LIVROS

LIVROS
CLIQUE SOBRE UMA DAS IMAGENS ACIMA PARA ADQUIRIR O DICIONÁRIO DIRETAMENTE DA EDITORA. AVALIAÇÃO GOOGLE BOOKS: *****
Mostrando postagens com marcador Morte e Vida. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Morte e Vida. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

RICHARLISON, NOMES E SOBRENOMES


A
República Sérvia é um país recentemente consolidado na Europa. Um acordo assinado em nov/1995 entre os EUA e Milosevic’, ratificado em Paris em dez/1995, previa a manutenção da Bósnia-Herzegovina como Estado muçulmano-croata, com 51% do território, e outro, Bósnia-Sérvia, com os demais 49%. Impedido de se candidatar, em 1997, Milosevic’ lança e elege Milutinovic’ presidente da Sérvia. O centro passa a ser Belgrado, em plena região balcânica, antiga capital da Iugoslávia. É um país que foi atolado por guerras e agora é cercado por nada menos do que oito nações: Albânia, Bósnia-Herzegovina, Bulgária, Croácia, Hungria, Macedônia do Norte, Montenegro e Romênia. Milosevic’ também invadiu Kosovo (1998), contra o KLA (Exército de Libertação de Kosovo).

Fu Hsi

E
ssas divisões surgiram de conflitos sob a intervenção dos EUA com um só pano de fundo: o óleo - ouro negro! -, o petróleo. Os violentos combates na região sudeste levaram o nome de Guerra dos Bálcãs. (Fonte: COGGIOLA, Osvaldo. “Imperialismo e Guerra na Iugoslávia – Radiografia do conflito nos Bálcãs”. SP: Ed. Xamã, 1999). Numa profusão de idiomas, dialetos, raças e culturas, a Sérvia herdou da Iugoslávia, ouro nas olimpíadas de 1960, campeão mundial Sub-20 de 1987 e diversas semifinais em Copas do Mundo, o tino pelo bom futebol. Entre os escalados para 2022, Mitrovic’, Mladenovic’, Pavlovic’, Erakovic’, Milenkovic’, Zovkovic’. (A essa altura, o leitor deve estar pensando no porquê de quase todos os nomes terminarem com vic’ - com um acento agudo no c’, em sérvio-latino. A pronúncia é bem próxima à do russo vich”, significando “filho de”: Rostropovich, Maierovich, Ivanovich. Bem lá atrás, os hebreus (Livro dos Números, 4º livro do Torá) usavam indicação própria de filiação, uma vez que ainda não haviam sido criados os sobrenomes:  De Rubem, Elisur, filho de Sedem. (Os sobrenomes vieram com Fu Hsi, Imperador chinês, em 2.850 a.C., que determinou que os nomes completos deveriam conter um apelido de geração, um prenome e o nome de família extraído do poema “Po-Chia-Hsing”). Na Escócia, do gaélico, usa-se Mac antes do nome familiar, origem de MacDonald e MacCartney. Em inglês, é comum o patronímico “son”: George Harrison, Jim Morrison, filhos de Harris e Morris, que se tornaram sobrenomes.

Mikhail Barishnikov

O
nosso Richarlison – cujo son no nome é só charme de batismo -, artilheiro da partida da Seleção Brasileira contra a Sérvia, no dia 24/11, trouxe um conceito de atleta exemplar. Além de salto e bicicleta dignos de um grand jeté do bailarino russo Mikhail Barishnikov, cena já perenizada, marcou outra diferença. Houve destaque ao gol esplendoroso, mas o inglês The Guardian optou pela chamada: “Richarlison é louvado como ‘o ídolo que os brasileiros merecem’, depois da era Bolsonaro” (25/11). E mais:
"Artilheiro contra a Sérvia na Copa do Mundo está sendo celebrado como muito mais do que um herói do esporte". Até os britânicos viram um diferencial naquele jogador despojado, camarada, tímido, até, que traz, além de suas obras assistenciais, uma faceta ausente em nossos atletas milhardários. Adepto de rápidos discursos e falas, low profile, simples, ele passa o recado: "É um direito básico ter comida na mesa, saúde, educação e moradia. Eu me posiciono e mostro a minha indignação pelo mínimo de dignidade e igualdade para todos os brasileiros que não tiveram a mesma sorte que eu". Bastou para ofuscar um colega adepto da ostentação, que amargou 11 minutos em jogo com o tornozelo lesionado - apesar de comprometido fisicamente não quis se desfazer de seu brilho, sua realeza.


C
laro, falo do Neymar. Enquanto Richarlison o abraçava fortemente, os braços do mogiano se largavam, inertes, numa falta de retribuição que doeria até coração de criança. Quantas vezes não presenciei isso em minha vida? Um músico por perder uma vaga que lhe era tida como certa, um tombo para quem se acha um eterno vencedor? O futebol é um jogo de equipe, e como toda prática coletiva não deve nem pode ser uma briga de foice. (Ninguém quer desprezar a enorme contribuição de Neymar, um gênio, ao nosso futebol. Nem condenar sua opção como eleitor, isso faz parte da democracia). E o que mais impressiona em Richarlison é sua fala, a solidariedade aos que foram seus companheiros desde Nova Venécia, cidade capixaba de 50 mil habitantes: todos seus irmãos de coração, palavras que torna extensivas ao povo brasileiro.


V
oltando aos sobrenomes, à fala de Richarlison, que por acaso tem de família de Andrade, lembrando os milhões de pobres do país, como o deserdado de João Cabral, em seu personagem Severino, sem sobrenome, mal uma origem: “O meu nome é Severino, não tenho outro de pia. (...) Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar Severino de Maria; como há muitos Severinos com mães chamadas Maria, fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias. Mas isso ainda diz pouco: há muitos na freguesia, por causa de um coronel que se chamou Zacarias e que foi o mais antigo senhor desta sesmaria. Como então dizer quem falo ora a Vossas Senhorias? Vejamos: é o Severino da Maria do Zacarias, lá da serra da Costela, limites da Paraíba”. “Mas isso ainda diz pouco: se ao menos mais cinco havia com nome de Severino, filhos de tantas Marias mulheres de outros tantos, já finados, Zacarias, vivendo na mesma serra magra e ossuda em que eu vivia”.


Richarlison Maravilha, nós gostamos de você / Richarlison Maravilha, faz mais um gol pra gente ver!



sábado, 11 de setembro de 2021

INÚTIL PAISAGEM


Mas pra quê / pra que tanto céu / pra que tanto mar / pra quê / De que serve esta onda que quebra / e o vento da tarde / de que serve a tarde / inútil paisagem”. Ao lembrar esta obra-prima de Jobim e Aloísio de Oliveira (1964, pleno golpe), pensei como eles: pra que tanta formosura, tanta exuberância e perfeição? Falo do Rio de Janeiro, de sua natureza, do colar de espuma adornando o decote das praias. Penso em tudo de magnífico que o universo, guiado pela mão divina, lá deu de construir; mas penso também em conflitos, milícias, maracutaias, rachadinhas, crimes, mortes ‘morridas e matadas’. (E quando falo ‘mortes morridas’ – penso no Severino de “Morte e Vida”, do poeta João Cabral: a dos que foram chamados ao soar do pêndulo do relógio da vida, um badalo aguardado ou repentino: é a sedução mortal do porvir, o fado). Penso também nos óbitos que poderiam ter sido evitados. Mas por que o Rio, perguntariam? 80% das novas infecções por Covid-19 na cidade são da variante Delta, a mais silente de todas, com duas vezes mais contágios e internações (G1, 27/08) - medusa de tentáculos invisíveis.


Pode ser / que não venhas mais / que não voltes nunca mais / De que servem as flores que nascem / pelos caminhos / se o meu caminho / sozinho é nada”. Nosso subconsciente, sem querer (querendo?), associa música e poesia a fatos cotidianos. Sejam as que vêm convidando à reflexão, como “Inútil paisagem”, ou as que nos assediam do nada, caindo-nos tal qual um insight: clareza súbita, luz que se projeta à nossa frente. Penso na associação que me veio ao pensamento, a infinita beleza da paisagem carioca em contraste com o mal que assola a cidade, elo que me ocorreu após ter lido notícias sobre a Delta à noite ao acordar com o sopro do dia, o lume da manhã trazendo-me afago em versos de graça intensa. Mas...


Pensem nas crianças / mudas telepáticas / pensem nas meninas / cegas inexatas / Pensem nas mulheres rotas alteradas / pensem nas feridas / como rosas cálidas”, poesia de corte profundo que convoca à reflexão pela caligrafia desenhada de Vinicius de Morais, em “Rosa de Hiroshima” (1954), tal como depois faria o compositor Krzysztof Penderecki em sua “Trenodia para as Vítimas de Hiroshima” (1960). Penso no padroeiro do Rio, São Sebastião, nos lindos versos a ele dedicados por Gil e Milton: “Sebastian, Sebastião / diante de tua imagem / tão castigada e tão bela / penso na tua cidade / peço que ores por ela”. A oração de Gil, devoto dos ritos católicos e afro-brasileiros no mais puro sincretismo baiano, vem somar-se às nossas preces. Em pleno ressurgimento da pandemia em sua versão mais multiplicadora, o carioca se rende aos luaus, pagodões, bailes funk e grandes aglomerações em praias e bares, amargo convite extensivo à Alfa, Beta e Gama - e também à Delta, o vírus já ameaçando soletrar todo o alfabeto grego.


São Paulo
, terra da garoa e da pujança, dos arranha-céus, celeiro do capital que é pilar da economia brasileira, vem tendo algumas ações e resultados positivos, no contexto geral do país, com redução de infecções e mortes. Porém, da primeira vítima da Delta reverberou o temor da contabilidade negativa, aquela progressão geométrica que tanto nos assusta. Em ano pré-eleitoral, há dificuldade de agir mais incisivamente para acossar a nova cepa como se fosse um exército inimigo. Parece que aguardamos o momento de assistir ao avanço de uma enorme onda a cobrir ruas e prédios, “ver emergir o monstro da lagoa” (como disse o Chico). Ou não, “quem sabe faz a hora”, do menestrel Vandré? O “Trem das onze”, a Paulista, a música caipira que ainda resiste aos modismos do liquidificador da TV, a cidade que de noite se ronda à procura de um amor pode sofrer como o Sebastião do Rio: “cada parte do teu corpo / cada flecha envenenada”.




A Delta
já atinge São Paulo e bate forte no Rio, sempre refém do que há de pior, e que torna inútil qualquer paisagem. Há uma ventania de centro-noroeste, cruzando o país com suas cornucópias subterrâneas de verbas, dutos com ida e volta, pessoas sem cargos intermediando negócios com vacinas e até um motoboy a fazer vaivéns de 117 milhões em dois anos. Uma expectativa geral advinda do cataclisma anunciado, “que ao findar vai dar em nada / nada, nada, nada, nada...”, palavras do Gil em “Se eu quiser falar com Deus”. Corre um rio de ações daqui e dali no STF, pautado pela Constituição e com a cautela que o momento demanda. E eis que até mesmo a Anvisa suspendeu o uso da proxalutamida, um bloqueador hormonal que vinha sendo alardeado pelo executivo como novo “tratamento preventivo”, mas cujos relatórios sobre testes em humanos reportadamente podem ter encoberto mortes (BBC News, 20/07). Há uma CPI que tropeça nos meandros políticos, barganhas e trocas de apoios, manobras de plenário, mas que ao menos vem expondo feridas, como as de Sebastião: “cada parte do teu corpo / cada flecha envenenada”. O mártir foi amarrado a um tronco e sacrificado pelas setas das milícias de Diocleciano, imperador de Roma.


De que serve
, então, esta paisagem, se nos é inútil? Ela sobreviverá em plena formosura após cessadas as intempéries que nos assolam! Há boas expectativas, mas por ora há um véu negro a encobri-las - talvez como em “A perdida esperança” do Vinicius: “permanecerei imutável e austero / certo de que, de amor, sei o que ninguém soube / Como uma estátua prisioneira de um castelo / a mirar sempre além do tempo que lhe coube”.

E assim venceremos.



 


sexta-feira, 8 de novembro de 2019

A ARTE POPULAR EM TRANSPOSIÇÃO ERUDITA

Tanguinho e maxixe
Troquei algumas ideias com minha filha Marta Autran acerca de sua tese de PHD, em vias de ser defendida em Londres, e fiz algumas reflexões além do tema, as sonatas para violoncelo de Camargo Guarnieri.  Mencionei-lhe o maxixe, o ponteio, as danças e até o tango brasileiro (tanguinho) de Ernesto Nazareth na música do tieteense, como fonte de inspiração ou influência. (Na verdade, o tango brasileiro – ou tanguinho - nada ou quase nada tem a ver com o original argentino, título que veio na garupa do sucesso portenho: o “nosso” tango era uma mescla de maxixe, habanera e polca surgida no final do século 19).
Mário de Andrade
Mario de Andrade advogava uma “transposição erudita” da música popular à música de concerto. Mas de forma alguma disse que o compositor clássico deveria fazer “arranjos” de música popular. Falou em transpor a arte de raiz com elaborada erudição - no sentido de profundo saber e técnica apurada (nada contra o fazer música popular com a formação que bem se entender, seja sinfônica, coro ou quarteto).
Flávio Silva (foto Funarte)
Isso me lembrou uma breve e salutar divergência que tive com o pesquisador Flávio Silva (falecido em 8/10/2019) na Concerto, revista de circulação nacional, e faço-lhe aqui um mea culpa. Debitei apenas na conta do Rio de Janeiro a responsabilidade pela invenção do termo “música erudita”, quando da primeira turma de professores da área na Universidade do Brasil - forma de justificar a falta de diploma superior entre os musicistas ingressantes. Chancelaram-lhes o título de detentores de profunda “erudição”(fora da música popular), perfilando-os com os colegas de direito, por sua vez inspirados na beca, toga e capelo dos acadêmicos d’além-mar, os colegas de Coimbra.
Universidade do Brasil (hoje UFRJ)
Se conferi aos acadêmicos da Universidade do Brasil no Rio a origem do termo “música erudita”– que nem os cariocas usam mais, diz-se “música clássica” ou “música de concerto”, como fazia o maestro Eleazar -, por outro lado o saudoso Flávio Silva creditou a origem da expressão a São Paulo, com Mário de Andrade. Não me lembro de Andrade ter utilizado o termo completo – música erudita -, que, de passagem, sequer existe em outros idiomas. Tudo, caro Flávio, pode ter sido uma feliz divergência que nós, sobre a origem da expressão nesse semi-árido mundo da música de concerto, terminamos por convergir, em cumplicidade, entre Rio e São Paulo.
O jovem Camargo Guarnieri
A “transposição” a que se refere Mário de Andrade é a de Marlos Nobre, compositor pernambucano, como foram as de Guarnieri, Villa-Lobos, José Siqueira, Guerra-Peixe, e como faz o jovem conterrâneo petropolitano dele, o meu amigo Ernani Aguiar, entre diversos outros. Uma das sonatas de Guarnieri analisadas por minha filha data de 1931 e soaria contemporânea e ímpar nos dias de hoje. Não é mero acaso senti-la, nessa contemporaneidade quase precoce em relação ao presente, remetendo aos ponteios de viola e violão, às danças e maxixes. Afinal, até os 17 anos Guarnieri foi “pé-vermeio” menino do interior paulista que travou contato com gêneros e ritmos populares. Costume que cedo, inoculado na pele, é benigno e prazeroso, acompanha qualquer artista por toda a vida.
O Lavrador, de Portinari (1939)
Nas artes plásticas, remeto a Cândido Portinari (1903/1962), que nasceu em uma fazenda em Brodowski, São Paulo, e ainda jovem foi estudar na Escola de Belas Artes, do Rio. Esperto, chegou a pintar (de nariz torcido, claro) um óleo acadêmico só para ganhar medalha de ouro e uma estada de dois anos em Paris, período que lhe resultou fundamental na vida. Mas a ótica pessoal de Portinari era moderna, e seu coração brasileiro. Ele retratava o homem do campo, o sertanejo, o retirante, sempre com os olhos com que os via: os rostos carregados de sofrimento, os pés descalços inchados de tanto caminhar no barro seco e nas pedras – “nos intervalos de pedra plantava palha”, disse João Cabral em “Morte e Vida Severina”; as mãos, calejadas pelo peso da enxada, e dilatadas pela tinta carregada do artista. Penso que a “transposição erudita” de Portinari – das raízes profundas à sua visão técnica modernista - se dá por um virtuosismo pessoal, distante da academia, sofisticação que ele transforma dentro de si próprio, tal e qual Guarnieri.
João Cabral
Um pouco antes, neste texto, citei o premiadíssimo João Cabral de Melo Neto (1920-1999), um dos  nossos maiores poetas, ou o maior da língua portuguesa para muitos, como o festejado Mia Couto. Teve formação intelectual exemplar e grande erudição, lia e conhecia de tudo, foi diplomata de carreira. Mas entre a prosa escorreita do Itamaraty e a livre poesia ficou com a segunda, versos sofisticados que lembram um livro de cordel, e mesmo com frequentes rimas simples, pobres ou repetidas apegou-se à tecelagem barroca das palavras, rendendo-se ao surreal por vezes como Portinari no pincel, sem nunca se esquecer dos pés arraigados na terra brasileira.
Capa da primeira edição: como cordel
Vale ler com atenção: “Esse que andando planta / os rebolos de cana / nada é do Semeador / que se sonetizou. / É o seu menos um gesto / de amor que de comércio / e a cana, como a joga (N.do A.: pedra de rio), não planta: joga fora” (em “A cana dos outros”).  A armação intricada de palavras simples dentro de uma confecção muito elaborada, preciosista, vai compondo sobre um ritmo que o leitor precisa acompanhar, às vezes retrocedendo um verso para avançar dois no encadeamento do estilo do autor.
Bom nordestino, João Cabral transpõe à sofisticada poesia a aridez da caatinga, a fome, o desespero. Como em “Morte e Vida”, “fazendo dos dedos isca pra pescar camarão”). 
[homenagem a Flávio Silva]
Foto: Stock