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sexta-feira, 13 de maio de 2022

"CANCELAR" A ARTE RUSSA?

 

Países da antiga União Soviética

Assistimos à “operação militar especial” (sic) comandada pelo presidente Vladimir Putin na Ucrânia - país que, como tantos outros, fez parte da imensa União Soviética (1922 a 1991). Dois fatos fizeram da Ucrânia uma presa fácil para o expansionismo de Putin: primeiro, a revolução bolchevique iniciou-se na Rússia em 1917 e se alastrou sobre outros países; segundo, a mais recente independência e aliança de muitos países do bloco e ingresso na OTAN deixaram a Ucrânia hoje isolada. Mas não é da guerra, em si, que quero falar, o que foi publicado e dito na imprensa e nas TVs já basta, há muitas análises por grandes especialistas.

NYT

É natural a vitimização da Ucrânia, assim como a solidariedade de boa parte do mundo. Mas há um certo ódio, algumas vezes mais incisivo, outras latente, ao ‘povo invasor’, quando na verdade quem invade são Putin e suas armadas. Essa súbita rejeição a um povo na maior parte adverso ao massacre no país eslavo - 49%, segundo o censurado Novaya Gazeta - tem atingido às vezes com crueldade o que de mais precioso a Rússia deu para o mundo: sua arte, do teatro ao cinema e balé, da música à literatura. Quando se “cancela” uma obra, um autor, perde também quem for privado de parte do melhor da criação universal.

David Oistrach

É importante lembrar o que a Rússia nos deu de tão importante, sua monumental produção artística. Por cumplicidade, penso logo nos instrumentistas, como o gênio do violino David Oistrach (1908-1974), que nasceu em Odessa, hoje parte da Ucrânia e então do Império Russo (1721 a 1917). Ou mesmo Nathan Milstein (1904-1992), que tive o grato prazer de ouvir em recital (Sonatas e Partitas solo de Bach) em Boston, no final dos anos 1970. Milstein nasceu na mesma Odessa de Oistrach, enquanto o virtuose Jasha Heifetz (1901-1987) veio ao mundo em Vilnius, capital da Lituânia, também parte do Império Russo. O mestre Piotr Stolyarsky (1871-1944) nasceu em Lypovetz, do governo de Kyiv, hoje capital ucraniana. O mais recente Mstislav Rostropovich (1927-2007), violoncelista, nasceu em Baku, capital do Azerbaijão, república da União Soviética. O lendário pianista Vladimir Horowitz (1903-1989), sedutor de multidões cujo retorno ao Carnegie Hall teve imensas filas para ingresso - levando o povo a pensar que se tratava de um show dos Beatles -, é também natural de Kyiv, capital da Ucrânia. E a lista é interminável!

Rachmaninoff

Já os compositores russos são parte do que há de melhor na música de concerto mundial de dois séculos: Pyotr Tchaikovsky (1840-1893) nasceu na pequena Votkinsk, em Vyatka, Udmurtia, perto de Moscou, capital da Rússia. É autor, entre sinfonias e dois belos concertos para violino e piano, este último um dos mais populares, e hoje dá nome a uma das maiores competições para instrumentistas.  Modest Mussorgsky (1839-1881), autor da famosa Quadros em uma Exposição, que foi executada até em versão rock pelo grupo Emerson, Lake & Palmer, nasceu em Karevo, 400 km ao sul de São Petersburgo. Dmitri Shostakovich (1906-1975), talvez um dos maiores compositores do século 20, é peterburguês, logo russo. Sergei Rachmaninof (1873-1943), autor de algumas das mais difíceis peças para piano e repertório de dez entre dez virtuoses do instrumento, nasceu na Moldávia, hoje república que faz fronteira com a Ucrânia e a Romênia.

Dmitri Shostakovich

É o suficiente para vermos que boa parte dos grandes virtuoses ditos russos do violino, piano ou violoncelo não são nascidos na Rússia – curiosamente, são originários da hoje Ucrânia, enquanto os maiores compositores são nascidos na Rússia. Diz-se genericamente que todos são russos devido ao longevo Império (1721-1917) e à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (1922-1991), que não é sinônimo de Rúsia. É impossível generalizar uma vastidão territorial dividida, mantida sob força por duas vezes e hoje separada e independente. Uma comparação anedótica seria dizer que o uruguaio de Tacuarembó Carlos Gardel - antes tido como argentino -, seria brasileiro, pois seu país foi Província Cisplatina do Brasil Português.

Império Russo

No teatro e na literatura, Anton Chekhov (1960-1904) é autor de Tio Vânia, O Jardim das Cerejeiras e diversas belas peças. Grande contista e dramaturgo, Chekhov veio à luz em Tagenrog, cidade portuária ao sul de Moscou, Rússia, enquanto Fyodor Dostoevsky (1821-1881), autor de Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov, era um autêntico moscovita. Lev Tolstoy (1828-1910), autor de uma obra-prima universal, Guerra e Paz, e a belíssima novela Anna Karennina, é filho da pátria Rússia. No cinema, Sergei Eisenstein (1898-1948), de Riga, capital da Letônia, é autor de filmes memoráveis, como Encouraçado Potemkim e o épico Alexander Nevsky.

Encouraçado Potemkim

No caso, esses artistas são considerados russos por terem nascido ainda no Império Russo ou na União Soviética, que congregava inúmeros países. Recentemente, com relativa frequência, surgiu um temeroso “cancelar” uma peça, um concerto, um balé russo. Nos dicionários, o mais próximo desse “cancelar”, pode ser lido como suspender, suprimir. “Cancelar” um artista é tão assustador que lembra Stalin e seu ministro da propaganda Zhdanov mandando apagar pessoas expurgadas do poder ou desaparecidas, vivas ou mortas, nas fotografias. Mariupol, cobiçada pelo exército de Putin, chegou a se chamar Zhdanov por mais de 40 anos, em homenagem ao censor-mor. Que cheguem logo ao fim esta guerra e com ela essa censura artística enrustida. Há que se defender a vitória da Ucrânia sem que sejam perpetradas injustiças contra a arte universal de mais de um século e um povo amigo e carinhoso. 



 

sábado, 2 de dezembro de 2017

A MÚSICA PERSEGUIDA

Mstislav Rostropovich
Se no passado os músicos oficiais eram badalados e reverenciados pelos governantes, o mesmo não se pode dizer de outros tempos mais recentes. Após a revolução bolchevique de 1917, a União Soviética foi um dos responsáveis pelo êxodo de judeus para os EUA, país que os acolheu antes, durante e depois de duas guerras mundiais, colaborando para consolidar definitivamente a posição norte-americana, perfilada ao mais alto cenário da música de concerto internacional – acrescente-se aos inúmeros violinistas, Schönberg, compositor, Horowitz, virtuose do piano, 
Rostropovich, violoncelista, e muitos outros.
Igor Stravinsky
A lista de imigrantes, a incluir temporários e não-judeus, é enorme: passa também por compositores como Mahler, Strauss, Bártók, Dvorák, Toscanini, Stravinsky, Hindemith, Hovhanness... A maior parte, com certeza, dos grandes nomes do século 20. Rostropovich perdeu o visto de saída soviético em 1970, após ter escondido em sua casa o escritor dissidente Soljenítsin (O Arquipélago Gulag). Em 1974, por fortes influências políticas nos EUA, Slava, seu apelido, conseguiu visto permanente nos EUA e se fixou em Washington, DC, onde foi regente da National Symphony.  
Picasso: um retrato
Igor Stravinsky (1882-1971) nasceu filho de músicos em Oranienbaum, na Rússia. Em 1917, em plena revolução, foi para a Itália, onde conheceu o artista plástico espanhol Pablo Picasso. Naquele ano, tentou cruzar a fronteira levando consigo um retrato seu feito pelo grande pintor. Quando a polícia se deparou com o quadro, não aceitou a explicação de que se tratava de um retrato do próprio compositor: poderia ser um croqui ou estratégia de espionagem camuflada, obsessiva paranoia comunista e anticomunista daqueles tempos. De posse do quadro, Stravinsky pernoitou em Chiasso, mandando o retrato para a Embaixada Britânica em Roma, de onde um poderoso amigo, Lord Berners, remeteu a obra para Paris via mala diplomática, inviolável aos policiais curiosos e ignorantes. Uma vez recuperado o precioso quadro, Stravinsky adotou de vez o Ocidente, terminando por naturalizar-se norte-americano.
Horowitz: altíssima introspecção
Outro dos que se auto-exilaram nos EUA foi Vladimir Horowitz (1904-1989), nascido perto de Kiev, na Ucrânia. Considerado o maior gênio do Piano, era pessoal e insuperável a cada interpretação. Dizia que nunca tocava uma obra da mesma maneira duas vezes. Chegou a ser alvo do implacável crítico Virgil Thompson, que o considerava um distorcedor, deturpador de músi­cas. Ora, dane-se, deve ter pensado o mago do teclado. Talvez exatamente por sua personalidade ímpar, sua introspecção personalíssima ao tocar - pouco ao gosto dos que, como o ‘comissário do povo’ Jdanov, exigiam fidelidade ao chamado ‘realismo socialista oficial’ -, Horowitz foi perseguido.
Nicolau II e família (assassinados pelos bolcheviques)
Ainda jovem, chegou a ver seu piano atirado de uma janela durante a invasão de Kiev pelos bolcheviques, em 1918. Mas enganam-se os que pensam que antes da revolução de 1917 a vida era um chão de estrelas para os músicos: o Czar Nicolau II soltava contra eles a tropa de choque do poder, querendo forçar os compositores a escreverem peças pueris e insossas, ao seu próprio gosto.
Horowitz: Carnegie Hall em êxtase
Apesar de virtuoso incontestável, Horowitz somente alcançou glória, como tantos outros, depois de mudar-se para Nova Iorque, em 1928, já que se casara com Wanda, filha do mito Arturo Toscanini (o grande maestro tornou-se uma espécie de protetor do pianista). A carreira de Horowitz como concertista nos EUA foi tão fulgurante que talvez nenhum pianista tenha conhecido tamanha glória. Em 1965, sabendo das enormes filas de pessoas que se digladiavam para comprar ingressos para um recital no Carnegie Hall, uma multidão de curiosos aglomerou-se, e, com tanta gente na rua, correra o boato de que se tratava de um show dos Beatles.
Família Toscanini: Jazigo
Em 1986, Horowitz voltou à Rússia, mãe ingrata. Apresentou-se diversas vezes, teve seu talento finalmente reconhecido, e terminou endeusado. Mas não foi um retorno definitivo: conforme seu desejo expresso, quis o destino que ele se juntasse à família Toscanini, em Milão, onde passou a repousar para sempre ao lado da esposa e filha do maestro - amada cuja morte havia sido responsável pelo único período improdutivo e silencioso da vida do pianista, mercê do infortúnio que quase o levara à loucura.
As perseguições contra a música e os músicos, em sua quase totalidade, sempre foram políticas. No Brasil, os censores enxergavam “subversão” em tudo, sob a falsa bandeira do perigo comunista, coisa que via nos inofensivos Chico Buarque e Vandré e tantas outras ‘potenciais ameaças’. Eu mesmo, antes de um simples festival estudantil (de 2º grau!) de colégios, sofri um veto por causa de uma frase, uma simples frase: “um grito vivo de verdade”. O que viram naquelas cinco palavras, não sei. Porém, corriam perigo apenas as letras das músicas, pois de estética os ‘nossos’ censores não entendiam lhufas.

Bolcheviques
Outras ameaças atacaram impiedosamente a estética, principalmente a do regime soviético, caindo sobre a chamada música clássica, isso para não falar de outras formas de arte, como a pintura e a literatura. (Lembra “eles não falam do mar e dos peixes / nem deixam ver a moça, pura canção / nem ver nascer a flor...” do Milton). Era o chamado realismo socialista – não falo dos social-democratas que hoje carregam o rótulo de socialistas e comunistas no peito. Rezavam que a arte deveria apenas retratar a crítica social (aos capitalistas, claro) e enaltecer a perfeição do então ‘novo’ regime. E isso se espalhou como prática até nas células dos PCs do mundo inteiro. Mas nós, músicos, sobrevivemos a tudo isso, e prosseguiremos!