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sexta-feira, 6 de maio de 2022

NEOLOGISMOS CLÁSSICOS E OS 'DA GALERA'

 

Flaubert

Idioma é ‘a língua própria de um povo, de uma nação, com o léxico e as formas gramaticais e fonológicas que lhe são peculiares’ (Houaiss). É com ele, e as variações regionais, dialetos e gírias, que nos comunicamos, nos reinventando. Quem faz a língua é o povo e quem a consagra é o escritor; instâncias acadêmicas, são apêndice posterior. Disse Gustave Flaubert (1821-1880): “...o escritor é livre, conforme as exigências de seu estilo, de aceitar ou rejeitar as prescrições gramaticais que regem a língua, e as únicas leis às quais é preciso se submeter são as leis da harmonia” (trad. de Lucia e Autran Dourado, meus pais).

Otto Lara Resende

Em 1991 o então ministro Antonio Rogério Magri afirmou “o salário do trabalhador é imexível”, o que bastou para um linchamento linguístico que motivou uma declaração de meu pai: sob todos os aspectos, apesar de até então a palavra não existir, ela estava absolutamente correta na etimologia. O renomado jornalista Carlos Castello Branco, do Jornal do Brasil, repercutiu a declaração e o neologismo teve um apoio rasgado do Otto Lara Resende: “A palavra era bem formada e portanto vernácula. O fato de não constar no dicionário, se de fato não figura, só depõe contra o dicionário”. Pouco depois, por uso e costume, “imexível” passou a constar nos dicionários e no VOLP – Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia de Letras.


Há um consenso de que ‘imexível’ foi gestada em fala espontânea e informal do ex-ministro, mas segundo elementos que formam nossa língua. O que não é o caso de certas extravagâncias do idioma, os neologismos importados da língua inglesa em contexto geralmente fora do original. Bom exemplo é o verbo 'trolar’ - “ele está me ‘trolando’”, que surgiu na Internet, e Deus sabe como teria vindo parar aqui. Em inglês, existe o verbo to troll que significa empurrar um carrinho ou ainda puxar um anzol com isca em um barco em marcha lenta, para desespero dos peixes. Mas existe ainda um ‘trol’ que vem de to patrol, patrulhar,  e indica que a corruptela teria surgido de I’m trolling, como diria o funcionário de uma loja que fica de olho em pilantras que vagueiam entre as gôndolas para fazer uns “ganhos” - palavra essa dicionarizada há muitos anos (bem mais antiga é ‘pilhar’, fazer pequenos roubos). Voltando a ‘trolar’, como não se vê uma ligação clara, sua origem permanecerá um mistério – apenas temos certeza de que é um anglicismo.


O caminho parece semelhante ao de bullying, ‘provocação’, de onde cyber bullying, que entre nós seria uma ‘ciberperseguição’, um neologismo a que sou obrigado por simples tradução literal. Bull é ‘touro’, e em suas variações não há nada que faça conexão com bullying, termo à parte. Mas no popular to bully existe, como 'tiranizar'. Ao importarem essa palavra, preteriram o nosso velho ‘bolinar’, talvez porque to bully tem sentido único, e bolinar, entre outras acepções (op. cit.), há ‘apalpar ou encostar-se a (outra pessoa) com fins libidinosos, ger. de modo furtivo’. Nesse sentido, ‘bolinar’ seria o mesmo que ‘sarrar’, malandragem dos ônibus, trens urbanos e metrôs: ‘estabelecer contatos voluptuosos com alguém, sobretudo em aglomeração de pessoas, em cinemas, etc.’ (op. cit.). De sarrar vem ‘tirar um sarro’, significando ‘curtir com a cara’ de alguém, ‘zombar’, do espanhol zumbar (séc. 15). O velho ‘bolinar’ soaria feio: “mãe, meu colega fica me bolinando”


Nas mídias sociais é frequente o TBT, Throwback Thursday, sendo throw ‘jogar’, e back, ‘trás’, quinta-feira revivida. Com o TBT pessoas compartilham fotos de momento ou ocasião voltando a quintas passadas, por nostalgia, um flashback, termo emprestado do cinema. Abrasileirando e sem saber o significado de TBT, alguns também usam para os outros dias da semana, simples lembrança. Até inventam um significado, como ‘Tá Bom, Tá?’. Melhor seria algo como ‘relembrando uma quinta-feira’, ‘RQF’, mas o dialeto das redes consagrou o ‘TBT’. A hashtag – de hash, ‘confusão’ + tag, ‘etiqueta’ -, símbolo ‘#’, que aparece no canto inferior direito dos teclados de telefones e que as atendentes de telefonia comercial chamam de ‘jogo da velha', tem nome em português: cerquilha! ‘#’ são um must (necessidade), em apps como o Instagram, e fazem uma espécie de chamada, a exemplo de #forafulano e #sextou. BTW (By The Way: ‘aliás’) é outro anglicismo abreviado, já que escrever o mínimo é a tendência, seguindo de perto ler cada vez menos. Para a galera, são ‘chiques’ (aliás, um galicismo que vem de chic, e no interior é seguido por um caipirismo, “no úrtimo”.)

Olavo Bilac

Gilberto Gil, há 25 anos em Pela Internet, já fazia uso musical e crítico desses maneirismos cantando “Criar meu website / fazer minha homepage / com quantos gigabytes / se faz uma jangada / e um barco que veleje” – detalhe: palavras já devidamente dicionarizadas na “última flor do Lácio” – do poema Língua Portuguesa, de Olavo Bilac. Gil prossegue com os já abrasileirados disquete, site, hacker, videopôquer. Se existe hotlink, não agregado aos dicionários tupiniquins, há também os já naturalizados auriverdes upload, download e uma infinidade de termos e expressões em inglês. Gil lançou a música pela Internet, comme il faut (como deveria ser).


Não é vício exclusivo nosso. Na França é comum ouvir-se stopper, de stop, parar, dialeto que eles chamam franglais (français + anglais). Ao que tudo indica, a China ascenderá ao pódio de país mais poderoso do mundo, mas o inglês será cada vez mais a língua-mater da comunicação.

sábado, 28 de janeiro de 2017

NOSSA LÍNGUA NÃO É IMEXÍVEL !

Gustave Flaubert
Em ‘Notas à Margem de uma Tradução’, prefácio de meu pai para “A Lenda de São João, o Hospitaleiro”, de Gustave Flaubert (1821-1880), trabalho a quatro mãos dele e minha mãe para a Ed. Record (1987), há uma anotação que cita frase do grande autor francês, segundo Maxime Du Camp: “...o escritor é livre, conforme as exigências de seu estilo, de aceitar ou rejeitar as prescrições gramaticais que regem a língua, e as únicas leis às quais é preciso se submeter são as leis da harmonia”. Para meu pai, Autran Dourado, o grande escritor francês sempre foi um de seus nortes literários, além de Machado de Assis e os norte-americanos Faulkner e Henry James.

Antonio Rogério Magri
Pois passaram-se dali apenas três anos, e tomava posse na Presidência da República o Sr. Collor de Mello (1990-1992), na primeira eleição direta 29 anos depois de Jânio, que assumiu e renunciou em 1961. Era seu ministro do Trabalho e da Previdência Social o Sr. Antonio Rogério Magri, egresso do sindicalismo (foi eletricitário). Certo dia, no final de 1990, Magri discursava, quando provocou celeuma: “o salário do trabalhador é imexível”. Bateram no ministro de todos os lados, mas meu pai, fora da política e imerso na literatura, escreveu para a célebre coluna do Carlos Castello Branco no Jornal do Brasil, apoiando a palavra de Magri.

Otto Lara Resende
O ministro escreveu-lhe agradecendo a defesa, mencionando “a extraordinária sensibilidade social e humana de sua obra intelectual...”, etc. O bilhete foi enviado ao Castello, do JB, que o entregou pessoalmente ao Otto Lara Resende, para que chegasse ao meu pai. Assim Otto o fez, logo no dia 2 de janeiro de 1991: “li seu bilhete na Coluna do Castello (...). A palavra era bem formada e portanto vernácula. O fato de não constar no dicionário, se de fato não figura, só depõe contra o dicionário”.

Academia Brasileira de Letras, no Rio
De fato, onde quero chegar, e pensando em Flaubert – em que pese o Sr. Magri ser pessoa de formação bem superficial -, é a liberdade de quem faz a língua: o povo e os escritores, que a desenvolvem e consagram. O português não é língua morta, senão melhor seria voltarmos ao latim. A palavra foi incorporada pelo respeitadíssimo Houaiss, inclusive com seu antônimo “mexível”, e consta no Vocabulário Ortográfico oficial da Academia Brasileira de Letras.

Isso remete a um fato inusitado (in, prefixo latino que indica ‘negação’ - para o que não é usual), palavra que alguém um dia também inventou. Aconteceu comigo em ambiente acadêmico, local mais do que propício para picuinha de um "patrulheiro". Eu havia publicado um livro chamado “Pequena Estória da Música”, uma diversão sobre fatos da vida musical na história, coisa das curiosidades de cunho anedótico que se passaram na vida dos músicos desde os primórdios. Tratava-se de um texto com coisas pitorescas sobre músicos, e o título uma óbvia citação brincalhona do 

“Pequena História da Música”, do Mário de Andrade. 

Em uma reunião do Conselho do Departamento (eu, ausente), um professor, hoje com quase 90 anos e já de há muito aposentado pela compulsória, entregou espontaneamente um parecer pessoal sobre minha publicação, muito embora não se tratasse de trabalho acadêmico, mas de prosa livre. Mesmo não sendo o lugar adequado, leu o parecer, e disse que não existia a palavra ‘estória’. 

Mencionou o Aurélio da época, embora o Houaiss, de muito melhor gabarito, classificasse o termo como “narrativa de cunho popular e tradicional (1912)”, e mesmo que o mestre Guimarães Rosa tenha escrito seu “Primeiras Estórias”! Na pressa, o colega deslizou e cometeu seu ato falho: disse que eu “estava ‘desidentificando’ a história”, inovando ele mesmo, porque usou palavra que não existia, à época, em dicionários (hoje o Houaiss já a incorporou).

Foi a deixa para eu desferir um touché, que em esgrima é um golpe de ataque frontal bem sucedido. Escrevi que quem “desidentificava” era ele, usando o mesmo tolo argumento da não-dicionarização da palavra. E completei dizendo-me surpreso por ver um acadêmico com a titulação dele citar o Aurélio como fonte, não era para uma universidade. Picuinha de ancião, ele discutia o indiscutível na falta de assunto e do que fazer. O “parecerista” aposentou-se pouco depois, talvez aquele tenha sido seu triste “canto do cisne” acadêmico.

Autran Dourado, meu pai (Foto: Fábio Motta)
Meu pai escreveu diversas cartas para editoras, reclamando de mudanças em seu texto. Em uma delas, “Aviso”, disse: “há neles certas peculiaridades de estilo (...) palavras como perguntar, indagar, que não usam ponto de interrogação, por desnecessário, e sim vírgula, o mesmo com exclamar, gritar, seguidas de vírgula, e não ponto de exclamação”. E exemplificou: “ela o vencia, perguntou ele” (com vírgula e não interrogação). E abriu a exceção: “ela vai à cidade? disse Fulano. Aí, o ‘disse’ me obriga ao uso da interrogação”. Questão de estilo, insistia sempre, com certeza lembrando-se de Flaubert.


Galileu Galilei e o heliocentrismo
Aconteceu um episódio com o grande maestro Eleazar de Carvalho, quando o mestre cunhou uma de suas célebres frases lapidares espontâneas: “o que não muda, não se move. E o que não se move está morto” (depois de indagado por um músico sobre o porquê de ele ter alterado sua maneira de reger certa peça). Mais do que nunca, encerrando o assunto deste texto, cabe também a histórica frase atribuída a Galileu Galilei (1564-1642), supostamente dita em voz baixa após interrogado pela Santa Inquisição, obrigado que foi a rejeitar sua própria defesa do heliocentrismo - a terra gira em torno do sol, e não o contrário, o geocentrismo, como mandava o dogma da doutrina da Inquisição. Teria resmungado baixinho, após sua confissão: eppur si muove (e, no entanto, ela se move). Concluindo, juntando tudo, nossa língua no entanto se move, muda e não está morta. Por isso mesmo não é “imexível”.