências claras, então haveria a chamada "bitributação", vedada pela Constituição. Com a palavra os tributaristas e constitucionalistas). 

Joaquim Levy (exame.com.br)
O atual ministro da Fazenda é um tecnocrata, homem de banco privado que pelo seu costume de ofício vê as verbas públicas como cifras de contas bancárias e balancetes, expurgando da equação as consequências sociais e econômicas da implantação de mais tributos. Impostos, ora, impostos... são números, apenas. Os anunciados cortes de gastos públicos são como um curativo em uma hemorragia. Se a presidente e seu ministro não leram Maquiavel, no mínimo deveriam conhecer a Bíblia, o Míshié Shelomon, ou  “Provérbios de Salomão”), de muito, muito antes de Cristo, em especial os versículos 2 e 4 do capítulo 29:




O subtítulo deste artigo devo ao desabafo de “Deus lhe pague” do Chico: “por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir / a certidão pra nascer e a concessão pra sorrir / por me deixar respirar, por me deixar existir / Deus lhe pague”.  O pãozinho e a certidão de nascimento estão bem caros para os pobres. Mas restam-lhes de graça o chão para dormir, o sorriso e o poder existir. (Ouça abaixo "Deus lhe pague").



sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O SERVIDOR E O SISTEMA, OS GRANDES CULPADOS!


Não falo de você, caro servidor público concursado, salário parco, abnegado! Mas quantas vezes nos deparamos com a informação “servidor não encontrado”? Ora, que tanto faz esse servidor que volta e meia não está? Abona o ponto? Licença prêmio? “Temos problema com o servidor”, “nosso servidor está fora do ar”. Que tanto ele faz fora do ar?

A história do boi voador, de Maurício de Nassau
durante a ocupação holandesa (leia no texto grifado abaixo)
Lembrei-me de uma música do Chico, “Boi voador”, de quando o governo, em crise de abastecimento, mandava confiscar boi gordo no pasto. A TV flagrou gado na fazenda de um político em Pedregulho. Chico: “O boi ainda dá bode / qual é a do boi que revoa? / boi realmente não pode / voar à toa”. (Ouça, abaixo, com o MPB4)




Há coisa de 350 anos, Maurício de Nassau (em neerlandês, Johan Maurits van Nassau-Siegen), em meados dos anos 1.600, havia projetado uma ponte sobre o rio Capiberibe, indo de Maurícia a Recife. Nassau mandou às favas a sede holandesa, que disse que tal tarefa seria impossível, mais fácil seria verem um ‘boi voador’. Pois mandou construir a ponte às suas expensas, de madeira baibiraba, impermeável, resistente à água e intempéries. Pagou por tudo (que exemplo!), e, fazendo troça da história do boi voador, mandou arrancar o couro de um boi, enxerta-lo com palha, pendurá-lo em uma roldana, fazendo uma espécie de “bondinho”, de onde o povo veria, enfim,  o boi voar. Voando, o boi atravessou o rio: foi um grande espetáculo popular (e não seria um bom exemplo para certos governantes atuais, que só sugam?).


Tantos problemas com servidores da empresa, de sites, dos bancos... Quanta angústia e ansiedade por causa do maldito servidor faltoso! E isso, quando não está doente, com um maldito vírus! E se não é o servidor, é seu chefe, o sistema: “estamos sem sistema”. Sofisticadamente, pode vir em inglês: runtime error: system not found. Todo mundo sofre desse TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) moderno, um vício similar ao das drogas, e sem ele não se vive!

Se você vai a um restaurante, enquanto aguarda o garçom retira o celular do bolso, e busca em um app a senha do wi-fi local. (Os neologismos das novas tecnologias já foram incorporados ao nosso idioma. Triste “última flor do Lácio”, como o chamava Olavo Bilac). Mas não se avexe: seus filhos estão fazendo o mesmo, e perca alguns segundos para olhar para o lado: esfomeados vizinhos de mesa também estão usando os seus. No consultório dentário ou do médico, na fila do banco... todos!

Descobri que era “drogadito” (brasileiro para drug addicted, viciado) tecnológico quando comprei aquele celular “tijolo”, que você só adquiria com uma procuração por instrumento público, pois o governo havia bloqueado novas vendas: não havia “sistema” suficiente. Carregava aquele trambolho de quase meio quilo na cintura, e, quando havia sinal, ficava feliz com aquela engenhoca ao receber um telefonema. É um vício insanável: nessa época, morava em São Paulo na Vila Mariana e ia dar aulas na Usp (levava, acredite, 20 minutos dirigindo!), e cheguei a voltar do meio do caminho por conta do danado. Retornei para buscar a engenhoca que havia esquecido! Droga perigosa, vicia no primeiro contato!

Ora, não morrerei disso, pensei, vou apenas ficar neurótico, com transtornos, e assumi o risco. Logo, chegavam os computadores pessoais, os PCs (Personal Computers), e eu comprei uma maravilha chamada TK3000, cuja memória era como uma pequena fração de qualquer chip de celular. Depois, fiz o upgrade, passei para um glorioso XP, com aqueles dois disk drives flexíveis – Obs.: leitor, se você não domina o inglês, ao menos de um pequeno vocabulário infame vai precisar para sobreviver. Daí, um 286, depois 386, 486, a perder de vista.


Logo, o mundo se curvaria aos nossos pés: a Usp lançava, no CCE (Centro de Computação Eletrônica), um curso fascinante para os docentes. Fui de uma das primeira turmas, e o que aprendíamos era uma coisa do demo: conversar via DOS (“Disk Operation System”), pois ainda não havia interfaces gráficas, como o Windows ou Mac. Imaginávamos estar na Nasa, comandando foguetes e invadindo espaços extraterrestres - todos apopléticos, mudos e extasiados.

(Edição Abril)
O vício me pegou de vez e fui levado a drogas mais fortes. O Windows, os novos sistemas de e-mail, o ambiente gráfico... tudo fascinante, um “admirável mundo novo”, lembrando Aldous Huxley, em seu romance homônimo de 1932. Resisti, mas a tentação foi me possuindo e eu já me entregava de corpo e alma. Tempos depois, vieram as primeiras redes sociais, a comunicação instantânea com todos neste mundo, quem sabe até com outros?


Bill Gates: U$ 24 bilhões para programas de saúde infantil

Dizem que Bill Gates, ao morrer (é uma piada: ainda está vivíssimo, é filantropo e adepto das causas humanitárias!), e, ao chegar a São Pedro, teve sua contabilidade terrena avaliada: “vejamos”, disse o dono das chaves do Céu, “você escravizou o mundo, ganhou oceanos de dinheiro impondo seus softwares, viciando pessoas”. “Mas”, continuou o porteiro do Céu, “foi um grande amante do ser humano, uma pessoa misericordiosa, não mediu fortunas para melhorar a vida na Terra. “Não sei o que fazer”, continuou, “então vou lhe dar o direito de escolha".

A visão do inferno de Gates
"Ali na frente há duas salas. Na primeira, você verá em um telão como é o Inferno, e, na outra, o Céu”. Sentado na antessala do Inferno, Gates viu uma praia deslumbrante, bangalôs e coqueiros, mulheres lindas, garçons servindo drinques exóticos, lindo por do sol, um paraíso hedonista, do supremo prazer: o “dolce far niente”, o nada fazer dos vagabundos, em bom português. Na outra sala, ele viu o Céu: no telão, casinhas pequenas, pessoas vestidas de branco orando, regando pés de florezinhas coloridas, passarinhos, paisagem bucólica. Gates não teve dúvida: “perdoe-me, mas vou preferir o Inferno!”.

“Pois não, se é essa a sua escolha”, disse São Pedro, puxando a alavanca de um alçapão que se abriu sob os pés. Caindo, vislumbrou seu final: fogaréu, capetas, tridentes, cenas dantescas. Ainda deu tempo de gritar: “Mas senhor, não era isso que estava no telão!”. E ouviu a voz tunitroante (que soa como trovão) lá de cima: “desculpe, mas não percebeu que aquilo era só um screen saver? (Proteção de tela, invenção a crédito do próprio Gates).

Pois é, leitor. Termino aqui com uma frase que ouvi há alguns anos: “a informática veio para resolver problemas que antes nunca existiram”.



sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O MUNDO GIRA, O BRASIL ACORDA

O título acima é inspirado em um “achado” de criação, um reclame antigo: a terra gira, a transportadora roda! Esse slogan de uma companhia de mudanças tornou-se ditado popular, e perenizou-se. Curiosos também os versos (1918) de Bastos Tigre, do tempo dos bondes: “Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que o senhor tem a seu lado. E, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite. Salvou-o o Rhum Creosotado!” (Aliás, onde anda a poesia nos anúncios de hoje?). Ao assunto, pois:

A humanidade anda rodando para trás, prova é a organização terrorista Estado Islâmico, que nada tem a ver com Islã ou Maomé.  E o fundamentalismo que arrasta o Brasil, com tantos morcegos pendurados nas tetas da república? Corruptos acham normal suas pegadas, digitais e batons em golpes vultosos; no mínimo, deveriam se penitenciar diante do país – e devolver a César o que é de César. Escudam-se no ditado “o que não me mata, me faz mais forte” (what doesn’t kill me makes me stronger).

No Japão, corrupção é crime bárbaro, chegam a cometer o haraquiri, suicídio com facão no ventre. Mas os “nossos” desafiam a justiça, arrotam bravatas, cospem arrogância e soberba, personagens de sua ópera bufa particular, uma ópera cômica italiana. Um dos marcos desse gênero, Così fan Tutte, “Assim Fazem Todas” (1790), de Mozart, bem poderia ser lido em masculino e feminino: “Assim Fazem Todos”.

Homens e mulheres encastelados no poder deixam mamar poderosos capitalistas a troco de gorjetas milionárias, como Robin Hoods às avessas: saqueiam a nação em benefício da “nobilíssima” causa própria de se tornarem cada vez mais poderosos e opulentos. Todos filhos bastardos da chamada “Lei de Gérson”, parida ao acaso em um anúncio de cigarros estrelado por um jogador de futebol, ‘diploma legal’ que não encontra amparo em qualquer código brasileiro – até mesmo porque se locupleta ao arrepio de alguns deles. Ingênuo, em uma época em que jogador de futebol ganhava pouco, o campeão mundial aceitou dizer na propaganda: “o brasileiro gosta de levar vantagem em tudo”, e amargou ver, no futuro, seu nome atrelado ao pior mau-caratismo.


Se a “Operação Mãos Limpas” (Mani Pulite) italiana prendeu centenas de pessoas, não conseguiu fazer cair de vez o pano da ópera cômica no país em que o gênero musical surgiu. Lá a corrupção ainda continua, ao estilo da máfia de origem medieval, da Camorra napolitana (séc. 19), da Cosa Nostra  ou da calabresa, exportadas até para os EUA, mas houve redução sensível na bacanal dos poderosos. Eu tinha certa ilusão quanto à “Mãos Limpas” até que, com um amigo italiano, fui a um almoço na casa de uma insuspeita autoridade daquele país -  pessoa que, por óbvio, não identificarei.

Quem nos recebeu afirmou que no Brasil as coisas vão bem melhor do que em seu país. A segunda decepção foi culinária: no Brasil não se come pizza, mas uma papa de molho e queijo com coberturas enormes sobre massa comprimida e inflada. Mas pizza, esqueci-me de dizer-lhe então, aquela turma do andar de cima divide de todos os tipos e sabores.

Na Mauritânia norte-africana, o Império Romano chamava “moros” os de pele amorenada, e mais morenos ficaram após a conquista da região pelos muçulmanos (séc. 7). Já a frase de Cícero (103-46 a.C.) “O tempora, O mores”, cai como luva nos dias de hoje: “Oh, tempos, oh, costumes”. E moral (do latim moraālis), significa boa conduta, honestidade. O primeiro casal italiano de sobrenome Moro a chegar no Brasil (1877) foi Giovanni Maria e Gertrudes.


Descendente deles, Sergio Moro, 43 anos, formou-se em direito em 1995, e em 1996 já passava em concurso para juiz federal. No ano seguinte, fez um curso na Harvard, e depois uma especialização em lavagem de dinheiro no U. S. Department of State. É mestre e doutor. No caso Banestado, decretou temporariamente a prisão de 97 pessoas por evasão de divisas. Foi juiz auxiliar no julgamento do “Mensalão”. Na Operação Farol da Colina, prendeu temporariamente 103 pessoas. Auxiliado pelo Ministério Público e a Polícia Federal, é o maestro da Operação Lava Jato, o mais profundo de todos os golpes impostos à corrupção brasileira de altos coturnos.


Rodrigo Janot (Jornal GGN)
A estratégia de Moro foi precisa: além do cuidado de separar os que têm foro privilegiado para serem julgados pelo STF, colhendo antes provas robustas à custa de informações dos empresários ligados às falcatruas, obteve agora na Procuradoria Geral da República uma denúncia inédita, acatada pela Suprema Corte, contra um senador e ex-presidente da república, e o presidente da Câmara. E o responsável pelas denúncias acaba (28 de agosto), Janot teve seu nome carimbado em referendo pelo Senado para permanecer no cargo mais dois anos. Pensava-se que os os votos dos mais recentes membros indicados à Corte poderiam pender para um lado – dos 11, apenas 3 não foram indicados pelos dois últimos presidentes -, e “comeriam na mão de seus padrinhos”. Na quinta (26 de agosto), o STF nega, por unanimidade, a anulação das delações do doleiro Youssef, dando aval para prosseguimento do feito.

Não é o caso de se lembrar do 'cria cuervos y te sacarán los ojos'. O acesso ao mais alto status no judiciário brasileiro implica em campanhas e visitas, não muito diferente da disputa por uma vaga na Academia de Letras. Mas os fatos têm desmentido, em sua maioria, um “toma lá, dá cá” geral, como se a indicação fosse um favor a ser retribuído.

STF (dizerodireito.com.br)
Certa mudança na celeridade do STF eu pude constatar pessoalmente: um agravo de 1999, em ação de 1995, foi decidido a meu favor somente após sete longos anos de espera! Um segundo, já neste ano de 2015, levou apenas dois meses, tirado o recesso judiciário, e destaco uma frase-símbolo da decisão: “Este agravo somente serve à sobrecarga da máquina judiciária, ocupando espaço que deveria ser utilizado na apreciação de processos da competência do Tribunal”. Com 100 mil processos na fila, é natural que o STF se concentre nos temas que repercutirão no futuro deste país e que a justiça cada vez mais passe a dificultar por novos mecanismos o chamado jus esperneandi (ironia de quem é do ramo). A esperança é grande. Não haverá milagre, mas é possível, neste momento de amargura e crise, sentir algum otimismo com esses novos ventos. O Brasil acorda.

No morro do Corcovado, no Rio, o famoso "gigante adormecido" (mondovazio.com.br)

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

AS PALAVRAS DE CLARICE LISPECTOR

“As Palavras” é o título de um livro sobre escritos de Clarice Lispector - pensamentos, bilhetes e mensagens compilados por Roberto Corrêa dos Santos. Há um subtítulo, a seguir, “nada têm a ver com sensações”, e ainda o que eu chamaria sub-subtítulo, “palavras são pedras duras e as sensações delicadíssimas, fugazes, extremas”, bela reflexão da escritora brasileira nascida na Ucrânia. No livro, frases e parágrafos foram agrupados por temas, perpassados por um fio condutor. É impossível não achar em Clarice alguns mestres da filosofia, cujos textos ela devorava com facilidade. São associações inevitáveis e visíveis, se não nas palavras (como bem as definiu a autora), certamente nas sensações!

Salta aos olhos, logo na primeira página, uma gema preciosa que poderia ser lapidada por uma eternidade – esta última, palavra que também era um dos temas caros para Clarice. “Existe por acaso um número que não é nada? Que é menos que zero? Que começa no que nunca começou porque sempre era? E era antes e de sempre?”.

A Torá
Convido o leitor a refletir comigo: impossível não lembrar João 1:1,2, concorda? “1. No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. 2. Ele estava no princípio com Deus”. E a Torá judaica de Clarice traz a mesmíssima ideia: Bereshit (Gênesis), 1.1: “No princípio, Deus criou os céus e a Terra”. Então, Deus já existia desde sempre, e era, como na leitura cristã, o Verbo. A esse 'ter sempre existido' Clarice chama Zero, “que nunca começou porque sempre era" (escrevi zero com Z maiúsculo, lapso que o leitor há de compreender). A equação de Clarice era Zero = Deus = Eternidade (“na eternidade não existe o tempo”, disse em outra observação). Esse Zero não era nem será, porque para Clarice “era antes e de sempre”. A origem judaica era arraigada em sua mente conflituosa!

Jean-Paul Sartre
“O Ser e o Nada” (1943), de Jean-Paul Sartre, discurso sobre o que transcende, vai além dos limites (influenciado pelo pensador alemão Heidegger, de “Ser e Tempo"), em convergências e divergências: Sartre pensava no existencialismo, o “ser para não deixar de ser”. (Dualidades à sua maneira Gilberto Gil cantou, com simplicidade e singeleza baianas: “É sempre bom lembrar / que um copo vazio / está cheio de ar”). Vamos seguir, leitor?

Meu caro, tudo isso pode parecer complicado, mas não é tanto. As palavras talvez soem um pouco difíceis porque, lembra Clarice, são “pedras duras”, mas é possível senti-las – mesmo que as sensações sejam fugazes: fugitivas, passageiras, enquanto as palavras permanecem (em latim, verba volant scripta manent, palavras ‘faladas’ voam, as escritas permanecem”).

É preciso conhecer o drama da perseguição aos judeus, a fuga com a família, a vida nômade, a imersão profunda na filosofia, que faz Clarice, como indivíduo, dissolver-se no universal. Aquele “Zero” não é um simples nada, a negação, apesar de Clarice também ter se embebido nesse tipo de leitura, da “existência que nada vale”. O judaísmo umbilical, penso, talvez lhe tenha servido de âncora (em meio à leitura de temas como o pessimismo de Schopenhauer e o niilismo de Nietzsche (nihil: nada, em latim).

Veja você que me detive sobre apenas um breve parágrafo, mas zarpamos para longe por tantas rotas na busca de compreendê-lo, quando teria bastado senti-lo. Em ainda outra frase, Clarice se mostra longe de ser uma derrotada: “do zero ao infinito vou caminhando sem parar”. Ela não se anula, transita livre e solta entre o ser e o nada, que não lhe impõem limites.

O mal do mundo moderno é que o advento da informática e o "moderno" ensino escolar criam seres binários, sabem zero ou um, esse ou aquele. Quando perguntamos a alguém as horas, respondem-nos, olhando o relógio: “são dezessete e cinquenta e sete, senhor”. Que precisão espetacular! Há não muito tempo, diriam “são quase seis da tarde, senhor”, sem as amarras dessa suspeita precisão (que provavelmente está desajustada!). Sou esquerda ou direita? Mas quem é uma coisa e quem é outra? Ora, se sou uma quem não é como eu é outra. Usam-se palavras, sem saber o que significam, mas fica “bonito na fita”.

Outra variante desse conceito simplificador são as provas de múltipla escolha, que mostram mais uma vez o vício binário: se uma resposta está certa, as demais estão erradas. Basta saber ou adivinhar a correta. Ou eliminar as erradas.

(cadeorevisor.wordpress.com)
Agora preciso encerrar, e o faço abrindo espaço para agradecer o livro, gentil presente do amigo e maestro Dario Sotelo. E se o leitor chegou até aqui, muito obrigado pela companhia. Porém, se lhe trouxe mais dúvidas do que certezas, sinceramente acho ótimo, mas não fui eu, agradeça à Clarice. Se lhe deu trabalho ler ou ter que reler este texto, também o tive ao escreve-lo, e revisa-lo várias outras.

(nemsantanemprofana.wordpress,com)
O importante é que uma leitura não seja somente um ocasional passatempo ou meros títulos de jornais, assuntos para bate-papos no fim de semana. Veja que para este artigo usei apenas um breve parágrafo e duas curtas frases de Clarice, mas ainda assim conseguiria prosseguir sem parar!


Drummond e a "Pedra no meio do caminho"
Ler é um aprendizado constante, um convite à reflexão! E se ao escrever este artigo tive de pensar em significados, raízes, origens, e pesquisar, foi para que minhas palavras não parecessem pedras tão mortas quanto as que Clarice descreveu. Buscar o conhecimento, por si, não traz às pessoas a felicidade. Mas, com certeza, lhes dá os meios de se prepararem
com Aquele que nos conforta (Filipenses, 4:13), quando topamos com as tais pedras no meio do caminho.