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sexta-feira, 17 de abril de 2020

O CORONEL, O PESCADOR E O RETIRANTE


Uma trilogia de lutas solitárias

Gabriel García Márquez nasceu em Aracataca, Colômbia, em 1927, e radicou-se em Ciudad de Mexico, lá ficando até morrer, em 2014. Nobel de Literatura (1982) por sua obra - principalmente “Cem anos de solidão”, ícone do “realismo mágico” -, influenciou gerações. Fortemente apegado à sua Colômbia natal, carregava o trauma do período chamado La violencia, uma década que lembra outros países da América Latina: censura, estado de exceção, perseguições e um saldo de mortos estimado em até 200 mil.
La violencia: um rescaldo de 1948

Durante os anos em Paris, no Hotel Trois Colleges, Márquez escreveu uma novela, sem o mesmo sucesso de “Cem anos”(escrito onze anos depois), mas de grande importância: “Ninguém escreve ao coronel” (El coronel no tiene quien lo escriba, de 1961). Ele conta a história de um militar reformado que aguardava, passados quinze anos, a carta oficial que lhe daria a sonhada pensão militar. O coronel vivia com a esposa asmática (“também no amor alguma coisa teria envelhecido”, constatou) uma vida difícil, de fome, isolado pelo toque de recolher de sua pequena cidade. Morria-se apenas de “morte matada”, como se diz aqui, até que um músico da cidade faleceu de causa natural, um acontecimento! (Senão por causa do músico, pela efeméride do óbito). O coronel se aprumava, então, para ir ao enterro, a primeira “morte morrida” da vila em anos, e assim dá o tom à novela.
Esperando Godot, de Samuel Becket
Como em “Cem anos de solidão”, as palavras soledad e solitud parecem ser o pano de fundo para Márquez desenvolver seu texto, envolto em angústias e mistérios (importante: “Coronel” não se encaixa no rótulo “realismo mágico”). Os nomes de eventuais personagens não aparecem, o foco é centrado no coronel, isolando-o. No afã de ganhar dinheiro, passaram até fome para engordar um galo de rinha do filho morto recentemente. Em vão também a herança do filho, a que tinha direito – e que, ao par de sua pensão, nunca chegava, como o Godot de Becket. Em suas memórias, Márquez confessa que pensara em seu avô Nicolás, que nunca recebera um peso sequer depois de reformado.
Hemingway, seu hobby e tema
De Cuba (1951), país que adotara para viver entre o rum, a pesca e a literatura, o norte-americano Ernest Hemingway (1899-1961) escreveu “O velho e o mar” (The old man and the sea), uma de suas mais importantes novelas. Prêmio Nobel (1954) como Márquez, neste livro Hemingway consegue penetrar a mente solitária de Santiago, velho pescador, narrando uma luta de vida ou morte, centímetro por centímetro de linha, gota por gota de suor, uma vara de pesca contra um imenso marlin, o maior peixe-espada de sua vida. Dias se passaram e Santiago já delirava, disputando um “cabo de guerra” com o indomável peixe, às vezes vendo-o até como amigo, que de tão especial talvez nunca poderia ser servido à mesa. O que lhe importava era aquela luta, duelo de Titãs.
Usando um arpão, Salvador fisgou a presa, que afinal seguiu rebocada pelo barco. Com suas últimas forças, levava o peixe rumo à praia, depois de ter-se arriscado, para a conquista, na perigosa corrente do Golfo, não longe da Flórida. Enquanto retornava, inevitável que o sangue do peixe, tingindo de rubro o mar, se tornasse um chamariz infalível para tubarões. Já sem o arpão, Salvador mata um deles com uma lança improvisada, um olho naquele peixe amarrado no barco, quase seu cúmplice. Com um facão, conseguiu afastar outros tubarões, mas chegando ao seu destino o que restara do peixe era uma carcaça e um esqueleto de incríveis 5,5m, para espanto da comunidade e pavor dos turistas. Uma luta solitária, que deixou marcas e cicatrizes profundas nas mãos e no corpo de Salvador, além de gravada na mente a disputa, um animal contra outro.
Completa esta trilogia sobre a luta solitária o pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999), predileto de muitos. Versos bordados com maestria ímpar, riqueza de palavras, o frasear, o ritmo e a sofisticação transbordam em versos que soam simples, mas são contraditoriamente bastante complexos e plenos de rico conteúdo após uma leitura atenta. Assim é “Morte e vida Severina” (1955), de contornos regionalistas, amarga descrição da odisseia de um retirante nordestino. (Sua crítica social lhe valeu a pecha de comunista).
Retirantes, por Portinari
O drama de Severino era aquele do migrante do sertão, e tem início com ele, sertanejo, a se apresentar: “O meu nome é Severino / (...) / Como há muitos Severinos / (...) deram então de me chamar / Severino da Maria. / Como há muitos Severinos / (...) fiquei sendo o da Maria / do finado Zacarias / (...) Como então dizer quem falo / (...) é o Severino / da Maria do Zacarias / lá da serra da Costela / limites da Paraíba”.
É dura a caminhada, os diálogos secos e curtos, sem dourar a sina (“fazendo dos dedos iscas / para pescar camarão”), tudo lembrando um cordel, em lamento: “nos intervalos de pedras / plantava palha”. Musicados por Chico Buarque, versos inteiros sobre uma tosca sepultura revelam-se pungentes - “Esta cova em que estás / com palmos medida”-, sempre com forte apelo social: “é a parte que te cabe neste latifúndio”.


O sertanejo vai trincando os solados dos pés descalços no caminho árido, em sua luta solitária contra a fome (e a morte que um dia virá, inexorável). Assim como os personagens desta trilogia, é preciso que empreendamos, nesses tempos, uma luta, 
mesmo que solitária.  Por um ideal, por dias melhores.




sábado, 13 de maio de 2017

DE ONDE VENS, Ó PALAVRA?


Um sujeito estrambótico que era estrelícia do Ivan fez um garabulho enorme com suas galimatias a apenas um estepe da rica Mascate. Ora, tudo isso pareceria muito complicado, a não ser que fosse escrito assim: um sujeito vesgo que era atirador do Czar fez uma bagunça enorme com suas conversas confusas a apenas um passo da rica capital de Omã. Seguindo: tudo por causa do meirinho de que era dono um pária que mascava porrada como se fosse um preito do pretor. Que, por sua vez, pode ser lido assim: tudo por causa de um sujeito da classe mais baixa da Índia que era dono do gado que no verão pasta nas montanhas e mascava erva para temperos como se fosse uma homenagem do comandante do exército.

Deonísio da Silva
Deixem-me explicar melhor essa estória surreal acima. É que estou me divertindo com o livro “de onde vêm as palavras – origens e curiosidades da língua portuguesa”, do amigo Deonísio da Silva (17ª edição, Rio de Janeiro. Lexicon: 2014). Catarinense que adotou o Rio, doutor em Letras pela USP, tem várias academias no currículo, 34 livros publicados, um programa apresentado pelo Ricardo Boechat em que ele fala da língua portuguesa na Rádio Bandnews FM 94,90 RJ, “Sem papas na língua”. Considerado um dos nomes mais respeitados em etimologia (origem e evolução das palavras) e filologia (estudo das sociedades e suas literaturas) do país, é um pesquisador incansável. (O blog do Deonísio pode ser lido em https://deonisio.blogspot.com.br/). Na brincadeira acima, inspirei-me em uma postagem dele.

Hemingway e um de seus merlins: um hobby, uma paixão
São quase quinhentas páginas de verbetes os mais diversos, incluindo um enorme número de palavras que falamos ou escrevemos no cotidiano sem pensar de onde vêm e os mistérios que há por trás delas. Quem gosta de entender nossa língua, lê ou escreve, vai achar o livro de grande utilidade. Pinço ao acaso uma palavra que todos conhecem e já devem ter usado: “anzol”, que teve origem no latim vulgar “amiciolus” diminutivo de “hamus”, gancho, podendo também designar a proteção do cabo da espada. “Anzol” se presta à descrição da luta individual travada entre o homem e o peixe, ao contrário da rede, que leva o homem a pescar no atacado (obs.: sobre a luta homem contra o peixe, é leitura obrigatória “O velho e o mar”, de Hemingway). “Como os primeiros discípulos fossem homens que viviam no mar, Jesus prometeu transformá-los em ‘pescadores de homens’”.

Este é um único exemplo “pescado” aleatoriamente (do grego “alea”, dado de jogo da sorte) entre incontáveis outros. Deonísio é um preciosista, desce aos mínimos detalhes e encontra variações na aplicação das palavras, não se limitando, no mais das vezes, a apenas um significado ou um uso em nossa rica língua portuguesa. As palavras podem formar um quadro que pode ser lindo de se ver, mas por trás dele há um universo de histórias e visões riquíssimas a serem descobertas. É preciso ousar conhecê-las, e fazer do aprendizado do dia a dia uma coisa prazerosa e desafiadora, porque nunca terá fim. E o livro do Deonísio pode ser lido saltando páginas, de trás para frente, várias por dia, ou – mais uma vez – aleatoriamente, fora consultas.

Se conhecer a etimologia das palavras é uma instrução e uma diversão, não quer dizer que devamos escrever sempre com as mais rebuscadas erudições. De vez em quando coloco em um texto meu uma palavra para ver o leitor se dar ao trabalho de ir ao dicionário, ao menos isso. (Meu pai contava que uma senhora disse que o livro dele era muito difícil – o que não era – e que ela teve de ler duas vezes. Ele: “mas eu escrevi mais de vinte!”) Adoro a simplicidade com que certos grandes autores usam as palavras, tecendo um jogo lindo e de grande sabedoria, como Drummond e Fernando Pessoa, d’além mar. Do primeiro, os versos de Para Sempre: “Fosse eu rei do mundo, / baixava uma lei:/ Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto de seu filho e ele, / velho embora, será pequenino / feito grão de milho”. Do Pessoa, acho geniais os versos de Liberdade: “Mais que isto / É Jesus Cristo, / Que não sabia nada de finanças / Nem consta que tivesse biblioteca”.

Estátua do Drummond, no Rio
Entre os nossos poetas, há lugar para o bardo Vinicius de Moraes – “Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure”, do Soneto da Separação. Vinicius é outro mestre da simplicidade (nas palavras), mas os versos são mais bordados em João Cabral, de Morte e Vida Severina: “E se somos Severinos / iguais em tudo na vida, / morremos de morte igual, mesma morte severina:  / (...) (de fraqueza e de doença / é que a morte severina / ataca em qualquer idade / até em gente não nascida”). Tem de ler e reler, compreender sem procurar um sentido de redação de escola. Melhor é sentir.


Região da enfiteuse, no Rio de Janeiro
O livro de Deonísio nos dá a dimensão mais profunda das palavras, desde as mais simples, como ‘outono’, até ‘laudêmio’, que tem origem no italiano e carrega em si a ‘enfiteuse’, que até hoje é cobrada no Rio pela orla do mar, e em Petrópolis, paga à Família Real! Fiquei tão indignado com essa cobrança feita na venda de um imóvel do espólio de meus pais que escrevi o artigo “Você sabe o que é enfiteuse, mas não sabe o que é extorsão?” (tem um link do lado direito, em cima), sobre o absurdo número de impostos pagos na venda de imóveis nas duas cidades (dizem que em Salvador é ainda pior). Na verdade, fiz uma brincadeira com o Mário de Andrade, em “Você sabe o francês ‘singe’ / Mas não sabe o que é guariba? / - Pois é macaco, seu mano / que só sabe o que é da estranja”. Obrigado, Deonísio, e salve a Língua Portuguesa!