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sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

PENSANDO A COPA

 


E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? E agora, José?” O belo poema do Drummond já serviu para perguntar tanta coisa, e simbolicamente em tantas ocasiões, que não seria agora que haveríamos de esquecê-lo. Perdemos a Copa do Catar, e agora, José? Que perda terrível, vimos homenzarrões chorarem como crianças. Afinal, eram jogos, por isso mesmo coisa que vem de brincar, jouer, em francês, to play, inglês, spiel, alemão (só em português se esqueceram desse duplo sentido). Pois perdemos a brincadeira, enorme brincadeira com que nos divertimos e penamos a cada quatro anos, o Brasil unido, ora sofrendo, ora em júbilo. Gols nossos ou dos outros repentinamente podem fazer desmoronar o céu que era de brigadeiro na festa da torcida.

Jasha Heifetz

E
ncontro algum paralelo em situações musicais. Aquele concurso, aquela competição, um desafio para o qual o músico se prepara para vencer, deve estar seguro de si, esquecer os outros. E não ficar nervoso. Mas, diga como? Quem, em um grande concurso ou uma copa, não treme? Ed Barker, meu professor, dizia que quem está preparado não fica nervoso, usa aquela adrenalina toda concentrando-a na música, mas isso é coisa de gênio. Outro gênio, outra ideia: Jasha Heifetz, dizia que todo mundo fica nervoso, e que ele também fica, até o momento...em que o arco começa a deslizar sobre as cordas do violino. Já os 22 em um campo de futebol entram superaquecidos, a mente concentrada na musculatura em ponto de bala, há as torcidas gritando a todos os pulmões, como se tudo convergisse para um só ponto naquele momento. A bola.


O
que não sabemos, contudo, é o que se passa dentro de cada um, a cada momento. Fazendo um paralelo com a música, assisti nos EUA a uma prova fechada para uma vaga muito concorrida. Entre os finalistas, dois excelentes músicos. Sabe-se lá o porquê, o favorito cometeu um erro besta, dali foi perdendo o rumo da difícil peça e, em menos de um minuto, parecia uma criança sem saber para onde ir. Robert, o prenome dele, lembrava o Leverhühn, músico-personagem do livro Dr. Faustus, de Thomas Mann, que havia feito um trato com o demônio para obter virtuosismo desmedido: “Destruído pelo extraordinário, seu gosto arruinado por qualquer coisa, ele no mínimo vai se deteriorar no desespero” (...) “O problema é como ele poderia se manter nos limites do possível”. É isso, tocando e jogando nos limites. A despeito das enormes diferenças, há pontos em que a música esbarra no esporte de maneira especial: ambos são atividades de performance, envolvem a mente em grau intenso e dela dependem, até fisicamente, para o controle de sua atividade. E há mais: a performance individual do jogador, ao receber um passe para chute em gol, a cobrança de um pênalti, um cara a cara sozinho com o goleiro, todas atividades solo – como na música - momentos em que tudo depende de um só, a pulsação cardíaca acelerada, a adrenalina nos píncaros. Porém, na música temos, como no teatro, a chamada ‘quarta parede’, através da qual o público vê e pelo outro lado o artista dele se esconde. O esporte tem o que se poderia chamar ‘parede descampada’: é preciso ser olhos e ouvidos, por todos os lados, pois se a bola está na frente o adversário pode vir pela lateral ou mesmo por trás. Sob tal ponto de vista, esses performers, jogadores e músicos, estão em universos diferentes, mas no aspecto individual têm muitas semelhanças.

Betabloqueador

S
e no passado do futebol havia o doping (diz-se dôpim), e como em todas as áreas os dirigentes até o administravam nos atletas, na música de concerto as drogas nunca “colaram”, ao menos sobre um palco: a loucura da música, no caso, é uma “alucinação lúcida”, por mais contraditório que possa parecer: no caso de um solista, é um concerto perdido. Contudo, vieram as modernidades: os betabloqueadores. Bloqueadores beta-adrenérgicos existem desde o final dos anos 1950 e causam, entre outras coisas, uma redução na frequência cardíaca. (Ou seja, a descarga de adrenalina, com o comprimido tomado um pouco antes do concerto, é reduzida, e com ela os batimentos são desacelerados). Maravilha? Como assim, que maravilha é essa? É que é exatamente a adrenalina, com outros hormônios naturais, que levam o músico ao pleno estado de concentração para a perfeita execução artística. Pergunta-se: como fica a performance dos poucos usuários beta de hoje? Fria, seca, reta, nada mais. Pode estar correta, no tempo certo, mas é como querer enquadrar um belo óleo sobre tela com um vidro anti-ofuscante, para desespero dos apreciadores. Não funciona. Pode até ‘livrar a cara’ de um músico logo à vista do maestro – por isso é mais frequente seu consumo entre os sopros, bem ali à sua frente.


T
ratamos, até aqui, dessas similaridades dos performers do futebol e da música. Agora cuidemos, nós, derrotados, ao menos, do que antes era a paixão e a melancolia e hoje pode ser a ressaca dos gols que não fizemos, das passagens arriscadas feitas na euforia de um momento após uma espécie de exame cardíaco de esteira tomado “na marra”. Espero que todos possamos tirar lições desses poucos jogos de que participamos, mas lembremos que o futebol não termina em Copa. Nem os melhores concertos no Carnegie Hall de NY. A música e o futebol estão aí o ano inteiro para preencher nossas vidas de satisfação, nossas mentes de bons pensares e nossos corações dos melhores sentimentos.

 

sábado, 19 de agosto de 2017

HERÓIS SEM NENHUM CARÁTER


Calabar
Domingos Fernandes Calabar (1609-1635), nascido na hoje alagoana Porto Calvo, talvez tenha sido o maior traidor, o popular ‘traíra’, da história do Brasil. Era dono de um engenho em Pernambuco, então nome da Capitania, enorme gleba que açambarcava algo como cinco estados do Nordeste brasileiro. Quando os holandeses invadiram o Brasil, Calabar tornou-se o que seria um ‘quinta-coluna’, para usar uma expressão surgida três séculos depois, na guerra civil espanhola: um escarrado traidor da pátria. Como brasileiro, Calabar deveria ter defendido a matriz, mas virou a casaca e aliou-se aos holandeses, colaborando com os invasores da pátria (pessoalmente, não sei se a expulsão daquela gente da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais foi a melhor opção).

Calabar, a peça
Pelas histórias já folclóricas ao redor de seu nome, o personagem foi tema de uma peça musical de Chico Buarque e Ruy Guerra: Calabar, o Elogio da Traição (1973). O texto quase conseguiu escapar da implacável caneta do ministro Armando Falcão. Quase, a peça terminou censurada. Chico e Ruy Guerra, com essas dissimulações, burlaram a censura algumas vezes, fazendo, por alegorias e fantasias, crítica velada aos tempos da ditadura. A peça mostrava um apanhado de boas músicas e letras, como Cala a Boca, Bárbara: “Ele sabe dos caminhos dessa minha terra / no meu corpo se escondeu / minhas matas percorreu / os meus rios, os meus braços / Ele é o meu guerreiro / nos colchões de terra / nas bandeiras, bons lençóis / nas trincheiras, quantos ais, ai...”

Joaquim Silvério
Joaquim Silvério dos Reis (1756-1819), quase dois séculos após Calabar, foi outro grande traidor da história do país. Por encontrar-se com as finanças combalidas pelos impostos extorsivos da Coroa Portuguesa, Silvério foi convidado e bandeou-se para o lado dos inconfidentes mineiros, na esperança de que o sucesso da empreitada o livrasse da quebradeira em suas finanças mordidas pelas pesadas taxas da Matriz. Porém, seduzido pela possibilidade de Portugal perdoar suas dívidas e dar-lhe um bom carguinho no governo, transformou-se em delator de seus amigos inconfidentes.

6400 réis
Não se sabe o que levou em troca, mas passou quase um ano preso na Ilha das Cobras, para seu desgosto. Depois desse episódio, o máximo que conseguiu foi uma pensão vitalícia de 200 mil réis que o deixou com sustento para amargar seu papel de delator e traidor dos ideais do povo, pecha que ninguém gostaria de levar em vida por trinta anos, e que perdura até hoje, mesmo após sua morte. (Os duzentos mil réis não deviam ser lá muita coisa, já que havia moedas de 4.000 na época).

Joesley Batista (Estadão)
Do latim delatio, onis, denúncia, a delação premiada de hoje é uma espécie de toma lá dá cá amparada por lei trocada entre o réu e a Justiça, em colaboração que pode render ao primeiro penas mais suaves e privilégios. Pode haver redução de um a dois terços de prisão ao delator, fora algumas benesses que escapam aos prisioneiros comuns. Tudo isso está no Código Penal Brasileiro, disciplinado por lei de 1999. Assim, o traidor da bandidagem, bandido que também é, delata tudo, no gozo do guarda-chuva da Justiça: o que aconteceu e até o que possivelmente nunca acontecera. Pior: perante muitos cidadãos comuns, chega até a ser admirado, por entregar notórios políticos de reputação pouco ilibada, ou, como se diz no popular, “de família quase boa”.

Ilustração para o Dr. Faustus de Marlowe (+  1564)
Pior de tudo, parece que o delator passa a sentir alguma espécie de prazer, uma sensação fálica, uma certa libido trazida por vaidade, uma ‘energia vital’, um psicanalista freudiano talvez conclua assim. Delatar mais e mais, até o que não houve, a Justiça que se vire para provar sua ilação, pois a fome e sede do delator com o tempo parece não terem mais limites. Tal qual o personagem do Dr. Faustus, de Thomas Mann, que entregou sua alma ao diabo em troca de poderes desmedidos como músico: “Destruído pelo extraordinário, seu gosto arruinado para qualquer outra coisa, ele vai no mínimo deteriorar-se no desespero de executar o impossível”. É também uma versão pós-moderna do “seja marginal, seja herói” (1968), do revolucionário artista Hélio Oiticica. O delator deve sentir-se como o próprio Dimas, santo católico, o “bom ladrão”, crucificado ao lado do Senhor, que Dele ouviu (Lucas, 23:38): “em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso”.

Grande Otelo como Macunaíma
‘Herói sem nenhum caráter’ é descrição do personagem Macunaíma, um romance (1928) de Mário de Andrade, navegando ainda nas águas da Semana de Arte Moderna de 1922. O nosso herói é indígena, e com Mário faz chacota do povo brasileiro, repetindo aqui e ali a frase “ai, que preguiça”, entre cenas surreais e anedóticas. Macunaíma fica possesso quando sua pedra da sorte, um muiraquitã, é roubada por um comerciante peruano, o gigante Piamã. O herói arrasta seus irmãos em busca do resgate do talismã, mesmo sabendo que o gigante inimigo era antropófago.

Nascimento de Macunaíma, segundo José Celso Martinez
Voltado à cultura indígena, e na contramão do romantismo literário pré-1922, Macunaíma é o próprio anti-herói, um escracho. Tornou-se um ícone de tanta importância para a cultura brasileira que o cineasta Joaquim Pedro de Andrade fez de Macunaíma um dos melhores filmes do nosso cinema (1969), com Grande Otelo no papel do ‘herói’. Macunaíma nasce – ou melhor, é parido – tendo sua mãe de cócoras, costume indígena que facilita o parto. Na verdade, Grande Otelo cai do útero de sua mamãe de cabeça no chão, em uma cena das mais hilárias do nosso cinema.


Todos os traidores são heróis “sem nenhum caráter”, mas Macunaíma foi apenas um simpático preguiçoso, nada mais.