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sábado, 18 de março de 2017

O (DES) ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA

Não faz muito tempo, a Folha de São Paulo publicou, na primeira página: “Tempestade para São Paulo”. Seria aquilo um desejo dos editores, uma tormenta cair sobre a capital paulista? Eu adoro ler linhas, entrelinhas, frente e verso. O problema foi a falta do acento em pára, como era antes do Acordo Ortográfico, aprovado em 1990. Forçosamente, eu, se repórter, jornalista ou revisor, teria trocado para “Tempestade paralisa São Paulo”, e ficaríamos todos em casa, ponto final.  Coincidentemente, ontem, no dia 13 de março, a Folha se repetiu em título de capa: “Atoleiro para caminhões em rodovia...” É um problema que se torna diário, mal-entendidos são frequentes - antes, freqüentes, com trema, e tudo bem que o sinal dava mais trabalho ao digitar, mas essa simplificação veio mais para pasteurizar o idioma do que para outra coisa.

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa foi votado pelo Senado em 1990, e até hoje, 27 anos depois, é uma caravela sem rumo, como a de Cabral, a vaguear na calmaria. Países de língua portuguesa assinaram o acordo: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, e, em 2004, o Timor Leste independente. Tudo bem, mas o único que usa mesmo (e obriga a cumprir) o Acordo é o Brasil, a nossa pátria mãe gentil, único seguidor quase totalmente fiel do tratado. A intenção dos signatários era unificar a ortografia dos países de língua portuguesa, mas e as diferenças?
Não sou escritor, como disse em artigo da semana passada, e menos ainda filólogo ou linguista. Mas arrisco um sobrevoo neste vespeiro, tabu para alguns, apenas para lamentar também que expressões como pé-de-moleque, pão-de-mel, pé-de-chinelo e outras perderam o hífen. Ficou parecendo que nos referimos ao pé de algum moleque, a um pão feito de mel ou a um pé de um par de chinelos. Bem lembrou meu colega Antonio Ribeiro que os alemães vão juntando palavras para completar o sentido. Algumas delas longas, como Gesamtkunstwerk (Obra de Arte Total) de Richard Wagner, referindo-se à ópera como gênero musical completo.
Vapor do Danúbio
Algumas chegam a um certo exagero, como a longa e complicada Donaudampfschifffarhtselektrizitätenhauptbetriebswerkbauunterbeamtengesellschaft: Sociedade dos Empregados Subalternos de Construção de Usina da Companhia Principal de Eletricidade dos Navios a Vapor do Rio Danúbio. Não precisamos seguir a tradição germânica, mas por outro lado nosso simplismo e reducionismo ortográfico...
Meu pai, em um antigo texto para um jornal, lembrou que a Constituição Federal poderia ter acrescentado “segundo as normas do falar e escrever brasileiros”. Problemas tinha aos montes com revisores, que, segundo ele, eram mais gramáticos e filólogos do que os melhores gramáticos e filólogos brasileiros. Consultam o “Aurélio” e, se não está lá, podam o texto. Dava um exemplo clássico: “errei todo o discurso dos meus anos”, que, não encontrando ressonância nos revisores, trocaram para “decurso”, deturpando o sentido. Trocaram “estufar o peito” porque acharam “estofar” no dicionário. Logo, parou de escrever tãopouco, como era aqui e em Portugal, porque a Academia Brasileira de Letras cismou de criar “tampouco”.
Antonio Houaiss
E foi adiante: correspondeu-se com o Fernando Henrique Cardoso, então senador por São Paulo, assim como o Darcy Ribeiro, senador pelo Rio, com quem tinha certo trânsito. Disse que o Houaiss defendeu o acordo porque, como diplomata e cumpridor da lei, o filólogo conhecia o direito internacional, e faz menção ao Art. 49 da Constituição: “I - é de competência exclusiva do Congresso Nacional resolver definitivamente sobre tratados, acordos ou atos internacionais...”
Meu pai e mais outros “quixotes” (o Houaiss usaria dom-quixotes, no caso) continuaram a brigar pela causa brasileira, ele próprio recebendo respostas de que as cartas dele seriam lidas nas discussões da regulamentação do Acordo Ortográfico. A partir daí, começou-se a descobrir quem eram os maiores interessados, o que havia por trás do tratado. Em primeiro lugar, aos portugueses, que desejavam vender livros em sua própria “irretocável e platônica” língua, disse ele.
Casteleiro (à esquerda)
Em segundo, de acordo com as “más línguas” de Portugal, teria havido um conluio entre o linguista lusitano João Malaca Casteleiro, filólogo e dicionarista da Universidade de Lisboa, no primeiro Encontro para a Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa, em 1986, no Rio, e Houaiss, também dicionarista, que participou como delegado do governo brasileiro no evento na ABL. Trocando em miúdos, Portugal queria impor sua língua, e um dos próceres do governo português chegou a questionar coisas como, por exemplo, no passado o Brasil usar “facto” e “projecto”, e mudou por sua conta para “fato” e “projeto”. Por que então Portugal teria de seguir-nos na mudança, se a língua-mãe é deles?

Ionesco
Ao pé do ouvido, meu pai contou-me que a republicação e distribuição dos dicionários brasileiros para todos os governos, bibliotecas, consulados e representações do mundo, fora escolas e universidades do Brasil, foi em larguíssima escala. Sou franco, não posso ser exato, mas o assombroso número de exemplares de apenas um certo dicionário que me vem à mente teria sido da ordem de 3 milhões, segundo ele. Ao preço de hoje, custaria a bagatela de R$ 400,00 o exemplar, e mesmo que fosse ao preço de R$ 200,00, dada a enorme quantidade, a coisa teria ido aos R$ 600 milhões – um naco disso para as famílias dos autores. Em outro texto, meu pai lembrou Ionesco, do Teatro do Absurdo: “cuidado, professor, a filologia leva ao crime”, referindo-se especificamente ao que se iria cometer com a nossa língua. E nunca aos melhores filólogos, que tanto respeitava e admirava. 

sábado, 28 de janeiro de 2017

NOSSA LÍNGUA NÃO É IMEXÍVEL !

Gustave Flaubert
Em ‘Notas à Margem de uma Tradução’, prefácio de meu pai para “A Lenda de São João, o Hospitaleiro”, de Gustave Flaubert (1821-1880), trabalho a quatro mãos dele e minha mãe para a Ed. Record (1987), há uma anotação que cita frase do grande autor francês, segundo Maxime Du Camp: “...o escritor é livre, conforme as exigências de seu estilo, de aceitar ou rejeitar as prescrições gramaticais que regem a língua, e as únicas leis às quais é preciso se submeter são as leis da harmonia”. Para meu pai, Autran Dourado, o grande escritor francês sempre foi um de seus nortes literários, além de Machado de Assis e os norte-americanos Faulkner e Henry James.

Antonio Rogério Magri
Pois passaram-se dali apenas três anos, e tomava posse na Presidência da República o Sr. Collor de Mello (1990-1992), na primeira eleição direta 29 anos depois de Jânio, que assumiu e renunciou em 1961. Era seu ministro do Trabalho e da Previdência Social o Sr. Antonio Rogério Magri, egresso do sindicalismo (foi eletricitário). Certo dia, no final de 1990, Magri discursava, quando provocou celeuma: “o salário do trabalhador é imexível”. Bateram no ministro de todos os lados, mas meu pai, fora da política e imerso na literatura, escreveu para a célebre coluna do Carlos Castello Branco no Jornal do Brasil, apoiando a palavra de Magri.

Otto Lara Resende
O ministro escreveu-lhe agradecendo a defesa, mencionando “a extraordinária sensibilidade social e humana de sua obra intelectual...”, etc. O bilhete foi enviado ao Castello, do JB, que o entregou pessoalmente ao Otto Lara Resende, para que chegasse ao meu pai. Assim Otto o fez, logo no dia 2 de janeiro de 1991: “li seu bilhete na Coluna do Castello (...). A palavra era bem formada e portanto vernácula. O fato de não constar no dicionário, se de fato não figura, só depõe contra o dicionário”.

Academia Brasileira de Letras, no Rio
De fato, onde quero chegar, e pensando em Flaubert – em que pese o Sr. Magri ser pessoa de formação bem superficial -, é a liberdade de quem faz a língua: o povo e os escritores, que a desenvolvem e consagram. O português não é língua morta, senão melhor seria voltarmos ao latim. A palavra foi incorporada pelo respeitadíssimo Houaiss, inclusive com seu antônimo “mexível”, e consta no Vocabulário Ortográfico oficial da Academia Brasileira de Letras.

Isso remete a um fato inusitado (in, prefixo latino que indica ‘negação’ - para o que não é usual), palavra que alguém um dia também inventou. Aconteceu comigo em ambiente acadêmico, local mais do que propício para picuinha de um "patrulheiro". Eu havia publicado um livro chamado “Pequena Estória da Música”, uma diversão sobre fatos da vida musical na história, coisa das curiosidades de cunho anedótico que se passaram na vida dos músicos desde os primórdios. Tratava-se de um texto com coisas pitorescas sobre músicos, e o título uma óbvia citação brincalhona do 

“Pequena História da Música”, do Mário de Andrade. 

Em uma reunião do Conselho do Departamento (eu, ausente), um professor, hoje com quase 90 anos e já de há muito aposentado pela compulsória, entregou espontaneamente um parecer pessoal sobre minha publicação, muito embora não se tratasse de trabalho acadêmico, mas de prosa livre. Mesmo não sendo o lugar adequado, leu o parecer, e disse que não existia a palavra ‘estória’. 

Mencionou o Aurélio da época, embora o Houaiss, de muito melhor gabarito, classificasse o termo como “narrativa de cunho popular e tradicional (1912)”, e mesmo que o mestre Guimarães Rosa tenha escrito seu “Primeiras Estórias”! Na pressa, o colega deslizou e cometeu seu ato falho: disse que eu “estava ‘desidentificando’ a história”, inovando ele mesmo, porque usou palavra que não existia, à época, em dicionários (hoje o Houaiss já a incorporou).

Foi a deixa para eu desferir um touché, que em esgrima é um golpe de ataque frontal bem sucedido. Escrevi que quem “desidentificava” era ele, usando o mesmo tolo argumento da não-dicionarização da palavra. E completei dizendo-me surpreso por ver um acadêmico com a titulação dele citar o Aurélio como fonte, não era para uma universidade. Picuinha de ancião, ele discutia o indiscutível na falta de assunto e do que fazer. O “parecerista” aposentou-se pouco depois, talvez aquele tenha sido seu triste “canto do cisne” acadêmico.

Autran Dourado, meu pai (Foto: Fábio Motta)
Meu pai escreveu diversas cartas para editoras, reclamando de mudanças em seu texto. Em uma delas, “Aviso”, disse: “há neles certas peculiaridades de estilo (...) palavras como perguntar, indagar, que não usam ponto de interrogação, por desnecessário, e sim vírgula, o mesmo com exclamar, gritar, seguidas de vírgula, e não ponto de exclamação”. E exemplificou: “ela o vencia, perguntou ele” (com vírgula e não interrogação). E abriu a exceção: “ela vai à cidade? disse Fulano. Aí, o ‘disse’ me obriga ao uso da interrogação”. Questão de estilo, insistia sempre, com certeza lembrando-se de Flaubert.


Galileu Galilei e o heliocentrismo
Aconteceu um episódio com o grande maestro Eleazar de Carvalho, quando o mestre cunhou uma de suas célebres frases lapidares espontâneas: “o que não muda, não se move. E o que não se move está morto” (depois de indagado por um músico sobre o porquê de ele ter alterado sua maneira de reger certa peça). Mais do que nunca, encerrando o assunto deste texto, cabe também a histórica frase atribuída a Galileu Galilei (1564-1642), supostamente dita em voz baixa após interrogado pela Santa Inquisição, obrigado que foi a rejeitar sua própria defesa do heliocentrismo - a terra gira em torno do sol, e não o contrário, o geocentrismo, como mandava o dogma da doutrina da Inquisição. Teria resmungado baixinho, após sua confissão: eppur si muove (e, no entanto, ela se move). Concluindo, juntando tudo, nossa língua no entanto se move, muda e não está morta. Por isso mesmo não é “imexível”.