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sábado, 13 de maio de 2023

DE REPENTE,

 


...tudo na vida pareceu um quadro impressionista: paleta de muitas cores, paisagens, a beleza natural dos traços cheios de detalhes, um conjunto encimado por um céu azul como nada. Tudo isso junto, parecia que a natureza emoldurava aquele paraíso, as águas límpidas refletindo em nossos olhos, nosso pensar. (Mas por que essa poesia? Por que tão de repente? Quem viu esse quadro, esse óleo? Não seria simples ilusão, uma conspiração de sonhos, pensamentos etéreos e de boas ideias?)


N
a sexta-feira, cinco de maio, o etíope Tedros Adhanom, presidente da Organização Mundial de Saúde (ONU), com sede na Suíça, veio a público para declarar – ou decretar? - o fim do ciclo de emergência da pandemia. Desastre. Muitos tradutores apressados, ao redor do mundo, reproduziram a fala como, ao som de trompetes, a saudação ao fim da pandemia de Covid-19, como foi inicialmente compreendido pelos ouvintes mais afoitos, desavisados e repetidores de esquina. Soava-lhes como um salvo-conduto para a volta àquela vida boa de praia, aglomerações, abraços efusivos e sacudidos, beijos de simpatia ou amor, um novo paraíso construído com tijolos de fantasia e argamassa de pura ilusão, lembrando os bons tempos. As normas da própria OMS definem quando se declara o fim de uma pandemia, coisa não tão simples quanto pareceu ao grande público. A AIDS, por exemplo, ainda é uma pandemia viva, e, mesmo que em pequena escala e sob controle, ainda cabe como uma luva dentro da definição: “doença infectocontagiosa (...) caracterizada por alta morbidade e mortalidade (...) em curto espaço de tempo, por várias regiões do mundo” (Houaiss. Etim: do grego pan, todo, e demia, doença que atinge uma população). Para se ter uma ideia, o último diagnóstico da varíola (doença original, nada a ver com a recente ‘dos macacos’) aconteceu, solitário, apenas em 1977, o que levou a OMS a declarar a doença, em seu estado original, como extinta, após longos anos. Ademais, tal ‘ciclo de emergência da pandemia’ não poderia, jamais, ser lido como fim da pandemia em si, nem ao pé da letra.


T
ambém o diretor-executivo da OMS, Michael Ryan, tentou emendar o soneto, dizendo que a emergência pandêmica acabou, “mas a ameaça não. A batalha não acabou, e provavelmente não haverá um ponto em que a OMS anunciará o fim da pandemia”. O próprio Tedros disse que “foram quase sete milhões de mortes reportadas à OMS, mas sabemos que o número é muito maior, ao menos 20 milhões”. E, arrependendo-se (UOL, 5/05/23): "A pior coisa que qualquer país pode fazer agora é usar esta notícia (...) para baixar a guarda, desmantelar os sistemas que construiu ou enviar a mensagem de que a covid-19 não é mais motivo de preocupação".

Varella: El País 

N
a mesma noite da declaração de Tedros, a GN, em longa série plena de depoimentos, deixou claro que, em hora nenhuma, a pandemia teria acabado, batendo o pé com firmeza, pois ela continua viva como nunca, apenas com menor número de internações, intercorrências e mortes. No programa falou-se até em negacionismo, e o Dr. Dráuzio Varella, juntando tudo, chegou a mencionar a palavra estupidez: sobrancelhas franzidas, expressão dura, estava mais irritado com tudo aquilo do que raramente se vira antes. Varella sempre lutou pela vacina e por salvar vidas, como um todo; renomado cientista que é, nunca deixaria passar uma expressão que sequer insinuasse este mal entendido. É da vida dele, o talento especial que exibe ao falar, ao se fazer compreender. Mas para quem ouve notícias picadinhas, por alto, deve-se evitar esse tipo de sutileza, que pode sobrepassá-lo sem aviso como um trator.


E
stamos em pleno deslanche inicial da subvariante arcturus, da omicron, e vis-à-vis às portas da nova fase da campanha: a da vacina bivalente, que já lota as geladeiras das unidades de saúde do país. É difícil este começo, especialmente dada a “indolência natural do povo brasileiro”, como dizia Mário de Andrade. Faltou nesses anos cooperação de setores dos mais altos escalões; pior ainda, o recente escândalo das carteiras de vacinação, surrealistamente para não serem vacinados devido a interesses escusos ou supostas posições ideológicas exatamente aqueles que tinham poder sobre o quê, quando e onde inocular a população. Um péssimo exemplo. O modelo bivalente ora nos postos de saúde tem dois alvos, como o próprio nome diz: tanto as cepas mais antigas quanto as mais recentes. A última delas, Arcturus, surgida na Índia, país mais populoso do mundo (1,5 bi de habitantes), já toma corpo na Europa e ‘estreou’ no Brasil recentemente. Se por um lado ela mata em escala bem mais reduzida, alastra-se com maior facilidade e joga aos leitos e emergências número significativamente menor de pacientes. Mas o bicho ainda vive, Vivinho da Silva, diriam antigamente. 


F
oi tudo doce ilusão, ou tudo não passou de um mal-entendido? Talvez entre a pronúncia do Dr. Tedros Adhanom, da OMS, a redação do discurso, certo enfado e a quase sempre plana e rasa intepretação ao falar? Perdeu-se o sentido da coisa e criou-se um novo vírus, este virtual e multicelular, pioneiro em fazer confusões, campeão na arte de desinformar, material fértil para fake news de todos os gêneros. As equipes desses cirurgiões das palavras têm atuado rápido nesse tortuoso e bem sustentado caminho do equívoco; reinventam o que, pelo simples prazer ou dever de mal informar, já vinham fazendo: “Fez-se do amigo próximo o distante / fez-se da vida uma aventura errante / De repente, não mais que de repente” (Vinicius de Moraes).

 

sábado, 6 de novembro de 2021

PANDEMIA: A PARANOIA NECESSÁRIA E A RAZOABILIDADE


Sou leitor compulsivo de jornais
. Pela manhã, dois nacionais, além de passar os olhos no The Guardian, NY Times, Le Monde – fora, claro, quando há edição de O Progresso, de Tatuí. Assim, procuro me informar acerca do que acontece aqui, no país e na cena internacional, e como o Brasil se insere nela. Ano e meio para cá, um olho na Pandemia, o que não me faz um especialista, a área não é da minha formação de doutor: sou mero pesquisador de outro campo - mas com o mesmo rigor - em busca de notícias e pesquisas abalizadas de publicações como a Science, a Lancet e o New England Journal of Medicine. A doença avançou, e por conta do descaso negativista, muito além do que deveria - mas a ciência corre em velocidade inédita na pesquisa e produção de vacinas.

Fapesp

Como muitos, protejo-me, isolo-me
, prefiro o delivery e uso máscara sempre que vou à rua; uso o álcool em gel, evito aglomerações e mantenho o distanciamento recomendado conforme o figurino, ou seja, a OMS e as determinações do estado de São Paulo, fui vacinado duas vezes e aguardo o reforço. E tenho ajuda familiar: minha filha Isabela, 26, é pesquisadora em química/biomédica pela Fapesp-USP, e na dúvida a ela recorro.

FioCruz

A Drª Margareth Dalcomo
, profª adjunta da PUC-RJ e pesquisadora da Fiocruz com várias especializações, resumiu o momento atual em um recente programa jornalístico na TV: “Cada vez está mais demostrado que transmissão da Sars-Cov-2, o vírus da Covid-19, (...) é de natureza respiratória, (...) é ambiental”. “De modo que limpar sacolinhas, embalagens, superfícies, (...) perdeu a sua importância. “...e muito menos sola de sapato”, acrescentou. “O importante é saber que a contaminação está ligada ao meio ambiente”. No início da pandemia, famílias deixavam os sapatos do lado de fora da casa, outros passavam álcool em gel nos saquinhos de compras de supermercado. Com as novas conclusões – que não são apenas da Drª Dalcomo, mas também dos centros mundiais de pesquisa -, mudou a concentração do estudo da Covid: o foco é nos tratos respiratórios, especialmente o inferior: traqueia, brônquios, bronquíolos, alvéolos e pulmões (com a devida vênia dos Srs. médicos, apenas resumi o que pude depreender dos textos das pesquisas).

Aerossois

Sendo o trato respiratório o meio de contágio
, segundo os cientistas especializados há duas espécies de ‘ataques’ pelas vias aéreas: as gotículas (‘gotas minúsculas’) e os aerossóis, "suspensão de partículas (...) freq. líquidas, num meio gasoso como o ar” (Houaiss). As gotículas têm ‘voo de galinha’, e caem a pouca distância de uma pessoa por serem mais pesadas do que o ar; com o distanciamento e uso comum de máscaras, tornam-se quase inócuas – exceto alguma secreção via tosse, espirro ou saliva da fala lançados diretamente no rosto a descoberto de alguém. Já os aerossóis, invisíveis a olho nu, são o grande perigo: em locais fechados como banheiros públicos e ambientes mal ventilados, ficam em suspensão no ar durante um bom tempo, sem que o cidadão saiba que os está inalando. Assim, alguns tabus caíram por terra, e, mantendo-se a assepsia, o distanciamento e com boas máscaras vedadas cobrindo do nariz ao queixo, o risco se configura muito menor.


Se me refiro à paranoia necessária
é porque, no início da pandemia, aqueles exageros dignos de filmes de ficção científica realmente eram uma forma de precaução compatível com a informação que o mundo tinha sobre a doença. Certos cuidados – boas máscaras, distanciamento, limpeza das mãos – continuam altamente recomendáveis, e devem ser mantidos. Mas, inequivocamente, os exageros iniciais foram necessários.


Um colega professor da USP,
Jacyr Pasternak (alguma ligação com a conhecida Dr.ª Natália Pasternak, com certeza), pesquisador que em meados dos anos 80 passou a se especializar em outro vírus letal, o HIV, esteve em alguns departamentos para fazer palestras sobre os cuidados para se evitar o contágio. Era tudo assustador, o pânico era tanto que no clube que eu frequentava havia um cartaz explicando que o vírus não era transmitido por copos, xícaras, talheres e objetos. Voltando ao Pasternak e à paranoia necessária, em um café depois da palestra ele disse que nem todo tipo de relação sexual transmitiria o vírus. Surpreso, perguntei-lhe o porquê de não ter explicado isso também, ao que ele perguntou: e você acha que daria certo? Melhor manter o medo, porque em uma relação pode sempre haver excessos e, com eles, riscos, disse.


Segundo a FioCruz
(Estadão, 21 de outubro), a transmissão da Covid-19 segue em visível queda no Brasil, fato que é constatável pelos números diários do Consórcio de Imprensa, formado ante a ausência de dados confiáveis do governo. 25 estados e 23 capitais já estariam fora da chamada ‘zona de alerta’, mas cientistas explicam que “a epidemia não está definitivamente controlada”, e que “a impressão de que já vencemos a pandemia é enganosa, sendo imperioso, nesse momento, continuar vigilante” (sic). São Paulo, mesmo após o esperado controle da pandemia, estuda continuar a exigir máscaras para ingresso em lugares como hospitais.

De posse dessas informações mais recentes, é necessário prosseguir com as cautelas que a ciência exige, mas, agora, dentro de critérios seguros de razoabilidade. Sem a paranoia do início da pandemia e menos ainda a liberalidade descontrolada – vale a razoabilidade. Diria meu pai: nem tanto ao mar, nem tanto à terra.


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Este mês de outubro fechamos com recorde mensal de acessos (mais de 8.410) e número total (mais de 326.000). Obrigado!