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sábado, 6 de novembro de 2021

PANDEMIA: A PARANOIA NECESSÁRIA E A RAZOABILIDADE


Sou leitor compulsivo de jornais
. Pela manhã, dois nacionais, além de passar os olhos no The Guardian, NY Times, Le Monde – fora, claro, quando há edição de O Progresso, de Tatuí. Assim, procuro me informar acerca do que acontece aqui, no país e na cena internacional, e como o Brasil se insere nela. Ano e meio para cá, um olho na Pandemia, o que não me faz um especialista, a área não é da minha formação de doutor: sou mero pesquisador de outro campo - mas com o mesmo rigor - em busca de notícias e pesquisas abalizadas de publicações como a Science, a Lancet e o New England Journal of Medicine. A doença avançou, e por conta do descaso negativista, muito além do que deveria - mas a ciência corre em velocidade inédita na pesquisa e produção de vacinas.

Fapesp

Como muitos, protejo-me, isolo-me
, prefiro o delivery e uso máscara sempre que vou à rua; uso o álcool em gel, evito aglomerações e mantenho o distanciamento recomendado conforme o figurino, ou seja, a OMS e as determinações do estado de São Paulo, fui vacinado duas vezes e aguardo o reforço. E tenho ajuda familiar: minha filha Isabela, 26, é pesquisadora em química/biomédica pela Fapesp-USP, e na dúvida a ela recorro.

FioCruz

A Drª Margareth Dalcomo
, profª adjunta da PUC-RJ e pesquisadora da Fiocruz com várias especializações, resumiu o momento atual em um recente programa jornalístico na TV: “Cada vez está mais demostrado que transmissão da Sars-Cov-2, o vírus da Covid-19, (...) é de natureza respiratória, (...) é ambiental”. “De modo que limpar sacolinhas, embalagens, superfícies, (...) perdeu a sua importância. “...e muito menos sola de sapato”, acrescentou. “O importante é saber que a contaminação está ligada ao meio ambiente”. No início da pandemia, famílias deixavam os sapatos do lado de fora da casa, outros passavam álcool em gel nos saquinhos de compras de supermercado. Com as novas conclusões – que não são apenas da Drª Dalcomo, mas também dos centros mundiais de pesquisa -, mudou a concentração do estudo da Covid: o foco é nos tratos respiratórios, especialmente o inferior: traqueia, brônquios, bronquíolos, alvéolos e pulmões (com a devida vênia dos Srs. médicos, apenas resumi o que pude depreender dos textos das pesquisas).

Aerossois

Sendo o trato respiratório o meio de contágio
, segundo os cientistas especializados há duas espécies de ‘ataques’ pelas vias aéreas: as gotículas (‘gotas minúsculas’) e os aerossóis, "suspensão de partículas (...) freq. líquidas, num meio gasoso como o ar” (Houaiss). As gotículas têm ‘voo de galinha’, e caem a pouca distância de uma pessoa por serem mais pesadas do que o ar; com o distanciamento e uso comum de máscaras, tornam-se quase inócuas – exceto alguma secreção via tosse, espirro ou saliva da fala lançados diretamente no rosto a descoberto de alguém. Já os aerossóis, invisíveis a olho nu, são o grande perigo: em locais fechados como banheiros públicos e ambientes mal ventilados, ficam em suspensão no ar durante um bom tempo, sem que o cidadão saiba que os está inalando. Assim, alguns tabus caíram por terra, e, mantendo-se a assepsia, o distanciamento e com boas máscaras vedadas cobrindo do nariz ao queixo, o risco se configura muito menor.


Se me refiro à paranoia necessária
é porque, no início da pandemia, aqueles exageros dignos de filmes de ficção científica realmente eram uma forma de precaução compatível com a informação que o mundo tinha sobre a doença. Certos cuidados – boas máscaras, distanciamento, limpeza das mãos – continuam altamente recomendáveis, e devem ser mantidos. Mas, inequivocamente, os exageros iniciais foram necessários.


Um colega professor da USP,
Jacyr Pasternak (alguma ligação com a conhecida Dr.ª Natália Pasternak, com certeza), pesquisador que em meados dos anos 80 passou a se especializar em outro vírus letal, o HIV, esteve em alguns departamentos para fazer palestras sobre os cuidados para se evitar o contágio. Era tudo assustador, o pânico era tanto que no clube que eu frequentava havia um cartaz explicando que o vírus não era transmitido por copos, xícaras, talheres e objetos. Voltando ao Pasternak e à paranoia necessária, em um café depois da palestra ele disse que nem todo tipo de relação sexual transmitiria o vírus. Surpreso, perguntei-lhe o porquê de não ter explicado isso também, ao que ele perguntou: e você acha que daria certo? Melhor manter o medo, porque em uma relação pode sempre haver excessos e, com eles, riscos, disse.


Segundo a FioCruz
(Estadão, 21 de outubro), a transmissão da Covid-19 segue em visível queda no Brasil, fato que é constatável pelos números diários do Consórcio de Imprensa, formado ante a ausência de dados confiáveis do governo. 25 estados e 23 capitais já estariam fora da chamada ‘zona de alerta’, mas cientistas explicam que “a epidemia não está definitivamente controlada”, e que “a impressão de que já vencemos a pandemia é enganosa, sendo imperioso, nesse momento, continuar vigilante” (sic). São Paulo, mesmo após o esperado controle da pandemia, estuda continuar a exigir máscaras para ingresso em lugares como hospitais.

De posse dessas informações mais recentes, é necessário prosseguir com as cautelas que a ciência exige, mas, agora, dentro de critérios seguros de razoabilidade. Sem a paranoia do início da pandemia e menos ainda a liberalidade descontrolada – vale a razoabilidade. Diria meu pai: nem tanto ao mar, nem tanto à terra.


                                                       ***
Este mês de outubro fechamos com recorde mensal de acessos (mais de 8.410) e número total (mais de 326.000). Obrigado!



sábado, 13 de fevereiro de 2021

QUE TEM MEDO DO BICHO VACINA-PAPÃO?

 

Oswaldo Cruz e a Revolta das Vacinas 

Tenho acompanhado a trajetória das vacinas, como todo cidadão esclarecido. Coronavac, Pfizer, Moderna, Oxford, Sputnik V e outras. Todas elas têm suas peculiaridades, algumas vantagens e eventuais pontos negativos, mas sempre com um salto positivo em direção à erradicação da Covid-19. Trata-se, além de uma ‘guerra técnica’ de ampolas, de uma disputa econômica, nicho de uma mina de ouro. É o caso da vacina da Oxford-AstraZeneca, produzida na Inglaterra em uma cooperação anglo-sueca, que sofre um claro boicote e campanhas em países da União Europeia – obviamente, pinimba que é reflexo do Brexit.


Se há esta rixa político-econômica anglo-europeia, há outra de perfil pretensamente ideológico, preconceituosa até, de autoridades brasileiras contra a Coronavac chinesa, com ofensas de ministros e do próprio presidente via declarações de cor anedótica de não muito bom gosto: são xenofóbicas e antidiplomáticas. Por outro lado, a vacina é produzida no Brasil pelo Instituto Butantan da USP, o que faz dela um cavalo de batalha para Brasília, que estrategicamente é mais simpática à da PfizerBioNTech, produzida pela Fiocruz de Manguinhos, no Rio, munição para um embate de conotação político-eleitoral entre Brasília e o governo de São Paulo.

FioCruz

Uma questão intrigante: a rejeição da ideia da imunização por 22% do povo, talvez bastante baixa tendo-se em conta autoridades em campanha velada contra vacinas, mesmo se ridicularizadas pela imprensa estrangeira (o France 24, em 18/12/20, estampou: “Bolsonaro, do Brasil, alerta que vírus pode transformar pessoas em jacarés”, entre outras coisas). Os 22% dos brasileiros que não aceitam tomar a vacina estão em uma pesquisa Datafolha divulgada pela Isto É Dinheiro, que também ressalta que este percentual subiu absurdamente, desde os 9% registrados pelo mesmo instituto em agosto do ano passado. A mudança reflete a  sinofobia cega estimulada ‘de cima’ contra a Coronavac - apesar de todos aparelhos, componentes eletrônicos, roupas e insumos químicos chineses para remédios genéricos consumidos aos milhões diariamente no Brasil. Daqui passo de novo à Europa, desta vez à França, para buscar entender a rejeição em cada país.


Segundo o Euronews (9/12/2020), é consenso que 70% de vacinados são o número mínimo para que a imunização atinja efeito global contra a pandemia, e que os europeus estão entre os povos mais céticos quanto à imunização. Uma pesquisa reporta que os poloneses são dos mais radicais no mundo entre os que negam a vacina; também entre os povos mais céticos estão os franceses, com apenas 59% acenando que aceitariam a vacina apenas em caso de comprovada segurança e eficácia do produto, seja lá o que isso for, além do que tem sido divulgado. Espantosamente, a favor da vacina, ainda segundo o Euronews, os brasileiros contabilizam 85,36%, em primeiro lugar, seguidos pelos sul-coreanos, com 79,79%, México, com 76,25%, e EUA, 75,42, uma escala descendente de confiança na imunização em que a ‘lanterna’ fica com a Rússia, com 54,85%.


Em sexto lugar na lista dos descrentes das vacinas, a Espanha, com 54,3%, um dos países mais afetados pelo vírus, vive uma peculiaridade estratégica: o governo está preparando uma lista fechada com o registro de pessoas que se recusam a serem vacinadas. Os dados serão divididos com outros países da União Europeia, disse o ministro da Saúde Salvador Illa (foto), informou a BBC News (29/12/20). O ministro enfatizou que a vacinação não será compulsória, mas fica claro que o registro comum na UE é uma forma coercitiva de fazer o cidadão procurar a vacina – tanto é que, desde o anúncio de que haverá esse controle e a comunicação aos órgãos de saúde dos países europeus, os 54,3% de novembro despencaram subitamente para espantosos 28%. 


Há uma questão cultural envolvida, certa tradição antivacina em diversos segmentos de vários países. Uma amiga de origem inglesa, ao invés de levar os filhos ao posto de saúde para se vacinarem contra o sarampo, seguiu certa orientação paralela não-ortodoxa para procurar saber quais amiguinhos deles estavam em casa com a doença, e daí provocar o contato entre as crianças – mesmo que, como se sabe, nenhum contágio – fora o risco! - é tão eficiente quanto a imunização. Uma amiga francesa seguia a mesma ideia. Como todo bom gaulês, admirava coisas esotéricas e magias, a ponto de deixar o Brasil de volta para Paris já ungida mãe de santo, lá começando a jogar búzios, fazer adivinhações e até prometer a cura de doenças ou um amor de volta. Talvez o povo com maior número de leitores do “mago” Paulo Coelho, criador de histórias mágicas, fantásticas e esotéricas, seja o francês. A própria cultura da França é milenarmente rica em duendes, faunos, feiticeiros e perseguições reais a supostos bruxos e bruxas, como aconteceu com Jeanne D’Arc (1431).


No Brasil, fui imunizado contra diversas moléstias - a carteirinha de vacinação era exigida quando da matrícula nas escolas. Assim foi com meus filhos, e essa “compulsoriedade indireta” passou a fazer parte de nossa cultura, sem nunca mais ser questionada. Daí esses 22% de antivacinas representarem bem acima do que deveria se o estímulo à não-vacinação e contra a quarentena, patrocinado de maneira não-oficial pelo Executivo como catalisador das mentes enfraquecidas, via declarações e redes sociais. Com a vacina precoce, rígidos protocolos sanitários e ação enérgica pelos governos, já estaríamos com a pandemia sob controle.

 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

A CAVALGADA DAS VACINAS

 


Vale
citar um trecho da famosa A Cavalgada das Valquírias, da ópera Die Walküre, de Wagner, mais conhecida do grande público pelo aterrorizante ataque aos vietcongs por uma revoada de helicópteros, no filme Apocalypse Now, de Francis Coppola (1979). No Brasil, ensaiamos a batalha, enquanto quase 200 centros do mundo pesquisam vacinas, com cerca de oito já em conclusão. As mais adiantadas trabalham sobre dois princípios, o RNA (material genético) modificado ou o próprio vírus atenuado (explicação simplificada da pesquisadora Isabela Autran, da Fapesp/USP). Em São Paulo, a chinesa CoronaVac já descarregou um bom número de vacinas prontas e 600 litros para serem envasados. A americana Pfizer, associada à BioTechnet/FioCruz, espera até 95% de eficácia nos testes realizados, e já fez acordos com a União Europeia, os EUA e países latinos como Chile, Peru e México. Mas nossa burocracia anda em marcha lenta, apesar da urgência. 


Há outros empecilhos à negociação com a Pfizer, principalmente a necessidade de se armazenar o produto a uma temperatura de absurdos -70ºC, o que provavelmente descarta a totalidade das geladeiras dos postos de saúde, quase todos os SUS e afins. O país tem 5.570 municípios, muitos deles bastante pequenos, e várias metrópoles, como São Paulo e Rio, sem falar no campo e nas aldeias indígenas, que ficariam de lado. A Bahia já se adiantou e comprou certo número de freezers especiais, mas parece que será suficiente para pouco além da capital, Salvador. Se para os menores municípios do país três ou cinco deles poderiam servir, quantos, somente na área urbana da capital paulista, seriam necessários?


O mundo corre 'no vácuo’ do Reino Unido, que já enviou por ferrovias vacinas para centros estratégicos para começar a imunização em massa no dia 8 de dezembro, após aprovação que o assessor para saúde norte-americano Anthony Fauci (foto) – cuja permanência no cargo já foi anunciada por Biden, declarou apressada e perigosa. Os valores em real mencionados no parágrafo anterior mostram que esta vacina seria para uma abastada elite urbana e ‘ungidos’: a US$ 40 (R$ 210) pelas duas doses, mais transporte e freezers para armazenamento de milhões delas, chega-se a um custo estratosférico.


O tipo de freezer que a vacina da Pfizer requer existe em centros de pesquisa, como o Butantan, a Fiocruz e outros, e já são utilizados para experimentos, guarda de órgãos destinados a transplantes, fora as instituições privadas de reprodução assistida, ou seja, congelamento de esperma, óvulos ou embriões (foto), ‘hospedagem’ ridiculamente cara, acessível apenas a uma casta muito rica. Se vários centros não poderiam esvaziar suas geladeiras, outros não abririam mão das fortunas que auferem privadamente, portanto deve haver apenas mais alguns centros, como o HC, o Emílio Ribas e outros públicos, além de Hospitais como o A. Einstein e alguns laboratórios, que também não podem simplesmente esvaziar seus conteúdos.


Cada freezer desses custa US$ 20 mil (mais de R$ 85 mil), fora o transporte, o que lançaria as cifras a níveis exorbitantes. Existe a possibilidade de se adquirir maletas especiais para até 15 dias de transporte, o que somado ao preço total seria impagável. Enquanto isso, a celebrada AstraZeneca/Oxford teve de suspender seus testes e recomeçar devido a uma falha de protocolo, o que atrasa ainda mais nossa batalha particular.


Correndo por fora, a chinesa da Sinovac, CoronaVac/Butantan, que tem custo dez vezes menor e funciona em dose que esperamos única, com eficácia a ser numericamente comprovada, e pode ser armazenada entre 2 e 8ºC em simples geladeiras de postos de saúde ou do SUS. O governo do estado de São Paulo comprou e já recebeu um lote pronto e insumos para envase pelo Instituto Butantan, ficando grandes volumes para mais adiante. O Butantan sofreu uma reforma (foto acima) e se prepara com a ajuda da Fapesp e do Todos pela Saúde (Itaú-Unibanco).


Contudo, aparentemente, há um impasse. O presidente da República já reiterou que não comprará a vacina chinesa, pura e simplesmente, não se sabe se por questão ideológica ou outro motivo desconhecido. Técnico-científico, sabemos que não é, fora bravatas como a do ministro da Economia, sobre “evidências empíricas” (sic), coisa desprovida de sentido cientifico (Estadão, 3/12). E a Anvisa, a ser dirigida por Jorge Luiz Kormann (foto), um tenente-coronel olavista nomeado pelo presidente cujo nome deverá ser ratificado pelo Congresso no dia 19 de dezembro, já vem obstruindo e procrastinando o ingresso da vacina chinesa há tempos.


Porém, um fato recente parece esquecido: Em 6 de fevereiro deste ano o presidente sancionou lei nº 13.979, decretada pelo Congresso, ante a iminência da catástrofe anunciada. Diz o preâmbulo: “Dispõe sobre as medidas para enfrentamento da emergência de saúde pública (...) decorrente do coronavírus responsável pelo surto de 2019” (sic). E, no caput do Art. 3º: “poderão ser adotadas, entre outras, as seguintes medidas”. Entre elas, diz o inciso VIII: “autorização excepcional (...) para a aprovação de produtos sujeitos à vigilância sanitária sem registro na Anvisa, desde que: a) registrados por autoridade sanitária estrangeira”.

Em tempo: cavalgada ou cavalhada vem de cavalgata, um desfile que representa o duelo de lanças e espadas entre azuis e vermelhos, cristãos e mouros, do sul do Brasil a Minas e Bahia, tradicional folguedo introduzido no país, como tantos outros, por influência da ocupação mourisca da Península Ibérica.




sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

A GUERRA DAS VACINAS

 


Era o ano de 1904. Presidente da República, Rodrigues Alves ainda enfrentava os ranços da ditadura de Floriano Peixoto, que já vinha de Deodoro, tempos eivados pelo forte estigma positivista de Comte e Durkheim. O grande médico sanitarista Oswaldo Cruz liderava uma campanha de vacinação em massa contra o vírus da varíola, doença que matava em 30% dos casos e deixava os sobreviventes com sequelas como cegueira e bolhas, feridas e cicatrizes pelo corpo. Houve campanha mundial de vacinação em massa, mas a OMS somente veio a declarar a doença extinta em 1980.


Por trás do movimento que ocasionou uma rebelião popular, chamada Revolta da Vacina, havia uma trama dos velhos positivistas para deflagrar um golpe de Estado, estimulando o movimento na capital da República, Rio de Janeiro. O povo, insuflado, não se conteve e foi às ruas: uma lei imporia aos cidadãos não-vacinados uma série de restrições, tais como viagens, empregos, matrículas em escolas e até casamentos. O país já estava assolado pela febre amarela e a peste bubônica, e o medo da vacina antivariólica balançava sobre a cabeça do povo como a espada de Dâmocles. O golpe de Estado aconteceu, levou 30 vidas, centenas à prisão e deportou outros tantos. Mas teve vida curta: oito dias.


Um século e quinze anos depois, sobre um outro vírus, o SARS-CoV-2, ou Covid-19, no dia 25 de novembro de 2020 o conceituado jornal norte-americano The New York Times publicou matéria intitulada “Depois de admitir erro, AstraZeneca enfrenta difíceis questões sobre sua vacina”, e disse que “alguns dos participantes do experimento somente receberam uma dose parcial da vacina”. E mais: “especialistas disseram que a divulgação irregular pela farmacêutica comprometeu a confiança”. Importante lembrar que o NY Times é um jornal americano e que a vacina da AstraZeneca uma parceria privada com a Universidade de Oxford, menina dos olhos dos ingleses na pesquisa contra o vírus.

Sir John Bell

No dia seguinte, 26 de novembro, foi a vez do jornal britânico The Guardian noticiar: “Vacina Oxford/AstraZeneca será submetida a novo teste global”, e, completando, “críticos questionam a informação de que ela poderia proteger até 90% das pessoas contra o coronavírus”. Sir John Bell, assessor do governo para assuntos de saúde e professor emérito de medicina, segundo o jornal, desmentiu as informações de que o teste anterior não havia sido corretamente aplicado ou reportado, e disse, literalmente, que “nós não estaríamos ‘cozinhando’ isso enquanto seguíamos em frente”, e que esperava que informações completas e abalizadas por analistas seriam publicadas no jornal de medicina Lancet, no fim de semana”.

Instituto de Ciências Biológicas/USP

Logo no dia seguinte, 27 de novembro, o The Times noticiou: “Antivacinas exploram confusão sobre a vacina de Oxford”: “militantes antivacinação apegam-se à crítica feita à AstraZeneca para respaldar teorias não fundamentadas sobre segurança, e argumentaram que falhas nos experimentos poderiam causar prejuízo à ciência”. De um lado, um noticiário mais azedo do americano NYT, e do outro uma velada defesa da vacina de Oxford pelo britânico The Times. Enquanto isso, entrava um tertius na briga, o grupo antivacina. No Brasil, a microbiologista Natália Pasternak, do ICB/USP e presidente do IQC, apresentou, no Estadão de 27 de novembro,  uma opinião mais técnica, não-política, dizendo que os voluntários a que se refere a suposta falha do consórcio deveriam ter sido simplesmente excluídos da experiência (o que nos induz a crer que a falha ainda poderia ser corrigida).

Sputnik 5

Enquanto a Rússia mantém sob um véu sua vacina, a Sputnik-5 (nome do primeiro satélite a levar animais ao espaço), a China entra em estágio de finalização para a fase 3 da CoronaVac. Enquanto o mundo avança e o que se vê é uma “guerra mundial das vacinas” e uma corrida pela cura, por aqui há uma queda de braço entre os governos federal, via Anvisa, e do estado de São Paulo, que tem o modelo chinês como seu futuro grande trunfo político. Trata-se de uma guerra particular, talvez uma batalha intestina dentro de um conflito de ampla escala, uma disputa estratégica em que os dois governantes travam um embate cujo maior prejudicado será o povo, caso haja obstruções, impedimento ou procrastinação sem motivos científicos de rigor que embasem a Agência de Vigilância.

Sede da Pfizer nos EUA

Enquanto isso, seguem em paz a Johnson & Johnson e a Pfizer americanas, esta última com uma das maiores farmacêuticas do mundo, com sede em NY, receita anual de US$ 51,75 bilhões e ativos de US$ 167,489 bilhões em 2019 (perto de um trilhão de Reais). Em 1987, Gilberto Gil profetizava em uma música, coincidentemente batizada Lunik-9: “Guerra diferente / das tradicionais / guerra de astronautas / nos espaços siderais”. Não, ainda não chegamos a esta modalidade, mas sim a outra, uma espécie de guerra fria do capital, do poder, do lucro e das ambições de governantes, da disputa pela prevalência de um país sobre o outro, uma Guerra Mundial das Vacinas.

Oswaldo Cruz

A disputa de âmbito nacional torna-se uma questão política, talvez uma Batalha das vacinas. E o célebre Oswaldo Cruz, herói brasileiro na campanha de 1904, que dá nome à FioCruz, sede brasileira da AstraZeneca/Oxford e um dos dois maiores centros de pesquisa sobre Covid no país, amargaria ver tanta disputa, tanta ganância e tanta política, e, entrando em campo pela linha de fundo, os velhos antivacinas – e não mais os positivistas do início do século 20, mas os novos donos de outras bandeiras tão retrógradas quanto as deles.